Comércio

Déficit da balança comercial de automóveis dispara 835% com avanço dos carros chineses e queda das exportações

O déficit da balança comercial de automóveis do Brasil registrou forte deterioração em 2026, impulsionado pelo crescimento expressivo das importações de veículos, especialmente de origem chinesa, e pela redução das exportações para mercados tradicionais, como a Argentina.

Entre janeiro e setembro, o saldo negativo do setor alcançou US$ 5,53 bilhões, o pior resultado já registrado para os primeiros nove meses de um ano. O valor representa um aumento de 835% em comparação com o mesmo intervalo de 2025, quando o déficit havia ficado em US$ 591 milhões.

O cenário contrasta com o desempenho da balança comercial brasileira como um todo. No acumulado até setembro, o país registrou superávit de US$ 62,4 bilhões, favorecido principalmente pelas vendas externas de petróleo e soja.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o resultado negativo do setor automotivo reflete dois movimentos simultâneos: a entrada crescente de veículos estrangeiros e a perda de espaço dos automóveis brasileiros no mercado internacional.

Importação de veículos chineses atinge recorde no Brasil

As importações brasileiras de automóveis somaram US$ 9,42 bilhões entre janeiro e setembro, uma expansão de 76,7% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado representa um recorde para o intervalo.

A China se consolidou como principal fornecedora de veículos ao Brasil, com US$ 6,26 bilhões em vendas no período. O montante supera em mais de duas vezes os US$ 2,36 bilhões registrados nos primeiros nove meses de 2025. Em 2024, as compras brasileiras de automóveis chineses haviam alcançado US$ 2,86 bilhões.

A expansão é ainda mais expressiva quando comparada aos anos anteriores. Em 2023, as importações vindas da China totalizaram US$ 540,5 milhões, enquanto em 2022 ficaram em US$ 134,7 milhões.

Com isso, os veículos chineses responderam por 66,5% de todos os automóveis importados pelo Brasil entre janeiro e setembro. A Argentina apareceu na segunda posição, com participação de 11,3%.

A mudança representa uma transformação significativa no comércio automotivo brasileiro. Historicamente, os argentinos ocupavam a liderança entre os fornecedores estrangeiros de veículos para o mercado nacional.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a alteração ocorreu rapidamente nos últimos dois anos. Segundo ele, as restrições comerciais impostas à China por mercados importantes levaram o país asiático a intensificar sua presença em outros destinos, utilizando estratégias comerciais mais agressivas.

Exportações brasileiras de automóveis recuam 18%

Enquanto as importações avançam, as exportações brasileiras de veículos perderam força. De janeiro a setembro, as vendas externas recuaram 18% em relação ao mesmo período de 2025.

A redução está relacionada, principalmente, à desaceleração das compras argentinas. O país vizinho continua sendo o principal destino dos automóveis produzidos no Brasil, mas diminuiu significativamente o ritmo de aquisição.

Dados do governo argentino indicam que as importações de veículos brasileiros somaram US$ 2,14 bilhões nos nove primeiros meses de 2026, uma queda de 30% na comparação anual.

Apesar da retração, a Argentina ainda concentra 54,6% das exportações brasileiras de automóveis.

O avanço da China no mercado argentino também chama a atenção. As compras de veículos chineses pelo país alcançaram US$ 916,8 milhões entre janeiro e setembro, mais de três vezes os US$ 292,6 milhões registrados no mesmo intervalo de 2025.

A participação chinesa cresce em ritmo acelerado. No ano passado, para cada US$ 10 gastos pela Argentina na importação de carros brasileiros, aproximadamente US$ 1 era destinado a veículos chineses. Neste ano, a proporção passou para US$ 2 em automóveis chineses a cada US$ 10 em modelos brasileiros.

Argentina perde força como mercado para os carros brasileiros

O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, observa que a comparação com 2025 considera uma base especialmente elevada.

No ano passado, a Argentina conseguiu ampliar o acesso a moedas estrangeiras com apoio de organismos multilaterais e dos Estados Unidos. A melhora das condições econômicas abriu espaço para um aumento expressivo das importações, beneficiando a indústria automobilística brasileira.

Entre janeiro e setembro de 2025, as exportações brasileiras de automóveis para os argentinos haviam alcançado US$ 3,1 bilhões, mais que o dobro dos US$ 1,4 bilhão registrados no mesmo período de 2024.

Para Cagnin, aquele movimento representou uma oportunidade pontual, que perdeu intensidade em 2026. Em valores absolutos, a redução das vendas para a Argentina superou a queda das exportações brasileiras de automóveis considerando todos os destinos.

A concorrência chinesa também dificulta a estratégia de compensar a perda de participação na Argentina com o avanço em outros países sul-americanos.

China amplia presença nos mercados automotivos da América do Sul

O avanço das montadoras chinesas não está restrito ao Brasil e à Argentina. Outros mercados importantes da região também registram crescimento expressivo das compras de veículos produzidos no país asiático.

Dados do governo chinês mostram que as exportações de automóveis para a Colômbia passaram de US$ 415,3 milhões, entre janeiro e setembro de 2025, para US$ 1,5 bilhão no mesmo intervalo de 2026.

No Chile, as vendas avançaram de US$ 661 milhões para US$ 1,2 bilhão na comparação entre os mesmos períodos.

Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior, lembra que havia uma expectativa de que outros países da América do Sul compensassem a redução das compras argentinas. Entretanto, a presença crescente da China também nesses mercados diminuiu o espaço disponível para os fabricantes brasileiros.

Na avaliação de Rafael Cagnin, a expansão chinesa no comércio de produtos industrializados da América do Sul é uma tendência observada desde a crise financeira internacional de 2008 e 2009.

O economista também aponta que as barreiras comerciais adotadas pelos Estados Unidos e pela Europa estão provocando mudanças nos fluxos internacionais de mercadorias. As dificuldades competitivas enfrentadas por fabricantes europeus, especialmente alemães, favorecem o redirecionamento das exportações chinesas para mercados emergentes.

A América Latina representa uma oportunidade estratégica para Pequim devido ao tamanho da população, ao mercado consumidor e à forte dependência do transporte rodoviário.

Imposto de importação não impede avanço dos carros chineses

No mercado brasileiro, parte do crescimento das importações de veículos chineses ocorreu no primeiro semestre de 2026. Segundo Cagnin, houve antecipação de compras diante da previsão de aumento das tarifas de importação aplicadas aos carros eletrificados.

Em julho, as alíquotas chegaram a 35%, depois de períodos em que variavam entre 25% e 30%, conforme a tecnologia utilizada nos veículos.

A mudança tributária provocou desaceleração das importações chinesas em julho e agosto. Entretanto, em setembro, os desembarques voltaram a ganhar destaque.

Na avaliação do economista, o aumento dos impostos ajudou a moderar o crescimento, mas não foi suficiente para interromper a expansão das compras externas.

A consolidação da China como grande fornecedora mundial de veículos elétricos e híbridos, somada à aceitação dos consumidores, torna mais difícil reverter essa tendência.

Outro fator importante é a competitividade dos preços chineses. Dados do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), elaborado pelo FGV Ibre, mostram que os preços médios dos bens de consumo duráveis importados da China caíram 5,4% entre janeiro e setembro de 2026, na comparação com igual período do ano anterior.

Em contrapartida, os preços dos produtos importados da Argentina aumentaram 1,1%, enquanto os provenientes da União Europeia tiveram alta de 13,6%.

A diferença também aparece nos volumes. A quantidade importada de bens de consumo duráveis da China cresceu 123,3%. Já as compras dessa categoria com origem argentina recuaram 16,1%, enquanto as europeias diminuíram 2,2%.

Concorrência chinesa aumenta disputa por preços no mercado brasileiro

A entrada mais intensa de automóveis chineses também provocou mudanças no mercado interno. Para enfrentar a concorrência, fabricantes instalados no Brasil passaram a intensificar campanhas promocionais, descontos e condições comerciais mais competitivas.

Esse movimento também aparece nos indicadores de inflação. No IPCA-15, considerado a prévia da inflação oficial, os automóveis novos acumularam alta de 0,93% em 2026 até outubro. Já os veículos usados registraram deflação de 1,8%.

No mesmo intervalo, o índice geral do IPCA-15 apresentou elevação de 4,15%.

Para Rafael Cagnin, a dificuldade de competir com as montadoras chinesas atinge tanto as fabricantes instaladas no Brasil quanto suas matrizes em outros países.

O economista destaca que a China conquistou vantagem tecnológica na indústria automobilística mundial, especialmente no segmento de veículos elétricos. Essa transformação também influencia o mercado brasileiro e contribui para o desequilíbrio da balança comercial de automóveis.

Na avaliação dele, trata-se de uma mudança estrutural, com potencial para permanecer nos próximos anos.

Brasil pode atrair montadoras chinesas e ampliar produção de elétricos

Diante da expansão chinesa, especialistas avaliam que o Brasil precisa acompanhar as mudanças nas negociações comerciais internacionais.

Welber Barral cita como exemplo o entendimento divulgado pela União Europeia, segundo o qual a China aceitou limitar suas exportações projetadas de veículos híbridos para o mercado europeu durante os próximos quatro anos.

Para o ex-secretário de Comércio Exterior, o Brasil deve observar os desdobramentos desse acordo, já que eventuais restrições em mercados desenvolvidos podem direcionar ainda mais veículos chineses para economias emergentes.

Esse redirecionamento pode aumentar a concorrência com a indústria nacional, mas também abrir oportunidades de investimento.

Rafael Cagnin considera que uma das alternativas para o país é atrair fabricantes chineses interessados em instalar unidades de produção no território brasileiro.

O economista ressalta que o Brasil possui experiência e capacidade produtiva no setor de biocombustíveis, uma característica que não é plenamente aproveitada pelo modelo de veículos totalmente elétricos. Por isso, a estratégia precisa considerar as particularidades tecnológicas e industriais do país.

Além de fortalecer o mercado interno, a atração de investimentos poderia transformar o Brasil em uma plataforma de exportação de automóveis para outros países latino-americanos.

Outro argumento favorável é a possibilidade de reduzir a dependência de cadeias globais de produção muito extensas, especialmente em um cenário de conflitos geopolíticos, custos logísticos elevados e preocupações ambientais relacionadas às emissões de CO2.

Entretanto, o desafio será garantir condições competitivas para a produção local. Cagnin lembra que o Brasil já enfrentou dificuldades para manter montadoras que estavam instaladas no país, o que reforça a necessidade de uma estratégia industrial consistente.

O futuro da indústria automobilística brasileira dependerá, portanto, da capacidade de enfrentar a concorrência internacional, ampliar a competitividade e aproveitar as oportunidades de investimento abertas pela transformação tecnológica do setor.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Celso Doni/Valor

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