Internacional

Crise da carne bovina nos EUA avança sobre o setor de frango e pressiona margens

A crise que atinge o mercado de proteínas animais nos Estados Unidos deve continuar pelos próximos anos. Segundo análise do Santander, o setor de carne bovina ainda enfrentará um período prolongado de oferta restrita, enquanto produtores de frango e suínos passam a lidar com custos mais elevados, principalmente devido à valorização dos grãos usados na alimentação dos animais.

O banco estima que uma recuperação mais consistente do mercado de carne bovina americana só deverá ocorrer a partir de 2028. Diante desse cenário, a instituição adota uma postura mais cautelosa em relação a empresas com forte exposição aos Estados Unidos, como Tyson Foods, JBS e Pilgrim’s Pride. A MBRF é apontada como uma exceção entre as companhias avaliadas.

Rebanho bovino dos EUA encolhe ao menor nível em décadas

A principal dificuldade está na disponibilidade de gado para abate. O Santander projeta que as margens dos frigoríficos permaneçam pressionadas até 2028.

Desde 2019, o número de bovinos destinados à produção de carne nos Estados Unidos caiu 13%, chegando a 27,9 milhões de cabeças. O rebanho bovino total do país atingiu o menor patamar desde 1952, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A combinação de seca prolongada no Oeste americano, aumento dos custos de alimentação e redução das áreas de pastagem levou produtores a vender parte dos animais para preservar o caixa.

Como reflexo da menor oferta, a produção de carne bovina nos EUA caiu 4% em 2025, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos deixaram de ocupar a liderança mundial, que passou ao Brasil.

Importações aumentam para compensar menor oferta

As restrições sanitárias à entrada de bovinos provenientes do México também contribuíram para apertar a oferta americana. A medida foi adotada diante da disseminação da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que representa ameaça à pecuária.

Com menos animais disponíveis internamente, os Estados Unidos passaram a depender mais das compras externas. O USDA estima que as importações de carne bovina alcancem 2,78 milhões de toneladas em 2026, crescimento de 14% em relação ao ano anterior.

Somente no primeiro semestre, as compras externas chegaram a aproximadamente 1,5 milhão de toneladas, alta de 12%.

Preço da carne chega ao consumidor americano

A menor oferta também elevou os preços pagos pelos consumidores. A carne moída, um dos produtos mais consumidos nos Estados Unidos, ficou 0,6% mais cara em agosto na comparação com julho e atingiu novo recorde, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho americano.

Na comparação anual, o preço estava 7,9% maior. Desde 2020, a alta acumulada da carne bovina chega a 75%, conforme dados do Federal Reserve de St. Louis.

O avanço dos preços ganhou repercussão política. Há duas semanas, o presidente Donald Trump anunciou a intenção de ampliar as importações de carne como uma das medidas para tentar reduzir os preços no mercado doméstico.

Frango passa a enfrentar pressão sobre as margens

O problema do setor bovino é principalmente a falta de animais. No mercado de aves, a dificuldade está concentrada nas margens, diante do aumento dos custos de produção e da dificuldade de repassar integralmente os preços.

O Santander destaca especialmente o comportamento do milho, um dos principais componentes da alimentação de frangos e suínos. A commodity acumula valorização próxima de 15% no ano, enquanto as condições das lavouras nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países produtores geram riscos adicionais para os custos.

Nesse ambiente, a rentabilidade dos produtores de frango e carne suína pode ficar pressionada caso os preços das proteínas não acompanhem o aumento das despesas com alimentação.

Medidas adotadas ainda não resolvem o problema estrutural

Entre as iniciativas que podem produzir algum alívio no curto prazo, o Santander cita o fechamento de unidades de abate, a retomada gradual das importações de gado mexicano e programas de apoio aos pecuaristas.

Para os analistas, porém, essas ações não são suficientes para modificar o quadro estrutural. A recomposição do rebanho americano deverá exigir um período mais longo.

Em 2026, o banco estima que os fechamentos líquidos de capacidade de abate somem cerca de 6.700 cabeças por dia, o equivalente a aproximadamente 13% da capacidade existente no início do ano que estará fora de operação.

A redução das plantas pode ajudar a indústria a preservar margens ao adequar a capacidade de processamento à menor disponibilidade de gado. No entanto, o fechamento de frigoríficos não aumenta o número de animais disponíveis.

As importações de bovinos do México também têm alcance limitado. Segundo a estimativa do Santander, elas devem representar entre 0,5% e 1% dos animais encaminhados para confinamento nos EUA em 2026.

Tyson Foods sente os efeitos da crise

Entre as empresas analisadas, a Tyson Foods está entre as mais expostas ao cenário negativo da carne bovina americana.

O Santander reduziu o preço-alvo da companhia de US$ 76 para US$ 68 e manteve recomendação neutra. A revisão veio depois que a Tyson diminuiu sua projeção para 2026, levando o banco a cortar em 8% sua estimativa de EBITDA, para cerca de US$ 3,3 bilhões.

A divisão de Beef é o principal ponto de atenção. O Santander considera que as expectativas do mercado para uma recuperação podem estar adiantadas em relação ao ritmo de recomposição do rebanho.

Os primeiros sinais de retenção de fêmeas devem contribuir para uma recuperação mais significativa da oferta apenas no ano fiscal de 2029, segundo a análise.

A Tyson, contudo, possui uma proteção parcial devido ao aumento da participação de produtos de maior valor agregado no segmento de frango. Por outro lado, o Santander alerta que uma demanda mais fraca nos restaurantes de serviço rápido pode afetar essa divisão.

Pilgrim’s Pride enfrenta excesso de oferta de frango

A Pilgrim’s Pride, uma das maiores produtoras de frango dos Estados Unidos, também é acompanhada com cautela pelo Santander.

O banco manteve recomendação neutra para a companhia, embora considere que suas ações estejam entre as mais baratas do grupo americano de empresas de proteínas analisado.

O principal fator de preocupação é a desaceleração do crescimento dos resultados. Apesar de avaliar que o pico de expansão da oferta de frango já passou, o Santander observa que os preços ainda demoram a reagir devido ao excesso de oferta existente no mercado americano.

A valorização dos grãos acrescenta outro elemento de pressão sobre as margens da empresa.

JBS mantém exposição ao mercado americano

A JBS também permanece com recomendação neutra do Santander. O banco reduziu o preço-alvo da companhia para US$ 15.

Embora os spreads da carne bovina nos Estados Unidos tenham apresentado alguma recuperação, ainda há pouca visibilidade, segundo a análise, sobre uma retomada estrutural do ciclo.

No terceiro trimestre, as margens do negócio de carne bovina americana melhoraram na comparação com o período anterior. Entre os fatores estão a sazonalidade, a demanda maior durante a temporada de churrascos e a queda dos preços do gado.

O Santander, entretanto, considera que essa melhora recente não altera o quadro de recuperação prolongada do setor.

MBRF tem diversificação como fator de proteção

Entre as companhias analisadas, a MBRF aparece como exceção. O Santander manteve recomendação Outperform, embora tenha reduzido o preço-alvo de R$ 28 para R$ 25.

A empresa também possui exposição à National Beef, operação americana de carne bovina, e está sujeita aos efeitos da crise no segmento.

A avaliação mais favorável está principalmente relacionada à BRF, que apresenta desempenho forte nas exportações de frango para o Oriente Médio, além de preços firmes e melhora na demanda por alimentos processados.

Diversificação ganha importância no setor de proteínas

A análise do Santander indica que o mercado americano de proteínas deve atravessar um período de ajustes distintos entre os segmentos. Enquanto a carne bovina enfrenta restrição de oferta de animais, o setor de aves precisa administrar custos elevados e dificuldades para recuperar preços.

Nesse contexto, a capacidade das empresas de atuar em diferentes proteínas e mercados internacionais ganha relevância para reduzir a exposição aos ciclos específicos de cada atividade.

FONTE: Exame
TEXTO: Redação
IMAGEM: Freepik

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