Tecnologia

Falha crítica no PHP descoberta por inteligência artificial tira sites governamentais do ar

Uma falha de segurança no PHP, identificada com auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), levou governos e organizações de diferentes países a retirar sites e serviços digitais do ar nesta quarta-feira. A medida preventiva foi adotada após a divulgação de correções para vulnerabilidades críticas que permaneceram ocultas no código da linguagem por anos.

Os desenvolvedores do PHP publicaram atualizações emergenciais e recomendaram que todos os usuários instalem as novas versões imediatamente. Empresas de segurança cibernética também alertaram para indícios de que invasores já estariam explorando as brechas, aumentando a urgência da atualização dos sistemas.

Com os detalhes das vulnerabilidades e as correções disponíveis publicamente, especialistas temem uma corrida de criminosos virtuais para identificar servidores desprotegidos antes que os responsáveis consigam aplicar os reparos.

Vulnerabilidade no PHP coloca milhões de servidores em risco

Utilizado na construção e no funcionamento de sites, o PHP é uma linguagem de programação criada no início da década de 1990 e presente em uma parcela significativa da internet. A tecnologia integra plataformas populares, como WordPress, Drupal, Joomla e Magento.

Segundo Tiffany Farriss, diretora-executiva interina da Drupal Association, o problema afeta uma ampla quantidade de servidores que utilizam versões do PHP lançadas nas últimas duas décadas.

Dados da empresa de inteligência de internet Censys indicam que aproximadamente 1,5 milhão de um total de 2,6 milhões de hosts identificados executavam versões da linguagem para as quais ainda não havia correção disponível no momento do levantamento.

A dimensão do problema preocupa especialistas em segurança digital, já que servidores vulneráveis podem ser comprometidos caso permaneçam sem proteção. O pesquisador Costin Raiu, cofundador da empresa de resposta a incidentes TLP:Black, descreveu o cenário como uma corrida para explorar as falhas, com risco de invasões em larga escala.

Inteligência artificial ajudou a identificar falhas antigas

Duas empresas de cibersegurança, Calif e Wiz, afirmaram ter identificado as vulnerabilidades com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

A Calif informou que encontrou as falhas em 1º de agosto, utilizando um modelo de linguagem de grande porte, e que trabalhou desde então no desenvolvimento de uma solução.

Já a Wiz, empresa de segurança cibernética pertencente à Alphabet, controladora do Google, relatou o uso de sua ferramenta autônoma de pesquisa de vulnerabilidades, a Wiz Atlas, além de modelos de IA citados em seu relatório, incluindo tecnologias do Google e da OpenAI.

De acordo com a Wiz, as falhas permaneceram escondidas no código do PHP por mais de uma década. A empresa destacou que a identificação e a exploração desse tipo de problema exigiriam um trabalho técnico complexo sem o auxílio da inteligência artificial.

Com essas ferramentas, porém, tarefas que antes demandavam conhecimentos especializados e muito tempo podem ser realizadas com maior rapidez e em escala. As empresas disseram ter coordenado a descoberta com as equipes responsáveis pelo PHP e com a OpenAI.

A Casa Branca informou que foi comunicada sobre a vulnerabilidade na sexta-feira. Em declaração, o governo norte-americano afirmou que o caso demonstra a importância da inovação tecnológica para o fortalecimento da segurança nacional.

Países retiram sites do ar para evitar ataques

A divulgação das falhas provocou interrupções preventivas em serviços digitais de diferentes países europeus. Autoridades de segurança recomendaram a instalação das atualizações ou, quando isso não fosse possível, a suspensão temporária dos sites afetados.

Na Holanda, a própria agência nacional de segurança cibernética retirou seus serviços do ar preventivamente. A medida também atingiu o portal governamental Overheid.nl, o Porto de Roterdã, a associação nacional de futebol KNVB, páginas dos cinco maiores partidos políticos do país e sites de hospitais.

A enciclopédia on-line Wikipedia informou que suspendeu temporariamente um número não especificado de sistemas para permitir a aplicação segura das correções. O Internet Archive, biblioteca digital que reúne páginas da web e outros conteúdos, também relatou uma interrupção temporária para lidar com o problema.

Na Dinamarca, a empresa de tecnologia municipal Kombit desativou diversos serviços, incluindo a plataforma nacional de comunicação escolar.

Na Finlândia, a provedora estatal de serviços de tecnologia da informação Valtori retirou do ar serviços da rede pública governamental como medida de precaução.

Já o Ministério do Interior da França informou que todos os seus sites entraram em manutenção preventiva.

Especialistas alertam para ataques em larga escala

O alcance do PHP ajuda a explicar a preocupação internacional. De acordo com a W3Techs, empresa que monitora tecnologias utilizadas na internet, a linguagem está presente em aproximadamente 75% dos sites cuja tecnologia de programação pode ser identificada.

Para Lukasz Olejnik, pesquisador associado visitante do King’s College London, o uso de inteligência artificial por invasores pode acelerar a exploração das vulnerabilidades e ampliar o número de sistemas atingidos.

O risco tende a ser maior para sites menores, mantidos por pessoas ou organizações com recursos técnicos limitados. Em serviços de hospedagem compartilhada, por exemplo, os clientes geralmente não têm controle direto sobre os servidores responsáveis pela infraestrutura.

A Automattic, empresa que opera o WordPress.com, afirmou que os usuários de suas soluções hospedadas e do Tumblr estavam protegidos contra a falha.

Atualização dos sistemas é a principal medida de proteção

Diante do cenário, agências de segurança cibernética de diferentes países orientaram administradores de sites a verificar se seus servidores utilizam PHP e aplicar as correções recomendadas assim que possível.

Quando a atualização imediata não puder ser realizada, a orientação é avaliar a necessidade de suspender temporariamente os serviços expostos até que os sistemas estejam protegidos.

O episódio evidencia como a inteligência artificial na cibersegurança pode ter efeitos em duas frentes: contribuir para encontrar vulnerabilidades antigas e, ao mesmo tempo, facilitar a atuação de criminosos que tentam explorá-las.

Com a divulgação pública das correções, a rapidez na atualização dos servidores tornou-se um fator decisivo para reduzir os riscos de invasões e interrupções de serviços digitais.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Annegret Hilse

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Negócios

Grupo BID e America Business Forum reúnem mais de 200 líderes globais em Miami

O Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o America Business Forum (ABF) anunciaram a realização da primeira edição do CEO Forum of the Americas, evento que reunirá mais de 200 CEOs, investidores e executivos de alto escalão em Miami, nos Estados Unidos, no dia 15 de dezembro. O encontro será fechado para convidados.

A iniciativa busca aproximar as políticas públicas das oportunidades de investimento, estimulando soluções para os principais desafios de desenvolvimento da América Latina e do Caribe. A programação também pretende identificar caminhos para ampliar os investimentos, fortalecer a integração econômica e impulsionar o crescimento regional.

Fórum terá três eixos estratégicos para o desenvolvimento econômico

As discussões do CEO Forum of the Americas serão organizadas em torno de três áreas consideradas estratégicas para o futuro econômico das Américas: cadeias de suprimentos, minerais críticos e inteligência artificial.

Cadeias de suprimentos e integração global

A América Latina e o Caribe têm potencial para ampliar sua participação nas cadeias globais de suprimentos, consolidando-se como centros de produção, logística e manufatura de maior valor agregado.

Para avançar nesse cenário, será necessário criar condições favoráveis à expansão dos negócios e estimular a integração das empresas regionais às cadeias de valor internacionais.

Minerais críticos e atração de investimentos

O crescimento da demanda por recursos utilizados em tecnologias digitais avançadas abre novas perspectivas para a região no mercado de minerais críticos.

A estratégia envolve atrair capital, ampliar parcerias e fortalecer as etapas de produção que agregam mais valor aos recursos minerais, aumentando a participação latino-americana nas cadeias produtivas globais.

Inteligência artificial e inovação tecnológica

A inteligência artificial (IA) também estará entre os temas centrais do encontro. A região reúne condições para expandir a adoção responsável de novas tecnologias e transformar a inovação em um vetor de desenvolvimento econômico.

Entre os fatores favoráveis estão o avanço do ecossistema tecnológico, as oportunidades de investimento em data centers, a disponibilidade de recursos energéticos competitivos e a integração crescente aos mercados digitais internacionais.

Grupo BID destaca potencial da América Latina e do Caribe

Para Ilan Goldfajn, presidente do Grupo BID, o momento representa uma oportunidade para que a América Latina e o Caribe ampliem sua contribuição para enfrentar desafios globais e convertam suas vantagens competitivas em resultados econômicos concretos.

O executivo ressaltou que o avanço dessa agenda depende de iniciativas coordenadas para estimular investimentos, gerar empregos e promover o crescimento. Também destacou a importância de fortalecer as relações entre os setores público e privado e ampliar as conexões da região com outros mercados.

America Business Forum reforça diálogo entre líderes das Américas

Ignacio González, fundador e CEO do America Business Forum, afirmou que a parceria com o Grupo BID representa uma nova etapa na missão da organização de conectar lideranças influentes e ampliar o alcance de discussões estratégicas em escala global.

Segundo González, a iniciativa pretende reunir representantes das Américas para debater o potencial da região e contribuir para transformar oportunidades em ações concretas.

Encontro busca transformar debates em investimentos

Com a primeira edição do CEO Forum of the Americas, o Grupo BID e o ABF pretendem aproximar o debate econômico da implementação de soluções práticas. A proposta é conectar as prioridades de desenvolvimento regional ao capital, às parcerias e à cooperação necessários para produzir resultados efetivos.

O encontro reforça, assim, a busca por novas oportunidades de crescimento econômico, inovação e integração internacional na América Latina e no Caribe.

FONTE: BID
TEXTO: Redação
IMAGEM: Magnific

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Tecnologia

Paul Krugman alerta para risco econômico da inteligência artificial: investimentos em IA podem elevar juros e frear outros setores

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) pode estar provocando efeitos negativos sobre a economia mundial antes mesmo de os riscos mais discutidos da tecnologia se concretizarem. Essa é a avaliação do economista norte-americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2008, que alerta para a possibilidade de os investimentos bilionários em infraestrutura de IA reduzirem recursos disponíveis para outros segmentos da economia.

Em análise publicada em seu Substack, Krugman argumenta que a expansão dos centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, está atraindo recursos financeiros e materiais que poderiam ser destinados à construção de moradias, escritórios e fábricas.

O economista também aponta uma possível pressão sobre as taxas de juros, com consequências para o crédito e os investimentos privados. Diferentemente de ameaças frequentemente associadas à IA, como a substituição de trabalhadores e o estouro de uma bolha financeira, esse efeito já estaria em curso.

Investimentos em inteligência artificial pressionam outros setores

Segundo Krugman, o volume de recursos direcionados à construção de data centers e à compra de equipamentos para inteligência artificial pode estar prejudicando investimentos em atividades que não estão diretamente relacionadas à tecnologia.

O economista cita mais de US$ 51 bilhões em investimentos em centros de dados e associa a expansão desse segmento à redução de aportes em outros tipos de construção.

“A construção de data centers parece estar desviando recursos financeiros e materiais da construção de moradias, edifícios de escritórios e fábricas — praticamente tudo o que não está relacionado à IA”, argumenta.

A preocupação é que a concentração de capital em um único setor limite a capacidade de financiamento de outras atividades produtivas, mesmo quando elas continuam apresentando demanda por investimentos.

Esse movimento pode afetar desde o mercado imobiliário até a expansão industrial, com possíveis consequências para o crescimento econômico.

Efeito de deslocamento pode elevar os juros

Para explicar o fenômeno, Krugman recorre ao conceito econômico de crowding out, ou efeito de deslocamento. Tradicionalmente, o termo descreve situações em que o aumento dos gastos públicos, especialmente quando financiados por déficits, pressiona os juros e reduz o espaço para investimentos privados.

Em uma economia próxima do pleno emprego, a disponibilidade de trabalhadores, crédito e outros recursos é limitada. Quando a demanda por esses recursos aumenta, os juros podem subir, tornando os financiamentos mais caros e dificultando a realização de novos projetos.

Krugman sustenta que esse mecanismo não se restringe às despesas do governo. Uma expansão expressiva dos investimentos privados em inteligência artificial também pode elevar a demanda por financiamento e pressionar as taxas de juros.

“Dada a situação atual, com desemprego relativamente baixo e inflação elevada, o efeito de deslocamento é uma preocupação legítima. É importante, porém, entender que as fontes desse fenômeno não se limitam aos gastos públicos. Fortes aumentos nos gastos privados, como o atual e gigantesco boom da inteligência artificial, também elevam as taxas de juros”, avalia.

Na interpretação do economista, o crescimento dos investimentos em IA estaria contribuindo para encarecer o crédito e dificultar a execução de projetos em outros setores.

Boom da IA resiste à alta dos juros nos Estados Unidos

Krugman também menciona uma reportagem recente do The New York Times para sustentar sua análise. Segundo o argumento apresentado pelo economista, os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial continuam avançando mesmo diante da elevação dos juros nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, outros segmentos da economia sentem os efeitos do crédito mais caro, o que pode ampliar a diferença entre as empresas ligadas à IA e os negócios que dependem de condições financeiras mais favoráveis.

A construção de data centers e a aquisição de semicondutores produzidos no exterior exigem grandes volumes de capital. Na avaliação de Krugman, essa concentração de recursos pode ocorrer em detrimento de investimentos em áreas como habitação, indústria e infraestrutura convencional.

O resultado seria uma economia na qual o setor tecnológico mantém seu ritmo de expansão, enquanto outras atividades enfrentam obstáculos maiores para financiar novos empreendimentos.

Por que o boom tecnológico atual é diferente do dos anos 1990?

Uma das questões levantadas por Krugman é se outras revoluções tecnológicas produziram efeitos semelhantes sobre os investimentos.

Ao comparar o atual ciclo da inteligência artificial com o boom tecnológico dos anos 1990, o economista afirma não encontrar evidências de um deslocamento equivalente dos investimentos naquela época. Pelo contrário, segundo sua análise, os aportes em atividades não relacionadas à tecnologia também cresceram.

Uma das explicações apontadas é a entrada de investimentos estrangeiros nos Estados Unidos, que teria ajudado a financiar a expansão tecnológica sem impedir o avanço de outros setores.

Krugman argumenta que o cenário atual é diferente e questiona a dimensão dos investimentos internacionais que o presidente Donald Trump afirma ter atraído para o país.

Segundo o economista, os dados do balanço de pagamentos não indicariam uma entrada de capital estrangeiro na escala anunciada pelo presidente norte-americano. Sem esse financiamento adicional, o boom da IA poderia disputar recursos de maneira mais intensa com os demais segmentos da economia.

Gastos bilionários com tecnologia podem não gerar retorno esperado

Outro ponto de atenção destacado pelo Nobel de Economia é a possibilidade de grandes empresas de tecnologia cometerem erros de avaliação ao decidir onde investir.

Krugman cita como exemplo os recursos destinados pela Meta ao projeto do metaverso, que, segundo ele, chegaram a US$ 80 bilhões. A iniciativa perdeu espaço posteriormente, ilustrando como investimentos de grande porte não garantem necessariamente resultados proporcionais.

O exemplo reforça a preocupação com o volume de capital direcionado à inteligência artificial e com a possibilidade de parte desses recursos não produzir o retorno esperado.

Caso isso aconteça, os efeitos podem ultrapassar o setor de tecnologia, especialmente se os investimentos tiverem sido financiados por crédito e estiverem conectados a outras áreas do sistema financeiro.

Crédito privado entra no radar de riscos financeiros

Krugman também chama atenção para sinais de pressão financeira associados aos juros elevados. Segundo ele, relatos de dificuldades no mercado de crédito estão se tornando mais frequentes.

A preocupação envolve especialmente o crédito privado e outras áreas menos reguladas do sistema financeiro, que podem estar expostas aos riscos decorrentes da expansão acelerada da IA.

Se empresas e investidores assumirem compromissos financeiros elevados com base em expectativas excessivamente otimistas, uma eventual frustração dos retornos poderá dificultar o pagamento de dívidas e provocar problemas de liquidez.

O economista afirma que há uma percepção crescente, entre observadores com quem conversa, de que os efeitos financeiros adversos do boom da IA podem ser maiores do que muitos participantes do mercado imaginam.

Essa possibilidade amplia o debate sobre a sustentabilidade dos investimentos em tecnologia e sobre os impactos que uma eventual desaceleração poderia provocar em outros setores.

Risco econômico da inteligência artificial já estaria em andamento

A análise de Krugman concentra-se em três questões principais: a diferença entre o atual ciclo tecnológico e o dos anos 1990, a possibilidade de grandes empresas investirem de maneira equivocada e a dimensão dos riscos financeiros para o restante da economia.

Para o economista, a combinação entre investimentos concentrados, juros elevados e possíveis fragilidades no crédito merece atenção imediata.

A discussão não significa que a inteligência artificial deixará de gerar ganhos de produtividade ou oportunidades econômicas. O alerta está relacionado à distribuição dos recursos e aos custos que uma expansão muito acelerada pode impor a atividades que não participam diretamente desse crescimento.

Na avaliação de Krugman, o efeito de deslocamento provocado pelos investimentos em IA já representa um risco concreto, diferentemente de cenários futuros como a eliminação em massa de empregos ou o estouro de uma eventual bolha tecnológica.

O desafio, portanto, é avaliar se o ritmo de expansão da inteligência artificial poderá ser sustentado sem comprometer o financiamento e o desenvolvimento de outros setores da economia.

FONTE: Forbes
TEXTO: Redação
IMAGEM: Getty Images

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Tecnologia

OMC eleva previsão do comércio global em 2026 impulsionado por investimentos em inteligência artificial

A Organização Mundial do Comércio (OMC) revisou para cima sua projeção de crescimento do comércio mundial de mercadorias em 2026. Mesmo diante dos impactos do conflito no Oriente Médio, a entidade avalia que o avanço dos investimentos em inteligência artificial (IA) e a adaptação das cadeias de suprimentos ajudaram a sustentar as trocas comerciais no primeiro semestre do ano.

Em relatório de perspectivas e estatísticas divulgado nesta quinta-feira (8), a organização elevou a estimativa de expansão do comércio de mercadorias de 1,9%, prevista em março, para 3,9% em 2026. Para 2027, a expectativa é de crescimento de 4,1%.

Segundo a OMC, a demanda por equipamentos e componentes ligados à IA compensou parte dos efeitos negativos provocados pelas perturbações nos mercados de energia, fertilizantes e transporte internacional.

Apesar do cenário mais favorável para os bens, a entidade ressalta que os resultados variam entre regiões e setores. O comércio de serviços, especialmente nas áreas de transporte e viagens, enfrenta perspectivas menos positivas devido aos efeitos do conflito.

Investimentos em IA impulsionam o comércio mundial

A expansão da infraestrutura tecnológica tornou-se um dos principais motores do comércio internacional em 2026. Produtos necessários para o desenvolvimento da inteligência artificial, como semicondutores e servidores, registraram forte crescimento da demanda.

De acordo com a OMC, o comércio desses produtos aumentou 67% na comparação anual durante o primeiro semestre, respondendo por 47% da expansão global do comércio de mercadorias no período.

A organização espera que esse movimento continue até 2027. Os gastos mundiais com infraestrutura de IA devem crescer pelo menos 30% em 2026, enquanto as projeções de mercado indicam uma alta de 10% a 20% nos investimentos de capital relacionados à tecnologia no ano seguinte.

Esse avanço reforça a importância dos componentes eletrônicos e dos equipamentos de processamento de dados para o desempenho das exportações globais.

Comércio de mercadorias supera expectativas no primeiro semestre

O volume mundial de mercadorias comercializadas cresceu 3,5% nos primeiros seis meses de 2026, resultado superior ao esperado pela organização.

O desempenho foi favorecido pela capacidade de adaptação das cadeias de suprimentos, que buscaram fornecedores alternativos e redirecionaram cargas diante das dificuldades logísticas provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

A OMC informou que as exportações de petróleo bruto da região recuaram cerca de 24% no primeiro semestre, enquanto os embarques de gás natural liquefeito (GNL) diminuíram 47%.

A ampliação das vendas por outros fornecedores ajudou a limitar o impacto sobre o mercado mundial. Com isso, as exportações globais caíram aproximadamente 6% no caso do petróleo bruto e apenas 1% no GNL.

O mercado de fertilizantes também demonstrou capacidade de adaptação. As importações globais de fertilizantes nitrogenados ficaram 2,8% abaixo das médias recentes, enquanto as compras de fertilizantes fosfatados registraram aumento de 2,2%, impulsionadas pela entrada de fornecedores alternativos.

Nos transportes, a utilização de portos e corredores logísticos diferentes ajudou a manter o fluxo de mercadorias. O movimento mundial de contêineres acumulou crescimento de 3,9% até julho.

Conflito no Oriente Médio mantém riscos para o comércio global

Apesar da revisão positiva das projeções, a OMC alerta que os efeitos da guerra continuam pressionando os custos e criando obstáculos para o comércio internacional.

Os principais riscos envolvem a elevação dos preços da energia, as interrupções nas rotas marítimas e aéreas e as dificuldades no abastecimento de produtos estratégicos.

A diretora-geral da organização, Ngozi Okonjo-Iweala, afirmou que os resultados demonstram a capacidade de adaptação do comércio mundial diante de choques externos.

Segundo ela, a integração econômica e um sistema comercial baseado em regras ajudam a manter o fornecimento de produtos essenciais para empresas e consumidores.

A dirigente também destacou que os benefícios dessa adaptação não são distribuídos de maneira uniforme. Para ela, é importante garantir que economias de diferentes portes tenham acesso às oportunidades criadas por tecnologias como a inteligência artificial.

Ásia deve liderar crescimento das exportações em 2026

As projeções regionais da OMC apontam diferenças expressivas no desempenho do comércio internacional. A Ásia deve apresentar o maior crescimento das exportações de mercadorias em 2026, enquanto o Oriente Médio enfrenta a perspectiva de forte retração.

Confira as estimativas de crescimento das exportações por região:

  • Ásia: 9,9%.
  • América do Norte: 5,7%.
  • África: 5,6%.
  • América do Sul: 3,4%.
  • Europa: -0,1%.
  • Comunidade de Estados Independentes (CEI): -3,9%.
  • Oriente Médio: -17,2%.

A projeção negativa para o Oriente Médio reflete os impactos do conflito e as interrupções nos fluxos comerciais. Na Europa, a expectativa é de estabilidade, com pequena retração das exportações.

Importações também devem crescer de forma desigual

No lado das importações, a Ásia, a África e a CEI devem registrar os avanços mais expressivos em 2026.

As estimativas da OMC são de crescimento de 9,5% para a Ásia, 8,9% para a África e 8,8% para a Comunidade de Estados Independentes.

Na América do Norte, a expansão projetada é de 1,4%, enquanto a Europa deve avançar 0,5%. Já o Oriente Médio poderá registrar queda de 15,4% nas importações.

Os números indicam que os efeitos dos conflitos e das mudanças nas cadeias de abastecimento variam conforme a região e sua exposição às rotas comerciais e aos mercados de energia.

Comércio internacional de serviços perde força em 2026

Ao contrário do comércio de mercadorias, o segmento de serviços teve suas perspectivas reduzidas pela OMC. A organização passou a estimar crescimento de 3,3% no comércio mundial de serviços comerciais em 2026, ante os 4,8% previstos em março.

Para 2027, a expectativa é de recuperação, com expansão de 6,4%.

A revisão está relacionada principalmente aos impactos do conflito no Oriente Médio sobre os serviços de transporte e viagens internacionais. O aumento dos custos de energia, as alterações nas rotas aéreas e marítimas e a redução da demanda por deslocamentos devem limitar o desempenho desses segmentos.

Por outro lado, os serviços prestados digitalmente e outras atividades comerciais demonstram maior resistência às perturbações e devem continuar contribuindo para o crescimento do setor.

Projeções indicam resiliência, mas cenário segue incerto

A revisão das estimativas da OMC mostra que o comércio global conseguiu absorver parte dos impactos do conflito no Oriente Médio, apoiado pelo avanço tecnológico e pela reorganização das cadeias de suprimentos.

O crescimento dos investimentos em inteligência artificial deve continuar sustentando a demanda por mercadorias até 2027. Ainda assim, os riscos relacionados à energia, à logística e às diferenças regionais permanecem no radar da organização.

Enquanto o comércio de bens apresenta perspectivas mais favoráveis, os serviços devem enfrentar um ritmo de expansão mais moderado em 2026, antes da recuperação projetada para o ano seguinte.

FONTE: Infomoney
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Infomoney

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Economia

Déficit comercial dos EUA sobe 13,7% em agosto e chega a US$ 105,6 bilhões

O déficit comercial dos Estados Unidos avançou acima das expectativas em agosto, pressionado pelo aumento das importações de bens. O resultado reflete a força da demanda interna e indica que o comércio exterior pode voltar a exercer impacto negativo sobre o crescimento da economia americana no terceiro trimestre.

O saldo negativo aumentou 13,7% em agosto, alcançando US$ 105,6 bilhões, segundo dados divulgados pelo Escritório de Análise Econômica do Departamento de Comércio e pelo Census Bureau. Analistas consultados pela Reuters projetavam um déficit de US$ 102 bilhões.

Importações aumentam com demanda doméstica forte

O resultado de agosto já era parcialmente esperado após dados divulgados na semana anterior apontarem crescimento do déficit de bens, também provocado pelo avanço das importações.

A demanda doméstica dos EUA ganhou força no segundo trimestre e cresceu no ritmo mais rápido em mais de três anos e meio. O movimento foi sustentado principalmente pelos gastos dos consumidores e pelos investimentos das empresas em equipamentos, com destaque para aqueles relacionados à inteligência artificial (IA).

Indicadores mais recentes sugerem que esse ritmo de consumo continuou no terceiro trimestre. Em agosto, houve sinais de fortes gastos dos consumidores, além de aumento nas encomendas e nos embarques de bens de capital não relacionados à defesa, excluindo aeronaves.

Importações avançam apesar das tarifas de Trump

Para atender ao mercado interno, as empresas americanas continuam recorrendo às importações, mesmo diante da política tarifária adotada pelo presidente Donald Trump.

As tarifas foram implementadas pelo governo com o objetivo declarado de reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos. Ainda assim, as compras externas registraram crescimento em agosto.

As importações totais aumentaram 4,3%, para US$ 420,8 bilhões. Considerando apenas os bens, a alta foi de 5,3%, alcançando US$ 342,2 bilhões.

As exportações também cresceram, mas em ritmo inferior. As vendas externas avançaram 1,4%, para US$ 315,2 bilhões, enquanto as exportações de bens subiram 2,2%, chegando a US$ 205,7 bilhões.

Comércio exterior pode reduzir crescimento do PIB

O desempenho do setor externo continua sendo um obstáculo para a expansão da economia americana. O comércio exterior retirou força do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA durante três trimestres consecutivos.

Para o período de julho a setembro, economistas estimam que o comércio possa reduzir o crescimento do PIB em até 2,5 pontos percentuais.

Apesar desse impacto, as projeções para a economia americana permanecem relativamente positivas. A maior parte das estimativas aponta para um crescimento anualizado superior a 3% no terceiro trimestre.

A expectativa é que a força dos gastos dos consumidores ajude a compensar parte do efeito negativo provocado pelo aumento das importações.

No segundo trimestre, a economia dos Estados Unidos cresceu a uma taxa anualizada de 2,2%.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/CNN

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Tecnologia

Robôs humanoides chineses dançam com espadas em tradicional dança saudita em Riade

Robôs humanoides chineses surpreenderam convidados durante uma celebração oficial em Riade, capital da Arábia Saudita, ao participar de uma apresentação inspirada na tradicional ardha saudita, dança masculina marcada por passos sincronizados, cantos e espadas erguidas.

A performance ocorreu no salão da embaixada da China durante as comemorações do aniversário da fundação da República Popular da China. Vestidas com estruturas metálicas e revestimentos claros, as máquinas reproduziram movimentos coletivos característicos da manifestação cultural saudita.

Um vídeo curto da apresentação, publicado no YouTube, chamou atenção justamente pelo contraste entre a tradição centenária e a robótica chinesa. A cena também ganhou significado diplomático ao colocar máquinas desenvolvidas na China dentro de um dos símbolos culturais mais reconhecidos da Arábia Saudita.

Robôs reproduzem movimentos da ardha saudita

A ardha é uma dança tradicional masculina da Arábia Saudita. Normalmente apresentada em fileiras ou círculos, ela envolve movimentos coordenados, marcação dos passos no chão e o levantamento de espadas ou rifles, acompanhados por cantos associados à coragem e à união.

Na cerimônia em Riade, os robôs foram programados para acompanhar o padrão básico dos movimentos. As máquinas mantiveram o alinhamento e reproduziram a cadência do grupo, incluindo o gesto de erguer as espadas.

A escolha da dança não parece ter sido aleatória. Por seu caráter cerimonial, a ardha ocupa espaço importante em celebrações nacionais e eventos oficiais sauditas. Ao utilizar esse repertório, a apresentação aproximou a tecnologia chinesa de um elemento específico da identidade cultural local.

O contraste entre tradição e tecnologia

O impacto da apresentação está justamente na combinação de elementos aparentemente opostos.

De um lado, está uma tradição praticada há gerações por homens sauditas em cerimônias e festividades. Do outro, aparecem máquinas humanoides executando movimentos programados para acompanhar esse mesmo código coletivo.

A proposta não é substituir os dançarinos humanos, mas demonstrar que a robótica humanoide já consegue reproduzir movimentos coordenados em situações que vão além de ambientes industriais ou laboratórios.

O contraste entre a rigidez mecânica dos robôs e a fluidez associada à dança tradicional cria uma imagem facilmente compreensível mesmo para quem desconhece os detalhes da cultura saudita.

Tecnologia chinesa ganha espaço em uma celebração oficial

A apresentação também pode ser interpretada como uma demonstração do avanço da robótica chinesa em aplicações de entretenimento, eventos e interação social.

Robôs humanoides produzidos por empresas chinesas vêm sendo apresentados em feiras, centros de demonstração, estádios e outros espaços públicos. Em Riade, porém, as máquinas foram inseridas diretamente na programação de uma celebração diplomática.

Para realizar uma apresentação desse tipo, é necessário combinar controle de equilíbrio, coordenação dos movimentos, programação da coreografia e mecanismos de segurança. A operação se torna ainda mais relevante em um ambiente fechado e próximo de convidados.

Em vez de apresentar apenas equipamentos, folders ou discursos sobre inovação, a embaixada colocou a própria tecnologia em movimento diante do público.

A dança como instrumento de diplomacia tecnológica

China e Arábia Saudita mantêm relações estreitas em áreas como energia, investimentos, infraestrutura e diversificação econômica. A aproximação tecnológica passou a fazer parte desse relacionamento, especialmente diante dos planos sauditas de modernização ligados à Visão 2030.

Nesse contexto, a performance dos robôs assume um significado que vai além do entretenimento.

Ao reproduzir uma manifestação cultural saudita durante uma festa oficial chinesa, a apresentação transmite uma mensagem de adaptação e reconhecimento cultural. A tecnologia não aparece isoladamente, mas inserida em um símbolo associado ao país anfitrião.

A escolha também reforça o conceito de soft power tecnológico, no qual produtos e capacidades de inovação são usados para construir uma imagem positiva e ampliar a influência internacional.

Por que o vídeo chamou tanta atenção

A apresentação reúne elementos com forte potencial de circulação nas redes sociais: robôs humanoides, espadas, uma dança tradicional e o ambiente formal de uma embaixada.

Em poucos segundos, o espectador consegue visualizar as máquinas alinhadas, levantar as espadas e acompanhar o ritmo coletivo. O resultado gera uma combinação de estranhamento e curiosidade.

Esse formato também ajuda a transformar uma demonstração realizada para um público restrito em conteúdo compartilhável internacionalmente.

Mais do que um comunicado oficial sobre os avanços da indústria, o vídeo mostra os equipamentos executando uma tarefa cultural específica. Isso facilita a compreensão da capacidade tecnológica por parte de quem não acompanha o setor de automação e inteligência artificial.

Robôs humanoides entram na disputa por visibilidade

A apresentação em Riade ocorre em meio à crescente competição internacional pelo desenvolvimento da robótica humanoide.

Empresas de diferentes países buscam demonstrar que seus robôs podem caminhar, manter o equilíbrio, manipular objetos e executar tarefas cada vez mais complexas. Nesse cenário, eventos públicos servem também como vitrines para testar a percepção das pessoas diante dessas máquinas.

Levar um robô para o centro de uma festa diplomática acrescenta outra dimensão à demonstração: a aceitação social.

A máquina deixa de aparecer apenas como equipamento industrial e passa a desempenhar um papel reconhecível em uma cerimônia.

O significado para as relações entre China e Arábia Saudita

A escolha do dia 1º de outubro, data que marca a fundação da República Popular da China, acrescenta uma camada simbólica à apresentação.

Celebrar a data chinesa em Riade utilizando um elemento tradicional saudita cria uma imagem de reciprocidade cultural. A mensagem pode ser compreendida mesmo sem um longo discurso: a tecnologia chinesa ocupa o espaço da cerimônia enquanto reproduz um gesto associado à cultura do país anfitrião.

Para autoridades, empresários e convidados presentes, a imagem dos robôs no centro do salão funciona como uma demonstração concreta da capacidade tecnológica chinesa.

Para o público online, a mesma imagem transforma-se em uma peça de comunicação internacional.

O que a cena revela sobre o soft power chinês

Tradicionalmente, o soft power de um país pode ser construído por meio de cultura, esporte, cinema, educação e intercâmbios. Atualmente, a tecnologia também desempenha papel importante nessa estratégia.

Robôs, drones, inteligência artificial e outras tecnologias avançadas podem funcionar como símbolos da capacidade industrial de um país.

No caso de Riade, a especificidade da apresentação aumenta seu valor simbólico. Programar máquinas para reproduzir uma dança local exige mais do que simplesmente fazê-las caminhar ou mover os braços. É preciso adaptar os movimentos ao ritmo e à formação característica da apresentação.

O resultado reforça a imagem de uma indústria capaz de combinar hardware, sensores, automação e software em uma única demonstração.

O impacto para países como o Brasil

O episódio também interessa a países que ampliam relações comerciais e tecnológicas com a China, incluindo o Brasil.

A presença chinesa já é significativa em áreas como veículos elétricos, eletrônicos, infraestrutura digital, automação e manufatura. À medida que a robótica humanoide avança, demonstrações como a realizada em Riade ajudam a indicar quais podem ser os próximos mercados para essas tecnologias.

No Brasil, robôs costumam aparecer em demonstrações relacionadas à indústria, logística, soldagem, atendimento e automação. A apresentação saudita amplia esse imaginário ao mostrar uma máquina participando de um contexto cultural e diplomático.

Isso não significa que uma apresentação artística seja suficiente para comprovar questões como segurança, transferência tecnológica, geração de empregos ou viabilidade econômica. O episódio funciona, sobretudo, como uma demonstração de ambição e capacidade de comunicação tecnológica.

Da fábrica ao palco diplomático

A principal mensagem da apresentação em Riade está na mudança de papel atribuída aos robôs.

Eles não aparecem apenas como ferramentas destinadas a uma linha de produção. Também podem ser utilizados como atrações, demonstrações tecnológicas e elementos de comunicação internacional.

Ao colocar robôs chineses para executar a ardha diante de convidados em uma celebração oficial, a China combinou inovação e cultura em uma única imagem.

O resultado é uma cena que permanece na memória justamente pela combinação incomum: máquinas humanoides reproduzindo uma tradição saudita no interior da representação diplomática chinesa.

Mais do que uma dança, a performance funciona como uma vitrine da evolução da robótica humanoide chinesa e de como a tecnologia pode ser incorporada à diplomacia, ao entretenimento e à comunicação cultural.

FONTE: Diário do Litoral
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Diário do Litoral

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Tecnologia

IA: disputa entre Estados Unidos e China ganha força por modelos abertos

A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança em inteligência artificial (IA) ganhou uma nova dimensão. Enquanto Washington busca preservar sua vantagem tecnológica e ampliar alianças para reduzir a dependência de fornecedores chineses, Pequim aposta em modelos mais acessíveis e de código aberto para ampliar sua presença internacional.

Os avanços registrados pela IA chinesa no último ano aumentaram a percepção de que a distância tecnológica em relação aos Estados Unidos pode estar diminuindo. O presidente Donald Trump afirmou recentemente que os EUA estão à frente da China no setor e defendeu a manutenção dessa vantagem.

A competição, que envolve tecnologia, economia e segurança nacional, passou a ser tratada pelos dois países como uma questão estratégica de longo prazo.

EUA apostam em alianças para conter avanço chinês

Os Estados Unidos ainda contam com vantagens importantes, como empresas líderes em desenvolvimento de IA, acesso aos chips mais avançados e um mercado de capitais capaz de financiar grandes projetos tecnológicos.

Washington também vem buscando ampliar sua influência sobre as cadeias globais de suprimentos de IA, incentivando outros países a se aproximarem de seu ecossistema tecnológico.

A China, entretanto, apresenta uma estratégia diferente. Embora seus modelos mais avançados ainda sejam considerados inferiores a alguns sistemas americanos, empresas chinesas têm reduzido essa diferença e apostado em alternativas de menor custo e maior acessibilidade.

China amplia coalizão em torno da IA aberta

Em julho, o presidente chinês Xi Jinping lançou a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, iniciativa apresentada como alternativa à Pax Silica, aliança criada por Trump para reduzir a dependência da China nas cadeias de fornecimento relacionadas à IA.

Enquanto mais de 20 países e a União Europeia aderiram à Pax Silica, a iniciativa chinesa reuniu 29 países, entre eles Rússia, Indonésia e Paquistão.

Um dos principais diferenciais da estratégia chinesa é a defesa de modelos de IA abertos, que podem ser baixados, adaptados e executados pelos usuários sem a necessidade de contratar serviços caros de empresas estrangeiras.

Para desenvolvedores de países do Sul Global, essa característica pode ser especialmente relevante. Modelos como os da DeepSeek e da Moonshot podem oferecer custos menores e maior flexibilidade em comparação com sistemas proprietários que exigem assinaturas e infraestrutura de provedores estrangeiros.

Modelos chineses ganham espaço no mercado global

Dados do ranking de modelos da OpenRouter indicam uma forte expansão do uso de modelos chineses de inteligência artificial. Segundo os dados citados na análise, a participação dessas ferramentas no uso global passou de menos de 15% para mais de 54% em aproximadamente um ano.

A adoção também alcançou empresas americanas. Companhias como Airbnb, DoorDash e Shopify passaram a utilizar modelos chineses, atraídas principalmente por fatores como custo e possibilidade de personalização.

Eric Olander, editor-chefe do The China-Global South Project, avalia que empresas podem preferir diversificar fornecedores em vez de escolher exclusivamente entre tecnologia americana ou chinesa.

A infraestrutura chinesa já presente em mercados emergentes, especialmente nos setores de telecomunicações, computação em nuvem e hardware, também pode facilitar a expansão desses modelos.

O que significa vencer a corrida da IA?

A própria definição de liderança em inteligência artificial ainda não é consensual. Diferentes critérios — como capacidade técnica, número de usuários, participação de mercado ou geração de lucro — podem produzir resultados distintos.

Uma empresa pode ter menos usuários e, ainda assim, concentrar uma parcela maior dos lucros de determinado mercado. O mesmo poderia ocorrer com a IA, caso empresas americanas mantenham a liderança financeira enquanto sistemas chineses conquistem uma base maior de usuários.

Além disso, à medida que os modelos evoluem, as diferenças de desempenho entre as principais plataformas podem se tornar menos relevantes para consumidores e empresas que não necessitam dos sistemas mais avançados.

Nesse cenário, usuários e companhias podem ter de escolher entre modelos mais sofisticados e caros ou alternativas de menor custo que ofereçam desempenho suficiente para suas necessidades.

Abertura dos modelos chineses pode ter limites

A estratégia chinesa baseada em IA de código aberto também enfrenta limitações. Especialistas avaliam que Pequim pode restringir o acesso aos modelos mais avançados à medida que eles adquiram capacidades consideradas sensíveis.

Na conferência de IA realizada na China em julho, Xi Jinping defendeu maior abertura e cooperação tecnológica, mas também ressaltou a necessidade de regulamentação e controle humano.

Para Alex Colville, analista do Instituto Australiano de Política Estratégica, a segurança nacional continuará sendo um fator determinante para o governo chinês.

Uma possibilidade seria a adoção de regras de licenciamento que limitem os locais e as situações em que determinados modelos podem ser utilizados, em vez de uma proibição generalizada.

Assim, a tendência pode ser a coexistência de modelos abertos e fechados de IA na China, com diferentes níveis de acesso conforme a aplicação e o grau de sensibilidade tecnológica.

Países buscam IA soberana

O avanço dos modelos abertos chineses também despertou interesse de desenvolvedores e governos que buscam ampliar sua soberania tecnológica e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros.

Essa estratégia permite que países e empresas utilizem modelos existentes como ponto de partida para desenvolver soluções próprias, sem necessariamente se alinhar integralmente aos Estados Unidos ou à China.

O futuro dessa abordagem, porém, dependerá de quanto tempo os modelos chineses mais avançados permanecerão disponíveis de forma aberta.

Especialistas também avaliam que Pequim poderá estabelecer limitações para impedir usos considerados capazes de gerar riscos à segurança cibernética ou aos interesses nacionais.

EUA acusam empresas chinesas de usar tecnologia americana

A redução da distância tecnológica entre os dois países ocorre em meio ao aumento da desconfiança entre Washington e Pequim.

Autoridades e empresas americanas acusam laboratórios chineses de utilizar informações provenientes de sistemas dos Estados Unidos para aperfeiçoar seus próprios modelos, em um processo conhecido como destilação.

Anthropic e OpenAI divulgaram relatórios com acusações desse tipo. Em um documento publicado recentemente, a Anthropic afirmou que DeepSeek e Moonshot teriam encaminhado algumas solicitações de usuários ao Claude para utilizar essas informações no treinamento e aprimoramento de seus próprios modelos.

O governo chinês rejeitou repetidamente as acusações. DeepSeek e Moonshot não responderam aos pedidos de comentário mencionados na análise.

Empresas americanas divergem sobre restrições

Washington também avalia medidas que poderiam impor sanções ou restrições aos modelos chineses de código aberto.

A possibilidade, contudo, encontra resistência dentro do próprio setor tecnológico americano. Nvidia, Meta, Microsoft e outras empresas assinaram, em julho, uma carta contra restrições amplas aos modelos de código aberto.

O posicionamento evidencia uma diferença entre parte da indústria de tecnologia dos Estados Unidos e a estratégia defendida pelo governo americano para lidar com a competição chinesa.

Cúpula Trump-Xi teve poucos avanços na área de IA

Apesar da crescente preocupação internacional com os riscos e impactos da inteligência artificial, a reunião entre Donald Trump e Xi Jinping produziu poucos resultados concretos relacionados à tecnologia.

Os dois governos discutiram a criação de um canal de comunicação e a continuidade do diálogo sobre riscos, benefícios e uso responsável da IA.

A cooperação, porém, permanece limitada pela desconfiança existente entre as duas potências. Para especialistas, Pequim continua interpretando as políticas americanas de controle de exportações e restrição tecnológica como parte de uma estratégia para conter o desenvolvimento chinês.

A disputa pela liderança em IA, portanto, não se resume à capacidade de criar modelos mais avançados. Envolve também custos, acesso, infraestrutura, segurança, usuários, alianças internacionais e controle sobre as tecnologias consideradas estratégicas.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Jason Lee/Illustration/Reuters

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Tecnologia

Inteligência artificial pode dificultar controle da inflação nos Estados Unidos

A expansão acelerada da inteligência artificial (IA) pode criar um novo desafio para a economia dos Estados Unidos: conter a inflação em um cenário de forte atividade econômica.

O aumento dos preços e das taxas de juros ocorre em meio a uma combinação de fatores que pressiona a economia americana. Entre eles estão o choque nos preços de energia provocado pelos conflitos no Irã e na Ucrânia, o agravamento das disputas comerciais e o crescimento expressivo dos investimentos corporativos em IA.

Enquanto guerras e tarifas concentram boa parte da atenção dos mercados, economistas também passaram a observar o volume de recursos direcionados pelas grandes empresas de tecnologia à construção de centros de dados, servidores e infraestrutura necessária para ampliar a capacidade de processamento de inteligência artificial.

Gastos com IA alcançam cifras trilionárias

O investimento em infraestrutura de inteligência artificial ganhou escala rapidamente. Segundo o JPMorgan, os gastos com centros de dados, chips e servidores devem chegar a aproximadamente US$ 1 trilhão em 2026.

A projeção para os próximos anos é ainda mais expressiva. De acordo com Stijn Van Nieuwerburgh, economista da Universidade de Columbia, os investimentos podem alcançar US$ 10,3 trilhões até 2032.

Para efeito de comparação, esse montante supera amplamente os valores envolvidos em grandes programas de infraestrutura do governo americano.

O Goldman Sachs estima que os investimentos em infraestrutura de IA representem cerca de 1,9% da atividade econômica dos Estados Unidos neste ano. A previsão de Van Nieuwerburgh é de que essa participação ultrapasse, em média, 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) americano por ano até 2032.

A dimensão projetada coloca o atual ciclo de investimentos entre os maiores períodos de expansão da infraestrutura econômica dos Estados Unidos.

Demanda por tecnologia pressiona preços

O aumento dos investimentos não representa, necessariamente, um problema inflacionário. Caso a oferta de produtos e serviços acompanhe a demanda, o crescimento poderia ocorrer sem gerar pressão significativa sobre os preços.

O desafio está no intervalo entre o investimento atual e os ganhos de produtividade esperados para o futuro. Enquanto empresas constroem a infraestrutura necessária para a expansão da IA, a economia precisa lidar imediatamente com a forte demanda por equipamentos, energia e trabalhadores.

Segundo Daniel Yue, professor da Georgia Tech que pesquisa os efeitos econômicos da IA, esse movimento já produz um choque de demanda com impacto sobre a inflação.

A construção de centros de dados, por exemplo, aumenta a procura por chips de memória e armazenamento, materiais de construção e eletricidade. Também eleva a demanda por profissionais como trabalhadores da construção civil, encanadores e eletricistas.

Falta de oferta aumenta pressão sobre custos

A oferta nem sempre consegue acompanhar a velocidade dessa demanda. Restrições de produção, regulamentações, dificuldades de licenciamento e limitações no mercado de trabalho estão entre os fatores que dificultam o equilíbrio entre oferta e procura.

O efeito pode ultrapassar o setor de tecnologia e atingir outros segmentos da economia, principalmente por meio da escassez de mão de obra e do aumento dos preços de materiais de construção.

A situação também entrou no radar do Federal Reserve. Austan Goolsbee, presidente do Federal Reserve Bank de Chicago, afirmou recentemente que acompanha os efeitos da construção de centros de dados de IA sobre a capacidade de absorção da economia.

Caso os investimentos estejam gerando uma demanda superior à capacidade disponível, o movimento poderia indicar um processo de superaquecimento econômico. Nesse cenário, a resposta do Federal Reserve (Fed) poderia envolver juros mais elevados para conter a inflação.

Economia americana continua aquecida

O avanço dos investimentos em IA ocorre em uma economia que já apresenta sinais de atividade elevada.

A produção industrial dos Estados Unidos em agosto atingiu o maior nível desde julho de 2021, segundo o Índice de Gerentes de Compras (PMI) da S&P Global. A taxa de desemprego estava em 4,1%, patamar associado por economistas ao pleno emprego.

As vendas no varejo também avançaram. Em agosto, o indicador registrou crescimento de 1,2%.

Esse conjunto de dados mostra uma economia com demanda ainda resistente, em vez de um quadro de forte desaceleração.

Valorização das ações de IA sustenta consumo

Outro componente importante é o desempenho das empresas ligadas à inteligência artificial no mercado financeiro.

As oito companhias de maior valor no índice S&P 500 são, em grande medida, empresas diretamente relacionadas à IA. Juntas, elas correspondem a 38,8% do valor total do mercado acionário americano.

A valorização dessas ações ampliou o patrimônio de investidores de maior renda. Esse efeito contribuiu para sustentar o consumo mesmo diante das preocupações com o custo de vida.

Dados do Federal Reserve Bank de Nova York indicam que os 40% da população americana com maior renda respondem por aproximadamente 70% dos gastos de consumo.

Com consumidores de maior renda mantendo o ritmo das compras, empresas encontram espaço para repassar parte do aumento de custos aos preços finais.

Energia, tarifas e inflação complicam cenário

Além dos investimentos em IA, empresas americanas enfrentam custos elevados de diesel, transporte e tarifas comerciais.

Esse ambiente ajuda a explicar por que a inflação permanece acima da meta de 2% estabelecida pelo Fed, mesmo depois de anos desde o pico de crescimento registrado após a pandemia.

Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union, observa que o avanço da IA tem beneficiado investimentos em tecnologia, construção de centros de dados e fabricação de componentes, enquanto uma parcela da população enfrenta principalmente o aumento dos custos.

A elevação das taxas de juros acrescenta outra dificuldade. Rendimentos mais altos dos títulos públicos e uma política monetária mais restritiva encarecem o crédito para empresas e consumidores, mecanismo que normalmente contribui para desacelerar a demanda.

Investimentos em IA podem resistir aos juros altos

A eficácia desse mecanismo, porém, pode ser limitada pela natureza dos atuais investimentos em IA.

Mesmo com o aumento do custo de financiamento, empresas podem manter projetos considerados estratégicos para ampliar sua capacidade tecnológica.

O economista Oren Klachkin, da Nationwide, avalia que juros mais altos podem levar empresas a rever ou cancelar alguns investimentos. No entanto, segundo ele, os projetos relacionados à infraestrutura de IA tendem a apresentar menor sensibilidade às taxas de juros e podem continuar avançando.

Esse cenário cria um desafio adicional para a política monetária americana: controlar a demanda e a inflação enquanto um dos maiores ciclos de investimento tecnológico da história continua em expansão.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Gerada por IA

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Logística

Ferrovias no Brasil: país retoma investimentos, mas reconstrução da rede ainda é desafio

O Brasil começa a retomar investimentos em sua infraestrutura ferroviária após décadas marcadas pela concentração da expansão em poucos corredores. Ao longo desse período, diversos trechos perderam capacidade, foram subutilizados ou deixaram de cumprir sua função original.

O novo ciclo reúne projetos de expansão, concessões em preparação, revisão de contratos antigos e mudanças nas regras para tentar atrair investimentos privados. Apesar dos avanços, a reconstrução da malha ferroviária brasileira ainda ocorre de forma gradual e enfrenta desafios de infraestrutura, manutenção, mão de obra e planejamento.

Novos projetos ampliam a malha ferroviária

A carteira federal de projetos para 2026 inclui iniciativas como a EF-118, entre Rio de Janeiro e Espírito Santo, a recuperação da Malha Oeste e uma nova concessão para a Malha Sul.

A EF-118 prevê aproximadamente 575 quilômetros de extensão e investimentos estimados em R$ 4,2 bilhões. Já a Malha Sul possui cerca de 4.250 quilômetros distribuídos em três corredores.

A retomada, no entanto, vai muito além da instalação de novos trilhos. Recuperar uma ferrovia exige manutenção permanente, qualificação profissional, fiscalização, aumento da capacidade operacional e integração entre diferentes trechos.

Para Leonardo Alves, diretor-geral da Goldschmidt Brasil, os principais obstáculos estão relacionados justamente à combinação desses fatores.

“Eu diria que é um pouco disso tudo junto: falta de expansão, qualidade da via, manutenção e gestão. Quando você olha para o tamanho da nossa malha, você já imagina o tamanho do desperdício que a gente tem”, afirma.

Manutenção preventiva é um dos principais desafios

As dimensões da rede brasileira tornam o processo de recuperação ainda mais complexo. O país possui linhas antigas, segmentos com baixa utilização e estruturas que perderam capacidade ao longo do tempo.

No caso da Malha Oeste, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aponta uma infraestrutura depreciada, resultado também do histórico de investimentos insuficientes em manutenção.

Na avaliação de Alves, uma mudança importante seria substituir a lógica de reparos emergenciais por um modelo baseado em manutenção preventiva.

“Precisamos começar a prever manutenção, prever problemas e parar de corrigir de forma emergencial”, diz.

A antecipação de falhas pode reduzir impactos sobre a operação. Um problema em um trilho ou componente da via pode interromper uma composição, atrasar cargas e provocar efeitos em cadeia na logística.

“O custo do trem parado é altíssimo”, afirma o executivo.

Tecnologia ajuda a monitorar as condições dos trilhos

A necessidade de reduzir falhas tem estimulado o uso de equipamentos capazes de acompanhar continuamente as condições da via.

Sensores, sistemas de inspeção e análise de dados conseguem identificar pequenas deformações e defeitos que podem passar despercebidos em inspeções visuais. Com o histórico dessas informações, torna-se possível estimar a evolução de determinados problemas e programar intervenções.

Esse modelo permite transformar a manutenção em uma atividade mais previsível, reduzindo a dependência de ações emergenciais e ajudando a aumentar a disponibilidade da ferrovia.

Alemanha também enfrenta dificuldades para recuperar ferrovias

Os desafios brasileiros não são exclusivos de países com infraestrutura ferroviária em desenvolvimento. A Alemanha, que possui uma das redes mais extensas e estruturadas do mundo, também enfrenta dificuldades para recuperar sua infraestrutura.

A Deutsche Bahn mantém milhares de obras em andamento e recentemente decidiu reduzir o número de grandes corredores submetidos simultaneamente a reformas completas.

A empresa concluiu que quatro grandes obras por ano superavam sua capacidade de execução. A intenção passou a ser concentrar os esforços em duas grandes intervenções anuais ou, em situações específicas, três.

O especialista em ferrovias de Berlim Christian Böttger acompanha o processo e avalia que a dificuldade alemã não está apenas no financiamento. Também existe uma limitação operacional para executar obras sem comprometer excessivamente a circulação dos trens.

“Eu não vejo ainda um plano realmente estruturado para revitalizar a ferrovia”, afirma Böttger.

O especialista também chama atenção para a complexidade de manter uma via em operação enquanto a outra passa por obras.

A experiência alemã demonstra um ponto relevante para o Brasil: quanto maior o período sem manutenção adequada, maior tende a ser o esforço necessário para recuperar a infraestrutura. Ao mesmo tempo, grandes obras podem gerar impactos sobre a circulação durante sua execução.

Böttger relata ainda que a primeira grande reforma de corredores na Alemanha custou mais do que o inicialmente previsto e, na avaliação dele, não produziu o ganho de pontualidade esperado. A própria capacidade da indústria de construção ferroviária também se tornou um fator de preocupação.

Modernização depende primeiro da qualidade da via

A renovação da infraestrutura também envolve automação, equipamentos modernos e novas fontes de energia. Porém, a modernização dos trens precisa acompanhar as condições da própria ferrovia.

Locomotivas mais modernas, sistemas elétricos e tecnologias como o hidrogênio não conseguem entregar todo o potencial se a via não estiver preparada para recebê-los.

Além disso, equipamentos desenvolvidos em outros países precisam ser adaptados às características da rede brasileira, incluindo clima, infraestrutura e condições de operação.

O país mantém uma indústria ferroviária com conhecimento próprio e capacidade de produzir equipamentos que também podem ser comercializados em outros mercados da América do Sul.

Uma retomada consistente dos investimentos pode ampliar essa atividade industrial, gerando demanda por locomotivas, vagões, máquinas de manutenção, sistemas de inspeção, softwares e serviços especializados.

Inteligência artificial ganha espaço na manutenção ferroviária

Entre as tecnologias com maior potencial de aplicação está a inteligência artificial voltada à análise dos dados coletados pelas ferrovias.

Sistemas de inspeção conseguem identificar defeitos e acompanhar sua evolução. Segundo Alves, modelos matemáticos já podem ajudar a prever o comportamento de determinadas falhas e indicar o momento mais adequado para uma intervenção.

A inteligência artificial pode acelerar esse processo ao analisar grandes volumes de informações e identificar padrões que orientem inspeções mais detalhadas.

Ainda assim, a tecnologia não substitui a tomada de decisão. “Não adianta você ter muito dado”, afirma Alves. O desafio está em transformar essas informações em diagnóstico e, posteriormente, em ações de manutenção.

A questão ganha importância diante do perfil da operação brasileira. O país possui ferrovias utilizadas para transportar grandes volumes de minério, grãos e produtos agrícolas, com composições submetidas a condições severas.

Ao mesmo tempo, existe a necessidade de ampliar a rede para alcançar novas regiões e atender diferentes tipos de carga.

Expansão busca diversificar o transporte ferroviário

Historicamente, a ferrovia brasileira esteve fortemente ligada ao transporte de commodities, principalmente minério e produtos agrícolas. Embora esse segmento continue relevante, a diversificação dos corredores pode ampliar o papel do modal na logística nacional.

Entre os projetos em desenvolvimento está a EF-118, que pretende conectar regiões do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e promover a integração entre diferentes trechos ferroviários e portos.

A nova estruturação da Malha Sul também prevê três corredores, com mais de 4.200 quilômetros, conectando São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e a fronteira com a Argentina.

Trens de passageiros também podem ganhar espaço

A discussão sobre a expansão ferroviária envolve ainda o transporte de passageiros.

O Brasil possui sistemas metropolitanos relevantes, mas ainda não conta com uma rede integrada de trens regionais semelhante à existente em diversos países europeus.

Serviços convencionais entre cidades podem representar uma alternativa inicial mais viável do que projetos de alta velocidade, que demandam traçados específicos, grandes investimentos e obras de maior complexidade.

Formação de profissionais será fundamental

A retomada da infraestrutura ferroviária também depende da disponibilidade de profissionais especializados.

A engenharia ferroviária exige conhecimento técnico e experiência acumulada em áreas como operação, manutenção e construção. Segundo Alves, a formação de um profissional plenamente capacitado pode levar anos.

Por isso, a expansão da malha também precisará ser acompanhada pela formação de técnicos, engenheiros e operadores.

Brasil tenta acelerar novo ciclo ferroviário

O país vive, portanto, um processo de reconstrução ferroviária que envolve diferentes frentes. O governo federal estruturou novos projetos, revisa concessões existentes e estabeleceu regras para novas outorgas.

A carteira inclui novos corredores, além de processos de relicitação e renovação de trechos já existentes.

Transformar esses projetos em ferrovias efetivamente operacionais, porém, é uma etapa mais complexa. A experiência brasileira mostra que concessões podem levar anos para avançar, enquanto o caso alemão evidencia que até redes maduras podem enfrentar limitações de engenharia, mão de obra e planejamento quando muitas obras são realizadas simultaneamente.

A modernização da malha ferroviária brasileira começa, portanto, pela infraestrutura básica: trilhos, manutenção, planejamento e capacidade de execução.

O país já possui uma indústria preparada para operações de cargas pesadas e uma demanda relevante por transporte de grãos, minério e outros produtos. O desafio agora é recuperar e ampliar a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento.

A reconstrução ferroviária pode transformar a logística nacional, mas dependerá de um processo de longo prazo, baseado em investimentos contínuos, manutenção preventiva, profissionais qualificados e integração entre os diferentes trechos da rede.

FONTE: Veja Negócios
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Veja

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Logística

Inteligência artificial na logística: como a IA reduz custos e aumenta a sustentabilidade

O avanço da inteligência artificial na logística está mudando a forma como empresas de transporte, armazenagem e distribuição planejam suas operações. Em um setor pressionado por despesas com combustível, manutenção e estoques, o uso estratégico de dados e tecnologia passou a ser uma ferramenta para buscar mais eficiência e reduzir impactos ambientais.

Com uma base de dados estruturada, sistemas de IA na logística podem apoiar atividades como planejamento de rotas, gestão de estoques, manutenção preditiva e previsão de demanda.

Para o professor Néstor Fabián Ayala, do Núcleo de Engenharia Organizacional (NEO) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a tecnologia permite otimizar diferentes etapas da operação, antecipando necessidades e identificando caminhos mais eficientes.

“Hoje, a IA consegue unir redução de custos e impacto ambiental positivo. Diminuímos o consumo de combustível e otimizamos o uso de pneus, reduzindo rejeitos. Em alguns casos, substituímos três viagens diárias por apenas uma, gerando um ganho ambiental expressivo”, destaca.

IA transforma dados em previsibilidade

A utilização da inteligência artificial já faz parte da realidade de empresas do setor no Rio Grande do Sul. Francisco Cardoso, presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul), explica que a tecnologia representa uma mudança na maneira como as empresas utilizam seus dados.

Durante anos, os sistemas foram empregados principalmente para analisar informações sobre operações que já haviam ocorrido. Com a inteligência artificial, a expectativa é avançar para modelos capazes de identificar padrões, antecipar cenários e melhorar a tomada de decisões.

O primeiro passo, segundo Cardoso, é organizar as informações internas. Em um estágio mais avançado, esses dados podem ser cruzados com informações externas, inclusive dos próprios clientes, permitindo antecipar necessidades e aprimorar o atendimento.

“O grande desafio dessas empresas é primeiro organizar e entender os próprios dados. Depois, transformar esses dados em informação para trabalhar o futuro, a previsibilidade”, afirma.

Tecnologia vai além dos caminhões

Quando se fala em IA no transporte, uma das aplicações mais lembradas é o uso da tecnologia para otimizar operações nas estradas. No entanto, os sistemas podem atuar desde o planejamento até os processos internos das empresas.

Agentes de inteligência artificial capazes de trocar informações entre si podem conectar diferentes áreas da operação. Com isso, a tecnologia contribui para definir rotas mais eficientes, controlar o consumo de combustível e antecipar necessidades de manutenção da frota.

Dentro das empresas, a aplicação também pode alcançar setores como compras, estoque, produção e atendimento ao cliente. A integração de dados permite reorganizar fluxos internos e responder de forma mais rápida a novas demandas.

IA também ganha espaço nos armazéns

Nos centros de distribuição, a automação amplia as possibilidades de uso da tecnologia. Veículos autônomos podem transportar produtos dentro dos galpões, enquanto algoritmos ajudam a determinar a melhor sequência para separação de mercadorias.

Outra aplicação está no dimensionamento das embalagens. Ao calcular o espaço necessário para cada produto, os sistemas podem reduzir o uso excessivo de materiais e, consequentemente, o desperdício.

Para Ayala, a automação também permite direcionar trabalhadores para atividades de maior valor estratégico.

“Otimizamos a rota interna para que robôs busquem os produtos onde são necessários. Isso retira colaboradores de tarefas repetitivas e os direciona para funções de maior valor dentro da fábrica.”

Empresa usa IA para controlar combustível

Fundada em 1992 pelo presidente da Fetransul, a Interlink Cargo está entre as empresas gaúchas que incorporaram a inteligência artificial aos processos logísticos.

Desde 2025, a companhia utiliza a tecnologia em áreas como sistemas de cotação e elaboração de propostas, rastreamento de viagens e análise do desempenho dos operadores. A empresa também cruza informações sobre consumo de combustível e características do relevo em rotas do Mercosul.

Segundo Lucas Vidal Cardoso, diretor comercial da companhia, o combustível responde por cerca de 40% dos custos da operação.

“O combustível representa 40% do nosso custo e sofreu altas significativas. Analisamos o relevo e o tipo de caminhão para prever o consumo e orientar o motorista, unindo eficiência e sustentabilidade”, explica.

Além da economia operacional, a empresa identifica ganhos na gestão de pessoas. Atividades repetitivas podem ser automatizadas, enquanto colaboradores são direcionados para funções relacionadas à tomada de decisão. A companhia também utiliza programas de treinamento e trilhas de aprendizagem para novos funcionários.

Uso de IA também exige atenção ao consumo de energia

Apesar dos ganhos potenciais, a expansão da IA na logística sustentável traz um desafio adicional: o elevado consumo de recursos computacionais.

Modelos de inteligência artificial dependem de infraestrutura de processamento que exige energia, inclusive para sistemas de refrigeração dos data centers. Dessa forma, parte do benefício ambiental obtido com a redução de combustível e emissões pode ser compensada caso a tecnologia seja utilizada de maneira excessiva ou sem planejamento.

O professor Dalvan Jair Griebler, da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), chama atenção para esse aspecto.

“Precisamos de poder computacional e muita energia para refrigeração. Podemos reduzir poluentes nos caminhões, mas gerar impacto pelo uso massivo e desnecessário da IA.”

Para o professor, a adoção da tecnologia exige critérios técnicos e profissionais qualificados para avaliar onde sua utilização efetivamente faz sentido.

Empresas entram em uma nova fase de adoção tecnológica

Griebler avalia que o setor de transporte e logística atravessa uma etapa de amadurecimento no uso da inteligência artificial. Depois do entusiasmo inicial em torno da tecnologia, a preocupação passa a ser avaliar o retorno efetivo para cada operação.

Nesse cenário, uma das questões centrais para as empresas é determinar se a implementação será financeiramente sustentável e se os benefícios justificam os investimentos necessários.

A IA, portanto, não deve ser tratada como uma solução isolada. A tecnologia precisa ser integrada aos métodos de gestão, engenharia e planejamento já utilizados pelas empresas de logística.

Principais aplicações da inteligência artificial na logística

  • Previsão de demanda: ajuda a antecipar o comportamento do mercado e reduzir riscos de falta de produtos, excesso de estoque e capital parado.
  • Otimização de rotas: permite buscar trajetos mais eficientes, reduzindo tempo de entrega, consumo de combustível e emissões.
  • Manutenção preditiva: sensores e sistemas de telemetria podem monitorar veículos e auxiliar na identificação do momento adequado para intervenções, inclusive relacionadas aos pneus.
  • Automação de armazéns: robôs podem localizar e transportar mercadorias, enquanto algoritmos ajudam a definir embalagens com dimensões adequadas.
  • Integração de setores: agentes de IA podem conectar informações de compras, produção e estoque, além de apoiar áreas como finanças, recursos humanos e atendimento ao cliente.

FONTE: Gaúcha ZH
TEXTO: Redação
IMAGEM: Interlink Cargo / Divulgação

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