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Dilema dos Combustíveis no Comércio Exterior, Dólar Alto, Risco Fiscal, uma TEMPESTADE espera a Logística Brasileira 

A volatilidade cambial recente — marcada por disparadas expressivas na cotação do dólar, elevação dos juros futuros e uma severa reavaliação do risco-país pelos investidores — acendeu um sinal de alerta para toda a cadeia de suprimentos e o comércio exterior brasileiro. A desvalorização da moeda nacional, somada à desconfiança do mercado financeiro e à queda da Bolsa de Valores (B3), reflete o temor em relação à condução da política fiscal e aos gastos públicos no país.

Esse cenário macroeconômico adverso transborda rapidamente para a economia real, criando um ambiente de incertezas operacionais e contratuais que atinge importadores, exportadores, agentes de cargas e a logística nacional.

O Impacto Direto nas Pontas do Comércio Exterior

Quando a moeda americana dispara de forma repentina, os impactos se espalham de maneira desigual, mas prejudicial, por todos os elos da cadeia comercial:

Para os Importadores:

O aumento dos custos é generalizado. Além de o insumo ou produto estrangeiro custar mais, o frete internacional e os tributos de importação sobem na mesma proporção. Um fator de alto risco reside no fato de os impostos serem calculados com base na taxa de câmbio do dia do registro da Declaração Única de Importação (DUIMP), e não na data da compra. Assim, cargas em trânsito ou ainda não desembaraçadas sofrem um impacto imediato e inesperado.

Para os Exportadores:

Embora historicamente o setor seja visto como beneficiado pela conversão de receitas em dólar, o ganho real tem limites claros. A produção encarece devido ao aumento nos custos de insumos importados, fretes e linhas de crédito. Paralelamente, as altas taxas de juros pesam no financiamento da produção e nos Adiantamentos de Contratos de Câmbio (ACC).

Para os agentes de carga | NVOCC

Como intermediários, lidam diretamente com a volatilidade diária. Fretes, taxas portuárias e despesas de sobrestadia (demurrage) são contratados em dólar e faturados em reais. Sem cláusulas contratuais claras, o agente — que precisa quitar seus compromissos com os armadores em moeda estrangeira — corre o risco de absorver prejuízos severos e comprometer sua margem operacional.



A Equação Logística e o Subsídio dos Combustíveis

Se a pressão cambial por si só já desafia o setor, a situação ganha contornos ainda mais complexos com a questão dos combustíveis, pilar essencial da matriz de transportes do Brasil.

O petróleo e seus derivados são commodities negociadas globalmente em dólares. Com a desvalorização do real, o custo de importação dessas matérias-primas aumenta expressivamente, mesmo quando as cotações internacionais permanecem estáveis.


A Vulnerabilidade do Diesel e a Defasagem

O óleo diesel surge como o ponto mais crítico dessa equação. O Brasil é dependente de importações para suprir o consumo interno de diesel, o que deixa o abastecimento nacional totalmente exposto às oscilações externas.

Levantamentos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) evidenciam um cenário alarmante de defasagem de preços praticados pelas refinarias em relação ao mercado internacional:

Óleo Diesel: A defasagem média atingiu R$ 3,53 por litro (108%), mostrando que o preço de referência para importação chegou a mais que o dobro do valor praticado no mercado doméstico.

Gasolina: Registrou defasagem de R$ 0,58 por litro (19%), diferença que tende a se alargar com a valorização contínua do dólar.

A Intervenção Estatal e o Papel da Petrobras

Para conter o repasse imediato às bombas, o Governo Federal anunciou a renovação por mais 30 dias da subvenção de R$ 2,12 por litro do óleo diesel, financiada por receitas extraordinárias. Contudo, analistas de mercado alertam que subsidiar e segurar preços artificialmente gera ruídos fiscais — justamente o fator que retroalimenta a alta do dólar e a desconfiança na Bolsa de Valores.

Por sua vez, a Petrobras tem adotado uma estratégia comercial que suaviza oscilações de curto prazo sem repassar aumentos instantaneamente. Embora recursos como uso de estoques antigos, redução de margens e postergação de reajustes retardem o impacto final, existe um limite técnico e financeiro para essa contenção, sobretudo se a margem entre os preços internos e o custo de importação continuar excessivamente ampla.

Consequências para a Economia Real

Dado que a grande maioria das mercadorias brasileiras circula por meio do modal rodoviário, qualquer eventual reajuste represado no preço do diesel trará reflexos imediatos: Elevação nos custos do frete rodoviário em todo o território nacional; Pressão inflacionária direta nos preços de alimentos, insumos industriais e bens de consumo; Redução do poder de compra e encarecimento do custo de vida geral.

Estratégias Práticas para Manter a Estabilidade Operacional

Diante de um cenário de volatilidade prolongada, que só deve clarear após a consolidação de diretrizes fiscais,  gestão rigorosa de risco financeiro torna-se indispensável. Para mitigar perdas e garantir a continuidade dos negócios, sugere-se a adoção de práticas como a Revisão Rigorosa de Contratos e Cotações, mapeie em todas as cotações em aberto e contratos vigentes qual a taxa de câmbio aplicada, a data de referência e qual parte assume o risco de variação cambial. Alinhamentos financeiros devem ser feitos antes do faturamento para evitar disputas jurídicas.

Encurtamento da Validade das Propostas, propostas comerciais válidas por semanas tornam-se inviáveis em cenários de alta volatilidade. Agentes de carga e prestadores logísticos devem restringir a validade das cotações para prazos de 24 a 48 horas, visto que a qualquer hora tudo pode ser alterado.  Rigor na Concessão de Crédito, reavalie o perfil de crédito dos clientes operando com pagamentos faturados em reais. Linhas de crédito muito longas podem comprometer o fluxo de caixa caso o tomador enfrente dificuldades para honrar faturas reajustadas pelo dólar. Comunicação e Alinhamento com a Cadeia, mantenha um fluxo de comunicação transparente com armadores, despachantes e clientes. A agilidade na emissão de documentos e no fechamento de câmbio é crucial para travar taxas favoráveis e evitar custos adicionais.

Utilização de Travas Cambiais, quando possível, recorra a instrumentos de hedge financeiro — como contratos a termo (NDF) ou opções de câmbio — junto às instituições financeiras. Travar a taxa de câmbio para compromissos futuros de importação, fretes ou pagamentos em moeda estrangeira neutraliza surpresas repentinas e blinda o fluxo de caixa contra oscilações drásticas.

A combinação entre alta do dólar, incertezas fiscais e indefinição na precificação dos combustíveis forma um ambiente desafiador para a logística e o comércio exterior. Sobreviver a esse ciclo exige abandonar o automatismo operacional e adotar uma postura de planejamento financeiro rigoroso, agilidade decisória e gestão preventiva de riscos. 

Renata Palmeira é CEO do RêConecta News, executiva comercial e especialista em Logística, Comércio Exterior e Gestão de Pessoas. Com mais de 15 anos de experiência nos setores de vendas e logística, atua na gestão comercial, desenvolvimento de equipes e soluções logísticas integradas. Fundadora do portal RêConecta News, trabalha para ampliar a visibilidade e o posicionamento estratégico de empresas e profissionais de Comex e Logística, além de atuar como palestrante nas áreas de vendas, marketing e logística.

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