Comércio Exterior

O comércio exterior mostra sinais de melhora, mas persistem desafios operacionais

O comércio exterior argentino atravessa um processo de transformação acelerada sob a gestão de Javier Milei. Com um enfoque centrado na desregulamentação, o governo impulsionou medidas destinadas a simplificar trâmites, ordenar o sistema de pagamentos e melhorar a transparência da operação. No entanto, persistem inconsistências normativas, gargalos técnicos e restrições operacionais que continuam afetando tanto importadores quanto exportadores.

Para analisar esse cenário, serindustria.com.ar conversou com Julieta Serena, sócia-gerente do Grupo Serena, secretária da Câmara de Comércio Exterior de Córdoba (CaCEC) e integrante da Comissão Operativa da Federação de Câmaras de Comércio Exterior da República Argentina (FECACERA), que oferece uma visão integral sobre os avanços e as pendências.

A advogada e despachante aduaneira considerou que a decisão mais relevante do governo em matéria de comércio exterior foi a eliminação das licenças automáticas e não automáticas. Nesse sentido, qualificou a medida como “muito favorável sobretudo para a previsibilidade das operações”, já que esses mecanismos haviam se tornado ao longo dos anos “um obstáculo” que afetava seriamente a concretização das importações.

“Havia certos produtos sensíveis, como têxteis ou brinquedos, em que realmente não havia certeza de conseguir concretizar a operação. Era preciso judicializar, e a judicialização também havia se tornado bastante difícil”, explicou. Ela acrescentou que, mesmo quando eram obtidas medidas cautelares contra o Estado, surgiam novos obstáculos, como a impossibilidade de registrar declarações. A eliminação desse esquema devolveu previsibilidade e reduziu custos.

Um sistema de pagamentos mais previsível
Outro ponto positivo destacado é a maior clareza no acesso ao mercado de câmbio. Serena reconheceu que ainda não existe a disponibilidade ideal para o importador. De toda forma, valoriza que “foi possível regularizar a maioria das dívidas comerciais e, além disso, ter certeza de quando seria possível pagar e que os prazos seriam cumpridos”.

A especialista lembrou que, antes do esquema atual, o último controle da SIMI era decisivo para determinar o prazo de pagamento e que, mesmo quando se estabeleciam 180 dias, “chegava o dia e não era possível processar o pagamento”. O resultado era um sobrecusto que atingia com força as PMEs, obrigadas a se financiar com brokers diante da falta de linhas bancárias. “Isso melhorou sem dúvida”, afirma.

Ela também considerou positiva a incorporação do mecanismo incluído no DNU 70/2023, que permite liberar mercadorias denunciadas garantindo posteriormente os valores que a Aduana considerar pertinentes. “Antes, a mercadoria ficava retida e podia demorar meses, gerando custos altíssimos de depósito e falta de insumos”, destacou.

Também ressaltou a habilitação para que exportadores compartilhem plantas mediante contrato e o desenvolvimento do monitoramento remoto de exportações, ainda em fase piloto. Para regiões afastadas dos grandes polos aduaneiros, afirmou que representa uma ferramenta valiosa. “Facilita o tempo da operação e evita deslocamentos longos”, apontou.

Regulamentos técnicos: uma reforma necessária, mas mal desenhada
Um dos pontos mais críticos levantados por Serena é a nova regulamentação dos regulamentos técnicos de segurança elétrica, brinquedos, aço e outros produtos. Ela reconheceu que o critério geral é positivo, mas questionou sua implementação. “Foi regulamentado com uma técnica legislativa ruim. Há pouca clareza sobre os produtos abrangidos e ampliaram o escopo para mercadorias que não deveriam estar sujeitas”, afirmou.

Nesse sentido, alertou que o espírito desses regulamentos é proteger o consumidor, mas a norma acabou incluindo insumos industriais ou produtos destinados a processos produtivos. A eliminação da exceção de uso idôneo, somada à confusa aceitação de certificações internacionais, aprofundou a complexidade.

A isso se somam inconsistências evidentes. “Ampliou-se a possibilidade de trazer uma máquina de lavar por courier desde o Chile sem qualquer controle, mas uma lavadora industrial para uma fábrica fica sujeita a múltiplas exigências. São incoerências”, afirmou.

Apesar da simplificação administrativa, Serena destacou que várias restrições ainda geram incerteza operacional. Os bancos privados continuam atuando com critérios próprios e muitas vezes não enviam consultas ou pedidos de prorrogação ao Banco Central, o que afeta regularizações, cumprimentos de divisas ou pagamentos antecipados.

“Como sujeito administrativo, você não tem acesso direto ao Banco Central. Sempre depende do banco, e às vezes o banco não tem interesse em encaminhar o caso”, explicou. Essa intermediação, garantiu, pode resultar em descumprimentos formais que bloqueiam devoluções de IVA e penalizam o exportador.

Duplo controle, custos ocultos e assimetrias
Serena mencionou as distorções que afetam as províncias fora da região do AMBA. Observou que coexistem dois regimes de trânsito: um para fronteiras terrestres sob o Acordo de Transporte Internacional e outro para cargas que entram por portos. O segundo implica o uso obrigatório de um lacre eletrônico cujo custo pode chegar a US$ 800 em algumas regiões, especialmente no sul.

Apesar do monitoramento digital, muitas cargas são igualmente submetidas a verificações em Buenos Aires por diferenças mínimas de peso ou imagem. “Qualquer mercadoria que permanece em um terminal gera um sobrecusto altíssimo”, reclamou, acrescentando que isso impacta diretamente a competitividade.

Ela também apontou diferenças inexplicáveis nos prazos de permanência em depósitos fiscais, que são de 90 dias para cargas terrestres e de 30 para aéreas ou marítimas. “Não há justificativa alguma para essa distorção”.

Embora reconheça avanços na Ventanilla Única de Comércio Exterior (VUCE), Serena afirmou que a Aduana continua trabalhando majoritariamente em papel. “Os despachos de importação ainda são transportados fisicamente em pastas; os expedientes continuam sendo discutidos em papel”. A implementação de inteligência artificial, embora mencionada na agenda oficial, “ainda está muito longe”.

A especialista explicou que a exportação nunca teve a mesma complexidade operacional que a importação. No entanto, identificou uma área crítica: o regime de envios com deficiência. A falta de agilidade faz com que os exportadores evitem utilizá-lo e recorram a operações a título não oneroso, o que depois os expõe a sanções bancárias e bloqueios de IVA.

Ainda assim, reconheceu melhorias recentes, como a aceleração do Certificado de Tipificação de Insumo Produto (CTIT) para importações temporárias, que passou de demorar um ano para ser resolvido em um mês. “É muito favorável e estão trabalhando para reduzir ainda mais os prazos”.

Para Serena, o setor privado deve assumir um papel mais ativo na identificação de problemas e na proposição de soluções, especialmente em um país onde “a realidade de cada ponto operacional é diferente”.

O comércio exterior ainda enfrenta entraves, custos ocultos, assimetrias regionais e uma estrutura administrativa que não acompanha a velocidade dos negócios globais. No entanto, ela afirma que os avanços recentes não são menores e que o desafio agora é aprofundar a simplificação sem gerar contradições.

FONTE: Ser Industria
IMAGEM: Reprodução/Ser Industria

Ler Mais
Internacional

Argentina facilita importação de carros dos EUA com novo acordo comercial

A Argentina, sob o governo de Javier Milei, e os Estados Unidos, liderados por Donald Trump, anunciaram um acordo comercial que promete transformar o fluxo de carros importados dos EUA para o mercado argentino. O entendimento integra o “Marco de Acordo de Comércio Recíproco e Investimento”, criado para ampliar o acesso de produtos americanos ao país sul-americano.

Segundo comunicado conjunto da Casa Branca e do governo argentino, a Argentina concederá acesso preferencial a diversos itens dos EUA — incluindo veículos, maquinários e produtos agrícolas. Além disso, automóveis fabricados nos Estados Unidos que cumpram as normas federais de segurança e emissões passarão a ser aceitos sem necessidade de novos testes locais.

Homologação mais rápida e menos burocracia

A medida deve agilizar a homologação de veículos norte-americanos e reduzir custos operacionais. O INTI já havia sinalizado que reconheceria os testes feitos nos EUA, e o acordo agora oficializa essa prática. Com isso, modelos produzidos no mercado americano poderão chegar às concessionárias argentinas em menos tempo.

Outra pauta em debate é a criação de uma cota anual com tarifas reduzidas. Hoje, carros vindos dos EUA pagam 35% de imposto de importação, o que reduz sua competitividade diante de veículos do Brasil, México e Uruguai — todos com acordos de livre comércio. O novo regime poderá permitir a entrada de uma parcela de veículos americanos com redução ou isenção parcial de tarifas, contornando limites do Mercosul.

Acesso unilateral e impacto para montadoras

Apesar do nome, o acordo não estabelece benefícios recíprocos: carros fabricados na Argentina não receberão as mesmas facilidades para entrar nos EUA. Por ora, a vantagem é unilateral e direcionada unicamente aos produtos norte-americanos.

Montadoras como Ford, Ram e Jeep devem ser as principais beneficiadas, uma vez que já trazem ao país modelos como F-150, Mustang, Wrangler e Grand Cherokee. Marcas premium como BMW e Mercedes-Benz também importam linhas diretamente dos EUA. Analistas avaliam ainda que o pacto pode abrir espaço para a chegada oficial da Tesla ao mercado argentino — algo desejado pelo próprio Milei.

Próximos passos

O acordo ainda precisa passar por trâmites formais e regulamentação nos dois governos antes de vigorar. Segundo o comunicado, Argentina e Estados Unidos trabalharão “com celeridade” para finalizar o texto definitivo. Quando implementado, o pacto deve ampliar a presença de carros americanos nas concessionárias argentinas e fortalecer o país como destino estratégico no setor automotivo da região.

FONTE: Motor 1
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Motor 1

Ler Mais
Internacional

Acordo Argentina–EUA acende alerta sobre futuro do Mercosul, aponta FIESC

O novo acordo comercial entre Argentina e Estados Unidos levantou preocupações entre representantes da indústria brasileira. Para a Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), o gesto do governo argentino sinaliza um enfraquecimento do compromisso do país com o Mercosul, especialmente por ter sido anunciado de forma unilateral. A entidade acompanha os próximos passos e teme reflexos diretos nas tratativas entre o bloco e a União Europeia, negociadas há cerca de duas décadas.

O presidente da federação, Mario Cezar de Aguiar Seleme, avalia que o movimento argentino pode indicar uma saída iminente do bloco. Segundo ele, ainda não está claro como Brasil, Paraguai e Uruguai vão responder ao episódio ou se haverá impacto no andamento do acordo Mercosul–UE.

Preferência aos produtos norte-americanos
A presidente da Câmara de Comércio Exterior da FIESC, Maria Teresa Bustamante, chama atenção para detalhes publicados pelos dois governos. Os documentos oficiais mostram que a Argentina promete dar preferência a itens produzidos nos EUA em setores estratégicos. Isso poderia afetar diretamente as exportações brasileiras nesses nichos.

Entre os produtos citados pela Casa Branca estão medicamentos, produtos químicos, máquinas, tecnologia da informação, dispositivos médicos, veículos — com destaque para camionetes — e produtos agrícolas.

Bustamante alerta que, em áreas onde o Brasil compete com a Argentina pelo mercado americano, a indústria brasileira tende a perder terreno. Isso porque os produtos argentinos poderão chegar aos EUA com tarifas menores, reduzindo a competitividade das empresas brasileiras.

Redução de barreiras e novos padrões
O acordo firmado também prevê eliminar ou reduzir barreiras não tarifárias, como licenças de importação. Outro ponto relevante é a autorização para que empresas dos Estados Unidos usem seus próprios padrões técnicos — ou normas internacionais — na exportação de produtos, sem exigências extras de conformidade ao mercado argentino.

FONTE: FIESC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Visit Buenos Aires

Ler Mais
Internacional

Estados Unidos e Argentina anunciaram o acordo comercial e de investimento: os detalhes

Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, anunciaram a criação de um Marco para um Acordo sobre Comércio e Investimento Recíprocos, com o objetivo de fortalecer a relação econômica bilateral, estimular a abertura de mercados e promover a cooperação em áreas estratégicas.

O acordo busca estabelecer condições claras, estáveis e baseadas em regras para o comércio e os investimentos entre os dois países, apoiando-se nas reformas que a Argentina já colocou em prática para modernizar sua economia. A iniciativa inclui benefícios tarifários, abertura de mercados agrícolas e industriais, padrões regulatórios comuns, proteção da propriedade intelectual e cooperação em áreas como trabalho, meio ambiente e comércio digital.

Entre os principais pontos, destaca-se que a Argentina oferecerá acesso preferencial a produtos dos EUA, como medicamentos, máquinas, tecnologias da informação e produtos agrícolas. Por sua vez, os Estados Unidos eliminarão tarifas para certos recursos naturais argentinos e para medicamentos não patenteados, e levarão em conta o impacto do acordo ao aplicar medidas comerciais relacionadas à segurança nacional.

No setor agrícola, ambos os países se comprometeram a melhorar as condições de acesso aos mercados de carne bovina e de aves, além de facilitar o comércio de produtos como miudezas, carne suína e laticínios. Também foi acordado não restringir o uso de determinados termos relacionados a carne e produtos lácteos.

Eliminação de barreiras

O documento destaca que a Argentina eliminará barreiras não tarifárias, como licenças de importação e formalidades consulares, e se comprometeu a desmantelar gradualmente o imposto estatístico sobre produtos dos EUA. Além disso, passará a se alinhar a padrões internacionais em vários setores e reconhecerá certificações de órgãos norte-americanos como a FDA.

Em relação à propriedade intelectual, a Argentina avançará no combate à falsificação e à pirataria e trabalhará para alinhar sua legislação a padrões internacionais, atendendo observações feitas no Relatório Especial 301 do governo dos EUA.

O acordo também inclui compromissos para proibir a importação de bens produzidos com trabalho forçado, combater o desmatamento ilegal, promover o uso eficiente de recursos e aplicar normas internacionais sobre subsídios à pesca.

Os dois países concordaram em cooperar em segurança econômica para enfrentar práticas comerciais distorcivas de terceiros países, alinhar políticas de controle de exportações, investimentos e evasão tarifária, e fortalecer o comércio de minerais críticos. Além disso, a Argentina revisará o papel de suas empresas estatais e os subsídios industriais.

No que diz respeito ao comércio digital, será criado um marco legal que facilite a transferência transfronteiriça de dados pessoais com os EUA, evitando discriminações contra serviços digitais norte-americanos e reconhecendo a validade de assinaturas eletrônicas emitidas sob a legislação dos EUA.

Estados Unidos e Argentina trabalharão para concluir o texto final do acordo e cumprir os procedimentos internos necessários para sua entrada em vigor. Também se comprometeram a supervisionar sua implementação por meio do marco do Acordo TIFA e do Fórum de Inovação e Criatividade para o Desenvolvimento Econômico.

FONTE: Comercio y Justicia
IMAGEM: Reprodução/Comercio y Justicia

Ler Mais
Comércio Internacional

Alertam que certificados ambientais se tornam novo requisito nos negócios internacionais

As regras do comércio global estão mudando. Cada vez mais, os acordos internacionais e os consumidores exigem que as empresas comprovem seu compromisso ambiental. Os selos verdes, certificações e critérios de sustentabilidade deixaram de ser opcionais e tornaram-se condições de acesso aos mercados mais competitivos. Nesse cenário, surgem desafios para a Argentina — especialmente para as pequenas e médias empresas (PMEs) — na adaptação às novas exigências ambientais impostas pelo comércio internacional.

Para compreender esse processo, o portal serindustria.com.ar entrevistou Adriana H. Narváez, doutora em Relações Internacionais e reitora do Instituto de Capacitação Aduaneira. Com mestrado pela Universidade Paris I Panthéon Sorbonne e experiência em fóruns da Organização Mundial do Comércio (OMC), Narváez também lidera projetos de pesquisa no Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia da Argentina.

A especialista destacou que a sustentabilidade se tornou um elemento essencial da competitividade global. Segundo ela, os selos e certificações ambientais estão se transformando em novas barreiras não tarifárias, especialmente em mercados como União Europeia e Japão. Narváez também observou que muitas PMEs argentinas ainda reagem às exigências externas de sustentabilidade apenas quando enfrentam demandas concretas, em vez de adotar essas práticas de forma estratégica.

Ela analisou ainda o impacto do acordo Mercosul-União Europeia, a necessidade de maior divulgação e incentivos governamentais para estimular a certificação ambiental e o cambio geracional na formação dos novos profissionais de comércio exterior.

Narváez ressaltou que, embora existam programas e linhas de crédito voltados à certificação e à sustentabilidade, a falta de divulgação é o principal obstáculo para que as empresas — especialmente as PMEs — tenham acesso a essas oportunidades. Também explicou que as certificações ambientais, longe de representarem um custo, são investimentos estratégicos que aumentam a rentabilidade e a competitividade das empresas no médio e longo prazo.

A especialista concluiu que, à medida que o mundo avança rumo a economias de baixo carbono, a Argentina tem o potencial de se adaptar e competir globalmente, desde que invista na capacitação de suas empresas e na adoção de padrões ambientais internacionais. Segundo ela, “mais cedo ou mais tarde, essa transição será inevitável — e quem se antecipar sairá na frente”.

FONTE: Ser Industria
IMAGEM: Reprodução/Ser Industria

Ler Mais
Sustentabilidade

Vaca Muerta: Uma oportunidade para responder à crise global de energia

A transição de longo prazo para sistemas de energia de baixo carbono continua ganhando força. Nos últimos dois anos, vimos uma aceleração das pressões sociais, políticas e de investidores sobre as empresas do setor para que abandonem a energia baseada em combustíveis fósseis e avancem em direção a uma economia de zero carbono.

Por exemplo, no início de 2020, apenas algumas empresas de petróleo e gás haviam anunciado metas de emissões líquidas zero até 2050. Hoje, dezenas de empresas estabeleceram metas cada vez mais ambiciosas — algumas com prazos para 2040 ou antes. A exigência continua aumentando, especialmente à medida que os acionistas demandam reduções mais amplas e rápidas de emissões dos setores que mais poluem.

Mais recentemente, as tensões geopolíticas provocadas pela invasão da Ucrânia e o impacto massivo sobre a vida e os meios de subsistência das pessoas na região estão causando turbulência nos mercados de energia da Europa e além. Mesmo antes do conflito, a recuperação da demanda por energia já havia provocado restrições de oferta e picos de preços em várias commodities. Agora, há uma necessidade urgente de aumentar a oferta de energia segura, confiável e acessível para os mercados globais no curto e médio prazo.

Em períodos anteriores de altos preços, a indústria de petróleo e gás respondeu aprovando megaprojetos bilionários com décadas de produção e altas emissões associadas. Em contraste, o atual imperativo de baixo carbono exige não apenas recursos de hidrocarbonetos com emissões reduzidas, mas também ciclos de produção mais curtos — característica essencial do petróleo não convencional.

Na indústria de petróleo e gás, o termo “não convencional” se refere a hidrocarbonetos obtidos por métodos diferentes dos poços verticais tradicionais. Embora a maior parte do desenvolvimento de petróleo e gás não convencional esteja concentrada na América do Norte, fontes alternativas estão sendo desenvolvidas em vários locais ao redor do mundo, como China, Arábia Saudita e — de forma particularmente notável — Argentina.

A formação Vaca Muerta (“vaca morta”, em espanhol) mostra grande potencial para aumentar a oferta global. Em 2019, nossas pesquisas concluíram que as propriedades geológicas de Vaca Muerta eram comparáveis às principais formações dos Estados Unidos e que o local era promissor para o desenvolvimento. Hoje, após anos de melhorias de produtividade, incluindo a importação de boas práticas, o custo técnico médio de equilíbrio de um poço em Vaca Muerta está em linha com os principais campos não convencionais dos EUA.

O aumento da produção para exportação de Vaca Muerta pode ajudar a reduzir a intensidade das emissões globais de gases de efeito estufa e ampliar a oferta de petróleo acessível e confiável. Mais importante ainda, a intensidade de carbono do petróleo de Vaca Muerta está bem abaixo da média global. Isso significa que o aumento das exportações de Vaca Muerta e de locais semelhantes ao redor do mundo pode ajudar a reduzir a intensidade das emissões e, ao mesmo tempo, garantir um suprimento de energia acessível e estável durante a transição energética.

Vaca Muerta: Uma visão geral

De acordo com o Global Energy Perspective 2022 da McKinsey, os combustíveis fósseis ainda terão um papel crucial nos próximos anos, apesar do aumento da eletrificação. Até 2035, espera-se que a demanda por gás natural cresça entre 10% e 20% em relação aos níveis atuais, respondendo por uma parte relevante da demanda primária de energia até 2050.

Isso significa que, em todos os cenários, os combustíveis fósseis continuarão preenchendo lacunas no mix energético enquanto o mundo avança para fontes alternativas.

No contexto de alta volatilidade provocada por eventos geopolíticos recentes e inovações tecnológicas, a extração de petróleo de xisto oferece um elemento de certeza, dada a modularidade dos investimentos e o curto intervalo entre perfuração e produção, em comparação aos projetos convencionais. Por isso, o petróleo de xisto pode reagir rapidamente a interrupções de oferta e variações de preço com flexibilidade.

A Argentina possui a segunda maior reserva mundial de gás não convencional e a quarta maior de petróleo não convencional, a maior parte localizada em Vaca Muerta, principalmente na província de Neuquén. A geologia de Vaca Muerta é comparável às principais formações dos EUA, especialmente à Bacia do Permiano (incluindo as sub-bacias Delaware e Midland).

Os poços de xisto geralmente atingem seu pico de produtividade logo no início e depois apresentam declínio rápido. Ainda assim, as características geológicas de Vaca Muerta proporcionam taxas de produtividade elevadas, frequentemente associadas a maiores volumes recuperáveis. Em 2021, poços de Vaca Muerta alcançaram produção média de 82.000 barris de petróleo nos primeiros 90 dias, comparado a 76.000 barris em Delaware. Além disso, as três últimas campanhas anuais em Vaca Muerta apresentaram produção acumulada 23% superior à de Delaware.

Em termos econômicos, o custo técnico de equilíbrio é de US$ 36 por barril de petróleo e US$ 1,60 por milhão de BTU de gás, valores compatíveis com os campos norte-americanos (entre US$ 34 e US$ 51 por barril e entre US$ 1,30 e US$ 1,80 por MMBtu). Os custos locais mais altos de perfuração são compensados pela maior produtividade, resultado dos picos iniciais mais elevados e de níveis sustentados de produção.

Além disso, o petróleo de Vaca Muerta é mais leve e possui baixo teor de enxofre (menos de 0,5%, em comparação com a média de 1% a 3%), o que o torna mais fácil de refinar e converter em gasolina, exigindo tecnologias menos complexas.

As exportações de petróleo leve dos EUA para a Europa (principalmente França, Itália e Reino Unido) e para a Ásia Oriental (principalmente China, Coreia e Singapura) aumentaram recentemente. Assim, é razoável supor que o petróleo de Vaca Muerta também poderia atender a esses mercados, devido à sua semelhança com o petróleo leve americano.

Por fim, os processos de produção em Vaca Muerta apresentam intensidade de carbono de 15,8 kg de CO₂ por barril equivalente de petróleo, uma das mais baixas do mundo — bem abaixo da média global de 23 kg de CO₂ por barril equivalente.

Potencial de produção e oportunidades de exportação

Atualmente, a produção argentina de petróleo bruto está entre 0,5 e 0,6 milhão de barris por dia. Se Vaca Muerta atingir seu potencial, essa produção poderá dobrar em cinco anos (até 2027) e triplicar em dez anos (até 2032), o que colocaria a Argentina entre os 20 maiores exportadores de petróleo do mundo.

Da mesma forma, estima-se que a produção de gás natural aumente de 4,0 bilhões de pés cúbicos por dia para 5,4 bilhões em cinco anos e 6,3 bilhões em dez anos, equilibrando a dependência do país de importações.

Essas projeções assumem o aumento da atividade de Vaca Muerta de cerca de 30 plataformas de perfuração em 2022 para 70 nos próximos quatro a cinco anos — o que tornaria sua densidade de plataformas semelhante à da Eagle Ford, no Texas.

Ampliar essa atividade exigirá investimentos de pelo menos US$ 45 bilhões nos próximos dez anos, tanto para superar gargalos de infraestrutura quanto para reduzir o risco político e regulatório. A longo prazo, as importações de equipamentos e insumos necessárias poderiam ser financiadas pelas receitas de exportações e pela economia gerada pela redução das importações de gás.

Nossas estimativas indicam que esse processo poderia gerar entradas líquidas positivas de aproximadamente US$ 50 bilhões em dez anos. No mesmo período, o desenvolvimento de Vaca Muerta poderia gerar entre US$ 58 bilhões e US$ 70 bilhões em receitas federais e provinciais.

O aumento da atividade também elevaria a participação da indústria de petróleo e gás no PIB argentino de 1,4% para 8,4% até 2032, com a criação de até 20.000 empregos diretos e 260.000 empregos indiretos e induzidos.

Vaca Muerta representa, portanto, uma oportunidade de explorar uma fonte de energia adicional que é econômica, acessível e constante. O petróleo de xisto ainda não é explorado em larga escala fora dos Estados Unidos, e Vaca Muerta oferece a primeira oportunidade viável para isso.

À medida que o mundo se afasta de fontes de energia intensivas em carbono, Vaca Muerta pode ajudar em duas frentes:

  • No curto prazo, fornecendo ao mundo uma energia acessível, confiável e segura.
  • No longo prazo, servindo de base para que a Argentina desenvolva rotas adicionais de descarbonização, como hidrogênio azul ou verde.

Vivemos tempos incertos. As economias globais continuam se recuperando após a COVID-19, a situação na Ucrânia permanece em aberto e o mix energético está mudando rapidamente para refletir metas climáticas cada vez mais ambiciosas. Contudo, a demanda por petróleo não desaparecerá no futuro imediato.

FONTE: McKinsey & Company
IMAGEM: Reprodução/McKinsey & Company

Ler Mais
Sem Categoria

Santa Catarina fortalece laços comerciais com a Argentina e amplia exportações de produtos de alto valor agregado

Governo catarinense busca ampliar negócios com a Argentina

Com o objetivo de impulsionar as exportações e promover produtos de alto valor agregado, o Governo de Santa Catarina, em parceria com a Fiesc (Federação das Indústrias) e o Sebrae/SC, realizou o Encontro de Negócios BR/SC – Argentina. O evento aconteceu na Embaixada do Brasil em Buenos Aires e reuniu empresários dos dois países para discutir novas oportunidades de cooperação.


Santa Catarina apresenta potencial econômico

A missão catarinense foi liderada pelo governador Jorginho Mello, que ressaltou o papel estratégico da aproximação com o mercado argentino.

“Viemos a Buenos Aires para mostrar as potencialidades de Santa Catarina e abrir portas para novos negócios em diversos setores, especialmente o moveleiro”, afirmou o governador.


Exportações crescem mais de 25% em 2024

Os números confirmam o bom momento da balança comercial entre Santa Catarina e a Argentina. As vendas ao país vizinho cresceram 25,2% nos dez primeiros meses de 2024, em relação ao mesmo período do ano anterior. Apenas em outubro, o aumento foi de 8,4%, evidenciando o fortalecimento das relações econômicas.

Parceria estratégica além do turismo

O secretário de Articulação Internacional e Projetos Estratégicos de SC, Paulinho Bornhausen, destacou que a relação entre os dois mercados vai muito além do turismo.

“O evento reuniu um grande número de empresários argentinos e brasileiros. Santa Catarina está de portas abertas para a Argentina, incentivando novos investimentos e parcerias comerciais”, disse Bornhausen.


Indústria diversificada impulsiona oportunidades

Para o presidente da Fiesc, Gilberto Seleme, a aproximação ocorre em um momento propício, diante da recuperação econômica argentina.

“A Argentina é uma parceira natural de Santa Catarina. Nosso estado tem uma indústria diversificada e competitiva, e a presença do governador reforça a credibilidade do setor produtivo catarinense”, destacou.

Seleme ainda acrescentou que o objetivo é mudar a percepção sobre o estado no mercado argentino.

“Queremos que o argentino veja Santa Catarina não só como destino turístico, mas também como um ambiente de negócios e investimentos”, concluiu.


Delegação empresarial catarinense

A comitiva de Santa Catarina contou com 23 empresários de diferentes segmentos, reforçando o interesse do estado em ampliar a presença de produtos catarinenses no mercado internacional e estreitar os laços econômicos com a Argentina.

Fonte: Governo de Santa Catarina / Fiesc
TEXTO: Redação

Ler Mais
Exportação

Exportações de Santa Catarina para a Argentina avançam 25,2% com retomada da economia argentina

As exportações de Santa Catarina para a Argentina registraram um salto de 25,2% entre janeiro e outubro deste ano, somando US$ 746 milhões. O resultado reflete a recuperação econômica argentina e o fortalecimento das relações comerciais entre os dois países. No mesmo período, as vendas do Brasil para a Argentina atingiram US$ 15,85 bilhões, alta de 41,4%, enquanto as exportações totais brasileiras cresceram 9,1%, segundo dados da FIESC.

Indústrias catarinenses buscam novos negócios em Buenos Aires

Acompanhando esse movimento positivo, cerca de 20 indústrias do setor moveleiro de Santa Catarina participam, nos dias 10 e 11 de novembro, do Encontro de Negócios SC-Argentina, promovido pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) na Embaixada do Brasil em Buenos Aires.

O evento reúne o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Glintenick Bitelli, o governador Jorginho Mello, o presidente da FIESC, Gilberto Seleme, e representantes da indústria argentina. A agenda inclui apresentações institucionais e rodadas de negócios entre empresas catarinenses e potenciais compradores argentinos.

Argentina dá sinais de recuperação econômica

“O momento é extremamente favorável para ampliarmos as parcerias comerciais, já que a Argentina demonstra sinais de crescimento econômico”, afirmou Seleme. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), após dois anos de retração, o PIB argentino deve crescer 4,5% em 2025, impulsionado pela queda da inflação e pela recuperação do poder de compra da população.

Bruno Pauli, do Grupo 4B, um dos empresários participantes da missão, destacou o potencial de consumo dos argentinos. “Quando vêm a Santa Catarina como turistas, eles investem, compram imóveis e movimentam a economia. Agora, queremos levar nossos produtos até eles e fortalecer os laços comerciais”, afirmou.

Vantagens logísticas reforçam competitividade catarinense

A proximidade geográfica e a estrutura logística de Santa Catarina também favorecem o comércio com o país vizinho. O porto seco de Dionísio Cerqueira, no extremo oeste catarinense, é hoje a aduana com melhor infraestrutura da fronteira com a Argentina, com 23 mil caminhões registrados em 2024.

“Santa Catarina tem uma posição estratégica no Mercosul, mantém relações comerciais e culturais com a Argentina e oferece produtos reconhecidos pela qualidade brasileira”, reforçou o presidente da FIESC.

As rodadas de negócios entre as indústrias catarinenses e os compradores argentinos acontecem na terça-feira, 11 de novembro, encerrando o evento com foco na expansão das exportações do estado.

FONTE: FIESC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Visit Buenos Aires

Ler Mais
Industria

Indústria catarinense busca ampliar exportações em missão empresarial na Argentina

A Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) lidera, nos dias 10 e 11 de novembro, uma missão empresarial à Argentina com foco em fortalecer o comércio exterior e abrir novas oportunidades de exportação. O evento, realizado em Buenos Aires, reunirá 23 indústrias catarinenses no Encontro de Negócios BR/SC, sendo 10 delas micro e pequenas empresas apoiadas pelo SEBRAE/SC.

Expansão do setor moveleiro e novos mercados

De acordo com o presidente da FIESC, Gilberto Seleme, a iniciativa busca consolidar a imagem da indústria catarinense e ampliar a presença de produtos do setor moveleiro no mercado argentino.

“É um esforço concreto para fomentar novos mercados e diversificar os destinos das nossas exportações”, destacou Seleme.

A missão tem como meta gerar novos negócios internacionais, fortalecendo as relações entre empresas de Santa Catarina e compradores argentinos.

Encontros institucionais e rodada de negócios

A programação inclui uma agenda institucional com a presença do Embaixador do Brasil na Argentina, Julio Glintenick Bitelli, e de representantes da União Industrial Argentina (UIA) e da Confederação Argentina da Média Empresa (CAME).
Durante o encontro, o governador Jorginho Mello apresentará os diferenciais competitivos de Santa Catarina, a convite da FIESC.

O evento também contará com uma rodada de negócios, que busca aproximar empresários catarinenses de potenciais clientes e parceiros argentinos. As reuniões estão sendo organizadas de acordo com o perfil e os objetivos de cada indústria exportadora, com foco em intensificar as relações comerciais bilaterais.

FONTE: FIESC
TEXTO: Redação
IMAGEM: Turismo de Buenos Aires

Ler Mais
Exportação

A recuperação da Argentina impulsiona exportações e turismo do Brasil

A recuperação econômica da Argentina trouxe um impulso à economia brasileira neste ano, com um aumento expressivo nas exportações de bens e um salto no turismo argentino. No primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras para a Argentina atingiram o equivalente a 0,8% do PIB do Brasil, ante 0,5% no mesmo período de 2024.

Dados do governo brasileiro mostram que esse crescimento continuou no terceiro trimestre. De julho a setembro, as exportações para a Argentina subiram 34,6%, em comparação com um aumento de 4,7% nas exportações totais do Brasil.

Francisco Pessoa Faria, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), calculou que o turismo argentino no Brasil acrescentou o equivalente a 0,2% do PIB brasileiro no primeiro semestre do ano, ante 0,08% no mesmo período do ano passado.

No total, as exportações de serviços para a Argentina cresceram de 0,12% do PIB no início de 2024 para 0,25% no primeiro semestre de 2025, segundo dados da agência de estatísticas oficial da Argentina, o INDEC.

Gastos com viagens quase dobram

De janeiro a junho, o Brasil exportou US$ 2,69 bilhões em serviços para a Argentina — o dobro dos US$ 1,33 bilhão do mesmo período de 2024. O principal motor foi o gasto de turistas argentinos no Brasil, que totalizou US$ 2,14 bilhões, ante US$ 918 milhões um ano antes.

Em contrapartida, as importações brasileiras de serviços caíram 11,9% em 2025, para US$ 869,7 milhões. Isso resultou em um superávit de US$ 1,82 bilhão na balança de serviços do Brasil, muito superior aos US$ 337,3 milhões registrados no primeiro semestre de 2024.

Economistas afirmam que essa retomada tem sido positiva para o Brasil, embora haja incerteza sobre sua duração. Apesar de um swap cambial de US$ 20 bilhões para apoiar a Argentina e dos bons resultados nas eleições de meio de mandato de 26 de outubro, o presidente Javier Milei deve implementar medidas que podem pesar sobre a economia argentina.

O impulso econômico sob Milei tem aumentado a demanda por produtos brasileiros, afirmou Gustavo Pérego, sócio da consultoria argentina Abeceb. “No ano passado, a Argentina passou por um processo de reestruturação econômica. Houve uma forte queda na primeira metade do ano, seguida de recuperação na segunda.”

Vendas de automóveis impulsionam superávit comercial

Automóveis e autopeças são os principais produtos exportados do Brasil para a Argentina, disse Pérego. O aumento se deveu aos controles cambiais do governo anterior, que restringiram o acesso de importadores a dólares, reduzindo a oferta de carros no mercado local.

Para resolver isso, o governo argentino implementou em 2024 medidas para quitar dívidas com importadores e melhorar o poder de compra dos consumidores. “Quando a situação se normalizou, a demanda por carros e motocicletas disparou”, afirmou Pérego. “E grande parte desses veículos é fabricada no Brasil.”

De janeiro a setembro, o Brasil exportou US$ 14,2 bilhões em bens para a Argentina — um aumento de 47,2% em relação ao mesmo período de 2024 —, enquanto as importações de produtos argentinos caíram 1,8%, para US$ 9,5 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O superávit comercial virou a favor do Brasil, chegando a US$ 4,7 bilhões, ante um déficit de US$ 50,5 milhões em 2024.

Produtos manufaturados do setor de transporte dominam as exportações brasileiras para o parceiro do Mercosul. Veículos de passeio responderam por 21,9% do total exportado à Argentina, somando US$ 3,1 bilhões nos nove primeiros meses do ano — mais que o dobro dos US$ 1,4 bilhão de 2024. Autopeças representaram 9,7%, veículos comerciais leves 6,4% e veículos rodoviários 5,5%.

Pérego prevê que o PIB argentino cresça 4% neste ano, após uma contração de 1,7% em 2024. “Isso estimula a demanda por carros, o que, por sua vez, impulsiona as exportações brasileiras.” Uma pesquisa de mercado do Banco Central da Argentina, o relatório REM (equivalente ao Focus brasileiro), projeta crescimento de 3,9% do PIB em 2025.

No entanto, ele alertou que as exportações de automóveis brasileiros para a Argentina dificilmente manterão o mesmo ritmo de expansão. “Havia uma demanda reprimida, então as vendas dispararam entre o fim de 2024 e este ano. Isso deve se normalizar.”

Concorrência dos elétricos chineses

Pérego também destacou a concorrência dos veículos elétricos chineses, que a Argentina atualmente importa com isenção de impostos sob um programa que permite a entrada de 50 mil veículos neste ano e mais 50 mil em 2026. O país pode ter até 200 mil veículos elétricos em circulação em três ou quatro anos, disse ele.

A economia argentina deve desacelerar em 2026, com crescimento previsto de 3%, um ponto percentual abaixo de 2025.

Faria, da FGV Ibre, afirmou que as mudanças na demanda argentina têm grande impacto na indústria automotiva brasileira. Nos 12 meses encerrados em junho de 2025, a Argentina respondeu por 8,6% das exportações totais de manufaturados do Brasil e 48,4% das exportações de veículos automotores, reboques e carrocerias.

Ariane Benedito, economista-chefe da fintech PicPay, projetou crescimento de até 5,5% do PIB argentino neste ano. “É uma recuperação significativa, mas a economia argentina continua vulnerável”, afirmou. A volatilidade cambial é uma preocupação central, dependendo de como Milei implementará seu plano econômico. A inflação também preocupa, impulsionada pelo forte consumo. “O cenário base depende de quanto a terapia de choque de Milei vai custar em termos de desaceleração econômica.”

Ela também apontou uma provável desaceleração global em 2026, o que afetaria o Brasil. O PicPay projeta crescimento de 1,7% do PIB brasileiro em 2026, ante 2,2% neste ano.

Ainda assim, Benedito disse que a posição geográfica do Brasil lhe dá vantagem no fornecimento de produtos automotivos à Argentina. Essa relação comercial ajudou o Brasil a evitar queda no volume e no valor das exportações em 2025, apesar das novas tarifas dos EUA.

Turismo argentino

Faria também destacou o impulso do turismo argentino. De janeiro a setembro, 2,79 milhões de argentinos visitaram o Brasil, ante 1,47 milhão no mesmo período do ano passado, segundo a Embratur. Os argentinos agora representam 39% de todos os turistas estrangeiros no país, contra 30% em 2024.

“O fluxo de turistas argentinos em 2025 foi impulsionado pelo câmbio”, disse Faria. Em abril, a Argentina substituiu seus rígidos controles cambiais — em vigor desde o fim de 2019 — por uma banda de câmbio flutuante administrada entre 1.000 e 1.400 pesos por dólar, ampliada em 1% ao mês. Também foram retiradas as restrições à compra de dólares.

Historicamente, a Argentina é um mercado emissor forte quando sua moeda está relativamente estável, e o Brasil é o destino de praia mais próximo, observou Pérego. “Foi assim no último verão e provavelmente será novamente no próximo. Os argentinos são atraídos ao Brasil por dois motivos: praias quentes e custos mais baixos. Um feriado de 10 ou 15 dias na praia na Argentina pode sair mais caro do que no sul do Brasil”, disse ele, especialmente para quem viaja de carro ao Rio Grande do Sul ou Santa Catarina.

No entanto, Pérego observou que o Brasil ficou mais caro para os argentinos ao longo de 2025 devido à valorização do real. A cotação do dólar caiu para R$ 5,38 em 31 de outubro, ante R$ 6,19 no fim de dezembro de 2024, segundo o Banco Central.

Roberto Dumas Damas, professor do Insper, alertou que, apesar dos ganhos eleitorais de Milei, a Argentina ainda enfrenta alta dívida externa e baixas reservas. “A eleição dá mais tempo a Milei, mas o país ainda precisa de reformas”, disse.

“O único caminho real é algo semelhante ao que o Brasil fez em janeiro de 1999: deixar a moeda flutuar, elevar fortemente os juros, definir uma meta de inflação e aprovar uma lei que garanta plena independência ao Banco Central da Argentina.”

FONTE: Valor Econômico
IMAGEM: Rogerio Vieira/Valor

Ler Mais
Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook