Internacional

Crise no Estreito de Ormuz ameaça safras agrícolas e pode elevar preços dos alimentos

As restrições ao transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz já começam a afetar as colheitas agrícolas e podem reduzir a produtividade no campo, além de pressionar os preços dos alimentos em diferentes regiões do mundo. O alerta foi feito na quinta-feira por Álvaro Lario, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU).

Em entrevista à Reuters, Lario afirmou que os efeitos das interrupções na passagem marítima começam a se refletir na produção agrícola. Segundo ele, os impactos atingem diferentes etapas da cadeia de abastecimento, desde a aquisição de insumos até a colheita e o transporte dos produtos.

Interrupções no Estreito de Ormuz elevam custos agrícolas

A instabilidade no Estreito de Ormuz tem dificultado o transporte de fertilizantes e contribuído para o aumento dos custos de combustíveis e fretes. Esses fatores, combinados com os efeitos do fenômeno climático El Niño e as interrupções no fornecimento de trigo pelo Mar Negro, ampliam a pressão sobre a cadeia global de alimentos.

O estreito é uma rota estratégica para o comércio internacional de energia e outros produtos essenciais. A intensificação das restrições à navegação ocorre em meio às tensões entre Irã e Estados Unidos.

Teerã tem buscado ampliar o controle sobre a passagem marítima para pressionar Washington, que mantém um bloqueio naval aos portos iranianos.

Menor uso de fertilizantes pode reduzir produtividade no campo

De acordo com o presidente do FIDA, os estoques disponíveis de fertilizantes e combustíveis ajudaram a amortecer os efeitos iniciais da crise. No entanto, a continuidade das incertezas tem levado agricultores a adotar decisões mais cautelosas para os próximos plantios.

Entre as consequências está a redução do uso de fertilizantes agrícolas, medida que pode comprometer o rendimento das lavouras. O encarecimento dos combustíveis também afeta as operações mecanizadas, incluindo a colheita.

A combinação desses fatores aumenta o risco de queda na produção e pode agravar as pressões sobre a oferta mundial de alimentos nos próximos meses.

Preços das commodities agrícolas sobem 13%

Os preços das commodities agrícolas registraram alta de 13% no terceiro trimestre, segundo Lario. A expectativa apresentada pelo dirigente é de novos aumentos no quarto trimestre deste ano e no primeiro trimestre do próximo ano.

O avanço dos custos de produção e transporte pode chegar ao consumidor por meio de alimentos mais caros, especialmente em mercados que dependem de importações para abastecer a população.

Países com forte dependência externa de fertilizantes, combustíveis e alimentos estão entre os mais expostos aos efeitos da crise.

Lario destacou a vulnerabilidade do Sudeste Asiático diante da dependência de combustíveis importados e chamou a atenção para os países do Golfo, que recorrem ao mercado internacional para garantir parte significativa de seu abastecimento alimentar.

Impasse entre Estados Unidos e Irã ameaça segurança alimentar

A crise também levanta preocupações sobre a segurança alimentar na Ásia e na África. Na quarta-feira, um funcionário envolvido em uma proposta de operação apoiada pela ONU para transportar fertilizantes pelo Estreito de Ormuz alertou à Reuters que a falta de um acordo entre Estados Unidos e Irã nas próximas semanas pode desencadear uma crise alimentar em partes desses continentes.

A iniciativa busca viabilizar o fluxo de fertilizantes pela rota marítima, mas seu avanço depende de entendimentos entre os países envolvidos.

Sem uma solução para as restrições logísticas, os custos dos insumos podem continuar elevados, dificultando o acesso de agricultores a produtos essenciais para manter a produção.

Pequenos agricultores podem mudar o tipo de cultivo

Além dos impactos sobre os custos e a produtividade, a instabilidade pode alterar as decisões de plantio de pequenos produtores rurais.

Segundo Lario, diante da incerteza e da necessidade de preservar o fluxo de caixa, agricultores podem abandonar culturas de maior valor agregado que exigem mais tempo para gerar receita.

Em contrapartida, a tendência é que parte desses produtores priorize lavouras com retorno financeiro mais rápido, mesmo que ofereçam menor rentabilidade potencial no longo prazo.

A mudança pode afetar a diversidade da produção agrícola e aumentar os desafios para o abastecimento mundial. Caso as restrições ao transporte marítimo persistam, a combinação de insumos mais caros, menor uso de fertilizantes e alterações nos padrões de plantio poderá intensificar a pressão sobre os preços dos alimentos.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Tita Barros

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