Indústria

Seca na Europa: crise hídrica ameaça indústria e pode gerar prejuízo de € 180 bilhões

A seca na Europa já provoca impactos em setores essenciais da economia e pode gerar perdas de pelo menos € 50 bilhões no curto prazo, segundo estimativas citadas pelo Financial Times. Se a escassez de água persistir e os efeitos da onda de calor forem considerados em conjunto, o prejuízo econômico pode chegar a € 180 bilhões.

Os níveis excepcionalmente baixos de rios e reservatórios já afetam o transporte de cargas, a geração de energia, a agricultura e a produção industrial. Empresas de diferentes países passaram a adaptar suas operações diante da redução da disponibilidade de água.

Baixo nível do Reno encarece transporte de cargas

No porto de Roterdã, na Holanda, um dos principais centros logísticos da Europa, embarcações que utilizam o rio Reno precisam navegar com aproximadamente 30% da capacidade de carga.

A redução do peso é necessária para evitar encalhes em trechos onde a profundidade do rio diminuiu. A consequência é o aumento dos custos de transporte e a perda de eficiência nas cadeias de abastecimento.

Para compensar a menor capacidade de cada embarcação, operadores passaram a contratar cerca de 100 navios adicionais por semana. Mesmo com o reforço da frota, o volume transportado continua abaixo dos níveis habituais.

A autoridade portuária de Roterdã considera o episódio um dos mais relevantes enfrentados pelo setor nas últimas décadas. O cenário também evidencia a vulnerabilidade da logística europeia diante do avanço de eventos climáticos extremos.

Rios europeus atingem níveis historicamente baixos

A crise hídrica se espalha por diferentes regiões do continente. Rios importantes para o comércio, a indústria e a irrigação registram alguns dos menores níveis médios mensais já observados.

Entre os cursos d’água afetados estão o Reno, o Danúbio, o Pó, na Itália, o Ródano, que atravessa a Suíça e a França, e o Tâmisa, em Londres.

O Reno tem importância estratégica para o transporte de mercadorias e para a indústria alemã. Uma seca ocorrida em 2018, por exemplo, teria provocado uma redução de aproximadamente 0,4% no PIB da Alemanha — equivalente hoje a cerca de € 18 bilhões.

O episódio atual preocupa ainda mais porque os rios apresentam níveis inferiores aos registrados naquela ocasião e a estiagem começou mais cedo.

Estudos citados pelo Financial Times indicam que um mês de vazão reduzida pode diminuir em cerca de 25% o transporte fluvial e provocar uma queda próxima de 1% na produção industrial alemã.

Onda de calor agravou déficit hídrico

A Europa iniciou o ano em condições relativamente favoráveis, com níveis de umidade do solo e precipitação acima da média em fevereiro. A situação começou a mudar em abril e se agravou em maio, com a sucessão de ondas de calor.

Junho e julho registraram temperaturas recordes, aumentando a pressão sobre rios, reservatórios e solos. A perspectiva de poucas chuvas nas semanas seguintes mantém a preocupação com a continuidade da crise de água.

Energia também sofre com falta de água

O setor elétrico está entre os mais afetados pela estiagem. Usinas nucleares na França e na Hungria precisaram reduzir a produção devido à menor disponibilidade de água para os sistemas de resfriamento.

A geração hidrelétrica também enfrenta dificuldades em regiões atingidas pela seca.

Na Romênia, o governo chegou a recorrer a explosões subaquáticas controladas no leito do Danúbio para tentar direcionar água para a usina nuclear de Cernavodă. A medida não produziu o resultado esperado e a unidade também precisou reduzir suas atividades.

Agricultura enfrenta perdas e mudança de culturas

A agricultura europeia também sofre com a falta de água. No norte da Itália, uma das principais áreas produtoras de arroz do continente, agricultores relatam perdas totais em algumas lavouras porque a água destinada à irrigação não conseguiu chegar a determinadas áreas.

Na região do Vale do Pó, produtores afirmam que algumas propriedades perderam metade ou mais da produção.

A repetição de períodos prolongados de estiagem começa a provocar mudanças nas decisões dos agricultores. Parte deles avalia substituir o arroz por culturas menos dependentes de água, enquanto outros consideram deixar algumas áreas sem plantio.

Data centers entram no radar da crise hídrica

A escassez também representa um desafio para setores ligados à economia digital. Mais de um terço dos aproximadamente 3.000 data centers da Europa está localizado em regiões submetidas a níveis elevados ou extremos de estresse hídrico.

A disponibilidade de água é especialmente relevante para sistemas de resfriamento dessas instalações, aumentando a preocupação sobre a capacidade de expansão da infraestrutura tecnológica em determinadas áreas.

Seca pode pressionar inflação

Economistas também alertam para possíveis efeitos da crise sobre a inflação europeia.

A redução das colheitas tende a elevar os preços dos alimentos. Ao mesmo tempo, o encarecimento do transporte e eventuais restrições na geração de energia podem aumentar os custos para empresas e consumidores.

O resultado pode dificultar a recuperação econômica em um momento de maior pressão sobre diferentes setores produtivos.

Empresas aceleram adaptação ao novo cenário climático

Diante da perspectiva de períodos mais frequentes de calor e estiagem, empresas já começam a investir em medidas de adaptação. Entre as iniciativas estão embarcações preparadas para rios rasos, sistemas de monitoramento e alerta, tecnologias de redução do consumo de água e métodos de resfriamento menos dependentes do recurso.

Para especialistas, a seca deixou de ser apenas um problema temporário para se transformar em um risco estrutural para a economia europeia.

A capacidade de adaptar infraestrutura, agricultura, transporte e geração de energia será determinante para limitar os prejuízos provocados por futuras crises hídricas.

FONTE: Exame
TEXTO: Redação
IMAGEM: Getty Images

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