Tecnologia

Bolha da inteligência artificial na China estoura e provoca perdas de US$ 480 bilhões

O mercado chinês de inteligência artificial (IA) e semicondutores enfrenta uma forte correção após a queda das ações de empresas do setor eliminar cerca de US$ 480 bilhões em valor de mercado. Em menos de quatro meses, o índice STAR50, que reúne companhias de tecnologia e semicondutores listadas na China continental, recuou aproximadamente 40%, em meio a dúvidas sobre a demanda por IA e ao aumento das restrições comerciais contra empresas chinesas.

O movimento representa um sinal de alerta para os mercados globais, que também enfrentam instabilidade nas ações de tecnologia. Na China, a desvalorização ainda ameaça os esforços de Pequim para estimular investimentos em renda variável e direcionar recursos privados ao desenvolvimento da inteligência artificial.

A queda também interrompe uma valorização que vinha se estendendo por cerca de dois anos, impulsionada por promessas de estímulos econômicos. A estratégia do governo chinês buscava consolidar um mercado de alta mais gradual e consistente, reduzindo a alternância entre períodos de forte valorização e quedas abruptas.

O índice CSI300, referência para as principais empresas chinesas de grande capitalização, perdeu cerca de 20% em relação ao pico registrado em junho.

“O mercado acionário acabou se transformando em uma alta especulativa descontrolada. Agora, vemos a bolha estourar”, avaliou Dong Baozhen, gestor de fundos baseado em Pequim.

Ações de IA na China sofreram correção mais intensa que nos EUA

A reversão chinesa chama a atenção pela dimensão da alta que a precedeu. Enquanto as ações ligadas à inteligência artificial nos Estados Unidos passaram por um recuo mais moderado, a desvalorização na China atingiu diretamente algumas das empresas que lideraram a valorização recente do mercado.

O Nasdaq, principal referência para companhias de tecnologia americanas, recuou cerca de 6% em relação ao recorde alcançado três semanas antes, segundo o relato da Reuters.

Na China, não houve um único fator que desencadeasse a onda de vendas. Investidores apontam uma combinação de avaliações elevadas, obrigações tributárias e receios de que os Estados Unidos e outros países ampliem as proibições ao uso de equipamentos chineses em centros de processamento de dados.

A exposição dos investidores ao setor é significativa. De acordo com estimativas do Goldman Sachs citadas no levantamento, as ações relacionadas à IA chegaram a representar 42% da capitalização de mercado e 57% do volume negociado entre ações da China continental e de Hong Kong.

Com forte participação de investidores individuais, o mercado chinês acabou deixando poucos participantes imunes às perdas.

Empresas de robótica e semicondutores perdem valor

Companhias que estavam entre as favoritas dos investidores de varejo registraram quedas expressivas após uma onda de compras impulsionada pelas perspectivas de crescimento da inteligência artificial.

Entre os casos destacados estão:

  • Unitree: fabricante de robôs cujas ações chegaram a registrar uma demanda de investidores individuais equivalente a 8.000 vezes a oferta disponível em sua estreia na bolsa. Desde o início das negociações, em agosto, os papéis perderam metade do valor.
  • CXMT: empresa do setor de semicondutores que acumulou desvalorização superior a 25% no período de um mês.
  • MetaX Integrated Circuits e Moore Threads Technology: as duas companhias tiveram estreias expressivas na bolsa, com altas de aproximadamente 700% e 400%, respectivamente, mas suas ações perderam cerca de metade do valor desde julho.

O movimento também atingiu empresas fornecedoras de componentes ópticos, essenciais para a infraestrutura de processamento de dados. As ações da Zhongji Innolight e da Eoptolink Technology recuaram aproximadamente 60% em relação aos máximos registrados em junho e julho.

Parte dessa pressão está relacionada à possibilidade de Washington impedir que essas empresas forneçam componentes para centros de dados nos Estados Unidos.

Investidores deixam ações de tecnologia e buscam proteção

A reversão das cotações provocou perdas entre investidores que entraram no mercado durante a valorização do setor. Chen Wensheng, empresário e investidor da província de Hainan, no sul da China, afirmou ter apostado na tendência por acreditar que as autoridades apoiavam empresas como a Unitree, que recebeu investimentos de fundos ligados ao Estado.

Agora, ele e outros investidores de seu círculo enfrentam prejuízos.

A frustração com a queda de empresas associadas às prioridades tecnológicas do governo tem levado parte dos participantes do mercado a procurar investimentos mais defensivos. O cenário também pode dificultar novas ofertas de ações por companhias de tecnologia que pretendem captar recursos na bolsa.

Para Hong Hao, sócio-gerente e diretor de investimentos da Lotus Asset Management, em Hong Kong, a desvalorização pode frear os planos de abertura de capital de diversas empresas.

A avaliação dos preços também alimenta as preocupações. Mesmo depois da correção, o STAR50 é negociado a aproximadamente 100 vezes o lucro acumulado dos últimos 12 meses, abaixo do pico próximo de 250 vezes. Para comparação, o múltiplo do Nasdaq 100 está em torno de 30 vezes.

A diferença reforça o receio de que as ações chinesas ainda tenham espaço para novas quedas antes de encontrar um patamar mais sustentável.

Bolha tecnológica contrasta com esforços do governo chinês

A turbulência ocorre apesar das iniciativas das autoridades para tornar o mercado acionário mais estável. Entre as medidas adotadas estão ações contra o excesso de alavancagem financeira e operações de alta frequência. Investidores ligados ao Estado também venderam ações durante períodos de valorização, buscando conter ganhos considerados excessivos.

O presidente da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China, Wu Qing, reuniu-se com participantes do mercado no início de outubro para ouvir propostas destinadas a aprimorar o funcionamento do mercado de capitais, segundo informações publicadas pelo órgão.

Para parte dos profissionais do setor, o problema está na concentração excessiva de recursos em empresas de tecnologia.

Leo Wang, sócio da Qianchuang Capital, de Pequim, avalia que a ênfase exagerada no peso das companhias tecnológicas nos principais índices pode distorcer a distribuição dos investimentos.

Segundo ele, essa concentração contribuiu para a formação de bolhas em determinados segmentos e reduziu a disponibilidade de capital para outros setores da economia.

Queda pode abrir oportunidades para investidores de longo prazo

Apesar das perdas, alguns analistas consideram que a correção não representa necessariamente um retrocesso nas reformas do mercado chinês. Para essa parcela dos investidores, a redução dos preços pode ajudar a separar empresas com fundamentos sólidos daquelas cuja valorização foi impulsionada principalmente pela especulação.

Uma pesquisa do HSBC indica que fundos voltados à Ásia, em geral, continuam com exposição acima da referência de mercado à China, mesmo após terem vendido ações nos três meses anteriores ao levantamento.

O Goldman Sachs também incluiu empresas como Innolight e CXMT em uma lista revisada de recomendações envolvendo dezenas de companhias chinesas ligadas à inteligência artificial. Já William Bratton, estrategista da BNP Paribas Securities, apontou a existência de oportunidades de compra para investidores criteriosos.

Ainda assim, muitos participantes do mercado na China continental preferem esperar por avaliações mais baixas ou direcionar recursos para outros segmentos.

Guerra de preços pode pressionar empresas de IA

Além das restrições comerciais e das dúvidas sobre a demanda, investidores também demonstram preocupação com a possibilidade de uma disputa de preços entre fabricantes de chips e fornecedores de soluções de inteligência artificial.

Wang Zhuo, gestor de fundos e sócio da Shanghai Zhuozhu Investment Management, avalia que essas empresas poderão enfrentar uma dinâmica semelhante à de outros setores industriais chineses, nos quais a concorrência intensa pressiona as margens e reduz os preços dos produtos.

Na visão do gestor, o setor de tecnologia não está imune a esse processo. A combinação de ações supervalorizadas, concorrência crescente e incertezas comerciais pode continuar influenciando o desempenho das companhias chinesas de IA nos próximos meses.

O episódio evidencia os riscos de uma valorização sustentada por expectativas elevadas e reforça a cautela dos investidores diante do futuro do mercado de inteligência artificial na China.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Issei Kato/ File Photo

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Tecnologia

Falha crítica no PHP descoberta por inteligência artificial tira sites governamentais do ar

Uma falha de segurança no PHP, identificada com auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), levou governos e organizações de diferentes países a retirar sites e serviços digitais do ar nesta quarta-feira. A medida preventiva foi adotada após a divulgação de correções para vulnerabilidades críticas que permaneceram ocultas no código da linguagem por anos.

Os desenvolvedores do PHP publicaram atualizações emergenciais e recomendaram que todos os usuários instalem as novas versões imediatamente. Empresas de segurança cibernética também alertaram para indícios de que invasores já estariam explorando as brechas, aumentando a urgência da atualização dos sistemas.

Com os detalhes das vulnerabilidades e as correções disponíveis publicamente, especialistas temem uma corrida de criminosos virtuais para identificar servidores desprotegidos antes que os responsáveis consigam aplicar os reparos.

Vulnerabilidade no PHP coloca milhões de servidores em risco

Utilizado na construção e no funcionamento de sites, o PHP é uma linguagem de programação criada no início da década de 1990 e presente em uma parcela significativa da internet. A tecnologia integra plataformas populares, como WordPress, Drupal, Joomla e Magento.

Segundo Tiffany Farriss, diretora-executiva interina da Drupal Association, o problema afeta uma ampla quantidade de servidores que utilizam versões do PHP lançadas nas últimas duas décadas.

Dados da empresa de inteligência de internet Censys indicam que aproximadamente 1,5 milhão de um total de 2,6 milhões de hosts identificados executavam versões da linguagem para as quais ainda não havia correção disponível no momento do levantamento.

A dimensão do problema preocupa especialistas em segurança digital, já que servidores vulneráveis podem ser comprometidos caso permaneçam sem proteção. O pesquisador Costin Raiu, cofundador da empresa de resposta a incidentes TLP:Black, descreveu o cenário como uma corrida para explorar as falhas, com risco de invasões em larga escala.

Inteligência artificial ajudou a identificar falhas antigas

Duas empresas de cibersegurança, Calif e Wiz, afirmaram ter identificado as vulnerabilidades com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

A Calif informou que encontrou as falhas em 1º de agosto, utilizando um modelo de linguagem de grande porte, e que trabalhou desde então no desenvolvimento de uma solução.

Já a Wiz, empresa de segurança cibernética pertencente à Alphabet, controladora do Google, relatou o uso de sua ferramenta autônoma de pesquisa de vulnerabilidades, a Wiz Atlas, além de modelos de IA citados em seu relatório, incluindo tecnologias do Google e da OpenAI.

De acordo com a Wiz, as falhas permaneceram escondidas no código do PHP por mais de uma década. A empresa destacou que a identificação e a exploração desse tipo de problema exigiriam um trabalho técnico complexo sem o auxílio da inteligência artificial.

Com essas ferramentas, porém, tarefas que antes demandavam conhecimentos especializados e muito tempo podem ser realizadas com maior rapidez e em escala. As empresas disseram ter coordenado a descoberta com as equipes responsáveis pelo PHP e com a OpenAI.

A Casa Branca informou que foi comunicada sobre a vulnerabilidade na sexta-feira. Em declaração, o governo norte-americano afirmou que o caso demonstra a importância da inovação tecnológica para o fortalecimento da segurança nacional.

Países retiram sites do ar para evitar ataques

A divulgação das falhas provocou interrupções preventivas em serviços digitais de diferentes países europeus. Autoridades de segurança recomendaram a instalação das atualizações ou, quando isso não fosse possível, a suspensão temporária dos sites afetados.

Na Holanda, a própria agência nacional de segurança cibernética retirou seus serviços do ar preventivamente. A medida também atingiu o portal governamental Overheid.nl, o Porto de Roterdã, a associação nacional de futebol KNVB, páginas dos cinco maiores partidos políticos do país e sites de hospitais.

A enciclopédia on-line Wikipedia informou que suspendeu temporariamente um número não especificado de sistemas para permitir a aplicação segura das correções. O Internet Archive, biblioteca digital que reúne páginas da web e outros conteúdos, também relatou uma interrupção temporária para lidar com o problema.

Na Dinamarca, a empresa de tecnologia municipal Kombit desativou diversos serviços, incluindo a plataforma nacional de comunicação escolar.

Na Finlândia, a provedora estatal de serviços de tecnologia da informação Valtori retirou do ar serviços da rede pública governamental como medida de precaução.

Já o Ministério do Interior da França informou que todos os seus sites entraram em manutenção preventiva.

Especialistas alertam para ataques em larga escala

O alcance do PHP ajuda a explicar a preocupação internacional. De acordo com a W3Techs, empresa que monitora tecnologias utilizadas na internet, a linguagem está presente em aproximadamente 75% dos sites cuja tecnologia de programação pode ser identificada.

Para Lukasz Olejnik, pesquisador associado visitante do King’s College London, o uso de inteligência artificial por invasores pode acelerar a exploração das vulnerabilidades e ampliar o número de sistemas atingidos.

O risco tende a ser maior para sites menores, mantidos por pessoas ou organizações com recursos técnicos limitados. Em serviços de hospedagem compartilhada, por exemplo, os clientes geralmente não têm controle direto sobre os servidores responsáveis pela infraestrutura.

A Automattic, empresa que opera o WordPress.com, afirmou que os usuários de suas soluções hospedadas e do Tumblr estavam protegidos contra a falha.

Atualização dos sistemas é a principal medida de proteção

Diante do cenário, agências de segurança cibernética de diferentes países orientaram administradores de sites a verificar se seus servidores utilizam PHP e aplicar as correções recomendadas assim que possível.

Quando a atualização imediata não puder ser realizada, a orientação é avaliar a necessidade de suspender temporariamente os serviços expostos até que os sistemas estejam protegidos.

O episódio evidencia como a inteligência artificial na cibersegurança pode ter efeitos em duas frentes: contribuir para encontrar vulnerabilidades antigas e, ao mesmo tempo, facilitar a atuação de criminosos que tentam explorá-las.

Com a divulgação pública das correções, a rapidez na atualização dos servidores tornou-se um fator decisivo para reduzir os riscos de invasões e interrupções de serviços digitais.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Annegret Hilse

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Tecnologia

França e Alemanha flexibilizam metas para carros elétricos e reforçam indústria automotiva europeia

A França e a Alemanha fecharam um acordo para flexibilizar as regras de emissões de veículos e fortalecer a produção automotiva na Europa. A iniciativa reduz a pressão pela substituição completa dos motores a combustão por modelos elétricos até 2035 e estabelece novas exigências para valorizar componentes fabricados no continente.

O entendimento representa uma concessão às reivindicações da indústria automobilística alemã, que busca preservar sua capacidade produtiva e competitividade. Por outro lado, a flexibilização das metas ambientais provocou críticas de organizações que defendem uma transição mais acelerada para a mobilidade elétrica.

Acordo reduz exigências para veículos a combustão até 2035

Pelo compromisso firmado entre os dois países, as montadoras deverão cortar em 90% as emissões de dióxido de carbono (CO₂) de seus veículos até 2035. Os 10% restantes não precisarão ser compensados nos termos inicialmente propostos pela Comissão Europeia.

A flexibilização considera a utilização crescente de combustíveis classificados como renováveis, incluindo os biocombustíveis, como alternativa para reduzir as emissões do setor automotivo.

A Alemanha defendia mudanças nas regras para proteger sua indústria automobilística, um dos pilares de sua economia. A França, por sua vez, aceitou maior margem para a continuidade dos motores a combustão, em uma negociação que busca conciliar metas ambientais e interesses industriais.

Na prática, o acordo enfraquece a perspectiva de uma substituição integral dos veículos convencionais por modelos elétricos novos a partir de 2035, embora mantenha a exigência de uma redução expressiva das emissões.

Regra de preferência europeia fortalece produção local

Em contrapartida à flexibilização ambiental, a Alemanha concordou com critérios mais rigorosos para a chamada preferência europeia, mecanismo que condiciona o acesso a determinados recursos públicos à utilização de componentes produzidos na Europa ou em países parceiros autorizados.

Segundo informações da Presidência francesa, 70% dos componentes dos veículos e 10% do conteúdo das baterias deverão atender aos critérios de origem estabelecidos pela iniciativa.

A proposta integra a estratégia de valorização do conceito “Feito na Europa”, que pretende ampliar a participação dos fornecedores regionais na cadeia automotiva e reduzir a dependência de produtos importados.

As regras deverão abranger os 27 países da União Europeia e poderão incluir parceiros próximos, como Reino Unido, Noruega e Suíça, conforme as condições definidas em futuros acordos de associação.

Medida busca conter concorrência de veículos chineses

O reforço das exigências de conteúdo regional também tem como objetivo responder ao avanço dos carros elétricos chineses no mercado europeu.

A chegada de veículos produzidos na China intensificou a disputa por preços, tecnologia e participação de mercado, pressionando as montadoras tradicionais do continente.

Com a preferência europeia, os governos pretendem estimular investimentos locais, preservar empregos industriais e fortalecer a produção de componentes estratégicos, especialmente em um setor que passa por profundas transformações tecnológicas.

A proposta, entretanto, levanta questionamentos sobre os critérios de origem dos componentes e sobre a capacidade das novas regras de garantir que os benefícios econômicos permaneçam efetivamente na Europa.

Fornecedores automotivos apoiam compromisso franco-alemão

A Associação Europeia de Fornecedores Automotivos (Clepa) recebeu positivamente o acordo entre França e Alemanha e classificou o compromisso como crucial para o setor.

Para a entidade, o entendimento demonstra que as preocupações da indústria foram consideradas nas discussões sobre o futuro da regulamentação automotiva europeia.

A avaliação favorável reflete a importância de criar condições para que fabricantes e fornecedores se adaptem às mudanças tecnológicas sem comprometer a competitividade da cadeia produtiva regional.

Ambientalistas criticam flexibilização das metas climáticas

As concessões à indústria, porém, provocaram reação de organizações ambientalistas, que consideram a flexibilização um retrocesso na política climática europeia.

A ONG Transport & Environment, sediada em Bruxelas, classificou o acordo como um erro histórico e afirmou que a medida enfraquece tanto a ambição climática quanto a indústria automobilística europeia na disputa global por veículos elétricos e baterias.

A entidade também alertou para possíveis brechas nas regras de origem. Segundo a organização, veículos montados na União Europeia, mas equipados com baterias fabricadas na China, poderiam ser considerados produtos “Feitos na Europa”, dependendo dos critérios adotados.

Na avaliação da ONG, essa possibilidade pode comprometer os esforços para desenvolver uma cadeia produtiva europeia de baterias, considerada estratégica para a transição energética e para a competitividade do setor automotivo.

Europa tenta equilibrar competitividade e transição energética

O acordo franco-alemão evidencia o desafio enfrentado pela União Europeia para conciliar a redução das emissões, a preservação de empregos e a competitividade de suas montadoras diante da concorrência internacional.

Enquanto governos e representantes da indústria defendem maior flexibilidade regulatória e incentivos à produção regional, ambientalistas alertam para os riscos de desacelerar a eletrificação do transporte.

O resultado dessa disputa deverá influenciar os próximos passos da política automotiva europeia, especialmente na definição das regras de emissões, dos critérios de conteúdo local e dos investimentos necessários para consolidar a fabricação de veículos elétricos e baterias no continente.

FONTE: AFP
TEXTO: Redação
IMAGEM: Ina FASSBENDER

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Tecnologia

Robô submarino de Stanford pode ser testado em Santos e ampliar a inspeção de plataformas de petróleo

Desenvolvido pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, o robô submarino OceanOneK foi projetado para operar a até 1.000 metros de profundidade e já alcançou 852 metros em uma missão real. Com aparência humanoide, braços articulados e tecnologia capaz de transmitir sensações táteis ao operador, o equipamento está no radar do SENAI-SP para possíveis aplicações na indústria brasileira de petróleo e gás.

Uma demonstração na Baía de Santos, no litoral paulista, está prevista para novembro de 2026. A iniciativa pretende aproximar pesquisadores norte-americanos e empresas brasileiras do setor de energia, permitindo avaliar o potencial da tecnologia em atividades de inspeção e intervenção submarina.

A aproximação foi apresentada durante a ROG.e 2026, realizada no Rio de Janeiro, em setembro. O encontro reuniu o professor Oussama Khatib, responsável pelo desenvolvimento do OceanOneK, e Daniel Motta, gerente de Inovação e Tecnologia do SENAI-SP.

A proposta é investigar como o equipamento poderá contribuir para operações offshore, especialmente em locais onde a profundidade, a pressão e as condições de acesso dificultam o trabalho humano.

OceanOneK já atingiu 852 metros de profundidade

Embora tenha sido desenvolvido para mergulhar a até 1.000 metros, o OceanOneK realizou um de seus principais testes em 2022, quando chegou a 852 metros no Mar Mediterrâneo, nas proximidades de Cannes, na França.

Durante a missão, o robô alcançou o leito marinho, posicionou uma placa comemorativa e posteriormente a recuperou. A demonstração evidenciou sua capacidade de executar movimentos controlados em profundidades muito superiores aos limites do mergulho humano convencional.

O equipamento combina uma estrutura frontal semelhante à parte superior de um corpo humano, com cabeça e dois braços, e uma seção traseira equipada com oito propulsores. Essa configuração permite controlar o deslocamento na água enquanto as mãos realizam tarefas de manipulação.

O sistema também utiliza câmeras estereoscópicas, que ajudam a reproduzir a percepção de profundidade e permitem ao operador avaliar distâncias e orientar os movimentos com maior precisão.

Tecnologia háptica permite sentir o contato com objetos submarinos

Um dos principais diferenciais do robô é o sistema de feedback háptico, tecnologia que transmite ao operador sensações relacionadas à força e à resistência encontradas durante a manipulação de objetos.

Na prática, quando os dedos mecânicos entram em contato com uma superfície, os controles utilizados pelo operador reproduzem parte dessa sensação. Assim, a pessoa consegue perceber a resistência do objeto sem depender exclusivamente das imagens transmitidas pelas câmeras.

O recurso já foi utilizado em explorações de naufrágios. Durante uma missão no navio italiano Francesco Crispi, localizado a aproximadamente 500 metros de profundidade, Oussama Khatib relatou ter percebido a resistência de uma estrutura ao manipulá-la com o robô.

A combinação entre visão tridimensional e percepção tátil ajuda a realizar movimentos delicados em ambientes com obstáculos e estruturas danificadas.

Os braços também podem receber ferramentas específicas. Em uma das expedições, por exemplo, uma câmera instalada em uma haste foi utilizada para observar áreas estreitas de um naufrágio sem que todo o equipamento precisasse entrar no espaço.

Na indústria, recursos semelhantes poderão ajudar na inspeção de estruturas submarinas, desde que sejam adaptados e testados para as exigências das operações de petróleo e gás.

Robô já explorou aviões, submarinos e naufrágios históricos

Antes de despertar o interesse da indústria offshore, o OceanOneK participou de diferentes expedições arqueológicas no Mediterrâneo. As missões serviram para avaliar sua capacidade de movimentação, manipulação de objetos e exploração de estruturas submersas.

Entre os locais visitados estão:

  • Caça P-38 Lightning: aeronave da Segunda Guerra Mundial encontrada a cerca de 40 metros de profundidade.
  • Beechcraft Baron: avião localizado a aproximadamente 67 metros.
  • Submarino francês Le Protée: estrutura encontrada a cerca de 124 metros de profundidade.
  • Naufrágio romano na Córsega: sítio arqueológico próximo a Aléria, a aproximadamente 334 metros.
  • Navio Francesco Crispi: embarcação afundada localizada a cerca de 507 metros de profundidade.

Nessas atividades, o equipamento foi empregado para examinar estruturas e manipular objetos sob orientação de especialistas.

As experiências também evidenciaram desafios técnicos comuns às operações em águas profundas. Em um dos mergulhos, o cabo responsável pela comunicação e alimentação acumulou peso próximo ao robô, exigindo ajustes antes do retorno à superfície.

Os resultados mostram o potencial do sistema, mas também reforçam a necessidade de aprimoramentos para aplicações industriais que exigem confiabilidade e segurança.

SENAI prevê demonstração do OceanOneK na Baía de Santos em novembro

O interesse do Brasil pela tecnologia ganhou destaque durante a ROG.e 2026, evento realizado entre 21 e 24 de setembro, no Riocentro, no Rio de Janeiro.

Na ocasião, representantes de Stanford e do SENAI-SP discutiram possibilidades de transferência de conhecimento e aplicação de tecnologias avançadas em atividades industriais.

A articulação também envolve a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O planejamento divulgado prevê o retorno de Oussama Khatib ao Brasil em novembro, quando deverá ocorrer uma demonstração do OceanOneK na Baía de Santos, com a participação de empresas do setor energético.

A atividade ainda é uma etapa prevista, e não uma operação comercial confirmada. Até o anúncio, não havia sido divulgado contrato para utilização do robô em plataformas brasileiras nem confirmação de emprego em serviços de manutenção submarina no país.

O objetivo inicial é apresentar as capacidades do equipamento ao mercado nacional e identificar aplicações que possam justificar testes adicionais e futuros projetos de desenvolvimento.

Robôs submarinos podem ajudar na inspeção de plataformas de petróleo

As operações offshore dependem de inspeções frequentes em estruturas instaladas no fundo do mar. Entre os componentes que exigem acompanhamento estão dutos, conexões, equipamentos de produção e estruturas de suporte.

A profundidade, a pressão da água e as limitações para movimentar ferramentas tornam essas atividades complexas. Por isso, a indústria já utiliza veículos operados remotamente (ROVs) para executar tarefas em locais onde mergulhadores não conseguem trabalhar diretamente.

O OceanOneK segue uma abordagem diferente ao combinar a mobilidade de um veículo submarino com braços manipuladores e um sistema de retorno tátil.

Essa integração poderá ser útil em atividades que exigem mais precisão no contato com objetos, como a análise de componentes e a manipulação de ferramentas em espaços de difícil acesso.

Entretanto, o emprego na indústria petrolífera depende de avaliações específicas para cada tarefa. A tecnologia demonstrada em expedições arqueológicas ainda precisa ser validada para as condições operacionais, os requisitos de segurança e a rotina de manutenção das instalações offshore.

Engenharia especial protege o robô contra a pressão do oceano

O funcionamento do OceanOneK em grandes profundidades exige soluções de engenharia capazes de resistir à pressão exercida pela água.

Para preservar a flutuabilidade e proteger os componentes, os pesquisadores desenvolveram uma espuma especial composta por microesferas de vidro, projetada para suportar as condições encontradas no fundo do mar.

Os braços também receberam mecanismos com óleo e molas para equilibrar a pressão externa. Outros componentes internos foram adaptados para reduzir a presença de bolsas de ar compressível, que poderiam comprometer o equipamento durante a descida.

As mãos robóticas passaram por modificações para permitir a manipulação de diferentes tipos de objetos nas expedições.

Essas soluções são fundamentais para manter a estabilidade do sistema e permitir movimentos controlados em profundidades nas quais a pressão é dezenas de vezes superior à registrada na superfície.

Uso comercial em plataformas brasileiras ainda depende de testes

O OceanOneK já demonstrou capacidade de manipulação em naufrágios e atingiu 852 metros de profundidade em uma missão real. Seu limite de projeto é de 1.000 metros, mas a aplicação comercial na indústria brasileira de petróleo e gás ainda está em fase de avaliação.

A possível demonstração na Baía de Santos, prevista para novembro de 2026, será uma oportunidade para apresentar a tecnologia a empresas do setor e discutir seu potencial de utilização em inspeções e intervenções submarinas.

Caso os testes avancem, o equipamento poderá integrar futuras soluções de robótica submarina, ampliando as possibilidades de atuação remota em ambientes de difícil acesso. Por enquanto, porém, não há confirmação de que o OceanOneK será incorporado às operações de plataformas de petróleo no Brasil.

Você acredita que robôs com braços articulados e sensores capazes de reproduzir o tato podem transformar a inspeção e a manutenção submarina? Compartilhe sua opinião nos comentários.

FONTE: Click Petróleo e Gás
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/CPG

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Tecnologia

Paul Krugman alerta para risco econômico da inteligência artificial: investimentos em IA podem elevar juros e frear outros setores

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) pode estar provocando efeitos negativos sobre a economia mundial antes mesmo de os riscos mais discutidos da tecnologia se concretizarem. Essa é a avaliação do economista norte-americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2008, que alerta para a possibilidade de os investimentos bilionários em infraestrutura de IA reduzirem recursos disponíveis para outros segmentos da economia.

Em análise publicada em seu Substack, Krugman argumenta que a expansão dos centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, está atraindo recursos financeiros e materiais que poderiam ser destinados à construção de moradias, escritórios e fábricas.

O economista também aponta uma possível pressão sobre as taxas de juros, com consequências para o crédito e os investimentos privados. Diferentemente de ameaças frequentemente associadas à IA, como a substituição de trabalhadores e o estouro de uma bolha financeira, esse efeito já estaria em curso.

Investimentos em inteligência artificial pressionam outros setores

Segundo Krugman, o volume de recursos direcionados à construção de data centers e à compra de equipamentos para inteligência artificial pode estar prejudicando investimentos em atividades que não estão diretamente relacionadas à tecnologia.

O economista cita mais de US$ 51 bilhões em investimentos em centros de dados e associa a expansão desse segmento à redução de aportes em outros tipos de construção.

“A construção de data centers parece estar desviando recursos financeiros e materiais da construção de moradias, edifícios de escritórios e fábricas — praticamente tudo o que não está relacionado à IA”, argumenta.

A preocupação é que a concentração de capital em um único setor limite a capacidade de financiamento de outras atividades produtivas, mesmo quando elas continuam apresentando demanda por investimentos.

Esse movimento pode afetar desde o mercado imobiliário até a expansão industrial, com possíveis consequências para o crescimento econômico.

Efeito de deslocamento pode elevar os juros

Para explicar o fenômeno, Krugman recorre ao conceito econômico de crowding out, ou efeito de deslocamento. Tradicionalmente, o termo descreve situações em que o aumento dos gastos públicos, especialmente quando financiados por déficits, pressiona os juros e reduz o espaço para investimentos privados.

Em uma economia próxima do pleno emprego, a disponibilidade de trabalhadores, crédito e outros recursos é limitada. Quando a demanda por esses recursos aumenta, os juros podem subir, tornando os financiamentos mais caros e dificultando a realização de novos projetos.

Krugman sustenta que esse mecanismo não se restringe às despesas do governo. Uma expansão expressiva dos investimentos privados em inteligência artificial também pode elevar a demanda por financiamento e pressionar as taxas de juros.

“Dada a situação atual, com desemprego relativamente baixo e inflação elevada, o efeito de deslocamento é uma preocupação legítima. É importante, porém, entender que as fontes desse fenômeno não se limitam aos gastos públicos. Fortes aumentos nos gastos privados, como o atual e gigantesco boom da inteligência artificial, também elevam as taxas de juros”, avalia.

Na interpretação do economista, o crescimento dos investimentos em IA estaria contribuindo para encarecer o crédito e dificultar a execução de projetos em outros setores.

Boom da IA resiste à alta dos juros nos Estados Unidos

Krugman também menciona uma reportagem recente do The New York Times para sustentar sua análise. Segundo o argumento apresentado pelo economista, os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial continuam avançando mesmo diante da elevação dos juros nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, outros segmentos da economia sentem os efeitos do crédito mais caro, o que pode ampliar a diferença entre as empresas ligadas à IA e os negócios que dependem de condições financeiras mais favoráveis.

A construção de data centers e a aquisição de semicondutores produzidos no exterior exigem grandes volumes de capital. Na avaliação de Krugman, essa concentração de recursos pode ocorrer em detrimento de investimentos em áreas como habitação, indústria e infraestrutura convencional.

O resultado seria uma economia na qual o setor tecnológico mantém seu ritmo de expansão, enquanto outras atividades enfrentam obstáculos maiores para financiar novos empreendimentos.

Por que o boom tecnológico atual é diferente do dos anos 1990?

Uma das questões levantadas por Krugman é se outras revoluções tecnológicas produziram efeitos semelhantes sobre os investimentos.

Ao comparar o atual ciclo da inteligência artificial com o boom tecnológico dos anos 1990, o economista afirma não encontrar evidências de um deslocamento equivalente dos investimentos naquela época. Pelo contrário, segundo sua análise, os aportes em atividades não relacionadas à tecnologia também cresceram.

Uma das explicações apontadas é a entrada de investimentos estrangeiros nos Estados Unidos, que teria ajudado a financiar a expansão tecnológica sem impedir o avanço de outros setores.

Krugman argumenta que o cenário atual é diferente e questiona a dimensão dos investimentos internacionais que o presidente Donald Trump afirma ter atraído para o país.

Segundo o economista, os dados do balanço de pagamentos não indicariam uma entrada de capital estrangeiro na escala anunciada pelo presidente norte-americano. Sem esse financiamento adicional, o boom da IA poderia disputar recursos de maneira mais intensa com os demais segmentos da economia.

Gastos bilionários com tecnologia podem não gerar retorno esperado

Outro ponto de atenção destacado pelo Nobel de Economia é a possibilidade de grandes empresas de tecnologia cometerem erros de avaliação ao decidir onde investir.

Krugman cita como exemplo os recursos destinados pela Meta ao projeto do metaverso, que, segundo ele, chegaram a US$ 80 bilhões. A iniciativa perdeu espaço posteriormente, ilustrando como investimentos de grande porte não garantem necessariamente resultados proporcionais.

O exemplo reforça a preocupação com o volume de capital direcionado à inteligência artificial e com a possibilidade de parte desses recursos não produzir o retorno esperado.

Caso isso aconteça, os efeitos podem ultrapassar o setor de tecnologia, especialmente se os investimentos tiverem sido financiados por crédito e estiverem conectados a outras áreas do sistema financeiro.

Crédito privado entra no radar de riscos financeiros

Krugman também chama atenção para sinais de pressão financeira associados aos juros elevados. Segundo ele, relatos de dificuldades no mercado de crédito estão se tornando mais frequentes.

A preocupação envolve especialmente o crédito privado e outras áreas menos reguladas do sistema financeiro, que podem estar expostas aos riscos decorrentes da expansão acelerada da IA.

Se empresas e investidores assumirem compromissos financeiros elevados com base em expectativas excessivamente otimistas, uma eventual frustração dos retornos poderá dificultar o pagamento de dívidas e provocar problemas de liquidez.

O economista afirma que há uma percepção crescente, entre observadores com quem conversa, de que os efeitos financeiros adversos do boom da IA podem ser maiores do que muitos participantes do mercado imaginam.

Essa possibilidade amplia o debate sobre a sustentabilidade dos investimentos em tecnologia e sobre os impactos que uma eventual desaceleração poderia provocar em outros setores.

Risco econômico da inteligência artificial já estaria em andamento

A análise de Krugman concentra-se em três questões principais: a diferença entre o atual ciclo tecnológico e o dos anos 1990, a possibilidade de grandes empresas investirem de maneira equivocada e a dimensão dos riscos financeiros para o restante da economia.

Para o economista, a combinação entre investimentos concentrados, juros elevados e possíveis fragilidades no crédito merece atenção imediata.

A discussão não significa que a inteligência artificial deixará de gerar ganhos de produtividade ou oportunidades econômicas. O alerta está relacionado à distribuição dos recursos e aos custos que uma expansão muito acelerada pode impor a atividades que não participam diretamente desse crescimento.

Na avaliação de Krugman, o efeito de deslocamento provocado pelos investimentos em IA já representa um risco concreto, diferentemente de cenários futuros como a eliminação em massa de empregos ou o estouro de uma eventual bolha tecnológica.

O desafio, portanto, é avaliar se o ritmo de expansão da inteligência artificial poderá ser sustentado sem comprometer o financiamento e o desenvolvimento de outros setores da economia.

FONTE: Forbes
TEXTO: Redação
IMAGEM: Getty Images

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Tecnologia

OMC eleva previsão do comércio global em 2026 impulsionado por investimentos em inteligência artificial

A Organização Mundial do Comércio (OMC) revisou para cima sua projeção de crescimento do comércio mundial de mercadorias em 2026. Mesmo diante dos impactos do conflito no Oriente Médio, a entidade avalia que o avanço dos investimentos em inteligência artificial (IA) e a adaptação das cadeias de suprimentos ajudaram a sustentar as trocas comerciais no primeiro semestre do ano.

Em relatório de perspectivas e estatísticas divulgado nesta quinta-feira (8), a organização elevou a estimativa de expansão do comércio de mercadorias de 1,9%, prevista em março, para 3,9% em 2026. Para 2027, a expectativa é de crescimento de 4,1%.

Segundo a OMC, a demanda por equipamentos e componentes ligados à IA compensou parte dos efeitos negativos provocados pelas perturbações nos mercados de energia, fertilizantes e transporte internacional.

Apesar do cenário mais favorável para os bens, a entidade ressalta que os resultados variam entre regiões e setores. O comércio de serviços, especialmente nas áreas de transporte e viagens, enfrenta perspectivas menos positivas devido aos efeitos do conflito.

Investimentos em IA impulsionam o comércio mundial

A expansão da infraestrutura tecnológica tornou-se um dos principais motores do comércio internacional em 2026. Produtos necessários para o desenvolvimento da inteligência artificial, como semicondutores e servidores, registraram forte crescimento da demanda.

De acordo com a OMC, o comércio desses produtos aumentou 67% na comparação anual durante o primeiro semestre, respondendo por 47% da expansão global do comércio de mercadorias no período.

A organização espera que esse movimento continue até 2027. Os gastos mundiais com infraestrutura de IA devem crescer pelo menos 30% em 2026, enquanto as projeções de mercado indicam uma alta de 10% a 20% nos investimentos de capital relacionados à tecnologia no ano seguinte.

Esse avanço reforça a importância dos componentes eletrônicos e dos equipamentos de processamento de dados para o desempenho das exportações globais.

Comércio de mercadorias supera expectativas no primeiro semestre

O volume mundial de mercadorias comercializadas cresceu 3,5% nos primeiros seis meses de 2026, resultado superior ao esperado pela organização.

O desempenho foi favorecido pela capacidade de adaptação das cadeias de suprimentos, que buscaram fornecedores alternativos e redirecionaram cargas diante das dificuldades logísticas provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

A OMC informou que as exportações de petróleo bruto da região recuaram cerca de 24% no primeiro semestre, enquanto os embarques de gás natural liquefeito (GNL) diminuíram 47%.

A ampliação das vendas por outros fornecedores ajudou a limitar o impacto sobre o mercado mundial. Com isso, as exportações globais caíram aproximadamente 6% no caso do petróleo bruto e apenas 1% no GNL.

O mercado de fertilizantes também demonstrou capacidade de adaptação. As importações globais de fertilizantes nitrogenados ficaram 2,8% abaixo das médias recentes, enquanto as compras de fertilizantes fosfatados registraram aumento de 2,2%, impulsionadas pela entrada de fornecedores alternativos.

Nos transportes, a utilização de portos e corredores logísticos diferentes ajudou a manter o fluxo de mercadorias. O movimento mundial de contêineres acumulou crescimento de 3,9% até julho.

Conflito no Oriente Médio mantém riscos para o comércio global

Apesar da revisão positiva das projeções, a OMC alerta que os efeitos da guerra continuam pressionando os custos e criando obstáculos para o comércio internacional.

Os principais riscos envolvem a elevação dos preços da energia, as interrupções nas rotas marítimas e aéreas e as dificuldades no abastecimento de produtos estratégicos.

A diretora-geral da organização, Ngozi Okonjo-Iweala, afirmou que os resultados demonstram a capacidade de adaptação do comércio mundial diante de choques externos.

Segundo ela, a integração econômica e um sistema comercial baseado em regras ajudam a manter o fornecimento de produtos essenciais para empresas e consumidores.

A dirigente também destacou que os benefícios dessa adaptação não são distribuídos de maneira uniforme. Para ela, é importante garantir que economias de diferentes portes tenham acesso às oportunidades criadas por tecnologias como a inteligência artificial.

Ásia deve liderar crescimento das exportações em 2026

As projeções regionais da OMC apontam diferenças expressivas no desempenho do comércio internacional. A Ásia deve apresentar o maior crescimento das exportações de mercadorias em 2026, enquanto o Oriente Médio enfrenta a perspectiva de forte retração.

Confira as estimativas de crescimento das exportações por região:

  • Ásia: 9,9%.
  • América do Norte: 5,7%.
  • África: 5,6%.
  • América do Sul: 3,4%.
  • Europa: -0,1%.
  • Comunidade de Estados Independentes (CEI): -3,9%.
  • Oriente Médio: -17,2%.

A projeção negativa para o Oriente Médio reflete os impactos do conflito e as interrupções nos fluxos comerciais. Na Europa, a expectativa é de estabilidade, com pequena retração das exportações.

Importações também devem crescer de forma desigual

No lado das importações, a Ásia, a África e a CEI devem registrar os avanços mais expressivos em 2026.

As estimativas da OMC são de crescimento de 9,5% para a Ásia, 8,9% para a África e 8,8% para a Comunidade de Estados Independentes.

Na América do Norte, a expansão projetada é de 1,4%, enquanto a Europa deve avançar 0,5%. Já o Oriente Médio poderá registrar queda de 15,4% nas importações.

Os números indicam que os efeitos dos conflitos e das mudanças nas cadeias de abastecimento variam conforme a região e sua exposição às rotas comerciais e aos mercados de energia.

Comércio internacional de serviços perde força em 2026

Ao contrário do comércio de mercadorias, o segmento de serviços teve suas perspectivas reduzidas pela OMC. A organização passou a estimar crescimento de 3,3% no comércio mundial de serviços comerciais em 2026, ante os 4,8% previstos em março.

Para 2027, a expectativa é de recuperação, com expansão de 6,4%.

A revisão está relacionada principalmente aos impactos do conflito no Oriente Médio sobre os serviços de transporte e viagens internacionais. O aumento dos custos de energia, as alterações nas rotas aéreas e marítimas e a redução da demanda por deslocamentos devem limitar o desempenho desses segmentos.

Por outro lado, os serviços prestados digitalmente e outras atividades comerciais demonstram maior resistência às perturbações e devem continuar contribuindo para o crescimento do setor.

Projeções indicam resiliência, mas cenário segue incerto

A revisão das estimativas da OMC mostra que o comércio global conseguiu absorver parte dos impactos do conflito no Oriente Médio, apoiado pelo avanço tecnológico e pela reorganização das cadeias de suprimentos.

O crescimento dos investimentos em inteligência artificial deve continuar sustentando a demanda por mercadorias até 2027. Ainda assim, os riscos relacionados à energia, à logística e às diferenças regionais permanecem no radar da organização.

Enquanto o comércio de bens apresenta perspectivas mais favoráveis, os serviços devem enfrentar um ritmo de expansão mais moderado em 2026, antes da recuperação projetada para o ano seguinte.

FONTE: Infomoney
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Infomoney

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Tecnologia

Infraestrutura e tecnologia ajudam transportadoras a crescer em cenário de incerteza

A instabilidade econômica aumenta a pressão sobre as margens das transportadoras brasileiras e torna mais cauteliosas as decisões de investimento. Ao mesmo tempo, esse ambiente cria oportunidades para empresas capazes de operar com mais eficiência e conquistar espaço em um mercado cada vez mais competitivo.

Nesse cenário, crescer não significa simplesmente ampliar o número de caminhões. As empresas que conseguem avançar são aquelas que buscam extrair mais produtividade dos ativos que já possuem e utilizam a gestão de frotas como ferramenta para reduzir custos e aumentar a segurança.

Dados transformam gestão de frotas

Uma das principais mudanças está na substituição de uma gestão reativa por um modelo preventivo e orientado por dados.

Esperar o fechamento do mês para descobrir que uma rota consumiu combustível acima do esperado ou que determinados motoristas apresentaram maior exposição a riscos significa agir depois que o prejuízo já aconteceu.

Com o uso de videotelemetria, as transportadoras conseguem acompanhar o comportamento dos veículos em tempo real, identificar desvios e adotar medidas corretivas antes que pequenas ocorrências se transformem em perdas financeiras.

O diferencial está justamente na capacidade de transformar informações em decisões rápidas e aplicáveis à rotina operacional.

Segurança também reduz custos operacionais

Na operação de veículos pesados, segurança e eficiência estão diretamente relacionadas. Comportamentos que elevam o risco de acidentes também costumam aumentar as despesas da frota.

Excesso de velocidade, acelerações intensas, frenagens bruscas e utilização inadequada da faixa de rotação podem elevar o consumo de diesel e acelerar o desgaste de pneus, freios e outros componentes.

Quando a tecnologia permite identificar e corrigir esses hábitos durante a operação, o efeito aparece diretamente no custo por quilômetro rodado.

Estudos técnicos e projetos de videotelemetria na gestão de frotas pesadas indicam que a substituição de uma condução agressiva por um comportamento mais econômico e preventivo pode proporcionar uma redução de 5% a 12% no consumo de diesel.

Além da economia de combustível, a prevenção ajuda a evitar prejuízos maiores relacionados a acidentes. Uma ocorrência grave pode deixar caminhões parados, comprometer cargas e provocar impactos em toda a programação logística e financeira da empresa.

Eficiência pode valer mais do que uma frota maior

Em um cenário de margens apertadas, os dados também ajudam a identificar desperdícios que nem sempre são percebidos na operação cotidiana.

Informações sobre ociosidade, tempo de espera em pátios, deslocamentos desnecessários e circulação de veículos vazios permitem ao gestor entender onde estão os principais gargalos.

A partir desse diagnóstico, uma frota menor, mas com maior disponibilidade e uma roteirização eficiente, pode realizar o mesmo volume de trabalho por um custo inferior.

A lógica passa a ser utilizar melhor os recursos existentes antes de simplesmente ampliar a estrutura.

Tecnologia como proteção de margem

A resistência aos investimentos em tecnologia costuma aumentar durante períodos de volatilidade econômica. No entanto, enxergar essas ferramentas apenas como uma nova despesa pode limitar a capacidade de reação das transportadoras.

Combustíveis, juros e condições das rodovias estão entre os fatores que as empresas não conseguem controlar diretamente. Por isso, ampliar o domínio sobre as variáveis internas da operação ganha ainda mais importância.

Nesse contexto, a tecnologia para transporte funciona como uma ferramenta de proteção de margem, ajudando a aumentar a previsibilidade, reduzir desperdícios e diminuir a exposição a riscos.

Tecnologia precisa estar ligada à gestão

Apesar dos ganhos proporcionados pelas ferramentas digitais, a tecnologia, por si só, não resolve os problemas da operação.

Os resultados aparecem quando os dados são incorporados à rotina de gestão e utilizados para orientar ações concretas. O processo também depende do desenvolvimento contínuo dos motoristas, com treinamento, acompanhamento e correção de comportamentos.

Ou seja, não basta instalar equipamentos ou contratar sistemas. É necessário transformar as informações produzidas pela tecnologia em práticas capazes de melhorar a operação.

Cortes indiscriminados podem gerar prejuízo

Em períodos de orçamento pressionado, cortar despesas imediatamente costuma parecer uma solução natural. Porém, reduzir investimentos em manutenção de frota ou treinamento sem avaliar os impactos pode criar uma economia apenas aparente.

Um veículo que deixa de receber manutenção adequada pode apresentar falhas mais caras posteriormente. Da mesma forma, a redução de treinamentos pode elevar a exposição a acidentes e outros eventos que comprometem a operação.

Por isso, proteger a margem não significa apenas gastar menos. Significa identificar desperdícios, antecipar riscos e aumentar a eficiência dos recursos disponíveis.

Em um setor marcado por variáveis externas difíceis de controlar, a capacidade de atuar sobre aquilo que está dentro do alcance da empresa se torna um diferencial estratégico. É essa combinação entre infraestrutura, tecnologia, segurança e gestão eficiente que pode sustentar o crescimento das transportadoras mesmo em períodos de maior incerteza.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Bing Guan

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Tecnologia

Marcas chinesas chegam a 17% do mercado brasileiro de veículos

A presença das marcas chinesas de carros no Brasil ganhou força rapidamente. Em apenas um ano, a participação dessas fabricantes no mercado nacional passou de 9% para 17%, impulsionada principalmente pelo avanço dos carros eletrificados e pela crescente aceitação dos consumidores brasileiros.

A expansão coloca as montadoras chinesas em posição de destaque no setor automotivo brasileiro. Ao mesmo tempo, o avanço preocupa mercados tradicionais, que estudam medidas para proteger suas próprias indústrias.

Carros chineses avançam com a eletrificação

As fabricantes chinesas se tornaram protagonistas da eletrificação automotiva no Brasil, segmento que vem conquistando espaço entre os consumidores.

O cenário, porém, é diferente em outros grandes mercados. Nos Estados Unidos, por exemplo, a entrada de veículos chineses enfrenta uma tarifa de importação de 100%, mantida desde o governo de Joe Biden. Na Europa, também estão em discussão medidas para aumentar a proteção da indústria local diante da concorrência asiática.

No Brasil, uma iniciativa semelhante já provocou controvérsia no passado.

Brasil já adotou barreira para carros importados

Em 2011, o governo brasileiro aumentou em 30 pontos percentuais o IPI incidente sobre veículos importados de países de fora do Mercosul. Com a medida, a alíquota chegou a 70%.

O chamado “super IPI” tinha como justificativa a proteção dos empregos no setor automotivo brasileiro e o estímulo aos investimentos e à inovação dentro do país.

A decisão, entretanto, gerou reação internacional. Alguns países recorreram à Organização Mundial do Comércio (OMC), que concluiu, em 2017, que a política brasileira contrariava regras do comércio internacional. Posteriormente, o mecanismo foi retirado.

Stellantis defende incentivo à produção local

O presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, afirma não apoiar um aumento do Imposto de Importação. Para o executivo, o caminho poderia ser outro: oferecer vantagens às empresas que ampliem a fabricação nacional e utilizem mais componentes produzidos no Brasil.

Na avaliação de Zola, o sistema deveria estimular a produção local, beneficiando empresas de acordo com o nível de nacionalização de seus veículos.

O executivo também questiona a falta de incentivos para a compra de insumos nacionais.

“As montadoras que estão no Brasil não recebem incentivo para comprar aço local ou nenhum outro tipo de insumo. Enquanto isso, o aço chinês entra nos carros semimontados sem imposto”, afirma.

Medidas de 2011 estimularam fábricas de marcas premium

Apesar das controvérsias, o aumento do IPI em 2011 contribuiu para que algumas marcas de luxo que atuavam apenas com importações passassem a produzir veículos no Brasil.

Foi o caso de Mercedes-Benz, BMW e Jaguar Land Rover.

Atualmente, apenas a BMW mantém uma fábrica em funcionamento em Araquari, em Santa Catarina. A Mercedes-Benz encerrou as atividades de sua unidade em Iracemápolis, São Paulo, no fim de 2020. A planta foi posteriormente adquirida pela chinesa GWM, que iniciou a produção em agosto de 2025.

A GWM também avalia novos investimentos. Segundo Diego Fernandes, responsável pelas operações da empresa, o grupo tem planos para construir outra fábrica em Aracruz, no Espírito Santo.

Já a unidade da Jaguar Land Rover em Itatiaia, no Rio de Janeiro, continua sem comprador. Nos bastidores do setor automotivo, o grupo Chery aparece como interessado na aquisição da planta.

Chery prepara expansão no Brasil

O CEO da Chery no Brasil, Peng Hu, evita comentar diretamente as negociações envolvendo a fábrica de Itatiaia. O executivo, porém, confirma que a empresa terá uma unidade industrial no país.

Segundo Hu, os termos do acordo ainda precisam ser definidos e formalizados, motivo pelo qual os detalhes permanecem sob sigilo.

A atuação do executivo no Brasil também ganhou novas dimensões. Quando concedeu sua primeira entrevista ao Valor, em dezembro de 2025, Hu era responsável por duas marcas do grupo, Omoda e Jaecoo, criadas pela Chery para atuação internacional e que não são comercializadas na China.

Em julho deste ano, ele passou a comandar as operações do grupo Chery na região.

iCar e novos modelos estão nos planos

A estratégia de crescimento da Chery prevê novas marcas e segmentos no mercado brasileiro. A partir do primeiro trimestre de 2027, a empresa pretende lançar a iCar no país.

De acordo com Hu, mais de 100 grupos de concessionárias já demonstraram interesse em representar a nova marca.

A Chery também prepara projetos relacionados ao uso de etanol em carros híbridos. Engenheiros brasileiros trabalham em conjunto com a equipe de desenvolvimento na China para criar motores capazes de utilizar o combustível derivado da cana-de-açúcar.

Para 2027, a fabricante ainda prevê a chegada de uma nova marca de luxo e a entrada no segmento de carros compactos.

Futuro da produção da Chery pela CAOA ainda é incerto

A expansão direta do grupo Chery no Brasil também levanta dúvidas sobre o futuro da produção de veículos da marca realizada pelo grupo brasileiro CAOA.

Hu afirma não ser o responsável por essa questão. Neste momento, sua atuação está concentrada nos projetos de crescimento e expansão da fabricante chinesa no mercado nacional.

A Chery já ampliou sua participação nas vendas brasileiras para 2,5%, alcançando a 13ª colocação no ranking geral de comercialização de veículos.

Robôs humanoides chegam às concessionárias

Além de investir em novos produtos e ampliar sua participação no mercado, a Chery prepara iniciativas para diferenciar a experiência dos consumidores.

Uma das novidades será a presença de robôs humanoides nas concessionárias do grupo. Os equipamentos deverão recepcionar os clientes e fazer parte da estratégia da empresa para aproximar tecnologia e atendimento no ponto de venda.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Ana Paula Paiva/Valor

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Tecnologia

Hyundai defende concorrência equilibrada para enfrentar avanço dos carros chineses

A expansão das montadoras chinesas preocupa parte da indústria automotiva global, mas o CEO mundial da Hyundai, José Muñoz, avalia que ainda é possível competir com essas empresas. Para o executivo, o caminho passa por garantir condições equilibradas de concorrência, proteger determinados setores estratégicos e manter investimentos contínuos em produtos e tecnologia.

Muñoz reconhece que os veículos chineses, geralmente mais baratos, poderiam conquistar rapidamente espaço nos Estados Unidos caso as atuais barreiras comerciais fossem retiradas. A declaração foi feita durante a apresentação do Hyundai Tucson 2027, em Nova York.

Hyundai pede condições iguais de competição

Na avaliação de Muñoz, todas as fabricantes que disputam o mercado norte-americano deveriam atuar sob regras semelhantes. O executivo afirma que a Hyundai já enfrenta concorrentes de diferentes países em diversos mercados e apresenta bons resultados quando considera que existe um ambiente competitivo equilibrado.

A preocupação com a chegada das marcas chinesas aos Estados Unidos tem como referência o desempenho observado na Europa. Nos últimos anos, fabricantes da China ampliaram sua participação no continente oferecendo veículos cerca de 30% mais baratos que modelos europeus equivalentes, mesmo com a incidência de tarifas.

O avanço aumentou a pressão sobre fabricantes tradicionais, como Volkswagen, Volvo e Mercedes, e alimenta o receio de que um movimento semelhante ocorra no mercado norte-americano.

Tarifas dificultam entrada de veículos chineses nos EUA

Atualmente, tarifas elevadas e restrições relacionadas a softwares chineses representam obstáculos importantes para a comercialização direta desses veículos nos Estados Unidos.

O cenário, porém, pode mudar. Donald Trump já afirmou que aceitaria a instalação de fábricas de montadoras chinesas no território americano, desde que as operações empregassem trabalhadores dos Estados Unidos.

Analistas também avaliam que as fabricantes chinesas podem encontrar alternativas para entrar no mercado, seja por meio da produção local, seja por acordos e parcerias com empresas já estabelecidas no país.

Apesar dessa possibilidade, Muñoz afirma que a Hyundai não desenvolveu uma estratégia específica para enfrentar uma eventual entrada dessas marcas. Segundo ele, a prioridade é aprimorar continuamente os próprios veículos, reduzir custos e avançar em tecnologia, independentemente da origem dos concorrentes.

Integração vertical é aposta para reduzir custos

Uma das estratégias da Hyundai é ampliar a integração vertical, aumentando a produção interna de componentes e tecnologias. A intenção é melhorar a relação entre custo e qualidade e diminuir a dependência de fornecedores externos.

Muñoz cita como exemplo o investimento de US$ 5,8 bilhões, equivalente a cerca de R$ 28,9 bilhões, na Louisiana. O projeto prevê a produção de aço com menor impacto ambiental e faz parte dos esforços da empresa para elevar sua competitividade.

A estratégia também deve avançar em áreas como software e tecnologias automotivas, com maior desenvolvimento interno para ampliar o controle sobre custos e reduzir dependências.

Eletrificação mostra diferenças entre China, Europa e EUA

Muñoz admite que ainda não é possível prever exatamente o impacto que uma eventual entrada das montadoras chinesas provocaria nos Estados Unidos. Para ele, entretanto, o desempenho dessas empresas na Europa oferece uma referência importante.

A diferença entre os mercados também aparece na eletrificação dos veículos. Na China, os modelos elétricos já representam mais de 60% das vendas. Na Europa, a participação supera 20%. Nos Estados Unidos, por outro lado, os veículos elétricos permanecem abaixo de 6% do mercado após a retirada dos subsídios federais promovida pelo governo Trump e pelo Congresso.

Além da polarização política e de uma infraestrutura de recarga ainda considerada insuficiente, a disponibilidade de veículos elétricos acessíveis é apontada como um dos principais obstáculos à expansão desse segmento.

Muñoz, no entanto, acredita que os Estados Unidos ainda podem avançar e classifica o país como o mercado automotivo mais competitivo do mundo.

Hyundai aposta em elétricos e híbridos

A Hyundai mantém no mercado americano modelos elétricos como o Ioniq 5 e o Ioniq 9, enquanto amplia sua oferta de veículos híbridos.

Os carros híbridos ganharam importância nos resultados de eletrificação da companhia e estão presentes em modelos de grande volume de vendas, como o Tucson.

O Hyundai Group recentemente ultrapassou a Honda nas vendas de híbridos nos Estados Unidos e passou a ocupar a segunda colocação do segmento, atrás apenas da Toyota.

Baterias continuam sendo um desafio

Outro ponto de atenção está na produção de baterias. Muñoz reconhece que a China possui uma vantagem relevante nesse setor graças à enorme escala alcançada por sua indústria.

A Hyundai, por sua vez, mantém uma joint venture com a SK On para fabricar baterias nos Estados Unidos, em uma unidade localizada na Geórgia, próxima à Metaplant onde a empresa produz veículos elétricos e híbridos.

Segundo o executivo, alcançar grandes volumes de produção é fundamental para ganhar competitividade, já que a bateria representa uma parcela significativa do custo total de um carro elétrico.

Apesar da vantagem chinesa em escala, Muñoz afirma não estar preocupado com a situação. Ele destaca que os Estados Unidos já possuem produção doméstica de baterias conduzida por alguns dos maiores fabricantes mundiais.

FONTE: Notícias Automotivas
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Notícias Automotivas

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Tecnologia

Recarga rápida de carros elétricos muda estratégia dos eletropostos no Brasil

A expansão da recarga rápida de veículos elétricos está alterando não apenas a infraestrutura da mobilidade elétrica, mas também a forma como empresas enxergam a rentabilidade dos locais destinados ao carregamento.

Um levantamento realizado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico em parceria com a Tupi Mobilidade mostra que o número de pontos de recarga rápida em corrente contínua no Brasil passou de 6.479, em fevereiro, para 8.601, em maio de 2026. O avanço foi de 32,8% em apenas três meses.

Ao todo, o país já conta com mais de 25 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga.

Esse crescimento, porém, abre uma discussão que vai além da venda de energia. Em muitos empreendimentos, o principal valor econômico do carregador pode estar justamente no consumidor atraído para o local e no período em que ele permanece ali.

Tempo de recarga vira oportunidade de consumo

A dinâmica de um eletroposto é diferente daquela encontrada em um posto tradicional de combustíveis. Enquanto o abastecimento de um veículo a combustão costuma durar poucos minutos, o carregamento cria uma oportunidade maior de permanência.

Esse intervalo pode ser convertido em consumo, conveniência e relacionamento com o cliente.

Um estudo do Transportation Energy Institute realizado nos Estados Unidos registrou, no quarto trimestre de 2025, uma duração média de 32,8 minutos por sessão de recarga. Em lojas de conveniência, a média foi de 30,7 minutos, enquanto nos supermercados chegou a 33 minutos.

Os hábitos dos motoristas brasileiros não precisam reproduzir exatamente esses números para que a lógica seja aplicável ao mercado nacional.

Quando o usuário tem tempo para tomar um café, fazer compras, trabalhar ou utilizar outros serviços enquanto o veículo carrega, o valor daquela visita pode ir muito além da receita obtida pela eletricidade fornecida.

Eletroposto pode funcionar como porta de entrada para outros negócios

Por isso, analisar a rentabilidade de um ponto de recarga apenas pelo preço cobrado por quilowatt-hora pode deixar de lado parte importante do potencial do negócio.

A regulamentação brasileira permite a exploração comercial da recarga de veículos elétricos, com preços negociados livremente. Isso oferece espaço para diferentes modelos de operação.

A receita, portanto, não precisa depender exclusivamente da energia vendida. O carregador também pode funcionar como uma ferramenta para atrair consumidores para restaurantes, lojas, estacionamentos, supermercados, serviços e programas de fidelidade.

Em determinadas operações, a eletricidade deixa de ser o único produto e passa a atuar como o motivo que leva o consumidor a escolher determinado endereço.

Localização ganha importância na expansão da recarga

A integração entre infraestrutura de recarga e comércio ajuda a explicar por que determinados estabelecimentos podem sair na frente nessa nova etapa da mobilidade elétrica.

Postos de combustíveis já contam, em muitos casos, com localização estratégica, fluxo de veículos, iluminação, banheiros e lojas de conveniência.

Nos supermercados, o tempo de compras pode coincidir com o período necessário para recarregar o veículo. Hotéis e restaurantes, por sua vez, podem incorporar o carregamento à experiência oferecida ao cliente.

Já os estacionamentos têm a possibilidade de combinar a vaga com o fornecimento de energia em um único serviço.

Por isso, escolher o local de instalação de um carregador exige mais do que avaliar a potência elétrica disponível, a capacidade da rede ou a quantidade de veículos que circulam pela região.

Também é necessário observar o entorno e identificar se existem serviços ou experiências capazes de fazer o motorista permanecer naquele endereço.

Recarga ultrarrápida pode reduzir o tempo de permanência

A evolução da tecnologia traz um desafio para esse modelo de negócio. Baterias e carregadores estão ficando mais rápidos, reduzindo o tempo necessário para recuperar autonomia.

Dados da Agência Internacional de Energia (IEA), apresentados no Global EV Outlook 2026, indicam que, em veículos compatíveis com potências mais elevadas, 15 minutos conectados a um carregador de 150 kW podem adicionar quase 180 quilômetros de autonomia.

Isso significa que os modelos comerciais não podem depender da expectativa de que o motorista permanecerá 30 ou 40 minutos no estabelecimento durante todas as recargas.

Ao mesmo tempo, a redução do tempo de carregamento não elimina a importância da experiência oferecida ao consumidor. Ela pode, na verdade, aumentar a disputa entre os diferentes pontos de recarga.

Se dois eletropostos oferecem velocidades semelhantes, aspectos como conforto, segurança, alimentação, facilidade de pagamento e disponibilidade de serviços podem pesar na escolha do motorista.

Experiência pode definir vantagem competitiva

A expansão da mobilidade elétrica no Brasil indica que a disputa no mercado de recarga não será determinada apenas pela quantidade de equipamentos instalados ou pelo preço cobrado pela energia.

A combinação entre localização, infraestrutura e experiência tende a se tornar um diferencial mais difícil de copiar.

Para postos de combustíveis, supermercados, hotéis, estacionamentos e centros comerciais, o carregador pode ser encarado como parte de uma jornada de consumo mais ampla, e não apenas como um equipamento instalado para fornecer eletricidade.

O eletroposto do futuro continuará vendendo energia, mas sua competitividade poderá depender cada vez mais do que o consumidor encontra e faz enquanto o veículo recupera autonomia.

Nesse cenário, a recarga rápida deixa de ser apenas uma infraestrutura de transporte e passa a integrar uma estratégia de atração, permanência e relacionamento com clientes.

Tags: recarga rápida, carros elétricos, eletropostos, veículos elétricos, mobilidade elétrica, infraestrutura de recarga, carregadores elétricos, mercado de EVs, eletrificação

FONTE: Exame
TEXTO: Redação
IMAGEM: Leandro fonseca/Exame

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