Comércio Exterior

Fim da “taxa das blusinhas” aumenta pressão sobre indústria e varejo brasileiro

A aprovação no Congresso do fim da chamada “taxa das blusinhas” deve ampliar a pressão competitiva sobre empresas brasileiras, especialmente nos segmentos que disputam consumidores com plataformas internacionais de comércio eletrônico.

O Senado aprovou nesta quinta-feira (3), em votação simbólica, a medida provisória que elimina o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, aproximadamente R$ 260. A proposta já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados e agora segue para sanção presidencial.

A isenção está em vigor desde maio, quando a medida foi editada pelo governo federal.

Como fica o imposto sobre compras internacionais

Com a mudança, deixa de ser cobrada a alíquota federal de 20% sobre remessas de pequeno valor realizadas por plataformas participantes do programa Remessa Conforme.

O ICMS, imposto de competência estadual, continua sendo aplicado às operações.

Para compras acima de US$ 50 e de até US$ 3 mil, o texto aprovado permite reduzir o Imposto de Importação de 60% para 30%.

Durante a tramitação, a relatora da proposta na comissão mista, senadora Leila Barros (PDT-DF), incluiu ainda a isenção do imposto para medicamentos destinados ao tratamento de doenças raras e negligenciadas, desde que não exista produto similar fabricado no Brasil.

Governo terá de avaliar efeitos da desoneração

A nova regra determina que o Ministério da Fazenda acompanhe os impactos econômicos provocados pela desoneração.

A avaliação deverá considerar indicadores como emprego, renda, preços e atividade industrial. O primeiro levantamento deverá ocorrer três meses depois da entrada em vigor das novas regras.

Posteriormente, as análises serão realizadas a cada seis meses, além de uma avaliação anual sobre a manutenção do benefício.

O objetivo é acompanhar os efeitos da política de importação e verificar como a mudança interfere na economia brasileira.

Plataformas terão novas obrigações de controle

A medida também aumenta as exigências de conformidade para plataformas digitais e operadores logísticos.

As empresas deverão implementar mecanismos capazes de identificar possíveis irregularidades, como subfaturamento de mercadorias, divisão artificial de encomendas e ocultação de informações sobre remetentes.

Também fazem parte das exigências o rastreamento de vendedores, o registro das operações, o monitoramento de movimentações consideradas suspeitas e a cooperação com a Receita Federal.

Varejo nacional enfrenta maior concorrência internacional

A retirada do imposto federal reacende a disputa entre varejistas brasileiros e plataformas internacionais, principalmente em categorias com produtos de baixo valor agregado e pouca diferenciação.

Nesses segmentos, o preço costuma ter grande influência na decisão de compra. Por isso, pequenos e médios negócios podem enfrentar maior pressão sobre as margens.

Para Hugo Vasconcelos, especialista em vendas on-line e sócio-fundador da Pronix, os impactos não serão iguais para todas as empresas.

Segundo ele, fatores como categoria de produto, estrutura de custos e nível de profissionalização devem determinar o grau de exposição de cada vendedor à concorrência internacional.

O especialista avalia que empresas brasileiras ainda podem encontrar vantagens competitivas em fatores como prazo de entrega, disponibilidade imediata, reputação nas plataformas e estratégias promocionais.

Vendedores precisarão analisar produtos mais vulneráveis

Com a nova configuração do mercado, a recomendação é que os vendedores revisem seus portfólios e identifiquem quais produtos estão mais expostos à concorrência estrangeira.

A análise, porém, não deve considerar apenas o preço praticado por concorrentes internacionais. É necessário observar dados de demanda, conversão, comportamento de busca, prazo de entrega e margem operacional.

A avaliação individual de cada produto pode ajudar os negócios a identificar onde ainda existe espaço para competir e quais itens podem representar maior risco para a rentabilidade.

Reforma Tributária adiciona outro desafio

Além da mudança nas regras de importação, empresas que atuam no comércio exterior precisarão considerar os efeitos da Reforma Tributária.

A partir de 2027, as importações estarão sujeitas à CBS e ao IBS, o que deverá exigir adaptações em sistemas, processos fiscais e formação de preços.

Para a advogada Mérces da Silva Nunes, sócia do Silva Nunes Advogados e especialista em Direito Tributário, a análise não deve se limitar à comparação entre aumento ou redução da carga tributária.

O ponto central, segundo ela, será entender como diferentes cenários tributários poderão alterar a competitividade entre produtos nacionais e importados.

Empresas que trabalham com margens reduzidas podem sofrer impactos relevantes caso ocorram mudanças no custo tributário dos concorrentes internacionais.

Empresas devem antecipar planejamento tributário

Diante das mudanças, varejistas, importadores e marketplaces precisarão avaliar antecipadamente diferentes cenários.

Entre as medidas recomendadas estão a realização de simulações tributárias, revisão de contratos e fornecedores e análise da capacidade tecnológica dos sistemas utilizados pela empresa.

A preparação antecipada também poderá reduzir riscos durante a transição para o novo modelo de tributação do consumo.

Oposição critica benefício para produtos importados

A aprovação da medida também recebeu críticas no Congresso. Parlamentares da oposição argumentaram que a redução dos tributos pode beneficiar empresas estrangeiras em detrimento dos produtores brasileiros.

O deputado federal Gilson Marques (Novo-SC) defendeu que produtos nacionais deveriam receber tratamento equivalente ao concedido às mercadorias importadas.

Para Hugo Vasconcelos, entretanto, o cenário exige uma avaliação baseada em dados, evitando tanto o alarmismo quanto a minimização dos efeitos da concorrência internacional.

A recomendação é identificar quais categorias já sofrem pressão sobre as margens e quais ainda apresentam vantagens competitivas relacionadas à logística, reputação e eficiência operacional.

Fim da taxa muda estratégia do comércio eletrônico

A retirada do Imposto de Importação sobre compras de até US$ 50 vai além da redução do custo de determinadas encomendas internacionais.

A medida pode acelerar mudanças no comércio eletrônico brasileiro, aumentando a importância de indicadores como preço, conversão, comportamento do consumidor e rentabilidade por produto.

Para empresas nacionais, o novo cenário reforça a necessidade de acompanhar continuamente o mercado e ajustar portfólio, preços e estratégias comerciais. A combinação entre maior concorrência internacional e as mudanças previstas pela Reforma Tributária deverá tornar o planejamento financeiro e tributário ainda mais relevante.

FONTE: Brazil Economy

TEXTO: Redação

IMAGEM: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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Tecnologia

Varejistas brasileiros vão a Nova York para explorar o uso da inteligência artificial nas lojas

Em um ano marcado por instabilidade política global, com eleições presidenciais e legislativas influenciando o comportamento do consumidor, o varejo busca respostas para manter o crescimento. A aposta está no uso estratégico da inteligência artificial no varejo, tecnologia que promete aumentar a eficiência operacional e transformar a experiência de compra.

NRF 2026 reúne líderes globais do varejo em Nova York

Teve início neste domingo (11), em Nova York, a NRF 2026: Retail’s Big Show, maior feira mundial do setor. O Brasil volta a liderar entre as delegações estrangeiras, com cerca de 2,5 mil inscritos, o mesmo número do ano passado, em um público total estimado em 40 mil participantes.

Pela primeira vez desde a criação do evento, organizado pela National Retail Federation desde 1911, a programação conta com um palco exclusivo dedicado à inteligência artificial, sinalizando um esforço para levar a tecnologia do discurso conceitual para aplicações práticas no dia a dia das empresas.

Adoção de IA ainda enfrenta desafios de escala

Apesar do entusiasmo, os dados apresentados indicam cautela. Em painel realizado no domingo, a consultoria Impact Analytics mostrou que 90% dos projetos de IA no varejo ainda não obtiveram sucesso por não terem alcançado escala. Por outro lado, as iniciativas bem-sucedidas apresentam retorno expressivo: US$ 3,50 para cada US$ 1 investido.

Outro destaque foi a participação conjunta, inédita, do CEO do Walmart nos Estados Unidos, John Furner, e do CEO da Alphabet, Sundar Pichai, reforçando a centralidade do tema na agenda das grandes corporações.

Inteligência artificial aplicada à operação e ao consumidor

Ao longo do evento, que segue até o dia 13, mais de 350 palestrantes discutirão temas como o futuro dos supermercados, mudanças geracionais no consumo e estudos de caso de grandes marcas. No campo da IA aplicada ao varejo, os projetos vão desde gestão de estoques e previsão de demanda até agentes virtuais no relacionamento com clientes.

Participam desse movimento redes brasileiras como C&A e Magazine Luiza, além de gigantes internacionais como Amazon, Shopee e Temu. Ainda assim, a maioria das empresas avança de forma gradual, priorizando testes controlados.

“Não se trata de inserir agentes de inteligência artificial em todos os processos de uma vez. Existem questões de segurança, compliance e governança que precisam ser resolvidas”, afirma Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, que lidera uma comitiva de 60 CEOs brasileiros no evento.

Brasil avança, mas ainda corre atrás

Executivos brasileiros presentes em Nova York avaliam que o país acelerou a implementação de soluções de inteligência artificial no varejo no último ano. No entanto, ainda há gargalos em áreas como gestão de dados, arquitetura tecnológica e infraestrutura de software e hardware — pontos essenciais para o bom desempenho dos sistemas de IA.

“Existe um atraso, mas ele não é tão grande, especialmente entre as grandes redes”, diz Fabio Neto, sócio da StartSe. “Se os Estados Unidos estão em um nível 7 de maturidade, o Brasil estaria entre 4,5 e 5. A China lidera com folga, em torno de 8,5.”

Lojas físicas e eficiência operacional no centro do debate

Além da tecnologia, a evolução das lojas físicas volta à pauta, após anos de previsões equivocadas sobre o fim do varejo presencial. Empresas como Macy’s, Saks, LVMH, Ralph Lauren e Walmart devem apresentar como estão reposicionando suas operações diante da concorrência digital e da pressão por margens.

Consultorias como a WGSN também levarão projeções para o setor até 2028, após um período de desaceleração causado pela inflação e por rupturas nas cadeias globais de suprimentos. Segundo dados da Deloitte, as vendas dos 250 maiores varejistas do mundo vêm crescendo em ritmo mais lento desde 2021, com margens pressionadas por custos financeiros e operacionais.

Para Maurício Morgado, professor da FGV e líder de uma das delegações brasileiras, o foco desta edição da NRF será a eficiência operacional aliada à adoção da IA, em um cenário de competição acirrada entre marketplaces globais como Amazon, Temu, Shopee e Shein.

Presença brasileira expressiva no maior evento do varejo

A estimativa é que entre 250 e 350 empresas brasileiras dos setores de varejo, pagamentos, tecnologia e consultoria participem da NRF 2026. As delegações são organizadas por instituições como FGV, ESPM, Sebrae, CNDL, além das consultorias BTR-Varese e Gouvêa Ecosystem.

FONTE: Valor International
TEXTO: Redação
IMAGEM: Jason Dixson/Divulgação

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