Importação

Preço do leite recua no Brasil com aumento da oferta e importações elevadas

O mercado do leite brasileiro enfrenta um cenário de pressão no fim de outubro de 2026. O aumento da produção nacional, a entrada de lácteos importados e a demanda interna ainda limitada têm enfraquecido as negociações entre indústrias e pressionado os preços de derivados, acendendo um alerta para os produtores rurais.

Levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) e do MilkPoint Mercado indicam que o movimento de baixa já aparece com maior intensidade nas negociações de leite cru e nos preços praticados no atacado. A preocupação do setor é que essa tendência chegue aos valores pagos aos pecuaristas nos próximos meses.

Embora o mercado apresente sinais de enfraquecimento, o último indicador consolidado de remuneração ao produtor ainda refletia relativa estabilidade. Em agosto, o preço líquido do leite captado, na Média Brasil do Cepea, ficou em R$ 2,8869 por litro, ante R$ 2,8761 em julho. Em junho, a média havia sido de R$ 2,7464 por litro.

Leite spot registra queda em todos os estados pesquisados

Na segunda quinzena de outubro, o preço do leite spot, referente às negociações de leite cru entre empresas do setor, recuou em todos os estados acompanhados pelo MilkPoint Mercado.

A cotação média caiu R$ 0,059 por litro em relação à quinzena anterior, chegando a R$ 2,586. Em Minas Gerais, a redução foi mais acentuada, de R$ 0,120, com o preço passando a R$ 2,589 por litro. Em Goiás, a média ficou em R$ 2,490, após recuo de R$ 0,040.

Apesar de a intensidade das quedas ter diminuído em comparação com a primeira metade do mês, o movimento continua indicando perda de sustentação do mercado.

A diferença entre os indicadores ajuda a explicar por que a pressão ainda não aparece integralmente na remuneração dos produtores. Enquanto o Cepea acompanha os valores recebidos pelo leite captado, as negociações no mercado spot refletem transações entre agentes da cadeia e podem antecipar mudanças nas condições comerciais.

Por isso, a evolução das cotações em outubro é acompanhada com atenção pelos pecuaristas, que temem novos ajustes negativos nos pagamentos realizados pelos laticínios.

Aumento da captação amplia a oferta de leite no país

A recuperação da produção brasileira está entre os principais fatores que explicam a pressão sobre os preços. O Índice de Captação de Leite (ICAP-L), calculado pelo Cepea, avançou 2,38% em julho, na comparação mensal, e registrou novo crescimento de 3,86% em agosto, frente ao mês anterior.

O movimento está relacionado à sazonalidade da produção, com destaque para a recuperação da oferta na região Sul. A chegada das chuvas em outras áreas produtoras também pode favorecer o desenvolvimento das pastagens e ampliar a disponibilidade de matéria-prima, dependendo das condições climáticas e do manejo das propriedades.

Com mais leite disponível, a indústria precisa ampliar o processamento e encontrar mercado para os produtos fabricados. O desafio é que a demanda doméstica não tem acompanhado o crescimento da oferta no mesmo ritmo.

Segundo o MilkPoint Mercado, o varejo mantém uma postura cautelosa, priorizando reposições pontuais e buscando condições comerciais mais favoráveis nas negociações com os laticínios.

Esse desequilíbrio entre produção e consumo limita a capacidade de recuperação dos preços e aumenta a pressão sobre os diferentes segmentos da cadeia láctea.

Leite UHT, muçarela e leite em pó também sofrem pressão

A desvalorização não se restringe ao leite cru. Os dados do Cepea mostram que os principais derivados comercializados no atacado paulista também registraram recuos.

Em setembro, na comparação com agosto, o leite UHT teve queda real de 4,76%, com preço próximo de R$ 4,69 por litro. A muçarela recuou 2,77%, para cerca de R$ 34,91 por quilo, enquanto o leite em pó fracionado caiu 4,38%, chegando a R$ 29,63 por quilo.

Na primeira quinzena de outubro, o movimento de baixa continuou. Até o dia 15, o leite UHT acumulava redução de 2,32%, com média de R$ 4,54 por litro. A muçarela registrava queda de 2,05%, com cotação de R$ 34,97 por quilo, conforme o levantamento do Cepea.

O MilkPoint Mercado também identificou enfraquecimento no preço da muçarela, que passou de R$ 31,60 para R$ 31,30 por quilo na referência acompanhada pela instituição.

Os resultados, porém, variam conforme o produto e a metodologia utilizada em cada pesquisa. No levantamento mais recente do MilkPoint Mercado, o leite em pó integral permaneceu estável em R$ 24,00 por quilo, enquanto o desnatado caiu para R$ 23,30. Já o leite em pó fracionado apresentou valorização, alcançando R$ 30,00 por quilo.

Os dados mostram que a tendência predominante é de enfraquecimento, mas não há queda uniforme em todas as categorias de lácteos.

Importações de lácteos reforçam a concorrência no mercado brasileiro

Além do aumento da produção nacional, o volume de importações de leite e derivados continua contribuindo para ampliar a oferta no país.

De acordo com dados do Cepea baseados nas informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil importou o equivalente a 249,6 milhões de litros de leite em setembro. O volume representa alta de 8,38% em relação a agosto e crescimento de 25,99% na comparação com setembro de 2025.

O leite em pó respondeu por aproximadamente 69,8% do total importado, enquanto os queijos representaram 29,6%.

A entrada desses produtos amplia as opções de abastecimento para o mercado interno e intensifica a concorrência enfrentada pela indústria brasileira. O efeito sobre os preços, entretanto, deve ser analisado em conjunto com a evolução da captação nacional, o consumo e a capacidade de escoamento dos derivados.

Assim, embora as importações contribuam para o cenário de maior disponibilidade, elas não explicam isoladamente o enfraquecimento das cotações.

Custos de produção sobem e preocupam os pecuaristas

A pressão sobre os preços ocorre em um momento de elevação das despesas da atividade leiteira. Segundo o Cepea, o Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária de leite aumentou 0,63% em agosto e avançou mais 0,46% em setembro.

Um dos principais pontos de atenção é a alimentação do rebanho. Em setembro, o grupo de concentrados registrou alta de 0,84%, refletindo o encarecimento de ingredientes utilizados na formulação das rações.

Entre os insumos que apresentaram valorização estão o milho, a soja em grão e o farelo de soja, componentes importantes da dieta dos animais em sistemas que utilizam suplementação concentrada.

A combinação de custos de produção em alta e preços do leite sob pressão pode reduzir as margens dos produtores, especialmente se a desvalorização do mercado spot chegar aos pagamentos pelo leite captado.

Relação de troca entre leite e milho piora em agosto

Outro indicador acompanhado pelo setor é a relação de troca entre leite e milho, que mostra quantos litros da matéria-prima são necessários para comprar uma saca de 60 quilos do cereal.

De acordo com o boletim de outubro do Cepea, foram necessários 23,19 litros de leite para adquirir uma saca de milho em agosto, ante 22,54 litros em julho.

Na prática, o resultado indica que o produtor precisou entregar mais leite para comprar a mesma quantidade de milho, evidenciando uma piora mensal no poder de compra.

Apesar disso, a relação ainda se encontrava em patamar mais favorável do que a média dos últimos 12 meses, estimada em aproximadamente 28 litros por saca.

O impacto sobre a rentabilidade varia de propriedade para propriedade. Fatores como produtividade do rebanho, eficiência alimentar, participação dos concentrados nos custos e condições de compra dos insumos influenciam o resultado econômico de cada sistema produtivo.

Por isso, os indicadores disponíveis apontam riscos para as margens, mas não permitem concluir que todos os produtores estejam enfrentando perdas generalizadas de rentabilidade.

Mercado internacional apresenta movimento diferente

Enquanto os preços brasileiros enfrentam dificuldades, o mercado internacional registrou valorização em um dos principais eventos de negociação de lácteos.

No 414º leilão da Global Dairy Trade (GDT), o índice geral avançou 2,5%, alcançando preço médio de US$ 4.021 por tonelada, segundo o MilkPoint Mercado.

O leite em pó integral subiu 4,4%, para US$ 3.760 por tonelada. Já o leite em pó desnatado registrou alta de 3,4%, com preço médio de US$ 3.975 por tonelada.

A valorização internacional contrasta com a pressão observada no mercado doméstico, mas não garante uma recuperação imediata dos preços no Brasil.

A transmissão dessas altas depende de fatores como a taxa de câmbio, os custos de importação, a competitividade dos produtos estrangeiros, a oferta nacional e o comportamento do consumo interno.

Dessa forma, o mercado brasileiro pode continuar pressionado mesmo diante de uma reação positiva nas cotações internacionais.

Clima pode influenciar os preços do leite até 2027

As condições meteorológicas também entram nas projeções para os próximos meses. Em seu boletim de outubro, o Cepea destaca que possíveis efeitos do fenômeno El Niño sobre o clima podem limitar a expansão da produção de leite mais adiante.

Caso as condições climáticas restrinjam o crescimento da oferta, o movimento poderá contribuir para reduzir a pressão sobre os preços. Essa possibilidade, contudo, ainda depende da evolução do clima e de seus efeitos efetivos sobre as regiões produtoras.

No curto prazo, a expectativa continua condicionada à combinação entre captação crescente, importações elevadas e dificuldades de comercialização de alguns derivados.

A demanda doméstica será outro fator decisivo para o equilíbrio do mercado. Uma melhora nas vendas de leite UHT, queijos e leite em pó poderá ajudar a indústria a escoar os estoques e diminuir a pressão nas negociações.

O que os produtores de leite devem acompanhar nos próximos meses?

A evolução dos preços pagos ao produtor será um dos principais indicadores para avaliar o alcance da desvalorização observada em outubro.

Também merecem atenção o ritmo de captação nacional, os volumes importados, o desempenho das vendas de derivados e a trajetória dos custos de alimentação do rebanho.

Se a oferta continuar crescendo acima da capacidade de absorção do mercado, as cotações poderão permanecer pressionadas. Por outro lado, uma recuperação do consumo, mudanças nas condições climáticas ou redução da disponibilidade de leite podem contribuir para melhorar o equilíbrio entre oferta e demanda.

Para os pecuaristas, o desafio será acompanhar esses movimentos e avaliar seus efeitos sobre os custos e as receitas de cada propriedade, especialmente diante da possibilidade de novos ajustes nos preços pagos pela indústria.

O comportamento desses indicadores ao longo dos próximos meses será determinante para definir se o setor seguirá enfrentando perda de sustentação ou encontrará condições para uma recuperação até o início de 2027.

FONTE: Notícias Agrícolas
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Notícias Agrícolas

Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook