Agronegócio

Guerra no Irã pressiona preços de fertilizantes e aumenta desafios para o agronegócio brasileiro

A ausência de uma perspectiva concreta para o fim da guerra entre Estados Unidos e Irã continua gerando impactos sobre a economia global — e o agronegócio brasileiro está entre os setores mais afetados. A instabilidade provocada pelo conflito ampliou as dificuldades de abastecimento e impulsionou os preços dos fertilizantes, insumos essenciais para a produção agrícola.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), os valores dos fertilizantes acumulam alta próxima de 80% desde o início da guerra, refletindo as restrições de oferta e os obstáculos logísticos no comércio internacional.

O cenário preocupa o Brasil devido à forte dependência das importações. O país utiliza grandes volumes desses produtos para garantir a produtividade de culturas como soja, milho, trigo, café e outras cadeias agrícolas.

Dependência externa aumenta vulnerabilidade brasileira

A exposição do Brasil ao mercado internacional de fertilizantes está relacionada à baixa produção nacional desses insumos. De acordo com o diplomata Eduardo Gradilone, ex-embaixador brasileiro no Irã, cerca de 85% dos fertilizantes consumidos internamente são importados.

O especialista destaca que o Irã tem papel relevante nesse fornecimento. Em 2025, o Brasil adquiriu aproximadamente US$ 72 milhões em fertilizantes iranianos, que representaram mais de 90% da pauta de importações brasileiras daquele país.

“A dependência estrutural de fertilizantes deixa o Brasil mais vulnerável a crises externas. Com a guerra, os preços subiram, a logística ficou mais complexa e o país passou a buscar fornecedores e rotas alternativas, principalmente para a ureia”, explicou Gradilone.

Custos de transporte marítimo também pressionam preços

Além da alta internacional dos produtos, o conflito elevou os gastos relacionados ao transporte marítimo de fertilizantes.

A instabilidade em áreas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, aumentou os custos de seguro das embarcações, ampliou riscos de atrasos e levou empresas a buscar caminhos alternativos para evitar regiões de maior tensão.

Esses fatores acabam incorporados ao preço final dos insumos que chegam ao produtor brasileiro.

Mercado de ureia sente impacto da crise

A pesquisadora Jéssica Grassi, doutora em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que a dependência brasileira torna o setor agrícola especialmente sensível a conflitos internacionais.

Segundo ela, a ureia, um dos fertilizantes mais utilizados no campo, registrou momentos de forte valorização desde o início da guerra. O Oriente Médio responde por uma parcela significativa das exportações globais do produto, o que aumenta a exposição do mercado às tensões na região.

A especialista também aponta que a situação é agravada pela participação da Rússia no comércio mundial de fertilizantes. O país, um dos principais fornecedores globais, continua envolvido no conflito com a Ucrânia iniciado em 2022, mantendo restrições e incertezas sobre a oferta internacional.

“O aumento dos preços dos fertilizantes eleva os custos agrícolas no Brasil e pode reduzir a competitividade das exportações. Além disso, crises geopolíticas prolongadas trazem o risco de desabastecimento global”, avaliou Grassi.

Brasil busca diversificar fornecedores de fertilizantes

Diante do cenário de instabilidade, especialistas defendem a aceleração das ações previstas no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) 2022-2050.

Entre as estratégias estão o fortalecimento da produção nacional e a ampliação da lista de fornecedores internacionais, com maior participação de países considerados mais estáveis, como Canadá, Marrocos e Argélia.

Apesar da alternativa, a mudança enfrenta desafios relacionados à logística, custos de transporte e capacidade de fornecimento desses mercados.

Mosaic reduz produção por falta de enxofre

Os efeitos da crise já atingem empresas instaladas no Brasil. A Mosaic, uma das maiores produtoras globais de fertilizantes, anunciou redução da produção em algumas unidades brasileiras devido à menor disponibilidade de enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.

O insumo é fundamental para culturas como soja, milho, trigo, café, arroz, frutas e hortaliças.

Segundo a companhia, são necessárias aproximadamente quatro toneladas de enxofre para a fabricação de dez toneladas de fertilizantes. Com a menor oferta internacional e a valorização da matéria-prima, a empresa revisou seu planejamento operacional para o segundo semestre de 2026.

Conflito permanece sem previsão de encerramento

Mais de seis meses após o início da ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irã, o conflito segue sem uma solução diplomática definida.

A crise ganhou novos capítulos com o aumento das ações de grupos aliados de Teerã no Mar Vermelho, ampliando os riscos sobre uma das principais rotas do comércio internacional.

Enquanto isso, autoridades iranianas buscam apoio regional para retomar negociações, enquanto o governo norte-americano sinaliza abertura para uma saída diplomática. O Irã, porém, nega que existam conversas em andamento com Washington.

Sem um acordo à vista, a guerra continua afetando cadeias globais de abastecimento e mantém a pressão sobre os preços dos fertilizantes, criando novos desafios para produtores brasileiros e para a competitividade do agronegócio nacional.

FONTE: Brazil Economy
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Brazil Economy

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