Agronegócio

China busca reduzir dependência do agro brasileiro e acende alerta para exportações do Brasil

A relação comercial entre Brasil e China transformou o agronegócio brasileiro nas últimas décadas. O país asiático se tornou o principal destino das exportações nacionais e ajudou o Brasil a alcançar sucessivos recordes de vendas externas. Agora, porém, Pequim trabalha em uma estratégia para diminuir sua dependência de fornecedores estrangeiros, movimento que pode afetar especialmente setores como soja, carnes e proteínas agrícolas.

Em 2025, as vendas brasileiras para o mercado chinês alcançaram cerca de US$ 100 bilhões, superando qualquer outro destino comercial. O ritmo permaneceu elevado em 2026: entre janeiro e junho, as exportações para a China somaram US$ 58,322 bilhões, alta de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Enquanto isso, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13% no mesmo período, impactadas pelas novas tarifas impostas pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros.

China investe em segurança alimentar e produção própria

Embora a demanda chinesa continue sendo fundamental para o agronegócio brasileiro, o país asiático passou a tratar a dependência externa de alimentos como uma questão estratégica.

A mudança está prevista no novo 15º Plano Quinquenal Nacional da China (2026-2030), que estabelece metas para ampliar a produção doméstica de grãos, fortalecer a indústria de sementes, aumentar o uso de inteligência artificial na agricultura e desenvolver novas fontes de proteína.

Segundo Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia e do Grupo de Análise da China do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Pequim considera a elevada dependência de importações uma vulnerabilidade diante de cenários como guerras, crises logísticas e disputas comerciais.

A estratégia, porém, não significa uma interrupção imediata das compras brasileiras. O objetivo é reduzir gradualmente a exposição externa por meio de tecnologia, inovação e aumento da produtividade interna.

Soja brasileira pode enfrentar mudanças no longo prazo

A soja é um dos principais produtos envolvidos nessa transformação. Atualmente, a China depende fortemente das importações do grão, utilizado principalmente na produção de ração animal.

Dados do relatório China’s Food Future, da consultoria Systemiq, indicam que as compras chinesas de soja podem cair aproximadamente 25% até 2030, redução equivalente a cerca de 23,5 milhões de toneladas.

Entre os fatores que podem influenciar essa queda estão avanços na eficiência da alimentação animal, aumento da produtividade agrícola e o desenvolvimento de alternativas como fermentação de precisão, biotecnologia e novas formas de produção de proteínas.

Para Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), a expansão da produção brasileira de soja está diretamente ligada ao fornecimento de proteína para animais, e não ao consumo humano direto.

Dependência chinesa foi criada pelo avanço econômico

A transformação alimentar da China acompanha a expansão econômica do país desde o fim dos anos 1970. Com o aumento da renda da população, houve crescimento expressivo no consumo de carne, leite, ovos e alimentos processados.

Para atender essa mudança de padrão alimentar, Pequim ampliou a importação de matérias-primas agrícolas, principalmente soja.

O desafio está relacionado às limitações territoriais chinesas: o país concentra aproximadamente um quinto da população mundial, mas possui menos de 10% das terras agricultáveis do planeta e cerca de 6% dos recursos hídricos globais.

Durante anos, a combinação entre produção doméstica e importações permitiu sustentar o crescimento do consumo. Agora, porém, a liderança chinesa busca reduzir riscos associados às cadeias internacionais de abastecimento.

Modelo chinês segue estratégia de tecnologia e indústria

Especialistas avaliam que a nova política alimentar chinesa segue lógica semelhante à adotada em setores como energia solar, baterias e veículos elétricos.

O historiador econômico Adam Tooze, da Universidade Columbia, aponta que Pequim utiliza planejamento estatal, financiamento direcionado e integração entre empresas, universidades e centros de pesquisa para desenvolver setores estratégicos.

Segundo ele, uma eventual redução da dependência alimentar chinesa poderia provocar mudanças significativas na economia agrícola global construída nas últimas décadas.

Brasil precisa transformar produção em valor agregado

A possibilidade de redução das compras chinesas já preocupa representantes do agronegócio brasileiro.

A senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, afirma que o Brasil precisa acompanhar de perto os movimentos da China e preparar alternativas para um cenário de menor crescimento da demanda.

Segundo ela, um dos pontos de atenção é o avanço da biotecnologia agrícola chinesa e o desenvolvimento de sementes próprias, incluindo variedades geneticamente modificadas.

A China estabeleceu como meta elevar para 85% a autossuficiência em sementes consideradas estratégicas, avanço que pode reduzir a necessidade de importação no futuro.

Para a ex-ministra, uma resposta brasileira passa pela agregação de valor, transformando commodities em produtos de maior valor comercial.

Entre as oportunidades estão o processamento de soja e milho em proteínas animais, além do desenvolvimento de mercados ligados à transição energética, como o combustível sustentável de aviação (SAF).

Relação comercial continua estratégica, mas exige adaptação

Apesar dos desafios, especialistas não projetam uma ruptura entre Brasil e China. A expectativa é que o país asiático continue sendo um grande comprador de produtos brasileiros por muitos anos.

O principal alerta é evitar que empresas e governos mantenham estratégias de longo prazo baseadas na ideia de crescimento contínuo da demanda chinesa.

Para Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, a instabilidade global pode até reforçar a posição brasileira como fornecedor confiável de alimentos.

No entanto, especialistas defendem que o Brasil amplie sua presença internacional, monitore mudanças no mercado chinês e invista em inovação para preservar sua competitividade.

Desde que a China assumiu a liderança como principal destino das exportações brasileiras, em 2009, o país asiático foi fundamental para consolidar o Brasil como uma das maiores potências agrícolas do mundo. O próximo desafio será equilibrar essa parceria com a preparação para um cenário em que a China continuará comprando, mas buscará depender menos de fornecedores externos.

FONTE: G1
TEXTO: Redação
IMAGEM: Bloomberg via Getty Images/BBC

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