Indústria

Brasil precisa fortalecer indústria diante do avanço das importações, defende CNI

O Brasil está diante de uma escolha estratégica: consolidar-se como uma potência industrial ou ampliar a dependência de produtos fabricados no exterior. O avanço das importações, especialmente de mercadorias de origem chinesa e de produtos que chegam ao país por meio de terceiros mercados, reacende o debate sobre a capacidade brasileira de preservar sua indústria e competir no comércio internacional.

A questão, porém, não passa por rejeitar as importações. O desafio é garantir uma inserção competitiva do Brasil no comércio global, permitindo que empresas nacionais disputem mercados externos em condições equilibradas e evitando que o país se transforme em destino de produtos que encontram restrições em outras economias.

Brasil corre risco de perder espaço na indústria

A expansão da indústria chinesa e o aumento das barreiras comerciais em diferentes mercados têm provocado mudanças nos fluxos internacionais de mercadorias. Países com grandes capacidades produtivas procuram novos destinos quando enfrentam tarifas, medidas antidumping, subsídios ou outras restrições.

Nesse cenário, o tamanho do mercado brasileiro, combinado com a abertura relativa da economia e com dificuldades de competitividade enfrentadas pela indústria nacional, pode tornar o país um destino atrativo para esses produtos.

Embora o Brasil tenha registrado recordes de exportações nos últimos anos, a indústria de transformação vem perdendo participação tanto no mercado internacional quanto no próprio mercado doméstico.

O país registra atualmente o maior déficit comercial da indústria de transformação desde 2000. A participação brasileira nas exportações mundiais de manufaturados está abaixo de 1%, enquanto os produtos importados ocupam uma parcela cada vez maior do consumo nacional.

O resultado é um cenário em que o Brasil exporta volumes maiores, mas com menor participação de produtos de maior complexidade tecnológica e valor agregado.

Importações chinesas exigem atenção aos fluxos comerciais

A China se consolidou como a principal origem das importações brasileiras, com forte presença de produtos de menor valor agregado.

Dados apresentados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que o Brasil importa aproximadamente US$ 5 bilhões por ano em produtos chineses que também são alvo de medidas relacionadas a subsídios em outros mercados.

Para a entidade, a análise do comércio exterior não deve considerar apenas o valor total importado. É necessário observar origem, preços, volumes e mudanças nas rotas comerciais, identificando movimentos que possam indicar alterações relevantes nos fluxos internacionais.

Países asiáticos já apresentam aumento das vendas ao Brasil

O crescimento das barreiras comerciais em grandes economias vem contribuindo para a reorganização das cadeias globais e para o desvio de determinados fluxos de comércio.

A CNI identificou sinais desse processo no Sudeste Asiático. Em maio de 2025, por exemplo, as importações brasileiras provenientes da Indonésia aumentaram 72,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No caso da Tailândia, o crescimento chegou a 31,4%.

Para o setor industrial, a preocupação é evitar que mudanças dessa natureza sejam percebidas apenas depois de provocarem efeitos permanentes sobre a produção nacional.

Defesa comercial precisa ser preventiva

Uma das propostas defendidas é ampliar o caráter preventivo da defesa comercial brasileira. Em vez de agir somente após a entrada maciça de produtos no mercado, o país deveria acompanhar continuamente os fluxos de comércio internacional.

Entre as medidas sugeridas estão o cruzamento de informações sobre origem, preços e volumes, o monitoramento de mudanças repentinas nas rotas de importação e a investigação rápida de possíveis casos de triangulação comercial ou desvio de comércio.

A avaliação não significa presumir irregularidades, mas identificar situações que justifiquem uma investigação.

A CNI afirma ainda que qualquer medida de defesa comercial deve considerar seus impactos sobre toda a cadeia produtiva. A entidade também informa que está disposta a colaborar com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e que já iniciou tratativas para a assinatura de um acordo de cooperação.

Subsídios estrangeiros também entram no radar

Os mecanismos de defesa comercial vão além das investigações antidumping. Em 2024, foram abertas 375 investigações antidumping e 64 relacionadas a subsídios, ambos recordes históricos.

O cenário internacional mostra que grandes economias estão ampliando seus instrumentos de proteção porque a política comercial passou a ser tratada também como uma questão de segurança econômica.

Nesse contexto, as medidas compensatórias ganham importância. Enquanto ações antidumping buscam combater determinadas práticas de preços, as medidas compensatórias podem ser aplicadas diante de vantagens obtidas por empresas estrangeiras por meio de subsídios concedidos por governos.

Segundo a CNI, o Brasil ainda utiliza esses instrumentos em escala menor do que outras grandes economias, inclusive em relação a produtos chineses. Para a entidade, existe espaço para aprimorar o uso dessas ferramentas diante de distorções provocadas por políticas de apoio estrangeiras.

Competitividade deve caminhar junto com proteção comercial

A defesa da indústria brasileira não significa fechar a economia ou proteger empresas ineficientes. O setor industrial também precisa avançar em produtividade, inovação, tecnologia e inserção internacional.

Nesse processo, a redução do chamado Custo Brasil é apontada como uma das prioridades para melhorar as condições de produção e ampliar a capacidade de competição das empresas nacionais.

A estratégia, portanto, deve combinar defesa comercial e internacionalização. Enquanto mecanismos de proteção ajudam a reduzir vulnerabilidades diante de práticas consideradas desleais, a presença em mercados estrangeiros amplia oportunidades para empresas brasileiras.

Internacionalização pode ampliar oportunidades para empresas brasileiras

A expansão internacional da indústria pode contribuir para atrair investimentos, incorporar novas tecnologias, elevar a produtividade e integrar empresas brasileiras às cadeias globais de produção e inovação.

Para isso, a política brasileira deveria avançar em duas frentes: garantir condições de concorrência mais equilibradas no mercado doméstico e, simultaneamente, ampliar o acesso das empresas nacionais a mercados externos.

Entre as medidas defendidas estão a implementação dos acordos comerciais já negociados, a busca por novas parcerias estratégicas e a criação de condições para que empresas de diferentes portes possam aumentar suas exportações.

Relação com China, EUA e Europa exige equilíbrio

A ampliação das relações comerciais com a China, os Estados Unidos, a União Europeia e outros parceiros continua sendo considerada importante para o Brasil.

A questão, porém, é evitar que o mercado brasileiro seja utilizado para absorver excedentes de capacidade produtiva de outros países ou para atender a interesses geopolíticos específicos.

Também é necessário impedir que terceiros mercados sejam usados como caminhos para contornar medidas comerciais legítimas adotadas pelo Brasil.

CNI propõe nova missão para a indústria brasileira

A avaliação da CNI é que o comércio mundial atravessa uma transformação estrutural, marcada por excesso de capacidade produtiva, reorganização das cadeias globais, tensões geopolíticas e aumento das barreiras comerciais.

Diante desse cenário, a entidade defende uma política de Estado para enfrentar os novos desafios. Entre as propostas está a criação de uma sétima missão para a Nova Indústria Brasil, voltada à internacionalização da indústria, com metas, mecanismos de financiamento e coordenação entre políticas de comércio, investimento e inovação.

A CNI também coloca o combate ao Custo Brasil entre as prioridades. Segundo a entidade, os custos associados às dificuldades estruturais enfrentadas pelas empresas brasileiras chegam a aproximadamente R$ 1,7 trilhão por ano.

O objetivo, nesse contexto, não seria escolher entre abertura comercial e proteção da indústria, mas combinar as duas estratégias.

Uma indústria competitiva não depende do isolamento do mercado nacional. Ela precisa de condições internas que permitam produzir, investir, inovar e competir no mercado internacional em condições mais equilibradas.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Paulo Whitaker

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