Economia

Ibovespa tem pior semana desde maio e devolve quase toda a alta de 2026

O Ibovespa encerrou a semana com a maior queda desde maio, voltou ao menor patamar desde janeiro e praticamente apagou os ganhos acumulados em 2026. O movimento reforçou a piora do humor dos investidores em agosto, período tradicionalmente associado à volatilidade no mercado financeiro.

Bolsa perde força em agosto

O principal índice da B3 caiu 3,2% na semana e já acumula baixa de 6,2% em agosto. Com isso, terminou o período aos 166.934 pontos.

A diferença em relação ao pico registrado em abril mostra a dimensão da mudança no cenário. Em 14 de abril, o Ibovespa atingiu o recorde de 198.657 pontos e acumulava valorização de 23% no ano. Agora, a alta de 2026 foi reduzida a apenas 3,6%.

Foi a segunda semana consecutiva de perdas em agosto. Ao mesmo tempo, outros indicadores passaram a sinalizar maior aversão ao risco: houve continuidade da saída de capital estrangeiro da B3, o dólar avançou quase 3% e os juros futuros de longo prazo voltaram a subir.

Para Augusto Parente, especialista em investimentos e fundador da AW Capital, parte da correção está relacionada justamente ao movimento que levou a bolsa ao recorde.

Segundo ele, a entrada expressiva de recursos estrangeiros ajudou a impulsionar o índice até próximo dos 200 mil pontos. Com a valorização, porém, esses investidores passaram a aproveitar o momento para realizar lucros.

O ambiente doméstico também contribui para aumentar a cautela, especialmente diante da aproximação das eleições.

Investidores estrangeiros reduzem exposição

No auge da valorização em abril, os investidores estrangeiros acumulavam R$ 56,5 bilhões em entradas líquidas na B3. Desde então, mais de R$ 33 bilhões já deixaram o mercado, reduzindo o saldo positivo do ano para R$ 22,8 bilhões — uma queda de quase 60%.

Somente em agosto, as retiradas ultrapassaram R$ 13,5 bilhões.

O impacto é relevante porque os investidores estrangeiros concentram boa parte das posições em ações de maior liquidez. A redução dessas posições, portanto, tende a aumentar a pressão sobre os papéis com maior participação no Ibovespa.

Parente afirma que as vendas têm se concentrado principalmente nos setores financeiro e elétrico, justamente segmentos que haviam recebido forte demanda no início do ano.

Além do Brasil, o cenário internacional também disputa a preferência dos investidores. As bolsas americanas seguem atraindo recursos em meio ao entusiasmo com empresas ligadas à inteligência artificial e aos recordes recentes de Wall Street.

No mercado brasileiro, por outro lado, os juros elevados, as preocupações com o cenário fiscal e a proximidade da eleição presidencial aumentam as incertezas para os próximos meses.

A atenção não está apenas na disputa eleitoral, mas também nas possíveis medidas econômicas do próximo governo. Questões como gastos públicos, trajetória da dívida e equilíbrio das contas públicas voltam a influenciar as decisões dos investidores.

Um relatório recente do J.P. Morgan também destacou o histórico de desempenho negativo das ações brasileiras nos meses que antecedem eleições.

Maioria das ações fecha a semana no vermelho

A deterioração do ambiente se espalhou por grande parte da carteira do índice.

Das 78 ações que compõem o Ibovespa, 63 terminaram a semana em queda. No acumulado de 2026, 70 papéis apresentam perdas.

O movimento de aversão ao risco também apareceu no mercado de renda fixa, especialmente nos contratos de prazos mais longos.

Juros futuros sobem com dúvidas fiscais

Quando aumentam as incertezas relacionadas à política econômica e às contas públicas, os investidores tendem a exigir uma remuneração maior para financiar o governo por períodos mais longos.

Na sexta-feira, o contrato de DI para janeiro de 2028 passou de 13,93% para 14,07%. Já o vencimento de janeiro de 2031 avançou de 14,51% para 14,73%.

A alta dos contratos mais longos é particularmente relevante porque essa parte da curva de juros costuma refletir expectativas sobre a situação fiscal e econômica dos próximos anos.

O movimento ocorre em meio à discussão sobre os próximos passos do Banco Central e a possibilidade de redução da Selic em setembro.

Na reunião mais recente, o Copom não definiu antecipadamente sua decisão para o próximo encontro. O comitê manteve abertas as possibilidades de um novo corte ou de manutenção da taxa básica em 14%.

Mesmo após a divulgação da ata, que apontou riscos de alta para a inflação, o mercado ainda trabalhava com a possibilidade de uma redução de 0,25 ponto percentual.

Com a valorização do dólar, a elevação dos juros futuros e o aumento das incertezas domésticas, porém, as apostas começam a migrar gradualmente para um cenário de manutenção da Selic.

Dólar dispara e supera R$ 5,20

A pressão sobre os ativos brasileiros também atingiu o real.

O dólar à vista subiu 2,7% na semana e ultrapassou R$ 5,20, registrando a segunda maior valorização semanal da moeda americana em 2026.

A combinação de menor fluxo estrangeiro para a B3, preocupações fiscais e um ambiente internacional ainda marcado por juros elevados reduziu parte da força que o real vinha apresentando ao longo do ano.

É hora de comprar ações?

Com a forte correção da bolsa, investidores passam a avaliar se a queda representa uma oportunidade de entrada ou se ainda é necessário esperar por um cenário mais favorável.

Para Parente, o momento não significa necessariamente abandonar a renda variável, mas exige maior prudência.

“Eu sempre gosto de dizer que tem espaço para ter ações em carteira, porém, afirmo que o momento pede cautela. Ter liquidez para aproveitar os movimentos e as oportunidades pode ser um trunfo para os próximos meses”, afirma.

Agosto ainda tem duas semanas pela frente, mas o desempenho recente do mercado de ações brasileiro já transformou o mês em um período de forte atenção para os investidores.

FONTE: Valor Investe
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Money Times

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