Indústria

Seca na Europa: crise hídrica ameaça indústria e pode gerar prejuízo de € 180 bilhões

A seca na Europa já provoca impactos em setores essenciais da economia e pode gerar perdas de pelo menos € 50 bilhões no curto prazo, segundo estimativas citadas pelo Financial Times. Se a escassez de água persistir e os efeitos da onda de calor forem considerados em conjunto, o prejuízo econômico pode chegar a € 180 bilhões.

Os níveis excepcionalmente baixos de rios e reservatórios já afetam o transporte de cargas, a geração de energia, a agricultura e a produção industrial. Empresas de diferentes países passaram a adaptar suas operações diante da redução da disponibilidade de água.

Baixo nível do Reno encarece transporte de cargas

No porto de Roterdã, na Holanda, um dos principais centros logísticos da Europa, embarcações que utilizam o rio Reno precisam navegar com aproximadamente 30% da capacidade de carga.

A redução do peso é necessária para evitar encalhes em trechos onde a profundidade do rio diminuiu. A consequência é o aumento dos custos de transporte e a perda de eficiência nas cadeias de abastecimento.

Para compensar a menor capacidade de cada embarcação, operadores passaram a contratar cerca de 100 navios adicionais por semana. Mesmo com o reforço da frota, o volume transportado continua abaixo dos níveis habituais.

A autoridade portuária de Roterdã considera o episódio um dos mais relevantes enfrentados pelo setor nas últimas décadas. O cenário também evidencia a vulnerabilidade da logística europeia diante do avanço de eventos climáticos extremos.

Rios europeus atingem níveis historicamente baixos

A crise hídrica se espalha por diferentes regiões do continente. Rios importantes para o comércio, a indústria e a irrigação registram alguns dos menores níveis médios mensais já observados.

Entre os cursos d’água afetados estão o Reno, o Danúbio, o Pó, na Itália, o Ródano, que atravessa a Suíça e a França, e o Tâmisa, em Londres.

O Reno tem importância estratégica para o transporte de mercadorias e para a indústria alemã. Uma seca ocorrida em 2018, por exemplo, teria provocado uma redução de aproximadamente 0,4% no PIB da Alemanha — equivalente hoje a cerca de € 18 bilhões.

O episódio atual preocupa ainda mais porque os rios apresentam níveis inferiores aos registrados naquela ocasião e a estiagem começou mais cedo.

Estudos citados pelo Financial Times indicam que um mês de vazão reduzida pode diminuir em cerca de 25% o transporte fluvial e provocar uma queda próxima de 1% na produção industrial alemã.

Onda de calor agravou déficit hídrico

A Europa iniciou o ano em condições relativamente favoráveis, com níveis de umidade do solo e precipitação acima da média em fevereiro. A situação começou a mudar em abril e se agravou em maio, com a sucessão de ondas de calor.

Junho e julho registraram temperaturas recordes, aumentando a pressão sobre rios, reservatórios e solos. A perspectiva de poucas chuvas nas semanas seguintes mantém a preocupação com a continuidade da crise de água.

Energia também sofre com falta de água

O setor elétrico está entre os mais afetados pela estiagem. Usinas nucleares na França e na Hungria precisaram reduzir a produção devido à menor disponibilidade de água para os sistemas de resfriamento.

A geração hidrelétrica também enfrenta dificuldades em regiões atingidas pela seca.

Na Romênia, o governo chegou a recorrer a explosões subaquáticas controladas no leito do Danúbio para tentar direcionar água para a usina nuclear de Cernavodă. A medida não produziu o resultado esperado e a unidade também precisou reduzir suas atividades.

Agricultura enfrenta perdas e mudança de culturas

A agricultura europeia também sofre com a falta de água. No norte da Itália, uma das principais áreas produtoras de arroz do continente, agricultores relatam perdas totais em algumas lavouras porque a água destinada à irrigação não conseguiu chegar a determinadas áreas.

Na região do Vale do Pó, produtores afirmam que algumas propriedades perderam metade ou mais da produção.

A repetição de períodos prolongados de estiagem começa a provocar mudanças nas decisões dos agricultores. Parte deles avalia substituir o arroz por culturas menos dependentes de água, enquanto outros consideram deixar algumas áreas sem plantio.

Data centers entram no radar da crise hídrica

A escassez também representa um desafio para setores ligados à economia digital. Mais de um terço dos aproximadamente 3.000 data centers da Europa está localizado em regiões submetidas a níveis elevados ou extremos de estresse hídrico.

A disponibilidade de água é especialmente relevante para sistemas de resfriamento dessas instalações, aumentando a preocupação sobre a capacidade de expansão da infraestrutura tecnológica em determinadas áreas.

Seca pode pressionar inflação

Economistas também alertam para possíveis efeitos da crise sobre a inflação europeia.

A redução das colheitas tende a elevar os preços dos alimentos. Ao mesmo tempo, o encarecimento do transporte e eventuais restrições na geração de energia podem aumentar os custos para empresas e consumidores.

O resultado pode dificultar a recuperação econômica em um momento de maior pressão sobre diferentes setores produtivos.

Empresas aceleram adaptação ao novo cenário climático

Diante da perspectiva de períodos mais frequentes de calor e estiagem, empresas já começam a investir em medidas de adaptação. Entre as iniciativas estão embarcações preparadas para rios rasos, sistemas de monitoramento e alerta, tecnologias de redução do consumo de água e métodos de resfriamento menos dependentes do recurso.

Para especialistas, a seca deixou de ser apenas um problema temporário para se transformar em um risco estrutural para a economia europeia.

A capacidade de adaptar infraestrutura, agricultura, transporte e geração de energia será determinante para limitar os prejuízos provocados por futuras crises hídricas.

FONTE: Exame
TEXTO: Redação
IMAGEM: Getty Images

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Logística

Super El Niño pode afetar produção de alimentos e logística na América Latina

A América Latina se prepara para a possibilidade de enfrentar um dos El Niños mais intensos já registrados, fenômeno que pode provocar impactos significativos sobre a produção agrícola, geração de energia, transporte e comércio na principal região exportadora de alimentos do mundo.

O El Niño ocorre quando as temperaturas da superfície do mar ficam acima do normal no Pacífico tropical central e oriental. A alteração interfere nos padrões climáticos em diferentes partes do planeta. Na América Latina, o fenômeno costuma provocar mais chuvas no Sul e aumentar o risco de seca nas áreas mais ao norte.

Os efeitos já começam a aparecer. Um inverno excepcionalmente chuvoso no Hemisfério Sul, alterações nos ecossistemas marinhos do Pacífico e períodos de estiagem no Caribe e na Amazônia estão entre os sinais observados.

Pesquisadores estimam que o fenômeno ganhe força a partir de setembro e possa superar a intensidade registrada no ciclo de 2015-2016, considerado o mais forte da era moderna.

Mais chuva pode favorecer lavouras no Sul

Nas áreas agrícolas da Argentina, Paraguai, Uruguai e sul do Brasil, o El Niño costuma provocar chuvas acima da média. Para a agricultura, o aumento da disponibilidade de água pode ser positivo, especialmente durante o período de plantio.

Segundo o meteorologista Germán Heinzenknecht, da Consultoria de Climatologia Aplicada da Argentina, o fenômeno pode favorecer as safras de soja, milho e trigo, principalmente ao melhorar a umidade do solo e ampliar a disponibilidade hídrica durante o verão, entre dezembro e fevereiro.

O excesso de chuva, porém, também traz riscos. A elevada umidade pode favorecer a ocorrência de doenças fúngicas e provocar a perda de nutrientes aplicados ao solo.

Chuvas intensas ameaçam estradas e infraestrutura

Um El Niño mais forte também pode aumentar a ocorrência de alagamentos e enchentes em áreas rurais e urbanas já vulneráveis.

Estradas de terra podem ficar intransitáveis, dificultando o acesso dos produtores às propriedades e comprometendo operações como aplicação de fertilizantes e defensivos agrícolas. Muitas dessas vias já apresentam condições precárias nas principais áreas agrícolas do Cone Sul.

A partir de setembro, períodos de chuva intensa também podem afetar cidades e corredores de transporte até os portos, criando novos obstáculos para o escoamento das exportações.

No Paraguai, as autoridades chegaram a colocar unidades militares em alerta e mobilizar equipes de engenharia diante da possibilidade de enchentes.

Costa do Pacífico pode enfrentar extremos opostos

Os impactos também devem variar dentro de um mesmo país.

No norte do Peru, por exemplo, o cenário esperado inclui maior risco de inundações, enquanto áreas montanhosas podem enfrentar escassez de água. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) prevê padrões semelhantes em partes do Chile e de outros países da costa do Pacífico.

O aquecimento das águas também pode alterar a distribuição de espécies marinhas. Algumas populações de peixes comerciais estão migrando para águas mais profundas, reduzindo a disponibilidade para a pesca.

No Peru, um dos principais produtores pesqueiros da região, a atividade caiu 31% nos cinco primeiros meses do ano.

El Niño pode aumentar demanda por gás e favorecer hidrelétricas

As diferenças na distribuição das chuvas também podem criar oportunidades no setor de energia.

Condições mais quentes e secas no norte e oeste do Brasil podem aumentar a necessidade de geração termelétrica e, consequentemente, elevar a demanda por gás natural argentino, segundo a Organização Latino-Americana de Energia (OLADE).

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil e o nordeste da Argentina devem registrar aumento significativo das chuvas. A maior vazão do rio Paraná pode favorecer a geração de energia hidrelétrica ao longo de sua bacia.

Em julho, as chuvas nas bacias hidrográficas de usinas do Sul do Brasil chegaram a 256% da média histórica, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Para Leydson Dantas, especialista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os efeitos do El Niño não são idênticos em todos os ciclos. Em determinadas regiões do Centro-Oeste e Sudeste brasileiro, por exemplo, o volume de chuva esperado para um mês pode se concentrar em poucos dias.

Seca ameaça hidrovias da Amazônia

Enquanto o Sul pode receber mais água, o Norte do Brasil enfrenta o risco oposto.

A previsão de condições mais secas aumenta a possibilidade de redução dos níveis dos rios da Bacia Amazônica, uma rede hidroviária essencial para o transporte de mercadorias e especialmente importante para o escoamento da produção de soja brasileira.

O cenário climático também eleva os riscos de seca, calor extremo e incêndios em partes do Brasil, Colômbia e Venezuela, com possíveis consequências para lavouras e criação de animais.

Canal do Panamá enfrenta pressão sobre disponibilidade de água

Os efeitos do El Niño podem alcançar rotas estratégicas do comércio internacional. No Canal do Panamá, a autoridade responsável pela operação vem ampliando as restrições ao peso das embarcações para preservar a água doce utilizada no funcionamento da via e no abastecimento da população.

As previsões indicam que o país pode enfrentar uma seca tão severa quanto a registrada durante o episódio de El Niño de 2023-2024.

Como um novo reservatório planejado para reforçar o abastecimento ainda não estará pronto, a autoridade do canal vem reduzindo gradualmente os limites de calado dos navios. Na prática, embarcações com maior restrição de calado precisam transportar menos carga.

A medida pode elevar os custos do transporte marítimo e aumentar o risco de interrupções no comércio global.

Comércio internacional pode sentir os efeitos

O Panamá está entre os países com maior volume de chuvas do mundo. Por isso, uma redução significativa das precipitações é considerada um importante sinal de alerta para as condições hídricas da região.

Até o momento, a autoridade do Canal do Panamá afirma não esperar reduzir o número diário de embarcações autorizadas a atravessar a rota, a menos que isso se torne indispensável.

A pressão sobre a passagem, porém, já aumentou. Leilões de última hora para obtenção de vagas chegaram a movimentar milhões de dólares, enquanto empresas buscam alternativas diante de problemas em outras rotas marítimas, incluindo as afetadas pelas tensões de segurança no Oriente Médio.

Se o super El Niño confirmar a intensidade projetada, seus efeitos poderão ultrapassar a agricultura e atingir toda a cadeia de abastecimento, da produção de alimentos e geração de energia até as hidrovias, portos e principais corredores do comércio internacional.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Martin Cossarini

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Informação

Preços dos alimentos podem voltar a subir no mundo, alerta FAO

O mundo pode enfrentar uma nova onda de inflação dos alimentos nos próximos meses, impulsionada por uma combinação de fatores como guerras, aumento dos custos de produção e eventos climáticos extremos. O alerta foi feito pelo economista-chefe da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Máximo Torero.

Segundo ele, os efeitos da guerra no Irã e na Ucrânia, somados aos impactos do fenômeno El Niño, podem reduzir a oferta agrícola e elevar os custos de produção, pressionando os preços pagos pelos consumidores.

A alta dos alimentos foi um dos principais fatores da inflação global em 2022. Neste ano, porém, os preços vinham apresentando maior estabilidade em diversas regiões, cenário que pode mudar diante do aumento das despesas com energia, fertilizantes e transporte.

Custos devem pressionar preços a partir do fim do ano

Na avaliação de Torero, os preços das commodities agrícolas devem começar a avançar de forma mais consistente no fim deste ano, com impactos ainda maiores em 2027.

“A expectativa é que os preços das commodities comecem a subir mais agora e que os alimentos passem a ficar mais caros no fim do ano e, principalmente, no próximo ano”, afirmou.

O economista explica que existe uma defasagem entre o aumento dos custos das matérias-primas e a chegada desses impactos ao consumidor final. Esse processo costuma levar entre três e seis meses.

Energia e fertilizantes ameaçam produção agrícola

Embora produtos como trigo, milho e arroz tenham registrado altas recentes, as cotações ainda refletem principalmente boas colheitas realizadas anteriormente. O cenário para as próximas safras, no entanto, apresenta maiores riscos.

Segundo a FAO, o aumento do preço do petróleo afeta diretamente diversas etapas da cadeia agrícola, incluindo bombeamento de água, processamento, embalagens e transporte. Já o gás natural é essencial para a fabricação de fertilizantes, insumo fundamental para a produtividade no campo.

A instabilidade no mercado energético também é agravada pelos danos causados à infraestrutura de petróleo e gás da Rússia, reduzindo a oferta de combustíveis como diesel e gás natural utilizados na produção de alimentos.

Agricultores enfrentam margens menores

Como os preços das commodities agrícolas são definidos em escala global, o aumento dos custos impacta produtores em diferentes regiões do planeta. Mesmo países com maior capacidade financeira, como Estados Unidos, Europa e Brasil, sentem os efeitos da pressão sobre as margens agrícolas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, uma entidade representativa do setor estima que produtores de nove grandes culturas poderiam registrar perdas de até US$ 32 bilhões em 2027 sem apoio governamental.

A redução das margens já influencia decisões de plantio. Produtores norte-americanos passaram a considerar mudanças de culturas, incluindo maior produção de soja, que exige menor quantidade de fertilizantes em comparação com outras lavouras.

Produção agrícola global sofre impactos climáticos

A instabilidade também já afeta importantes exportadores agrícolas. A Austrália, um dos maiores fornecedores mundiais de grãos, prevê redução na produção de culturas de inverno, influenciada pelo aumento dos custos de combustível e fertilizantes, além da incerteza sobre a disponibilidade de insumos.

Outro fator de preocupação é o fortalecimento do El Niño, fenômeno climático que altera padrões de chuva e pode comprometer colheitas em diferentes regiões.

Na Índia, por exemplo, o atraso das monções e a previsão de chuvas abaixo da média podem prejudicar a produção de arroz, com possíveis reflexos nos preços internacionais da commodity.

Risco de aumento da insegurança alimentar

A FAO também alerta que eventos climáticos severos podem ampliar a insegurança alimentar global. Estimativas da organização indicam que milhões de pessoas podem enfrentar dificuldades de acesso a alimentos caso a combinação de conflitos, custos elevados e perdas agrícolas se intensifique.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Vyacheslav Madiyevskyy 

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Agronegócio

China busca reduzir dependência do agro brasileiro e acende alerta para exportações do Brasil

A relação comercial entre Brasil e China transformou o agronegócio brasileiro nas últimas décadas. O país asiático se tornou o principal destino das exportações nacionais e ajudou o Brasil a alcançar sucessivos recordes de vendas externas. Agora, porém, Pequim trabalha em uma estratégia para diminuir sua dependência de fornecedores estrangeiros, movimento que pode afetar especialmente setores como soja, carnes e proteínas agrícolas.

Em 2025, as vendas brasileiras para o mercado chinês alcançaram cerca de US$ 100 bilhões, superando qualquer outro destino comercial. O ritmo permaneceu elevado em 2026: entre janeiro e junho, as exportações para a China somaram US$ 58,322 bilhões, alta de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Enquanto isso, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13% no mesmo período, impactadas pelas novas tarifas impostas pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros.

China investe em segurança alimentar e produção própria

Embora a demanda chinesa continue sendo fundamental para o agronegócio brasileiro, o país asiático passou a tratar a dependência externa de alimentos como uma questão estratégica.

A mudança está prevista no novo 15º Plano Quinquenal Nacional da China (2026-2030), que estabelece metas para ampliar a produção doméstica de grãos, fortalecer a indústria de sementes, aumentar o uso de inteligência artificial na agricultura e desenvolver novas fontes de proteína.

Segundo Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia e do Grupo de Análise da China do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Pequim considera a elevada dependência de importações uma vulnerabilidade diante de cenários como guerras, crises logísticas e disputas comerciais.

A estratégia, porém, não significa uma interrupção imediata das compras brasileiras. O objetivo é reduzir gradualmente a exposição externa por meio de tecnologia, inovação e aumento da produtividade interna.

Soja brasileira pode enfrentar mudanças no longo prazo

A soja é um dos principais produtos envolvidos nessa transformação. Atualmente, a China depende fortemente das importações do grão, utilizado principalmente na produção de ração animal.

Dados do relatório China’s Food Future, da consultoria Systemiq, indicam que as compras chinesas de soja podem cair aproximadamente 25% até 2030, redução equivalente a cerca de 23,5 milhões de toneladas.

Entre os fatores que podem influenciar essa queda estão avanços na eficiência da alimentação animal, aumento da produtividade agrícola e o desenvolvimento de alternativas como fermentação de precisão, biotecnologia e novas formas de produção de proteínas.

Para Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), a expansão da produção brasileira de soja está diretamente ligada ao fornecimento de proteína para animais, e não ao consumo humano direto.

Dependência chinesa foi criada pelo avanço econômico

A transformação alimentar da China acompanha a expansão econômica do país desde o fim dos anos 1970. Com o aumento da renda da população, houve crescimento expressivo no consumo de carne, leite, ovos e alimentos processados.

Para atender essa mudança de padrão alimentar, Pequim ampliou a importação de matérias-primas agrícolas, principalmente soja.

O desafio está relacionado às limitações territoriais chinesas: o país concentra aproximadamente um quinto da população mundial, mas possui menos de 10% das terras agricultáveis do planeta e cerca de 6% dos recursos hídricos globais.

Durante anos, a combinação entre produção doméstica e importações permitiu sustentar o crescimento do consumo. Agora, porém, a liderança chinesa busca reduzir riscos associados às cadeias internacionais de abastecimento.

Modelo chinês segue estratégia de tecnologia e indústria

Especialistas avaliam que a nova política alimentar chinesa segue lógica semelhante à adotada em setores como energia solar, baterias e veículos elétricos.

O historiador econômico Adam Tooze, da Universidade Columbia, aponta que Pequim utiliza planejamento estatal, financiamento direcionado e integração entre empresas, universidades e centros de pesquisa para desenvolver setores estratégicos.

Segundo ele, uma eventual redução da dependência alimentar chinesa poderia provocar mudanças significativas na economia agrícola global construída nas últimas décadas.

Brasil precisa transformar produção em valor agregado

A possibilidade de redução das compras chinesas já preocupa representantes do agronegócio brasileiro.

A senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, afirma que o Brasil precisa acompanhar de perto os movimentos da China e preparar alternativas para um cenário de menor crescimento da demanda.

Segundo ela, um dos pontos de atenção é o avanço da biotecnologia agrícola chinesa e o desenvolvimento de sementes próprias, incluindo variedades geneticamente modificadas.

A China estabeleceu como meta elevar para 85% a autossuficiência em sementes consideradas estratégicas, avanço que pode reduzir a necessidade de importação no futuro.

Para a ex-ministra, uma resposta brasileira passa pela agregação de valor, transformando commodities em produtos de maior valor comercial.

Entre as oportunidades estão o processamento de soja e milho em proteínas animais, além do desenvolvimento de mercados ligados à transição energética, como o combustível sustentável de aviação (SAF).

Relação comercial continua estratégica, mas exige adaptação

Apesar dos desafios, especialistas não projetam uma ruptura entre Brasil e China. A expectativa é que o país asiático continue sendo um grande comprador de produtos brasileiros por muitos anos.

O principal alerta é evitar que empresas e governos mantenham estratégias de longo prazo baseadas na ideia de crescimento contínuo da demanda chinesa.

Para Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, a instabilidade global pode até reforçar a posição brasileira como fornecedor confiável de alimentos.

No entanto, especialistas defendem que o Brasil amplie sua presença internacional, monitore mudanças no mercado chinês e invista em inovação para preservar sua competitividade.

Desde que a China assumiu a liderança como principal destino das exportações brasileiras, em 2009, o país asiático foi fundamental para consolidar o Brasil como uma das maiores potências agrícolas do mundo. O próximo desafio será equilibrar essa parceria com a preparação para um cenário em que a China continuará comprando, mas buscará depender menos de fornecedores externos.

FONTE: G1
TEXTO: Redação
IMAGEM: Bloomberg via Getty Images/BBC

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Agricultura

Brasil e Nigéria ampliam diálogo para fortalecer parceria no mercado de fertilizantes

O Brasil e a Nigéria avançaram nas discussões para ampliar a cooperação no setor de fertilizantes, com foco no fortalecimento do abastecimento da agricultura brasileira. Durante missão oficial ao país africano, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, reuniu-se na segunda-feira (13) com representantes da Indorama, um dos maiores grupos globais da indústria de fertilizantes.

Além do fornecimento de fertilizantes nitrogenados, o governo brasileiro demonstrou interesse em ampliar a parceria para a aquisição de fósforo, insumo considerado estratégico para o agronegócio.

Nigéria ganha importância como fornecedora de fertilizantes

A Indorama opera na Nigéria um dos maiores complexos industriais de produção de ureia da África, com capacidade instalada de aproximadamente 2,8 milhões de toneladas por ano.

A empresa desempenha papel relevante no mercado internacional de fertilizantes e já integra a cadeia de fornecimento que atende o Brasil, um dos maiores consumidores mundiais desses insumos.

Durante o encontro, André de Paula ressaltou que a Nigéria ocupa posição estratégica na segurança do abastecimento brasileiro.

Segundo o ministro, o objetivo é consolidar uma relação comercial estável, previsível e capaz de atender às necessidades do agronegócio brasileiro, reduzindo riscos para a produção agrícola.

Memorando de entendimento está em negociação

O governo brasileiro também confirmou que mantém tratativas com as autoridades nigerianas para a assinatura de um memorando de entendimento nas áreas de agricultura e fertilizantes.

A proposta busca criar um ambiente institucional que incentive o comércio bilateral, reduza incertezas para investidores e estimule contratos de longo prazo entre empresas dos dois países.

A expectativa é que o acordo fortaleça a cooperação técnica e comercial no setor agrícola.

Indorama destaca investimentos no agronegócio da Nigéria

Durante a reunião, representantes da Indorama apresentaram os principais projetos desenvolvidos no país africano para impulsionar a produção agropecuária.

Entre as iniciativas estão programas de modernização da agricultura, projetos de melhoramento genético com tecnologia brasileira, ações voltadas à rastreabilidade animal e programas de capacitação destinados aos produtores rurais.

A empresa também manifestou interesse em ampliar a cooperação com instituições e companhias brasileiras para acelerar o desenvolvimento do agronegócio nigeriano e fortalecer a troca de conhecimento entre os dois países.

Cooperação pode ampliar segurança no abastecimento agrícola

O fortalecimento das relações entre Brasil e Nigéria ocorre em um momento de crescente preocupação global com a segurança no fornecimento de fertilizantes, considerados essenciais para a produtividade agrícola.

A ampliação da parceria pode contribuir para diversificar fornecedores, reduzir vulnerabilidades da cadeia de suprimentos e garantir maior estabilidade ao setor agropecuário brasileiro.

FONTE: Globo Rural
TEXTO: Redação
IMAGEM: Indorama/Divulgação

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Agronegócio

El Niño forte pode reduzir produtividade de soja, milho, café e laranja na safra 2026/27

O avanço de um El Niño de forte intensidade pode influenciar diretamente a produção agrícola brasileira durante a safra 2026/27. As projeções climáticas indicam que o fenômeno tem potencial para atingir a classificação de “muito forte” entre setembro e novembro, período que coincide com o início do plantio de importantes culturas no país.

Embora a intensidade definitiva ainda dependa de novas análises, especialistas acompanham a evolução do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que pode alcançar cerca de 2°C acima da média histórica, cenário característico de um El Niño muito forte.

O alerta foi apresentado pelo pesquisador do Observatório de Bioeconomia da FGV Agro e professor da Fundação Getulio Vargas, Eduardo Assad, durante um encontro com jornalistas promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Segundo o pesquisador, a definição oficial sobre a intensidade do fenômeno deve ocorrer no fim de julho, mas os principais modelos climáticos internacionais apontam uma elevada probabilidade de fortalecimento nos próximos meses.

Impactos podem reduzir a produtividade agrícola

De acordo com Assad, episódios intensos de El Niño costumam provocar perdas importantes na produtividade das lavouras brasileiras.

Como referência, ele citou o ciclo 2024/25, quando os efeitos climáticos contribuíram para uma redução de até 10% na produção nacional, conforme dados da Conab. O pesquisador ressaltou que isso não representa perda total da safra, mas uma diminuição significativa no rendimento das culturas.

O período entre setembro e novembro concentra a maior preocupação dos especialistas, devido à combinação de temperaturas elevadas e irregularidade na distribuição das chuvas em diferentes regiões produtoras.

Soja, milho, café e laranja estão entre as culturas mais vulneráveis

Os impactos variam conforme a região do país. No Centro-Oeste e em parte da Região Norte, o calor intenso aliado ao déficit hídrico pode comprometer principalmente as lavouras de soja e milho.

No Sudeste, culturas permanentes como café e laranja aparecem entre as mais sensíveis às mudanças climáticas. A falta de água durante a florada, associada às altas temperaturas, pode provocar o abortamento das flores e reduzir significativamente o potencial produtivo.

Já na Região Sul, o cenário tende a ser diferente. A previsão é de excesso de chuvas acompanhado por temperaturas acima da média, condição que também pode causar prejuízos às lavouras.

Risco de replantio pode elevar os custos da safra

Outro fator de preocupação é o comportamento das chuvas durante o início do plantio da soja. O pesquisador da FGV Agro, Guilherme Soria Bastos Filho, explica que precipitações insuficientes ou concentradas em curtos períodos podem obrigar produtores a realizar o replantio das áreas cultivadas.

Além do aumento nos custos de produção, essa situação pode atrasar o calendário agrícola e comprometer a janela ideal para o cultivo do milho segunda safra, elevando os riscos para toda a cadeia de grãos.

O especialista lembra que situação semelhante ocorreu em 2023, quando aproximadamente três milhões de hectares de soja precisaram ser replantados.

Apesar das preocupações, Bastos destaca que os efeitos não serão uniformes em todo o território nacional. Em razão da dimensão continental do Brasil, algumas regiões podem registrar perdas, enquanto outras podem até apresentar ganhos de produtividade, reduzindo parte dos impactos nacionais.

Seguro rural e agricultura de baixo carbono ganham importância

Os pesquisadores defendem que o fortalecimento do seguro rural é uma das principais estratégias para reduzir os prejuízos financeiros causados por eventos climáticos extremos. No entanto, avaliam que a ferramenta ainda recebe investimentos abaixo do necessário dentro da política agrícola brasileira.

Outra medida considerada essencial é a ampliação das práticas de agricultura de baixo carbono, previstas no Plano ABC e incentivadas pelo Plano Safra.

Segundo Eduardo Assad, produtores que adotam tecnologias conservacionistas, como recuperação de áreas degradadas, sistemas integrados de produção, plantio de árvores e manejo sustentável do solo, apresentaram perdas significativamente menores durante eventos climáticos recentes.

Setor agrícola precisa ampliar capacidade de adaptação

Mesmo sem consenso científico de que as mudanças climáticas estejam aumentando a frequência do El Niño, os especialistas alertam que a intensificação dos eventos extremos exige maior capacidade de adaptação por parte da agropecuária brasileira.

A adoção de tecnologias sustentáveis, investimentos em gestão de riscos e planejamento climático são apontados como medidas fundamentais para aumentar a resiliência do setor diante dos desafios impostos pelo clima.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Divulgação Fundecitrus

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Agricultura

Brasil intensifica negociações para garantir fertilizantes e proteger a safra 2026/2027

O governo federal iniciou uma força-tarefa para assegurar o fornecimento de fertilizantes destinados à safra 2026/2027. Coordenada pela Casa Civil, a iniciativa envolve um comitê de crise e negociações diplomáticas com Rússia, China e Marrocos, principais fornecedores do insumo ao mercado brasileiro.

O objetivo é garantir o abastecimento de matérias-primas utilizadas na produção de fertilizantes fosfatados, mesmo que as aquisições ocorram pelos preços praticados no mercado internacional.

Dependência de importações preocupa o governo

A mobilização ocorre em meio ao cenário de instabilidade no mercado global e à elevada dependência brasileira de fornecedores externos.

Em 2025, o país consumiu 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes, das quais 45,5 milhões foram importadas. As compras no exterior movimentaram US$ 14,5 bilhões e responderam por cerca de 92% da demanda nacional. No ano anterior, essa participação chegou a 97%.

Outro fator de preocupação é o ritmo das aquisições para a próxima temporada agrícola. Segundo estimativas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), apenas entre 40% e 45% dos fertilizantes necessários para a safra 2026/2027 foram negociados até o momento.

Escassez de insumos pressiona a cadeia produtiva

Representantes da indústria alertaram o governo sobre a redução da oferta de fertilizantes fosfatados e de matérias-primas essenciais, como enxofre e ácido sulfúrico.

O Brasil depende quase totalmente da importação de enxofre, e as dificuldades de abastecimento já provocaram redução e até interrupção de atividades em unidades responsáveis pelo processamento desses insumos.

Nas tratativas internacionais, o governo avalia a capacidade de fornecimento dos países parceiros e estuda a assinatura de memorandos de entendimento para garantir suprimento em situações emergenciais.

Rússia, China e Marrocos estão no centro das negociações

Cada um dos principais parceiros comerciais apresenta características distintas para atender à demanda brasileira.

A Rússia segue com capacidade de produção, apesar dos impactos causados pela guerra sobre parte de suas instalações industriais.

O Marrocos também dispõe de potencial para ampliar o fornecimento, mas um projeto para formação de estoque estratégico em território brasileiro ainda depende da emissão de licença ambiental.

Já a China mantém negociações com o Brasil envolvendo questões tarifárias e é apontada por especialistas como a alternativa mais promissora para ampliar o abastecimento no curto prazo.

Segundo Bruno Fonseca, do Rabobank, a expectativa de um El Niño mais intenso tende a elevar a demanda por fertilizantes, enquanto as restrições financeiras enfrentadas pelos produtores podem limitar novas compras.

Produção nacional não acompanha crescimento da demanda

De acordo com a CNA, a vulnerabilidade brasileira decorre da diferença entre o avanço do consumo e a estagnação da produção doméstica.

Entre 2015 e 2025, as entregas de fertilizantes cresceram 63%, enquanto as importações avançaram 130%. No mesmo período, a produção nacional permaneceu praticamente estável, variando entre 7,2 milhões e 9,1 milhões de toneladas.

Em 2025, China, Rússia, Canadá, Marrocos e Egito responderam, juntos, por 69% das importações brasileiras de fertilizantes.

A dependência varia conforme o nutriente:

  • Potássio: 98%;
  • Nitrogênio: 93%;
  • Fósforo: 57%.

Entre eles, o potássio é considerado o principal ponto de vulnerabilidade por reunir elevada dependência externa e grande participação no consumo agrícola.

Crise do enxofre afeta produção brasileira

Mesmo dispondo de reservas de rocha fosfática em Minas Gerais e Goiás e da entrada em operação, em 2024, do Complexo Mineroindustrial de Serra do Salitre, da EuroChem, com capacidade para produzir 1 milhão de toneladas anuais de fertilizantes fosfatados, o setor enfrentou novos obstáculos em 2026.

A Mosaic encerrou definitivamente as operações em Araxá e Patrocínio e suspendeu temporariamente as atividades nas unidades de Tapira e Catalão em razão da crise global no mercado de enxofre, cujo preço acumulou alta superior a 1.100%.

Segundo a CNA, esse aumento foi provocado pelo desequilíbrio entre oferta e demanda, gargalos logísticos, redução da produção em países fornecedores e pela maior procura do insumo pelas indústrias de baterias para veículos elétricos e pelo setor industrial asiático.

Entidade defende medidas para reduzir dependência externa

Para diminuir a vulnerabilidade do país, a CNA propõe um conjunto de ações voltadas ao fortalecimento da produção nacional.

Entre as principais medidas estão a aprovação do projeto de lei Profert, o fortalecimento do Confert com a meta de atender 50% da demanda nacional até 2030, a criação de linhas de financiamento para armazenagem de fertilizantes, o incentivo ao uso de bioinsumos e a ampliação das pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio.

Na avaliação da entidade, ampliar a segurança no abastecimento de fertilizantes é uma estratégia essencial para preservar a competitividade do agronegócio brasileiro e garantir a segurança alimentar nos próximos anos.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Datamar News

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Agricultura

Fertilizantes no Brasil: dependência externa desafia agronegócio e coloca Petrobras diante de novo dilema

O Brasil, uma das maiores potências do agronegócio mundial, ainda enfrenta um desafio estratégico: a forte dependência de fertilizantes importados. No caso da ureia, principal fonte de nitrogênio utilizada nas lavouras, cerca de 80% do consumo nacional é abastecido por fornecedores internacionais, especialmente da Rússia, China e Oriente Médio.

As recentes crises geopolíticas, como a guerra na Ucrânia, além da volatilidade dos preços e dos custos logísticos, evidenciaram a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos. Nesse contexto, a decisão da Petrobras de retomar as obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas (MS), reacendeu o debate sobre a produção nacional e o futuro dos fertilizantes no país.

Retomada da UFN-III busca reduzir dependência de importações

Paralisada desde 2014, a UFN-III deverá receber investimentos superiores a R$ 5 bilhões, com apoio do Novo PAC. A expectativa da Petrobras é concluir a planta entre o fim de 2028 e o início de 2029.

Quando entrar em operação, a unidade terá capacidade para produzir 3.600 toneladas diárias de ureia e 2.200 toneladas de amônia, volume suficiente para atender aproximadamente 15% da demanda nacional de ureia.

Para o governo, o projeto representa um avanço na estratégia de fortalecimento da segurança alimentar e da soberania na produção de insumos agrícolas. Já para o setor produtivo, a retomada pode ampliar a oferta nacional, mas ainda há dúvidas sobre sua competitividade.

Preço do gás natural é principal obstáculo

Especialistas avaliam que o maior desafio da produção nacional não está na capacidade industrial, mas no custo da matéria-prima.

Segundo Marcelo Soto, head de Operações e Inteligência de Suprimentos da SCA, o gás natural responde por 60% a 80% do custo de fabricação da ureia. Enquanto grandes exportadores, como Rússia, Irã e Catar, trabalham com preços próximos de US$ 3 por milhão de BTUs, no Brasil esse valor pode chegar a US$ 15, comprometendo a competitividade da indústria nacional.

Mesmo com a localização estratégica da planta, próxima ao Gasbol, ainda não há garantia de que o custo do gás permitirá competir com os fertilizantes importados sem subsídios ou mudanças estruturais no mercado energético.

Agronegócio prioriza custo e flexibilidade

Além da concorrência com a ureia importada, a produção nacional também disputa espaço com outras fontes de nitrogênio, como o sulfato de amônio, amplamente importado da China, e o nitrato de amônio, fornecido principalmente pela Rússia.

Na prática, o produtor rural escolhe o fertilizante com base no menor custo disponível, independentemente da origem do produto.

Outro fator apontado por especialistas é a falta de regularidade histórica da produção nacional. Segundo Marcelo Soto, a Petrobras costuma operar de forma pontual, dificultando contratos de fornecimento de longo prazo e obrigando distribuidores e agricultores a manterem a dependência do mercado internacional.

Amônia verde entra no debate sobre o futuro dos fertilizantes

Embora a retomada da UFN-III seja considerada positiva sob o ponto de vista da segurança de abastecimento, o projeto também desperta questionamentos sobre sua atualização tecnológica.

A unidade foi concebida há cerca de 15 anos com base em processos convencionais de produção de amônia e ureia a partir do gás natural. Entretanto, diversos países já investem em tecnologias de baixo carbono, como a amônia verde, produzida por meio do hidrogênio verde.

Especialistas ouvidos pelo setor avaliam que adaptar a planta para esse novo modelo poderia aumentar sua competitividade no longo prazo, embora os custos atuais da tecnologia ainda sejam elevados.

Transição energética depende da redução dos custos

O presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), Luiz Viga, afirma que a produção de fertilizantes verdes representa uma alternativa estratégica para o Brasil.

Segundo ele, ao utilizar água e eletricidade renovável em vez de gás natural, o país pode aproveitar sua abundância de recursos energéticos para construir uma indústria mais competitiva no futuro.

No entanto, Viga alerta que o principal desafio não está na tecnologia, mas no custo da energia elétrica. Encargos setoriais e outros componentes tarifários ainda dificultam a viabilidade econômica dos projetos de hidrogênio verde.

Apesar disso, ele destaca que os custos internacionais vêm caindo rapidamente. Em mercados como China e Índia, projetos de amônia verde já apresentam valores significativamente inferiores aos registrados há poucos anos.

Brasil busca fortalecer produção nacional de fertilizantes

Programas federais de incentivo, como o Profert, também fazem parte da estratégia para ampliar a produção nacional e reduzir a dependência das importações.

A expectativa do setor é que os primeiros investimentos em fertilizantes produzidos com hidrogênio verde avancem até 2028, com unidades entrando em operação a partir de 2030. Para especialistas, a consolidação dessa tecnologia poderá transformar gradualmente o mercado brasileiro ao longo da próxima década.

Enquanto isso, a retomada da UFN-III representa um passo importante para ampliar a oferta nacional, mas especialistas ressaltam que sua efetividade dependerá de fatores como competitividade, custo do gás natural e evolução das tecnologias sustentáveis.

FONTE: NeoFeed
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/NeoFeed

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Agronegócio

Abertura de mercados amplia exportações do agronegócio brasileiro para 13 parceiros comerciais

O governo brasileiro concluiu uma série de negociações sanitárias e fitossanitárias que abrem caminho para a exportação de novos produtos do agronegócio brasileiro a 13 mercados internacionais. As autorizações envolvem países da América Latina, África e Eurásia, ampliando as oportunidades comerciais para diferentes segmentos da produção nacional.

Os novos acordos contemplam Argentina, Bolívia, El Salvador, Equador, Etiópia, Guiana, Honduras, Nicarágua, Nigéria, Paraguai, República Dominicana, Venezuela e os países que integram a União Econômica Euroasiática.

Produtos autorizados abrangem genética animal, sementes e alimentos

Entre os produtos que receberam autorização para exportação estão o sêmen de pacu-caranha destinado à Argentina, couro bovino salgado para a Bolívia e material genético bovino para El Salvador.

Também foram liberadas vendas de milho pipoca para Equador e República Dominicana, sementes de coco para a Guiana, mudas de cana-de-açúcar e material genético bovino para Honduras, além de sementes de pimenta habanero para a Nicarágua.

O Paraguai passará a receber sementes de mamona, enquanto a Venezuela autorizou a importação de sementes de maracujá produzidas no Brasil.

Mercado africano amplia oportunidades para produtos brasileiros

Na África, a Etiópia aprovou a entrada de farinhas e gorduras de pescado, produtos derivados de ruminantes e outros ingredientes utilizados na alimentação animal, além de hemoderivados destinados ao setor.

Já a Nigéria abriu seu mercado para a importação de ovos férteis, ampliando as oportunidades para a cadeia produtiva avícola brasileira.

União Econômica Euroasiática libera importação de castanha de caju

Outro destaque das negociações foi a abertura do mercado da União Econômica Euroasiática para a castanha de caju brasileira.

O bloco econômico reúne Rússia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão e Armênia e representa um importante destino para os produtos agropecuários nacionais. Somente no último ano, os países membros importaram mais de US$ 1,4 bilhão em mercadorias do setor, com destaque para soja, carnes e café.

Agronegócio acumula 639 novas aberturas de mercado desde 2023

Com as novas autorizações, o Brasil alcança a marca de 639 aberturas de mercado em 97 destinos internacionais desde o início de 2023.

O resultado reforça a estratégia de diversificação das exportações e ampliação da presença do agronegócio brasileiro em diferentes regiões do mundo, reduzindo barreiras comerciais e fortalecendo a competitividade dos produtos nacionais.

As conquistas são resultado da atuação conjunta do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE), responsáveis pelas negociações técnicas e diplomáticas que viabilizaram os novos acessos comerciais.

FONTE: Ministério da Agricultura e Pecuária
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/MAPA

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Internacional

China alcança recorde histórico na produção de grãos e supera 714 milhões de toneladas

A China registrou em 2025 a maior produção de grãos de sua história, alcançando 714,9 milhões de toneladas, segundo dados oficiais divulgados pelo governo. O volume representa um crescimento de 8,4 milhões de toneladas em relação ao ano anterior e consolida o país acima do patamar de 700 milhões de toneladas pelo segundo ano consecutivo.

Safra cresce apesar de desafios climáticos

De acordo com o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais, o desempenho foi alcançado mesmo diante de condições climáticas adversas, como secas, enchentes e períodos prolongados de chuvas em diferentes regiões do país. A resiliência da produção reforça a estratégia chinesa de fortalecer a segurança alimentar.

Colheitas de outono impulsionam crescimento

O vice-ministro da Agricultura, Zhang Xingwang, afirmou que as colheitas de outono foram responsáveis por mais de 90% da expansão anual. O crescimento da produção se concentrou principalmente nas províncias do nordeste da China, além da Mongólia Interior e de Xinjiang, que juntas responderam por cerca de 70% do avanço nacional.

Entre as culturas, o milho teve papel decisivo, contribuindo com aproximadamente 75% do aumento total da produção de grãos.

Soja e carnes mantêm trajetória de alta

No segmento de oleaginosas, a soja alcançou 20,91 milhões de toneladas, permanecendo acima da marca de 20 milhões pelo quarto ano consecutivo. Já a produção total de proteínas animais — incluindo carnes suína, bovina, ovina e de aves — avançou 4,2%, somando 100,72 milhões de toneladas.

Tecnologia impulsiona produtividade no campo

O governo chinês atribui parte relevante do desempenho ao avanço da tecnologia agrícola. A taxa de mecanização do plantio e da colheita chegou a 76,7%, enquanto a frota de drones agrícolas ultrapassou 300 mil unidades, cobrindo aproximadamente 30 milhões de hectares.

Esse progresso também se refletiu na renda rural, com aumento real de 6% no rendimento disponível per capita da população do campo.

Reformas agrárias estão no radar do governo

Para os próximos anos, o Ministério da Agricultura anunciou a aceleração de reformas estruturais, incluindo a ampliação de programas-piloto que estendem os contratos de terras rurais por mais 30 anos, medida considerada estratégica para dar previsibilidade aos produtores e sustentar o crescimento do setor.

FONTE: Agro Estadão
TEXTO: Redação
IMAGEM: Adobe Stock

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