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Acordos comerciais impulsionam mercados, mas competências produtivas sustentam o desenvolvimento

O comércio internacional passa por uma transformação estrutural, marcada por maior incerteza, avanço de barreiras comerciais e fragmentação das regras globais. Estudos sobre ciclos econômicos de longo prazo indicam que a rivalidade entre Estados Unidos e China tende a inaugurar um período prolongado de restrições ao comércio, e não a encerrá-lo, a exemplo do que ocorreu no fim do século XIX, quando tarifas elevadas se espalharam a partir das grandes potências.

Acordos ganham valor em um cenário de fragmentação

Nesse contexto, acordos comerciais construídos ao longo do tempo e sustentados por instituições sólidas passam a ter relevância estratégica para a indústria. Caso sejam concluídos os trâmites para sua entrada em vigor, o acordo Mercosul–União Europeia pode oferecer um ambiente mais previsível e seguro, com oportunidades distintas para diferentes perfis de exportadores.

Ainda assim, o caminho para o desenvolvimento econômico não está na simples ampliação dos volumes exportados. O avanço consistente depende da sofisticação produtiva e da capacidade de capturar valor ao longo das cadeias industriais.

Duas rotas possíveis para a inserção internacional

Uma das rotas naturais abertas pelo acordo é a das cadeias de valor baseadas em commodities, essenciais para a indústria, mas estruturalmente limitadas como motor de desenvolvimento. A outra, mais estreita e exigente, envolve a captura de valor industrial por meio da hipersegmentação de mercados, especialmente diante da demanda europeia por bens manufaturados e semimanufaturados mais sofisticados.

Para acessar essa via, escala e custo deixam de ser suficientes. As empresas precisam incorporar engenharia, padronização, certificações, rastreabilidade, sustentabilidade verificável e diferenciação de produto, atributos que dependem de investimentos produtivos, decisões estratégicas e coordenação ao longo das cadeias.

Globalização criou a base, mas o potencial segue subutilizado

Apesar de a globalização ter revolucionado a logística internacional, com avanços no transporte aéreo, sistemas de frio e coordenação digital, esse potencial segue amplamente subexplorado. Hoje, tornou-se viável atender mercados europeus exigentes em poucos dias, inclusive com produções especializadas e perecíveis, algo impensável no passado.

Esse cenário abre espaço para capturar mais valor e dinamizar setores de tecnologia madura, por meio de estratégias voltadas a nichos altamente exigentes, fortalecendo o desenvolvimento regional e promovendo melhor distribuição de renda ao longo das cadeias produtivas.

Competências não surgem automaticamente com o acordo

A construção dessas competências, no entanto, não é automática nem resulta apenas do acesso preferencial ao mercado europeu. Ela exige coordenação estratégica, intencionalidade clara e atuação conjunta de empresas, associações setoriais e políticas públicas, com foco explícito em aumentar o valor por unidade exportada.

Elementos como inovação aplicada, engenharia de precisão, design, padronização sanitária e governança de cadeia são fruto de escolhas deliberadas e investimentos persistentes. Sem esse esforço, o acordo tende apenas a reforçar padrões já existentes de especialização; com ele, pode se tornar um instrumento real de transformação produtiva.

Experiências internacionais mostram o caminho

A Dinamarca se tornou referência na produção de alimentos funcionais ao integrar pesquisa nutricional, design de produto e políticas públicas voltadas à inovação e à sustentabilidade. A articulação entre universidades, indústrias e distribuidores permitiu a criação de produtos com alto valor agregado, baseados em confiança científica e identidade de marca.

A Áustria seguiu trajetória semelhante ao transformar sua vocação florestal em vantagem competitiva global. Investimentos em engenharia da madeira, certificações ambientais e design converteram recursos naturais em soluções construtivas e mobiliário de alto padrão, com forte valor agregado.

Modelos comparáveis podem ser observados na produção de lácteos na Nova Zelândia, que migrou de um enfoque puramente volumétrico para produtos diferenciados e ingredientes premium.

Oportunidades e desafios para o Brasil

No Brasil, já existem sinais positivos em iniciativas como cafés especiais no Paraná, cacau no sul da Bahia, além de potencial claro em frutas frescas, vinhos, queijos e móveis. O desafio central não é apenas explorar vantagens comparativas naturais, mas evitar ficar prisioneiro delas.

Em um comércio global mais fragmentado, o acordo com a União Europeia pode funcionar como catalisador para a construção deliberada de competências produtivas voltadas a mercados nichados e exigentes. A oportunidade só será plenamente aproveitada se o país desenvolver cadeias de valor capazes de transformar recursos naturais em bens sofisticados, com maior valor agregado e melhor distribuição de renda. Sem esse salto qualitativo, o Brasil pode até exportar mais, mas seguirá se desenvolvendo pouco.

FONTE: FIESC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Freepik

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Comércio Internacional

Descarbonização vira exigência para exportações à União Europeia com novas regras ambientais

A descarbonização deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser um requisito obrigatório para empresas que exportam à União Europeia (UE). Desde 1º de janeiro, está em vigor o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), mecanismo que impõe novas exigências ambientais a produtos importados pelo bloco.

O que é o CBAM e quem é impactado

O CBAM afeta diretamente exportadores de aço, alumínio, cimento, ferro, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio, setores com alta intensidade de emissões. A medida foi criada para combater a chamada “fuga de carbono”, evitando que a produção seja transferida para países com regras ambientais menos rigorosas.

Na prática, o mecanismo estabelece uma taxação sobre importações provenientes de países que não adotam padrões equivalentes de precificação ou controle de emissões de gases de efeito estufa. As empresas precisam comprovar a pegada de carbono de seus produtos para manter o acesso ao mercado europeu.

Desafio regulatório e mudança no comércio global

Para a presidente da Câmara de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), Maitê Bustamante, o CBAM representa mais do que uma nova exigência regulatória. Segundo ela, o mecanismo sinaliza uma transformação estrutural no comércio internacional.

“O tema deixa de ser uma discussão de longo prazo e passa a demandar ações imediatas da indústria, com investimentos em mensuração de emissões, eficiência energética e estratégias de descarbonização”, afirma.

Competitividade e valorização de produtos sustentáveis

O impacto do CBAM vai além de uma possível barreira comercial. O novo modelo tende a favorecer empresas que já adotam práticas sustentáveis, ampliando a competitividade de produtos com menor intensidade de carbono e facilitando o acesso a mercados mais exigentes do ponto de vista ambiental.

Reflexos para a indústria catarinense

No caso de Santa Catarina, a adaptação é ainda mais estratégica devido ao perfil exportador do estado e à diversidade de setores industriais com forte presença no mercado europeu. De acordo com Bustamante, a adequação às regras do CBAM exige não apenas ajustes técnicos, mas também planejamento estratégico e acesso a informações qualificadas. A documentação oficial está disponível no site da Comissão Europeia.

Apoio às empresas e orientação técnica

A FIESC tem atuado no apoio às indústrias, oferecendo orientação sobre os impactos do CBAM, esclarecendo exigências regulatórias e estimulando soluções que fortaleçam a competitividade industrial em um cenário de economia de baixo carbono. Empresas interessadas podem tirar dúvidas pelo e-mail geint@fiesc.com.br.

Controle de efluentes e práticas ESG

Durante o encontro, o consultor da FIESC Luís Henrique Cândido da Silveira apresentou parâmetros e padrões para o controle de efluentes líquidos industriais. Na sequência, Julia Iasmin detalhou o WEEN ESG, programa da Pronatur voltado à gestão e implementação de práticas ESG, auxiliando empresas de diferentes portes a estruturar, mensurar e evoluir em suas estratégias de sustentabilidade.

FONTE: FIESC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Filipe Scotti

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Comércio

UE e Índia firmam acordo histórico e criam uma das maiores áreas de livre comércio do mundo

A União Europeia (UE) e a Índia formalizaram nesta terça-feira (27) um acordo comercial de grande alcance que cria uma zona de livre comércio envolvendo aproximadamente 2 bilhões de pessoas. O pacto encerra quase 20 anos de negociações e passa a figurar entre os maiores acordos comerciais globais em termos de população e peso econômico.

O entendimento surge em um contexto de instabilidade geopolítica, com o objetivo de reduzir impactos da concorrência chinesa e das tensões geradas pela guerra tarifária dos Estados Unidos.

Acordo representa fatia expressiva da economia global

Antes do encontro com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, destacou a dimensão econômica do pacto. Segundo ele, o acordo responde por cerca de 25% do PIB mundial e aproximadamente um terço do comércio internacional.

Ursula von der Leyen afirmou que o tratado marca um momento histórico na relação entre os dois blocos, ao estabelecer uma área de livre comércio com potencial de ganhos mútuos em escala global.

Redução de tarifas deve impulsionar comércio bilateral

Os últimos impasses foram resolvidos na segunda-feira, permitindo a conclusão do texto final. A expectativa é de que o acordo estimule o comércio bilateral por meio da redução de tarifas em diversos setores estratégicos.

De acordo com Bruxelas, a diminuição das tarifas indianas sobre produtos europeus pode gerar uma economia de até 4 bilhões de euros por ano para empresas da UE. A Alemanha classificou o pacto como um vetor relevante de crescimento econômico e geração de empregos.

Automóveis, vinhos e alimentos entre os setores beneficiados

Com a entrada em vigor do acordo, as tarifas indianas sobre automóveis europeus cairão de 110% para 10%. No setor de bebidas, a taxa sobre vinhos será reduzida de 150% para 20%.

Já os impostos aplicados a massas e chocolates, atualmente em torno de 50%, serão completamente eliminados, segundo autoridades europeias. A UE avalia que poderá dobrar suas exportações para o mercado indiano, tradicionalmente protegido.

Índia aposta em exportações e modernização

Do lado indiano, o governo espera ampliar as vendas externas de têxteis, joias, pedras preciosas e produtos de couro. Em 2024, o comércio de mercadorias entre as partes alcançou 120 bilhões de euros, enquanto o setor de serviços somou 60 bilhões de euros, conforme dados oficiais da UE.

Bruxelas vê na Índia uma oportunidade estratégica, diante do mercado de 1,5 bilhão de habitantes e do crescimento econômico acelerado, que atingiu 8,2% no último trimestre.

Índia deve ganhar espaço no ranking das maiores economias

Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Índia deve ultrapassar o Japão ainda neste ano e se tornar a quarta maior economia do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Alemanha. O governo indiano projeta que o país poderá alcançar a terceira posição antes de 2030.

Para Nova Délhi, a Europa é vista como uma fonte estratégica de tecnologia, investimentos e inovação, fundamentais para acelerar a modernização econômica e a criação de milhões de empregos.

Cooperação vai além do comércio

Além do livre comércio, UE e Índia pretendem avançar em acordos sobre circulação de trabalhadores temporários, intercâmbio de estudantes, pesquisadores e profissionais qualificados, além de cooperação nas áreas de segurança e defesa.

Na área militar, a Índia vem diversificando seus fornecedores e reduzindo a dependência da Rússia, enquanto países europeus buscam estratégia semelhante em relação aos Estados Unidos.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reuters

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Comércio Internacional

FecomercioSP apoia acordo Mercosul–União Europeia e cobra rapidez do Congresso para ratificação

A FecomercioSP avaliou como um avanço relevante a assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia, especialmente em um cenário internacional marcado por incertezas geopolíticas, tensões comerciais entre Estados Unidos e China e mudanças estruturais no comércio global. Para a Federação, o tratado fortalece o Brasil e o bloco sul-americano ao ampliar o acesso a mercados e estimular a competitividade.

A União Europeia é atualmente o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com uma corrente de comércio em torno de US$ 100 bilhões e responsável por cerca de 50% do estoque de investimento estrangeiro direto no País. Na avaliação da entidade, o contexto global apenas reforça uma posição defendida há anos: uma abertura comercial consistente é fundamental para elevar a produtividade e a competitividade da economia brasileira.

Defesa histórica da abertura comercial
As negociações do acordo se estenderam por mais de duas décadas, atravessando diferentes governos e transformações econômicas nos dois lados do Atlântico. Ao longo desse período, a FecomercioSP manteve atuação ativa em defesa de uma abertura ampla e da consolidação do tratado como um projeto de desenvolvimento nacional.

Segundo Rubens Medrano, vice-presidente da Federação e presidente do Conselho de Relações Internacionais da entidade, a prioridade agora é acompanhar os próximos passos. “A abertura comercial racional e gradual é inegociável. Esperamos que a ratificação ocorra de forma célere, pois o acordo pode impulsionar a competitividade brasileira e destravar outras negociações internacionais”, afirmou.

Brasil segue com baixa presença no comércio global
Apesar de ter o nono maior PIB do mundo, a participação brasileira no comércio internacional permanece limitada. Há cerca de seis décadas, o País responde por aproximadamente 1,5% da corrente global de comércio. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que, em 2023, o Brasil ocupava apenas a 24ª posição entre os exportadores e a 27ª entre os importadores.

Para a FecomercioSP, esse desempenho está ligado à opção histórica por um modelo protecionista, que manteve tarifas elevadas sobre bens intermediários e de capital, enquanto outros países avançaram na integração às cadeias globais de valor. O resultado foi o chamado “adensamento de cadeias domésticas”, com produção concentrada internamente e menor inserção internacional.

Lições do protecionismo e impactos globais
A recente política tarifária adotada pelos Estados Unidos durante a gestão de Donald Trump reforçou os efeitos negativos do protecionismo. O aumento de tarifas atingiu inclusive aliados, como a União Europeia e o Japão, e foi ainda mais severo para países considerados rivais estratégicos, como China e Brasil, que segue enfrentando tarifas elevadas.

Nesse contexto, o acordo Mercosul–UE prevê uma liberalização tarifária gradual, ao longo de até 15 anos, abrangendo cerca de 90% dos produtos comercializados entre os blocos. Alguns itens, como frutas, bebidas e bens manufaturados, terão acesso facilitado ou isenção de tarifas no mercado europeu.

Pontos de crítica e ajustes pendentes
Embora reconheça os ganhos do acordo, a FecomercioSP aponta que o governo brasileiro retomou negociações sobre temas já concluídos em 2019, como o capítulo de compras governamentais, adotando uma postura considerada protecionista. A exclusão de aquisições do Sistema Único de Saúde (SUS) também é vista com ressalvas.

Para a entidade, acordos internacionais nessa área aumentam a transparência, reduzem custos, estimulam ganhos de produtividade e funcionam como instrumento de prevenção à corrupção. Outro ponto criticado é o tratamento diferenciado ao setor automotivo, que terá prazo maior de adaptação e possibilidade de reintrodução de tarifas, hoje em torno de 35%. Segundo a Federação, após décadas de proteção, o setor não apresentou ganhos relevantes de competitividade, e o consumidor segue com acesso limitado a melhores modelos.

Próximos passos para entrada em vigor
Com a assinatura formalizada, o acordo entra agora na fase de internalização, com trâmites de aprovação nos dois blocos. No Brasil, o texto será encaminhado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional. Já na União Europeia, será necessária a aprovação de 65% do Conselho Europeu, representando 55% da população do bloco, além de maioria simples no Parlamento Europeu. A expectativa é que esse processo seja concluído até abril.

Após a ratificação, o acordo poderá ter vigência bilateral, permitindo que países que já concluíram seus processos internos passem a aplicar imediatamente os termos do tratado. Assim, o Brasil não precisará aguardar os demais membros do Mercosul para iniciar a implementação. A entrada em vigor ocorrerá no primeiro dia do mês seguinte à ratificação.

FONTE: Fecomercio
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Fecomercio

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Comércio Internacional

Bloquear acordo Mercosul–União Europeia é “gol contra”, afirma presidente de câmara francesa

Apesar da resistência de alguns setores da economia francesa, especialmente no campo político e agrícola, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é amplamente defendido por empresários e investidores franceses com atuação no Brasil. A avaliação é de Thierry Besse, presidente da Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB).

Após 25 anos de negociações, Besse considera que rejeitar o tratado neste momento representaria a perda de uma oportunidade histórica para expandir mercados, fortalecer cadeias produtivas e reduzir a influência de outros competidores globais, como a China.

Em entrevista ao jornal Valor, o executivo comparou a assinatura do acordo a um gol decisivo no fim da partida. Para ele, barrar a ratificação agora seria equivalente a “marcar contra” e entregar vantagem estratégica a Pequim.

Segundo Besse, o tratado cria bases sólidas para uma integração econômica estratégica entre dois blocos que compartilham valores institucionais semelhantes, em um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica.

Setores beneficiados pelo acordo Mercosul-União Europeia

O dirigente destaca que diversos segmentos franceses devem ser impactados positivamente com a implementação do acordo Mercosul-UE, entre eles:

  • Vinhos, champanhes e bebidas alcoólicas
  • Laticínios
  • Produtos com denominação de origem protegida
  • Indústrias aeronáutica, automotiva, farmacêutica e energética, com ênfase em energias renováveis

O acordo foi assinado no sábado (17), no Paraguai, por representantes do Mercosul e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O tratado cria a maior área de livre comércio do mundo, reunindo mais de 700 milhões de consumidores em 32 países, com um PIB combinado de US$ 22 trilhões.

Impasse político trava avanço do tratado

Mesmo com o apoio do setor empresarial, o acordo sofreu um revés político. Na quarta-feira (21), o Parlamento Europeu aprovou o envio do texto à Corte Europeia de Justiça para uma análise jurídica sobre sua compatibilidade com as leis da União Europeia.

A decisão, aprovada por margem estreita, pode congelar o processo por pelo menos dois anos. Para Besse, superar esse obstáculo exige ampliar o debate público na Europa sobre os benefícios do tratado.

Ele defende que empresários europeus atuantes na América do Sul ajudem a esclarecer a opinião pública em seus países de origem, ressaltando o potencial econômico da região.

Resistência agrícola coloca a França no centro da oposição

A França lidera a resistência ao acordo dentro da União Europeia. O país foi um dos cinco que votaram contra o tratado na Comissão Europeia, pressionado principalmente por entidades do setor agrícola.

Produtores franceses alegam concorrência desleal, diferenças em padrões ambientais e sanitários, além do uso de pesticidas proibidos na UE e regras mais flexíveis sobre desmatamento no Mercosul.

Besse reconhece que algumas preocupações, especialmente na pecuária, são legítimas. No entanto, afirma que o debate foi distorcido por discursos exagerados e pouco conectados com o conteúdo real do acordo.

Ele lembra que críticas semelhantes surgiram durante as negociações do acordo comercial entre União Europeia e Canadá, que, anos depois, mostrou resultados positivos para ambos os lados.

Salvaguardas e potencial ainda pouco explorado

O presidente da CCIFB destaca que o acordo inclui mecanismos de proteção. Um exemplo é o limite de 99 mil toneladas anuais de carne bovina importadas do Mercosul pela UE, o equivalente a apenas 1,2% do consumo europeu.

Entre os ganhos imediatos, estão os produtos alimentares franceses, que passarão a contar com proteção legal no mercado sul-americano. Atualmente, a França exporta cerca de 700 mil garrafas de vinho e champanhe por ano ao Brasil, número que tende a crescer com a redução de tarifas.

No setor industrial, as expectativas envolvem infraestrutura, equipamentos elétricos, cosméticos, beleza, além de projetos de energia eólica, solar e hidrelétrica, áreas nas quais empresas francesas já têm forte presença no Brasil.

Presença francesa no Brasil e impacto geopolítico

Segundo Besse, aproximadamente 1.300 empresas francesas operam no Brasil, gerando mais de R$ 400 bilhões em faturamento em 2024 e empregando cerca de 560 mil pessoas. A França é hoje o maior empregador estrangeiro no país e o segundo maior investidor, atrás apenas dos Estados Unidos.

Mesmo assim, o comércio bilateral ainda é considerado modesto, somando cerca de € 8 bilhões em 2024, com fluxo relativamente equilibrado.

Para o executivo, o acordo cria uma verdadeira “autoestrada” para o crescimento das trocas comerciais no médio prazo, beneficiando não apenas grandes multinacionais, mas também pequenas e médias empresas.

Besse ressalta ainda o peso geopolítico do tratado em um contexto de enfraquecimento do multilateralismo e aumento das tensões comerciais globais. Na sua visão, a integração entre Europa e América do Sul é hoje mais necessária do que nunca.

FONTE: Valor International
TEXTO: Redação
IMAGEM: Rogerio Vieira/Valor

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Comércio Internacional

União Europeia sinaliza aplicação provisória de acordo Mercosul-UE

Bloco europeu avalia antecipar benefícios do acordo comercial
A União Europeia afirmou estar preparada para colocar em prática, de forma provisória, o acordo de livre comércio firmado com o Mercosul. A sinalização foi feita pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao final da cúpula de líderes da UE, realizada em Bruxelas.

A possibilidade surge mesmo após o Parlamento Europeu decidir adiar a ratificação formal do tratado, enquanto uma revisão jurídica do texto é conduzida pela Corte Europeia de Justiça.

Aplicação provisória depende do Mercosul
Segundo von der Leyen, a Comissão Europeia poderá avançar com a aplicação provisória do acordo assim que ao menos um país do Mercosul ratificar o tratado. Para ela, há interesse político claro em antecipar os efeitos econômicos do pacto.

A presidente destacou que, apesar de ainda não haver uma decisão formal, a UE está pronta para agir no momento em que os parceiros sul-americanos concluírem seus processos internos.

Comissão Europeia tem respaldo institucional
Durante a mesma coletiva, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que a Comissão Europeia possui autoridade legal para implementar o acordo de forma provisória, sem a necessidade de aguardar a ratificação completa por todos os parlamentos nacionais do bloco.

Essa estratégia, no entanto, tende a gerar reação de países contrários ao acordo, especialmente a França, que lidera a oposição dentro da UE.

Resistência francesa e revisão judicial
Na última quarta-feira (21), o Parlamento Europeu aprovou, por margem estreita, o envio do acordo comercial à Corte Europeia de Justiça para análise jurídica. Com isso, a votação de ratificação fica suspensa até a decisão do tribunal, processo que pode levar meses.

A França, maior produtor agrícola da Europa, defende salvaguardas adicionais para o setor agropecuário, alegando riscos à competitividade dos agricultores europeus. Em contrapartida, o chanceler alemão, Friedrich Merz, classificou o adiamento como negativo e defendeu a adoção imediata da aplicação provisória.

Estratégia geopolítica e diversificação comercial
O acordo Mercosul-UE é considerado estratégico para Bruxelas no contexto de diversificação das relações comerciais, reduzindo a dependência histórica dos Estados Unidos. A iniciativa ganhou força diante do ambiente de tensão e imprevisibilidade nas relações comerciais internacionais durante o segundo mandato do presidente norte-americano, Donald Trump.

Nos últimos anos, a União Europeia firmou acordos com países como Japão e México e planeja concluir um tratado semelhante com a Índia ainda este mês.

Impacto econômico e alcance global
O tratado prevê a eliminação gradual de mais de 90% das tarifas comerciais, abrangendo produtos como carne bovina sul-americana e automóveis europeus. A expectativa é criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, beneficiando mais de 700 milhões de consumidores.

O acordo conta com forte apoio de países produtores agropecuários da América do Sul e de setores industriais da Europa. Na região sul-americana, a ratificação é vista como praticamente garantida.

Composição do Mercosul no acordo
O Mercosul é formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, as principais economias do bloco. A Bolívia, mais recente integrante, ainda não faz parte do acordo comercial, mas poderá aderir futuramente. A Venezuela, suspensa do Mercosul, também não está incluída no tratado.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reuters/Yves Herman

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Comércio Exterior

Especialistas analisam o comércio internacional e o cenário econômico da Venezuela

O Conselho Empresarial de Comércio Exterior da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) promoveu um encontro voltado à discussão de temas estratégicos da agenda econômica brasileira e do comércio exterior. O convidado foi o economista Márcio Sette Fortes, que apresentou a palestra “As perspectivas econômicas e políticas da Venezuela no comércio internacional”.

Durante a exposição, o especialista abordou questões relacionadas a acordos internacionais, financiamento ao comércio e o contexto econômico da América do Sul, com foco nos reflexos para o Brasil e para o Estado do Rio de Janeiro.

Política de preços da Petrobras e impactos no mercado

Ao analisar o setor energético, Márcio Sette destacou a mudança na política de preços da Petrobras, que em 2023 deixou de adotar a Paridade de Preços de Importação (PPI). Segundo ele, embora a medida tenha reduzido a dependência direta da cotação internacional do barril Brent, o país ainda permanece sensível às oscilações globais, especialmente no mercado de diesel.

“O Brasil continua exposto aos preços internacionais, mesmo com ajustes na política interna”, observou o economista.

Indústria petrolífera da Venezuela e reflexos no Rio de Janeiro

O economista também chamou atenção para a situação da indústria de petróleo da Venezuela, que, de acordo com sua análise, enfrenta um quadro de sucateamento após duas décadas de baixo investimento. Esse cenário inviabiliza uma retomada rápida da produção, apesar de o país deter as maiores reservas de petróleo do mundo.

No caso do Rio de Janeiro, o alerta recai sobre os possíveis efeitos de uma eventual ampliação da produção venezuelana sob influência dos Estados Unidos. Uma maior oferta de petróleo no mercado global poderia pressionar os preços internacionais. “O petróleo responde por cerca de 40% do PIB total e 80% do PIB industrial fluminense. Uma queda expressiva nos preços teria impacto direto nas exportações da Petrobras, na arrecadação estadual e na economia do Rio”, afirmou.

Acordos comerciais e integração regional

Outro ponto abordado foi o papel dos acordos de comércio internacional, como o Acordo de Complementação Econômica nº 59 (ACE 59) e o Acordo Mercosul–União Europeia. Márcio Sette também comentou a suspensão temporária — posteriormente revogada — do Acordo de Complementação Econômica nº 69 (ACE 69), que permite a entrada de produtos brasileiros na Venezuela com tarifa zero, desde que cumpridas as exigências de certificação de origem.

Crise política e desafios econômicos na Venezuela

A reunião contou ainda com uma análise política apresentada pelo vice-presidente do Conselho Empresarial de Comércio Exterior, Pedro Rafael. Ele traçou um panorama da crise venezuelana, combinando aspectos históricos com as recentes mudanças políticas e econômicas.

Segundo Pedro Rafael, a Venezuela enfrenta atualmente um cenário de insegurança jurídica, no qual a recuperação econômica depende da reabertura ao mercado internacional e da regularização de dívidas acumuladas. “A reconstrução econômica e política do país é urgente e passa, necessariamente, pela retomada da confiança institucional”, avaliou.

FONTE: ACRJ
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/ACRJ

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Comércio Internacional

ApexBrasil vê aumento de riscos para o acordo Mercosul-União Europeia diante de resistência política no bloco

A ApexBrasil avalia que o acordo Mercosul-União Europeia enfrenta um cenário de maior incerteza, impulsionado pelo avanço de resistências políticas dentro do bloco europeu e por um ambiente crescente de escrutínio jurídico. A análise foi apresentada pelo presidente da agência, Jorge Viana, ao comentar o tema em Brasília.

Segundo ele, embora o tratado siga sendo considerado estratégico para as duas regiões, a combinação de oposição política e dúvidas institucionais na Europa pode atrasar ou dificultar sua tramitação.

Um acordo trilionário sob pressão política

De acordo com Viana, o acordo conecta dois blocos que, juntos, somam cerca de US$ 22 trilhões em Produto Interno Bruto (PIB). Essa magnitude ajuda a explicar a intensidade das disputas internas na União Europeia, especialmente em setores protegidos e em grupos políticos que enxergam riscos competitivos para suas economias nacionais.

O presidente da ApexBrasil destacou que o texto do tratado inclui mecanismos de salvaguarda, criados justamente para reduzir impactos abruptos e evitar distorções de mercado. A intenção, segundo ele, foi construir um acordo equilibrado, capaz de acomodar interesses distintos.

Ainda assim, a resistência política na Europa permanece elevada e cria um ambiente de instabilidade que pode comprometer o avanço da ratificação.

Senado brasileiro promete prioridade em 2026

No plano doméstico, Viana afirmou ter discutido o tema com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em reunião realizada no dia 21 de janeiro. Segundo ele, o compromisso é tratar a aprovação do acordo como prioridade legislativa em 2026.

A sinalização indica uma tentativa de acelerar a tramitação interna e demonstrar engajamento político do Brasil. De acordo com o relato, Alcolumbre teria indicado que o acordo será colocado no topo da pauta quando o Congresso retomar os trabalhos após o recesso.

Coordenação regional como forma de pressão diplomática

Viana também mencionou a possibilidade de articulação com os parlamentos dos demais países do Mercosul para avançar de forma coordenada na aprovação do tratado. Na avaliação da ApexBrasil, esse movimento poderia elevar o custo político de uma demora excessiva do lado europeu.

A estratégia, segundo o dirigente, funcionaria como uma pressão indireta e diplomática, ao demonstrar que a América do Sul estaria pronta para cumprir suas etapas institucionais.

Alinhamento com Alckmin e foco na ratificação interna

O presidente da ApexBrasil afirmou que sua leitura está alinhada à do vice-presidente Geraldo Alckmin, no sentido de acelerar a ratificação interna do acordo. O objetivo seria reduzir incertezas domésticas e reforçar a previsibilidade institucional do Brasil.

Para o governo e para setores exportadores, a priorização legislativa também serve como sinal político de compromisso com a ampliação do comércio e da integração internacional.

Resistência europeia une extremos políticos

Um dos pontos mais sensíveis destacados por Viana é o caráter transversal da oposição ao acordo dentro da União Europeia. Segundo ele, a resistência atravessa diferentes espectros ideológicos.

Setores mais extremos à esquerda e mais extremos à direita acabaram se unindo contra o acordo”, afirmou. Essa convergência amplia o número de atores capazes de bloquear ou retardar decisões, tornando o processo mais imprevisível.

As críticas envolvem temas como agricultura, meio ambiente, indústria, soberania regulatória e protecionismo, o que dificulta a formação de consensos.

Conselho Europeu e revisão jurídica entram no radar

Viana lembrou que o Conselho Europeu era aguardado para se posicionar sobre os próximos passos do acordo, indicando que o tema entrou em uma fase sensível da tramitação europeia. Ele ressaltou que revisões jurídicas são comuns em acordos comerciais do bloco, citando como exemplo o tratado entre União Europeia e Canadá.

Esses processos, no entanto, podem tanto fazer parte do rito institucional quanto funcionar como instrumentos de adiamento diante de pressões políticas internas.

Limites da atuação brasileira

O presidente da ApexBrasil enfatizou que o Brasil não tem como interferir em decisões de cortes europeias nem em eventuais iniciativas de implementação provisória do acordo. Segundo ele, essas definições cabem exclusivamente às instituições da União Europeia.

Nesse sentido, o principal foco de incerteza permanece concentrado na dinâmica política e jurídica do bloco europeu.

O que está em jogo para Mercosul e União Europeia

As declarações de Jorge Viana desenham um cenário em que o Brasil busca avançar internamente para demonstrar compromisso com o acordo Mercosul-União Europeia, enquanto reconhece que o maior obstáculo está do outro lado do Atlântico.

A aposta brasileira em priorizar a tramitação em 2026 tenta reduzir ruídos internos e reforçar a credibilidade do país. Ainda assim, a oposição europeia e o escrutínio jurídico indicam que o caminho até a entrada em vigor do tratado tende a ser mais longo e incerto, condicionado a disputas políticas que fogem ao controle do Mercosul.

FONTE: Brasil 247
TEXTO: Redação
IMAGEM: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Comércio Internacional

BRICS e América do Sul: Argentina, Paraguai e Uruguai avaliam aproximação, mas sem adesão formal

A possibilidade de aproximação entre países do Mercosul e o BRICS voltou ao centro do debate na América do Sul, em um contexto marcado por incertezas econômicas globais, negociações comerciais em andamento e esforços regionais para ampliar exportações e atrair investimentos. Argentina, Paraguai e Uruguai aparecem com frequência em análises sobre o tema, mas, até o momento, não há sinalização conjunta, pública ou formal de adesão ao bloco.

Apesar do espaço crescente que o assunto ocupa no debate político e diplomático, os registros oficiais apontam para um cenário mais fragmentado, com movimentos distintos e cautelosos por parte de cada país.

Expansão do BRICS e criação da categoria de país parceiro

Criado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China, o BRICS incorporou a África do Sul em 2011 e, desde então, ampliou sua relevância como fórum de coordenação política e econômica entre países emergentes. O grupo ganhou novo impulso com a decisão de expansão anunciada na cúpula de 2023.

Em 2024, os líderes do bloco aprovaram mudanças institucionais e criaram a categoria de “país parceiro”, que permite participação em reuniões e debates, mas sem direito a deliberação, prerrogativa reservada aos membros plenos. Em janeiro de 2025, o governo brasileiro anunciou os primeiros países parceiros, inaugurando oficialmente o novo modelo. No mesmo ano, o Vietnã também passou a integrar essa categoria, sinalizando que o mecanismo segue ativo.

Argentina: convite formal e recusa registrada

No caso da Argentina, as informações confirmadas caminham em sentido contrário à hipótese de ingresso iminente. Em agosto de 2023, o país foi convidado a se tornar membro pleno do BRICS, com adesão prevista para janeiro de 2024.

No entanto, já sob o governo de Javier Milei, Buenos Aires enviou carta oficial aos líderes do bloco comunicando a decisão de não ingressar no grupo. O posicionamento foi tornado público no fim de dezembro de 2023.

A recusa formal não impede a manutenção de relações comerciais ou políticas com países do BRICS, nem a participação em fóruns paralelos. Ainda assim, o gesto institucional registrado foi de não adesão, o que diferencia o interesse econômico em ampliar comércio de um movimento político formal para integrar o bloco.

Uruguai e Paraguai mantêm diálogo, sem pedido de adesão

A movimentação do Uruguai tem se concentrado mais no diálogo do que em um processo estruturado de adesão. Em março de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou Uruguai, Colômbia e México para participar de um encontro vinculado à cúpula do BRICS realizada no Brasil.

Analistas interpretaram o convite como um sinal de abertura para ampliar a interlocução com países latino-americanos, mas não como um convite formal para ingresso no bloco, seja como membro pleno ou país parceiro.

Em relação ao Paraguai, há registros de declarações diplomáticas que mencionam “interesse” no BRICS. No entanto, não existe anúncio oficial de pedido de adesão nem inclusão do país nas listas divulgadas formalmente pelo bloco. Até aqui, a aproximação se restringe a conversas políticas e cooperação econômica pontual.

Mercosul, acordo com a União Europeia e diversificação de parcerias

O debate sobre novas alianças ocorre em paralelo às negociações internacionais do Mercosul. O acordo entre Mercosul e União Europeia teve suas negociações concluídas em dezembro de 2024, segundo comunicados oficiais do governo brasileiro.

Apesar disso, o processo enfrenta entraves no continente europeu. Em janeiro de 2026, o Parlamento Europeu decidiu encaminhar o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia para avaliação jurídica, o que pode postergar a votação final. Autoridades brasileiras defendem que a tramitação interna no Brasil pode ajudar a acelerar etapas, mas ainda não há prazo definido.

Esse cenário reforça a estratégia regional de diversificação de mercados, reduzindo a dependência histórica de parceiros tradicionais como Estados Unidos e Europa, especialmente em um ambiente econômico global mais volátil.

Investimentos, exportações e limites das informações disponíveis

A ideia de que uma maior aproximação com o BRICS poderia impulsionar exportações e atrair investimentos aparece associada a setores estratégicos da América do Sul, como agronegócio, energia e infraestrutura. No entanto, não há dados oficiais, projetos anunciados ou compromissos firmes que sustentem a expectativa de “investimentos bilionários” envolvendo especificamente Argentina, Paraguai e Uruguai no âmbito do bloco.

Indicadores de comércio regional, como os dados brasileiros sobre fluxo comercial com o Paraguai, ajudam a explicar por que Assunção é vista como parceira estratégica. Ainda assim, essas estatísticas não confirmam a existência de negociações formais para entrada paraguaia no BRICS.

O mesmo vale para a narrativa de rompimento com Estados Unidos e Europa. Há, de fato, uma tendência histórica de diversificação da política externa sul-americana, mas atribuir esse objetivo a decisões concretas de adesão ao BRICS exige declarações oficiais que, até agora, não existem.

Cenário aponta cautela e aproximações graduais

No estágio atual, o quadro mais fiel é o de uma região que busca ampliar sua margem de manobra internacional. O Mercosul acelera acordos comerciais, enquanto o BRICS adota formatos mais flexíveis, como o de país parceiro, que funcionam como pontes para novos diálogos.

A questão central permanece em aberto: se e quando Argentina, Paraguai ou Uruguai transformarão sinais de interesse econômico em um movimento institucional concreto, com pedido formal e negociação política dentro do bloco.

FONTE: Click Petróleo e Gás
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/CPG

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Comércio Internacional

Acordo UE-Mercosul enfrenta incertezas após envio à Justiça europeia

A possibilidade de entrada em vigor provisória do acordo UE-Mercosul perdeu força após o Parlamento Europeu decidir encaminhar o texto para análise da Justiça da União Europeia. Para especialistas em relações internacionais, o movimento representa um revés significativo para um tratado que havia sido chancelado no último sábado, no Paraguai, por representantes do Mercosul e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Ouvidos pelo GLOBO, analistas avaliam que, embora não exista uma regra formal que impeça a aplicação provisória, o cenário político torna essa alternativa pouco provável no curto prazo.

Parlamento tende a travar execução provisória

Segundo Carlos Frederico de Souza Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, precedentes indicam que a execução provisória costuma depender de aval do próprio Parlamento Europeu. Para ele, a decisão de submeter o acordo à Corte do bloco reduz drasticamente essa possibilidade.

Na avaliação do especialista, seria incoerente imaginar que o mesmo Parlamento que optou por judicializar o texto adotaria uma posição distinta em relação à sua aplicação antecipada. O ambiente político atual, marcado por disputas internas e pressões setoriais, reforça esse entendimento.

Insegurança jurídica afasta investimentos

Mesmo em um cenário de execução provisória, Coelho destaca que o acordo não ofereceria segurança jurídica suficiente para estimular investimentos de longo prazo ou a formação de cadeias produtivas entre Europa e Mercosul. A tramitação na Justiça europeia tende a ser longa e incerta.

A experiência de outros tratados ilustra esse ritmo. O acordo entre União Europeia e Canadá, por exemplo, entrou em vigor em 2017, mas levou cerca de 17 meses para ser analisado pela Corte. No caso do acordo UE-Mercosul, o professor estima que, mesmo em um cenário otimista, a decisão judicial levaria ao menos seis meses.

Para Coelho, o envio do texto à Justiça funciona como um freio relevante em um momento geopolítico delicado. Ele avalia que a Europa enfrenta dificuldades para se posicionar entre Estados Unidos, Rússia e China, e que o adiamento do acordo enfraquece ainda mais o bloco.

Tensões globais e impacto político

Na visão do especialista, movimentos recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como a imposição de novas tarifas a países europeus e declarações sobre a Groenlândia, deveriam servir de estímulo à ratificação do acordo comercial. O adiamento, nesse contexto, reduz a capacidade de resposta estratégica da União Europeia.

Lobbies contrários devem intensificar pressão

Roberto Jaguaribe, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), também considera improvável que o acordo seja aplicado antes da decisão da Justiça europeia. Ainda assim, ele avalia que a aproximação econômica entre Europa e Mercosul continuará avançando em outras frentes.

Para Jaguaribe, a tendência é que o tratado seja aprovado ao final do processo, apesar das resistências. Ele pondera, porém, que setores contrários, como parte do agronegócio francês, podem aproveitar o intervalo para reforçar sua atuação política.

O diplomata avalia que haverá maior mobilização dos grupos que se consideram prejudicados, mas ressalta que os defensores do acordo também mantêm uma posição consistente. Em sua análise, a influência direta dos lobbies sobre o Tribunal de Justiça da União Europeia tende a ser limitada, ao menos do ponto de vista institucional.

FONTE: O Globo
TEXTO: Redação
IMAGEM: Luis Robayo/AFP

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