Indústria

Indústria automotiva chinesa enfrenta crise de excesso de produção enquanto avança no Brasil e no mercado global

A indústria automotiva chinesa vive um cenário de contrastes. Enquanto fabricantes do país ampliam sua presença em mercados internacionais, incluindo o Brasil, e conquistam espaço com veículos elétricos e híbridos competitivos, o mercado doméstico enfrenta uma crise marcada pelo excesso de capacidade produtiva, queda nas vendas e dificuldades financeiras de diversas montadoras.

A situação preocupa empresas tradicionais e novos fabricantes. Segundo o presidente de uma importante associação do setor automotivo chinês, a previsão é de que as vendas no mercado interno alcancem apenas 18,5 milhões de veículos ao longo do ano, o pior resultado desde 2014.

O cenário evidencia uma contradição: a China construiu uma das maiores e mais avançadas indústrias automobilísticas do mundo, mas agora precisa lidar com uma quantidade de fabricantes e fábricas muito superior à demanda interna.

Em julho, Mary Barra, presidente-executiva da General Motors, já havia chamado atenção para o problema. Durante uma conversa com analistas financeiros, a executiva afirmou que a quantidade excessiva de concorrentes deve provocar uma seleção natural entre as empresas, processo que considera necessário para garantir a sustentabilidade do setor no longo prazo.

Montadoras chinesas enfrentam queda nas vendas e excesso de capacidade

Um exemplo das dificuldades enfrentadas pelas fabricantes chinesas é a Skyworth Auto, que mantém uma estrutura de negócios ambiciosa, apesar dos resultados comerciais modestos.

Em uma concessionária da empresa na cidade de Nanjing, materiais institucionais apresentam os planos de expansão internacional, a trajetória do fundador e a presença da marca em 45 países.

Entretanto, os números de vendas no mercado doméstico estão muito distantes das expectativas. Entre janeiro e setembro, a Skyworth comercializou apenas 660 veículos na China.

Em 2021, a companhia havia anunciado que sua principal fábrica de automóveis elétricos teria capacidade para produzir 100 mil unidades por ano.

A situação ilustra um problema mais amplo. Até setembro, as vendas de automóveis de passeio na China haviam recuado aproximadamente 22% em comparação com os primeiros nove meses do ano anterior.

Mesmo diante da desaceleração, a consolidação do setor ainda avança lentamente. Muitas empresas continuam operando com dificuldades financeiras, enquanto governos locais resistem ao fechamento de fábricas que representam empregos, arrecadação e investimentos regionais.

Incentivos públicos impulsionaram a expansão da indústria automotiva chinesa

A atual estrutura do setor é resultado de décadas de investimentos e políticas de incentivo à produção automobilística.

A partir dos anos 1980, empresas estatais chinesas ampliaram suas operações principalmente por meio de parcerias com fabricantes estrangeiras. Já na década de 2010, o desenvolvimento dos carros elétricos passou a receber prioridade nacional.

Nesse período, diversas cidades chinesas investiram bilhões de dólares em fabricantes locais, com o objetivo de desenvolver polos industriais especializados em mobilidade elétrica.

O incentivo à criação de novas empresas e à expansão da capacidade produtiva provocou uma multiplicação de marcas. Segundo levantamento da consultoria AlixPartners, o número de fabricantes chinesas de veículos elétricos que comercializavam pelo menos um modelo chegou a 143 no fim de 2025.

O problema é que a demanda não acompanhou o mesmo ritmo de crescimento.

Em um país com população em declínio, transporte público consolidado nas grandes cidades e expansão dos serviços de robotáxis, especialistas não esperam que as vendas de automóveis particulares voltem a apresentar uma expansão prolongada nos mesmos níveis registrados anteriormente.

Apoio dos governos locais ajudou a salvar fabricantes de veículos elétricos

A participação do poder público foi decisiva para o crescimento de algumas das principais montadoras chinesas.

Um dos casos mais conhecidos envolve a NIO. No início de 2020, quando enfrentava dificuldades financeiras, a fabricante recebeu um aporte equivalente a quase US$ 700 milhões do governo da cidade de Hefei.

O investimento ajudou a empresa a superar a crise e transformou a NIO em uma das principais referências de um parque industrial dedicado aos veículos elétricos, planejado para gerar dezenas de milhares de empregos.

O desempenho inicial da companhia despertou o interesse de investidores internacionais. Em determinado momento, suas ações atingiram uma valorização que colocou a fabricante entre as montadoras mais valiosas do mundo, superando inclusive a General Motors em valor de mercado.

O caso estimulou outras administrações municipais a estabelecer parcerias semelhantes com empresas do setor.

De acordo com um estudo de pesquisadores da Universidade Nacional Australiana e da Universidade de Pequim, essa relação entre governos locais e fabricantes privadas contribuiu para consolidar um modelo de desenvolvimento baseado em incentivos regionais.

Entre os benefícios concedidos estavam:

  • Disponibilização de terrenos e fábricas por valores reduzidos;
  • Incentivos fiscais para aquisição de equipamentos;
  • Facilidade de acesso ao crédito bancário;
  • Apoio institucional e administrativo para instalação de unidades industriais.

A Xiaomi também exemplifica a velocidade desse processo. Com apoio das autoridades locais de Pequim, a fabricante de smartphones conseguiu construir uma fábrica de automóveis em aproximadamente três anos.

Inaugurada em 2024, a unidade utiliza tecnologias avançadas de produção, incluindo equipamentos de fundição sob pressão capazes de fabricar grandes componentes estruturais dos veículos.

Tecnologia chinesa avança, mas concorrência reduz a rentabilidade

A multiplicação de fabricantes e modelos contribuiu para acelerar o desenvolvimento tecnológico da indústria automotiva chinesa.

Empresas como CATL, BYD e Geely passaram a apresentar avanços importantes na tecnologia de baterias e no carregamento rápido de veículos elétricos.

A CATL, maior fabricante mundial de baterias, demonstrou uma tecnologia capaz de recarregar uma bateria automotiva em menos de dez minutos.

A BYD também avançou nesse segmento, enquanto a Geely divulgou uma solução que promete levar a bateria a quase sua capacidade máxima em menos de cinco minutos.

O desenvolvimento acelerado foi favorecido pelo crescimento do mercado interno. Em 2001, quando a China ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC), a aquisição de automóveis ainda estava concentrada em uma parcela restrita da população.

Na metade da década de 2010, entretanto, as vendas anuais já ultrapassavam 20 milhões de unidades, consolidando o país como o maior mercado automobilístico do planeta.

A transição energética também favoreceu as empresas que apostaram nos veículos eletrificados. Em setembro, aproximadamente dois terços dos automóveis novos comercializados na China eram totalmente elétricos ou híbridos plug-in.

Apesar dos avanços, o mercado interno perdeu força. Atualmente, a capacidade industrial chinesa supera amplamente a demanda dos consumidores.

Segundo a Mobility Global, as fábricas do país terão condições de produzir aproximadamente 63 milhões de veículos leves neste ano, volume mais de três vezes superior às compras previstas no mercado doméstico.

NIO, Xiaomi e outras fabricantes sentem os efeitos da crise

A desaceleração já aparece nos resultados financeiros de grandes empresas.

A NIO acumula prejuízos superiores a US$ 1 bilhão por ano desde 2021, enquanto suas ações perderam aproximadamente 95% do valor em relação ao pico histórico.

A BAIC Motor, fabricante controlada pelo governo de Pequim e parceira da Mercedes-Benz, também informou dificuldades financeiras provocadas pela concorrência intensa.

Até mesmo a Xiaomi, que chegou a registrar longas filas de espera para seus automóveis, enfrenta dificuldades para atingir suas metas comerciais.

Diante desse cenário, as montadoras chinesas encontram duas alternativas principais: reduzir os preços para disputar consumidores no mercado interno ou ampliar as exportações.

A primeira estratégia já provocou uma disputa intensa por preços.

De acordo com a AlixPartners, os valores dos veículos comercializados na China caíram quase 20% desde o início de 2023.

A pressão sobre as margens também aumentou. Nos primeiros oito meses deste ano, a rentabilidade do setor caiu para 3,6%, segundo a Associação Chinesa de Carros de Passeio.

Exportações chinesas avançam e pressionam montadoras tradicionais

Com a desaceleração do mercado doméstico, as exportações de veículos chineses ganharam ainda mais importância.

A expectativa do setor é que o país exporte 12 milhões de automóveis neste ano. No início da década, o volume anual estava próximo de 1 milhão de unidades.

Em 2023, a China ultrapassou o Japão e assumiu a posição de maior exportadora mundial de veículos.

Inicialmente, o avanço foi impulsionado pelas vendas para a Rússia, após a saída de diversas fabricantes ocidentais daquele mercado. Agora, a ofensiva comercial alcança países de diferentes níveis de renda, como Reino Unido, Alemanha, Singapura, México e Brasil.

A competitividade dos preços é um dos principais diferenciais das montadoras chinesas.

No Reino Unido, por exemplo, o sedã híbrido BYD Seal é comercializado por aproximadamente US$ 44 mil, valor mais de US$ 10 mil inferior ao de um Volkswagen Passat com equipamentos semelhantes.

A diferença de custos preocupa fabricantes europeias, que enfrentam dificuldades para competir com os preços praticados pelas empresas chinesas.

Em agosto, Oliver Blume, presidente-executivo da Volkswagen, reconheceu em uma comunicação interna que as estruturas de custos europeias dificultam a disputa com os valores oferecidos pelas concorrentes chinesas.

A pressão já provoca mudanças importantes no mercado europeu. O tradicional superávit comercial da Alemanha no setor automotivo em relação à China se transformou em déficit.

Volkswagen, BMW e Stellantis enfrentam pressão da concorrência chinesa

O avanço das fabricantes chinesas também tem provocado impactos nas estratégias de grandes grupos internacionais.

A Volkswagen, uma das montadoras mais expostas ao mercado chinês, iniciou um novo programa de reestruturação em menos de dois anos. O plano prevê a possibilidade de eliminar até 50 mil postos de trabalho.

A BMW anunciou cortes de aproximadamente 8 mil empregos após revisar suas expectativas de lucro, atribuindo parte das dificuldades à queda acelerada das vendas na China.

Já a Stellantis, proprietária de marcas como Chrysler, enfrenta perdas na Europa, em parte relacionadas à pressão competitiva das fabricantes chinesas.

Os Estados Unidos representam uma exceção nesse movimento. Tarifas comerciais e restrições relacionadas à tecnologia automotiva chinesa praticamente impediram a entrada direta dessas fabricantes no mercado norte-americano.

Com menor exposição à concorrência chinesa, empresas como General Motors e Ford ainda conseguem manter resultados financeiros relativamente sólidos.

Governo chinês enfrenta dificuldade para controlar a expansão industrial

A redução da capacidade produtiva representa um desafio político e econômico para Pequim.

Embora o governo central demonstre preocupação com a chamada concorrência irracional, as administrações locais têm poucos incentivos para interromper projetos industriais que geram empregos e receitas tributárias.

Segundo Tu Le, diretor-gerente da consultoria Sino Auto Insights, existe uma diferença entre os objetivos estabelecidos pelo governo central e os interesses das autoridades regionais.

Na prática, governos provinciais associam o desempenho de seus dirigentes à geração de empregos, arrecadação e desenvolvimento econômico. Por isso, muitos resistem a encerrar operações industriais, mesmo quando elas apresentam resultados comerciais insuficientes.

A situação ajuda a explicar por que empresas com vendas muito baixas continuam recebendo algum tipo de suporte público.

A Skyworth é um exemplo. A fabricante recebe apoio do governo local para manter suas atividades, apesar de comercializar menos de 100 veículos por mês.

Em duas concessionárias da marca visitadas em Nanjing, não havia veículos disponíveis, funcionários ou consumidores. Uma unidade anunciada no site da empresa em Xangai também já estava fechada.

Ainda assim, a companhia mantém anúncios de novos modelos e oportunidades de trabalho em pesquisa e desenvolvimento.

Segundo informações da plataforma empresarial chinesa Tianyancha, um governo distrital de Nanjing possui participação de 5% na fabricante de veículos de passeio da Skyworth.

Pequim tenta conter a guerra de preços sem interromper as exportações

O governo chinês começou a adotar medidas para reduzir os efeitos da concorrência excessiva.

Entre as iniciativas estão orientações para que as montadoras diminuam os cortes de preços e acelerem os pagamentos aos fornecedores.

Em agosto, também foi iniciada uma campanha de fiscalização da segurança automotiva. A preocupação é que a disputa por preços leve algumas empresas a reduzir padrões de qualidade para diminuir custos.

Ao mesmo tempo, o Ministério do Comércio da China contestou avaliações sobre o excesso de capacidade produtiva do setor.

O órgão argumenta que o crescimento das exportações é resultado da escala industrial do país e da procura internacional por tecnologias relacionadas à transição para uma economia de menor emissão de carbono.

A postura demonstra a dificuldade de equilibrar dois objetivos: preservar a competitividade internacional das montadoras chinesas e evitar que a disputa interna comprometa a sustentabilidade das empresas.

Fabricantes começam a buscar novos negócios além dos automóveis

A crise também está levando algumas empresas a reconsiderar seus modelos de negócio.

He Xiaopeng, fundador da XPeng e um dos pioneiros do mercado chinês de veículos elétricos, afirmou que produzir automóveis deixou de ser suficiente para garantir uma estratégia empresarial sustentável.

A companhia pretende ampliar sua atuação em áreas como robotáxis, robótica e desenvolvimento de software.

O movimento acompanha uma tendência observada também na Tesla, que vem atribuindo importância crescente aos robôs humanoides Optimus e aos serviços de transporte autônomo.

A XPeng, entretanto, continua enfrentando dificuldades financeiras, com prejuízos maiores neste ano após uma queda de dois dígitos nas vendas domésticas.

Outro sinal de que a consolidação do setor enfrenta obstáculos foi o abandono de planos de reestruturação envolvendo as estatais Dongfeng e Changan.

As duas fabricantes chegaram a anunciar iniciativas simultâneas de reorganização, alimentando especulações sobre uma possível fusão. Os projetos, porém, não avançaram, em meio à resistência relacionada à perda de protagonismo regional.

Excesso de fábricas também atinge montadoras estrangeiras na China

As dificuldades não estão restritas às fabricantes nacionais. Empresas estrangeiras que construíram grandes estruturas produtivas no país também precisam rever suas operações.

A Volkswagen, que durante décadas dominou o mercado chinês por meio de joint ventures com fabricantes estatais, já fechou três fábricas em parceria com suas associadas.

Com isso, sua capacidade produtiva no país foi reduzida de aproximadamente 5 milhões para 4 milhões de veículos por ano.

Agora, a montadora alemã pretende cortar mais 500 mil unidades de capacidade.

No ano passado, as marcas Volkswagen e Audi comercializaram cerca de 2,6 milhões de veículos na China. Neste ano, as vendas registraram nova queda, de aproximadamente 30%.

Mesmo diante das dificuldades, a empresa considera o mercado chinês estratégico demais para abandonar.

Por isso, realizou investimentos em uma nova parceria voltada ao desenvolvimento e à produção de automóveis elétricos com tecnologias adaptadas às preferências dos consumidores locais.

A General Motors também reforçou seu compromisso com o país ao prorrogar, em agosto, por mais 20 anos uma de suas principais joint ventures chinesas.

Consolidação da indústria automotiva chinesa ainda é um desafio

A China já conseguiu enfrentar problemas de excesso de capacidade em setores como aço e alumínio, especialmente durante a década de 2010.

No entanto, a reorganização da indústria automobilística apresenta obstáculos maiores, principalmente pela quantidade de empregos envolvidos e pela forte integração das fábricas às economias regionais.

Para pesquisadores que acompanham o setor, o desafio não está apenas em reduzir o número de fabricantes, mas também em encontrar uma maneira de reorganizar a produção sem provocar impactos econômicos e sociais significativos.

Enquanto esse ajuste não acontece, as montadoras chinesas continuam ampliando sua presença internacional, aumentando a pressão sobre fabricantes tradicionais e transformando a concorrência no mercado global.

Para países como o Brasil, esse movimento representa uma oportunidade de acesso a novos modelos e tecnologias, mas também impõe desafios à competitividade da indústria automotiva local.

FONTE: Invest News
TEXTO: Redação
IMAGEM: VCG/Getty Images

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Indústria

Salão do Automóvel de Paris evidencia disputa entre montadoras europeias e chinesas

A crescente concorrência entre montadoras europeias e chinesas dominou a abertura do Salão do Automóvel de Paris, na segunda-feira (12). Em meio à expansão das fabricantes asiáticas no mercado europeu, empresas tradicionais apostam em novos modelos, veículos elétricos e mudanças nas estratégias de produção para recuperar competitividade, enquanto buscam maior apoio da União Europeia.

O evento começou poucos dias depois de Bruxelas anunciar um entendimento com Pequim para limitar as importações de veículos híbridos chineses para o bloco. Segundo um funcionário da Comissão Europeia, a proposta prevê um teto de 350 mil unidades por ano, embora os detalhes ainda estejam em fase de definição.

A iniciativa foi recebida positivamente por fabricantes europeus, mas representantes do setor afirmam que medidas adicionais serão necessárias para enfrentar os custos de produção e as exigências ambientais.

União Europeia busca conter avanço dos carros chineses

O presidente-executivo da Stellantis, Antonio Filosa, classificou o entendimento entre a União Europeia e a China como um marco positivo. Ao mesmo tempo, defendeu medidas do governo italiano para reduzir os elevados custos de energia e pediu que Bruxelas acelere as decisões sobre as regras de emissões de carbono.

François Provost, presidente-executivo da Renault, também manifestou apoio à iniciativa. Para ele, a entrada crescente de veículos híbridos chineses no mercado europeu não é sustentável, e um acordo negociado representa uma alternativa preferível a uma guerra comercial.

Do lado chinês, Zhao Fei, presidente da Changan, demonstrou pouca preocupação com as possíveis restrições. Segundo o executivo, eventuais exigências de conteúdo local, associadas à política de produção Made in Europe, poderão ser atendidas com a instalação de fábricas no continente.

A estratégia indica que, mesmo diante de barreiras comerciais, as fabricantes chinesas pretendem manter seus planos de expansão na Europa.

Marcas chinesas ampliam presença no Salão de Paris

A edição deste ano reúne cerca de 20 marcas chinesas, entre elas BYD, Chery e Changan, o dobro da presença registrada no evento de 2024.

As empresas buscam conquistar consumidores europeus em um cenário de concorrência acirrada e desaceleração da demanda doméstica chinesa. Nos últimos três anos, as fabricantes do país ampliaram rapidamente sua participação no mercado europeu.

Dados da alfândega chinesa indicam que as exportações de veículos híbridos para os 27 países da União Europeia triplicaram, alcançando US$ 7,5 bilhões no primeiro semestre de 2026.

Segundo analistas da Jefferies, a BYD, a Chery e a MG, marca controlada pela estatal chinesa SAIC, poderão sentir os efeitos das novas restrições com maior intensidade. Juntas, as três responderam por 90% das vendas de híbridos de marcas chinesas na União Europeia nos primeiros oito meses de 2026.

A BYD reconheceu que o acordo representa uma pressão no curto prazo, mas reiterou seu compromisso com o mercado europeu.

Volkswagen enfrenta queda nas entregas de veículos

Enquanto as marcas chinesas ampliam suas operações no exterior, fabricantes tradicionais enfrentam dificuldades em mercados importantes.

A Volkswagen informou, na segunda-feira, que suas entregas globais recuaram 14,3% no terceiro trimestre. Foi a maior queda trimestral da montadora em quatro anos, atribuída principalmente à nova retração da demanda na China, seu principal mercado.

A empresa também registrou redução nas entregas na América do Norte e na Europa Ocidental, evidenciando os desafios enfrentados pela indústria automobilística em diferentes regiões.

Diante desse cenário, as fabricantes europeias têm acelerado o lançamento de modelos e investido em novas tecnologias para recuperar espaço entre os consumidores.

Stellantis aposta em novos modelos e veículos elétricos

A Stellantis levou ao Salão de Paris seis novos modelos de suas marcas europeias, além de nove carros-conceito. A iniciativa integra os esforços do grupo para fortalecer sua posição no mercado regional.

Na véspera da abertura, Filosa apresentou uma versão elétrica de proposta acessível e estilo retrô do Citroën 2CV, descrita pelo executivo como uma reinvenção de um ícone europeu.

A empresa também pretende reduzir os prazos de desenvolvimento de veículos, adotando práticas inspiradas na velocidade de execução das fabricantes chinesas.

Segundo o diretor de tecnologia da Stellantis, Ned Curic, o grupo planeja produzir pequenos carros elétricos na Itália utilizando uma plataforma desenvolvida em parceria com a chinesa Leapmotor.

A Renault também anunciou planos de expansão. Fabrice Cambolive, responsável pela área de crescimento da companhia, afirmou que a montadora poderá elevar em pelo menos 50% a produção de veículos elétricos na França nos próximos 12 meses.

Fabricantes chinesas planejam produzir carros na Europa

A presença no Salão de Paris também serve como vitrine para os planos de expansão industrial das empresas chinesas.

Além de marcas já conhecidas, como BYD e Chery, a feira deste ano recebe a Aito. A Changan, por sua vez, prepara a entrada das marcas Nevo e Avatr no mercado europeu.

Zhao Fei afirmou que a Changan negocia com fabricantes para viabilizar a produção de veículos no continente. A expectativa da empresa é fabricar seu primeiro automóvel na Europa no início de 2027.

A BYD também avalia a possibilidade de construir uma fábrica na França, segundo declaração da vice-presidente executiva da companhia, Stella Li, à emissora BFM TV.

A instalação de unidades produtivas no mercado europeu pode ajudar as fabricantes chinesas a reduzir a exposição às tarifas de importação e a se adaptar às futuras exigências de conteúdo local.

Tarifas e regras de conteúdo local mudam estratégia do setor

Em outubro de 2024, a União Europeia impôs tarifas adicionais sobre veículos totalmente elétricos fabricados na China. Desde então, o bloco também avançou nas discussões sobre regras conhecidas como Made in Europe, que preveem níveis mínimos de conteúdo local para que veículos elétricos tenham acesso a parcelas relevantes do mercado europeu.

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou durante o evento que um acordo entre França e Alemanha sobre essas disposições estava próximo de ser concluído.

Antecipando possíveis mudanças regulatórias, montadoras chinesas têm procurado estabelecer bases de produção no continente, inclusive por meio de parcerias com fabricantes já instalados.

Em julho, a Geely anunciou que produziria SUVs elétricos em uma fábrica da Ford na Espanha.

Em outro movimento de cooperação internacional, a indiana Tata Motors Passenger Vehicles e a Stellantis comunicaram a ampliação de sua parceria para incluir tecnologia e desenvolvimento de produtos. O plano prevê a fabricação de veículos na Índia destinados a mais de 50 mercados globais.

Crise no mercado chinês aumenta pressão por exportações

A expansão internacional tornou-se ainda mais importante para as montadoras chinesas diante do enfraquecimento das vendas domésticas.

Segundo os dados apresentados na reportagem, as vendas de automóveis na China recuaram 20% no primeiro semestre de 2026, aumentando a pressão sobre as fabricantes para encontrar consumidores em outros países.

Com o mercado norte-americano praticamente fechado para a indústria automobilística chinesa, a Europa ganhou importância como destino das exportações.

François Roudier, secretário-geral da Organização Internacional de Fabricantes de Veículos Automotores, destacou a dependência das empresas chinesas em relação ao mercado europeu. Na avaliação dele, a perda desse destino comercial poderia comprometer a rentabilidade das fabricantes, que encontram dificuldades para compensar essa ausência em outras regiões.

A disputa no Salão de Paris, portanto, vai além do lançamento de novos modelos. O evento reflete uma transformação estrutural da indústria automobilística global, na qual tarifas, inovação tecnológica, custos de produção e localização das fábricas se tornaram fatores decisivos para a competitividade.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Benoit Tessie

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Comércio Exterior

Japão negocia acordo com Mercosul para ampliar compra de petróleo e exportação de carros

O Japão prepara o início das negociações de um acordo de parceria econômica com o Mercosul, em uma estratégia voltada à diversificação do fornecimento de petróleo, minerais críticos e à ampliação do mercado para a indústria automobilística japonesa.

Segundo informações divulgadas pela imprensa asiática, o governo japonês pretende avançar nas tratativas com os países do bloco sul-americano, formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.

Japão busca ampliar relações comerciais com o Mercosul

As negociações devem ganhar força durante a cúpula do G7, prevista para meados de junho, quando a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, poderá se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além do Brasil, Tóquio pretende acelerar conversas com os demais integrantes do Mercosul para consolidar um acordo comercial abrangente.

Com quase 300 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto superior a US$ 3 trilhões, o bloco sul-americano é visto pelo Japão como um mercado estratégico em expansão.

Segurança energética impulsiona interesse japonês

A busca por novos fornecedores de energia e matérias-primas ganhou prioridade para o governo japonês diante das tensões geopolíticas internacionais.

Historicamente dependente do Oriente Médio para abastecimento de petróleo, o Japão passou a reforçar sua estratégia de diversificação após os riscos envolvendo o Estreito de Ormuz e os conflitos na região do Irã.

Além disso, o país asiático também busca reduzir sua dependência da China no fornecimento de terras raras e outros minerais estratégicos utilizados pela indústria tecnológica e automotiva.

Nesse cenário, o Brasil surge como parceiro relevante por ser um dos maiores produtores mundiais de petróleo bruto e possuir grandes reservas de minerais críticos. Já a Argentina se destaca na produção de lítio, matéria-prima fundamental para baterias de veículos elétricos.

Setor automotivo japonês pressiona por acordo

Outro ponto central das negociações envolve a redução de tarifas para produtos industriais japoneses, principalmente veículos e autopeças.

Atualmente, os produtos japoneses enfrentam taxas médias superiores a 13% no Brasil e na Argentina, cenário considerado um entrave para a competitividade das montadoras asiáticas na América do Sul.

A indústria automobilística japonesa teme perder espaço diante do avanço do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, que pode favorecer fabricantes europeias no mercado sul-americano.

Entidades empresariais do Japão e do Brasil já demonstraram apoio formal à abertura das negociações. Em declaração conjunta divulgada em março de 2025, representantes industriais defenderam o fortalecimento das cadeias globais de suprimentos e maior integração econômica entre os países.

Carne bovina pode ser principal ponto de impasse

Apesar do interesse mútuo, o setor agropecuário deve representar um dos temas mais delicados das negociações.

O Japão mantém uma indústria pecuária relativamente pequena e enfrenta preocupações internas sobre o impacto da entrada de carne bovina estrangeira no mercado local.

Brasil e Argentina estão entre os maiores produtores mundiais de carne bovina, o que aumenta a sensibilidade do tema dentro da política agrícola japonesa.

Mesmo assim, integrantes do governo japonês avaliam que o momento exige maior abertura comercial diante da necessidade de fortalecer cadeias globais de fornecimento e reduzir vulnerabilidades estratégicas.

Comércio entre Japão e Mercosul ainda tem espaço para crescer

Apesar do potencial econômico, o volume de comércio entre Japão e Mercosul ainda representa uma parcela pequena das operações japonesas no mercado internacional.

No ano fiscal de 2025, as exportações japonesas para o bloco somaram cerca de US$ 5,9 bilhões, enquanto as importações chegaram a aproximadamente US$ 9,4 bilhões.

Os números equivalem a menos de 2% do comércio exterior total do Japão, indicando amplo espaço para expansão nas relações comerciais entre os dois mercados.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Datamar News

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