Economia

Inflação global dos alimentos deve acelerar e pressionar consumidores até 2027

A combinação de conflitos armados, dificuldades no transporte marítimo e eventos climáticos extremos deve intensificar a inflação global dos alimentos nos próximos meses, com efeitos que podem se estender ao longo de 2027. A redução da oferta de grãos e o aumento dos custos de produção ameaçam encarecer produtos básicos, especialmente em países de baixa e média renda.

Na Indonésia, a alta dos alimentos já obriga famílias a reduzir o consumo. Muhamad Yasin, de 63 anos, trabalha como vigia de estacionamento em Jacarta e afirma que o valor necessário para comprar arroz, tempeh e tofu praticamente dobrou. O conjunto de produtos, que antes custava entre 7 mil e 8 mil rúpias indonésias, passou a custar cerca de 15 mil rúpias.

Pai de quatro filhos, Yasin recebe entre 200 mil e 300 mil rúpias por semana e relata dificuldades para manter a alimentação da família diante do avanço dos preços.

Conflitos e fenômenos climáticos pressionam os preços dos alimentos

As interrupções nas rotas comerciais e a possibilidade de uma nova fase de seca associada ao fenômeno El Niño estão aumentando as preocupações com o abastecimento mundial de cereais. O cenário afeta tanto a produção agrícola quanto a distribuição internacional de mercadorias.

Na Indonésia, o preço do arroz atingiu níveis recordes em meio às previsões de atraso nas chuvas. No Egito, o pão sem subsídio ficou cerca de 25% mais caro, enquanto, na Índia, o açúcar alcançou sua maior cotação histórica diante da redução da produção provocada por uma das monções mais fracas em mais de uma década.

Para Maximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a combinação desses fatores aumenta a pressão sobre o sistema alimentar. Segundo ele, os efeitos mais expressivos devem aparecer no fim de 2026, ganhar força no início de 2027 e possivelmente continuar durante o próximo ano.

Países mais pobres sentem os efeitos da inflação alimentar

O aumento dos preços atinge com maior intensidade as populações vulneráveis do Oriente Médio, do Norte da África e da Ásia. Nessas regiões, os alimentos representam uma parcela significativa das despesas familiares, reduzindo a capacidade de absorver novos aumentos.

Dados do Banco Mundial mostram que, no terceiro trimestre, os preços dos alimentos cresceram acima da inflação geral em 22% dos 150 países analisados. No trimestre anterior, essa situação havia sido registrada em 14% das economias avaliadas.

Outro indicador reforça a tendência. O Índice de Preços dos Alimentos da FAO, que acompanha a variação mensal de uma cesta de commodities comercializadas internacionalmente, atingiu 136 pontos em setembro, o maior resultado desde novembro de 2022.

A continuidade da alta também aumenta o risco de tensões sociais. Além disso, governos de países exportadores podem recorrer a restrições às vendas externas para proteger seus mercados internos, uma medida que poderia agravar a escassez internacional.

Guerra encarece transporte, combustíveis e fertilizantes

As dificuldades no abastecimento mundial resultam de vários fatores simultâneos. Ataques contra estruturas de transporte de grãos no Mar Negro prejudicaram embarques de trigo, levando grandes importadores, como Egito e Indonésia, a procurar fornecedores alternativos.

A insegurança no Mar Vermelho também tem provocado mudanças nas rotas marítimas. Parte das embarcações passou a contornar a África, aumentando o tempo de viagem e os custos de transporte.

Outro ponto de pressão é a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O conflito elevou os preços dos combustíveis e afetou as exportações de fertilizantes pelo Estreito de Ormuz, encarecendo os insumos utilizados na agricultura.

Ao mesmo tempo, a perspectiva de condições mais secas associadas ao El Niño ameaça reduzir a produção agrícola na Índia e no Sudeste Asiático, ampliando o risco de desequilíbrio entre oferta e demanda.

Trigo, arroz e fertilizantes registram aumentos

A pressão sobre os custos já aparece em diferentes mercados agrícolas. Em 2026, os preços do trigo acumulam alta superior a 30%. O arroz comercializado pelos principais países exportadores asiáticos também ficou entre 10% e 13% mais caro, apesar dos estoques elevados.

Os fertilizantes recuaram em relação aos picos registrados anteriormente durante a guerra envolvendo o Irã, mas continuam em patamares elevados, mantendo os custos agrícolas sob pressão.

Manish Tiwary, presidente e diretor-geral da Nestlé Índia, também reconheceu o cenário desafiador, citando a inflação e o encarecimento das commodities como fatores que afetam o setor de alimentos.

Óleo de cozinha, açúcar e outros itens também ficam mais caros

Os aumentos não se restringem aos cereais. No Egito, o pão vendido sem subsídio passou de aproximadamente 4 libras egípcias por unidade em julho para cerca de 5 libras. Nos Emirados Árabes Unidos, o óleo de cozinha ficou cerca de 40% mais caro.

Na Indonésia, o óleo vegetal acumula alta de 7% em 2026, mesmo com o país ocupando a posição de maior produtor mundial de óleo de palma.

Na Índia, os preços do açúcar, da cebola e das leguminosas subiram mais de 10% em setembro na comparação com agosto, em consequência de déficits na produção.

A combinação de custos agrícolas elevados, restrições logísticas e perdas de produção indica que a inflação dos alimentos poderá continuar pressionando o orçamento das famílias nos próximos meses. Para os consumidores de menor renda, a tendência representa um risco adicional à segurança alimentar, sobretudo se os choques de oferta persistirem até 2027.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM:  REUTERS/Amr Abdallah Dalsh

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Internacional

Crise no Estreito de Ormuz ameaça safras agrícolas e pode elevar preços dos alimentos

As restrições ao transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz já começam a afetar as colheitas agrícolas e podem reduzir a produtividade no campo, além de pressionar os preços dos alimentos em diferentes regiões do mundo. O alerta foi feito na quinta-feira por Álvaro Lario, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU).

Em entrevista à Reuters, Lario afirmou que os efeitos das interrupções na passagem marítima começam a se refletir na produção agrícola. Segundo ele, os impactos atingem diferentes etapas da cadeia de abastecimento, desde a aquisição de insumos até a colheita e o transporte dos produtos.

Interrupções no Estreito de Ormuz elevam custos agrícolas

A instabilidade no Estreito de Ormuz tem dificultado o transporte de fertilizantes e contribuído para o aumento dos custos de combustíveis e fretes. Esses fatores, combinados com os efeitos do fenômeno climático El Niño e as interrupções no fornecimento de trigo pelo Mar Negro, ampliam a pressão sobre a cadeia global de alimentos.

O estreito é uma rota estratégica para o comércio internacional de energia e outros produtos essenciais. A intensificação das restrições à navegação ocorre em meio às tensões entre Irã e Estados Unidos.

Teerã tem buscado ampliar o controle sobre a passagem marítima para pressionar Washington, que mantém um bloqueio naval aos portos iranianos.

Menor uso de fertilizantes pode reduzir produtividade no campo

De acordo com o presidente do FIDA, os estoques disponíveis de fertilizantes e combustíveis ajudaram a amortecer os efeitos iniciais da crise. No entanto, a continuidade das incertezas tem levado agricultores a adotar decisões mais cautelosas para os próximos plantios.

Entre as consequências está a redução do uso de fertilizantes agrícolas, medida que pode comprometer o rendimento das lavouras. O encarecimento dos combustíveis também afeta as operações mecanizadas, incluindo a colheita.

A combinação desses fatores aumenta o risco de queda na produção e pode agravar as pressões sobre a oferta mundial de alimentos nos próximos meses.

Preços das commodities agrícolas sobem 13%

Os preços das commodities agrícolas registraram alta de 13% no terceiro trimestre, segundo Lario. A expectativa apresentada pelo dirigente é de novos aumentos no quarto trimestre deste ano e no primeiro trimestre do próximo ano.

O avanço dos custos de produção e transporte pode chegar ao consumidor por meio de alimentos mais caros, especialmente em mercados que dependem de importações para abastecer a população.

Países com forte dependência externa de fertilizantes, combustíveis e alimentos estão entre os mais expostos aos efeitos da crise.

Lario destacou a vulnerabilidade do Sudeste Asiático diante da dependência de combustíveis importados e chamou a atenção para os países do Golfo, que recorrem ao mercado internacional para garantir parte significativa de seu abastecimento alimentar.

Impasse entre Estados Unidos e Irã ameaça segurança alimentar

A crise também levanta preocupações sobre a segurança alimentar na Ásia e na África. Na quarta-feira, um funcionário envolvido em uma proposta de operação apoiada pela ONU para transportar fertilizantes pelo Estreito de Ormuz alertou à Reuters que a falta de um acordo entre Estados Unidos e Irã nas próximas semanas pode desencadear uma crise alimentar em partes desses continentes.

A iniciativa busca viabilizar o fluxo de fertilizantes pela rota marítima, mas seu avanço depende de entendimentos entre os países envolvidos.

Sem uma solução para as restrições logísticas, os custos dos insumos podem continuar elevados, dificultando o acesso de agricultores a produtos essenciais para manter a produção.

Pequenos agricultores podem mudar o tipo de cultivo

Além dos impactos sobre os custos e a produtividade, a instabilidade pode alterar as decisões de plantio de pequenos produtores rurais.

Segundo Lario, diante da incerteza e da necessidade de preservar o fluxo de caixa, agricultores podem abandonar culturas de maior valor agregado que exigem mais tempo para gerar receita.

Em contrapartida, a tendência é que parte desses produtores priorize lavouras com retorno financeiro mais rápido, mesmo que ofereçam menor rentabilidade potencial no longo prazo.

A mudança pode afetar a diversidade da produção agrícola e aumentar os desafios para o abastecimento mundial. Caso as restrições ao transporte marítimo persistam, a combinação de insumos mais caros, menor uso de fertilizantes e alterações nos padrões de plantio poderá intensificar a pressão sobre os preços dos alimentos.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Tita Barros

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Agricultura

Reforma tributária muda cálculo para compra de insumos no campo a partir de 2027

A reforma tributária deve mudar a forma como produtores rurais avaliam a compra de insumos a partir de 2027. Com o início de uma nova etapa da transição, a entrada da CBS e o fim do PIS e da Cofins tornam mais relevante a análise do tratamento tributário aplicado a cada operação.

Enquanto isso, o IBS substituirá gradualmente o ICMS e o ISS até 2033. Na prática, o produtor precisará considerar mais do que o preço apresentado pelo fornecedor para identificar o custo efetivo de uma aquisição.

Isso ocorre porque o novo sistema prevê mecanismos de créditos tributários. Dependendo da operação, um produto com preço maior pode representar um custo econômico menor após a consideração dos créditos. No setor agropecuário, porém, essa avaliação exige atenção porque diferentes insumos terão tratamentos específicos e algumas operações poderão envolver diferimento.

Preço do produto não será o único fator de decisão

A Lei Complementar nº 214/2025 criou o IBS e a CBS e estabeleceu regras para a utilização de créditos no novo sistema tributário. A transição começou em 2026, com a extinção do PIS e da Cofins prevista para 2027, enquanto a substituição dos atuais tributos sobre o consumo ocorrerá gradualmente até 2033.

Com a mudança, a análise de uma compra deverá considerar fatores como preço, tributação, regime do fornecedor e possibilidade de aproveitamento de créditos.

A documentação fiscal também ganha importância. A Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS trabalham na adaptação dos documentos fiscais eletrônicos às novas regras, o que exigirá ajustes de sistemas e procedimentos por parte das empresas e produtores.

Crédito tributário pode alterar comparação entre fornecedores

Uma situação hipotética ajuda a demonstrar o funcionamento dessa lógica.

Imagine que um fornecedor ofereça determinado produto por R$ 110 mil, com possibilidade de gerar R$ 10 mil em crédito tributário. Outro apresenta preço de R$ 104 mil, mas permite apenas R$ 2 mil de crédito.

Considerando apenas o valor da nota, a segunda proposta seria mais barata. Depois da consideração dos créditos, porém, os custos econômicos seriam de R$ 100 mil e R$ 102 mil, respectivamente.

Os valores são meramente ilustrativos e não representam necessariamente o tratamento de uma operação específica. O exemplo mostra, contudo, por que preço, tributos e créditos precisarão ser avaliados conjuntamente.

O crédito, entretanto, não estará necessariamente disponível em todas as situações nem poderá ser utilizado de forma imediata. Por isso, as regras específicas aplicáveis aos produtos e às operações do setor rural serão determinantes.

Insumos agropecuários terão tratamento específico

A legislação prevê redução de 60% nas alíquotas do IBS e da CBS para determinados insumos agropecuários e aquícolas listados no Anexo IX da Lei Complementar nº 214.

Entre os produtos abrangidos estão fertilizantes, biofertilizantes, corretivos de solo, remineralizadores, substratos e determinados bioinsumos, desde que atendidas as classificações e demais exigências previstas na legislação.

A redução não se aplica indistintamente a qualquer produto comercializado para produtores rurais. O benefício depende do enquadramento da mercadoria nas classificações estabelecidas e, nos casos previstos, do respectivo registro como insumo agropecuário ou aquícola.

Também existem operações que estarão sujeitas ao diferimento do IBS e da CBS. Nessa modalidade, o recolhimento do tributo é transferido para uma etapa posterior da cadeia, o que pode modificar a análise dos créditos e do custo tributário da compra.

Regime tributário do fornecedor ganha importância

O enquadramento fiscal da empresa que vende o produto ou presta o serviço também deverá entrar na análise.

As regras do Simples Nacional estão sendo adaptadas para incorporar o IBS e a CBS. Em agosto de 2026, o Comitê Gestor do Simples Nacional aprovou alterações relacionadas à adequação do regime à reforma tributária.

Para produtores e demais compradores submetidos ao regime regular, isso significa que fornecedores enquadrados em regimes diferentes poderão produzir efeitos tributários distintos.

Assim, a área responsável pelas compras terá de considerar não apenas descontos e condições comerciais. O regime tributário do fornecedor, a tributação do produto, a existência de diferimento e o crédito efetivamente aproveitável também poderão influenciar a decisão.

Produtor rural pessoa física terá novas exigências

A reforma também terá reflexos para determinados produtores rurais pessoas físicas.

O governo prorrogou para 1º de janeiro de 2027 a obrigatoriedade de inscrição no CNPJ e de emissão dos documentos fiscais previstos na regulamentação da CBS para a pessoa física que se enquadrar nas hipóteses estabelecidas, incluindo o produtor rural pessoa física mencionado na regulamentação.

Até 31 de dezembro de 2026, permanecem os mecanismos atuais de identificação fiscal nas situações abrangidas.

A prorrogação amplia o prazo para que produtores rurais, contadores e fornecedores adaptem seus sistemas e procedimentos. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de organização fiscal dentro das propriedades.

Cadastro de produtos e fornecedores exige revisão

A preparação para a nova sistemática passa pela revisão do cadastro de produtos e fornecedores.

Cada item utilizado na atividade rural deverá ser analisado de acordo com sua classificação fiscal e com o tratamento tributário previsto na reforma. Também será necessário acompanhar as alterações nos documentos fiscais eletrônicos.

Uma documentação emitida de forma inadequada pode prejudicar o aproveitamento do tratamento tributário previsto para determinada operação.

Por isso, a gestão das compras tende a incorporar novos critérios. Na aquisição de um lote de fertilizantes, por exemplo, o produtor deverá avaliar não apenas o valor negociado, mas também frete, condições de pagamento, qualidade, prazo de entrega, regime tributário do fornecedor, tributação aplicável e eventual crédito.

A mesma lógica poderá ser aplicada à contratação de serviços, aquisição de máquinas e compra de outros itens necessários à produção.

Gestão de custos ganha nova dimensão

A chegada da CBS e a implantação gradual do IBS tornam a gestão tributária no agronegócio um componente ainda mais relevante das decisões de compra.

Na prática, o produtor precisará substituir comparações baseadas exclusivamente no preço bruto por uma análise mais ampla do custo da operação. A capacidade de identificar corretamente os créditos e os tratamentos previstos para cada produto poderá interferir no resultado econômico das aquisições.

Com a continuidade da transição até 2033, a tendência é de que fornecedores, produtores e profissionais responsáveis pela gestão das propriedades precisem adaptar processos, sistemas e controles para acompanhar as novas regras.

FONTE: Seu Crédito Digital
TEXTO: Redação
IMAGEM: Gerada por IA

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