Comércio Internacional

Novas regras cambiais podem reduzir custos e ampliar uso do renminbi entre Brasil e China

As novas regras para contas em moeda estrangeira no Brasil, que entram em vigor hoje, 1º de outubro, podem diminuir custos operacionais, ampliar a autonomia financeira das empresas e estimular o uso do renminbi (RMB) nas operações comerciais entre Brasil e China.

A avaliação foi apresentada por representantes dos setores financeiro, empresarial e jurídico durante webinar realizado nesta terça-feira pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) em parceria com o ICBC Brasil, braço brasileiro do Industrial and Commercial Bank of China.

Nova regulamentação amplia possibilidades para empresas

A Resolução nº 575 do Banco Central ampliou o grupo de empresas autorizadas a manter contas em moeda estrangeira no país. Entre as categorias contempladas estão exportadores, companhias com dívidas no exterior e empresas que possuem capital estrangeiro.

Para o presidente do ICBC Brasil, Liu Hongbo, a mudança pode gerar três efeitos principais: redução dos custos de conversão de moedas, maior capacidade de administrar o risco cambial e mais eficiência na gestão dos recursos financeiros.

Segundo o executivo, a medida também pode favorecer o uso das moedas dos dois países nas operações comerciais.

Um exportador brasileiro, por exemplo, poderá receber pagamentos em renminbi e utilizar diretamente esses recursos para quitar compras realizadas de fornecedores chineses.

“Acredito que o uso de ambas as moedas em transações crescerá consideravelmente”, disse Liu.

Empresas podem reduzir conversões entre real, dólar e RMB

O diretor financeiro da Timbro, Danilo Moura, destacou que a possibilidade de manter recursos em moeda estrangeira pode representar economia para companhias que realizam operações frequentes entre Brasil e China.

Atualmente, determinadas transações podem envolver conversões entre real, dólar e renminbi, aumentando os custos financeiros. Com a nova estrutura, empresas que tenham receitas e despesas na mesma moeda estrangeira poderão fazer uma compensação mais direta.

Na avaliação de Moura, isso ajuda a reduzir o spread cambial e a exposição às oscilações das moedas.

O executivo também apontou que a nova regulamentação pode trazer mais previsibilidade, flexibilidade e centralização para a administração financeira das companhias.

Renminbi pode ganhar espaço nas transações comerciais

Outro possível efeito da mudança é o aumento do uso do renminbi nas relações comerciais Brasil-China.

Para Moura, a possibilidade de realizar pagamentos diretamente em moeda chinesa pode facilitar negociações com fornecedores da China, inclusive empresas de menor porte.

Essa alternativa também pode contribuir para a busca de condições comerciais mais favoráveis.

Apesar do potencial, o diretor financeiro ponderou que o mercado de câmbio do RMB ainda apresenta limitações em termos de liquidez e profundidade.

“Na Timbro, não consigo imaginar o RMB substituindo o dólar em 100%, mas sim operando em paralelo, complementando-o”, afirmou.

Mudanças também podem afetar investimentos

As novas regras não devem produzir efeitos apenas sobre o comércio bilateral. Segundo Allan Mota, tesoureiro da COFCO para Brasil e Colômbia, a possibilidade de manter e movimentar recursos em moeda estrangeira no país também pode influenciar decisões de investimento.

A COFCO é uma holding chinesa estatal voltada ao processamento de alimentos.

De acordo com Mota, uma gestão mais flexível de diferentes moedas pode ajudar a reduzir desequilíbrios cambiais em projetos de longo prazo e interferir na forma como as companhias estruturam seus financiamentos.

“Gerenciar diferentes moedas impacta não apenas nossas operações comerciais, mas também a forma como avaliamos os investimentos aqui no Brasil e como estruturamos o financiamento em geral”, declarou.

Entre os exemplos citados estão projetos de infraestrutura de armazenamento, logística e processamento, que podem apresentar exposição cambial diferente daquela observada em operações comerciais convencionais.

Real e renminbi podem ter participação maior

Mota também avalia que existe espaço para aumentar o uso direto do real e do renminbi à medida que os vínculos econômicos entre os dois países se aprofundam.

“Há um espaço significativo para expandir o uso tanto do real quanto do RMB aqui no Brasil, especialmente à medida que os dois países aprofundam suas relações comerciais e financeiras”, afirmou.

Na avaliação do executivo, uma maior liquidez e a oferta de novos produtos financeiros podem diminuir etapas intermediárias das operações e melhorar a eficiência dos fluxos de recursos.

O financiamento em renminbi também pode contribuir para reduzir custos e ampliar a liquidez disponível para as empresas.

Regras podem estimular novos serviços financeiros

Do ponto de vista jurídico, José Luiz Homem de Mello, sócio do Pinheiro Neto Advogados, explicou que a regulamentação alcança situações envolvendo exportação de mercadorias, captação de recursos no exterior e investimento estrangeiro direto.

O advogado ressaltou, entretanto, que a empresa precisa ter uma relação com o Brasil por meio de uma dessas operações para utilizar as contas em moeda estrangeira previstas nas novas regras.

A mudança também pode abrir espaço para o desenvolvimento de novos produtos bancários, além de soluções voltadas à administração de tesouraria.

No relacionamento financeiro com a China, a possibilidade de manter uma conta em RMB no Brasil e receber recursos de empréstimos nessa moeda pode facilitar o gerenciamento do caixa.

“Essa possibilidade de manter uma conta em renminbi no Brasil, receber esses empréstimos e manter essas posições auxilia na gestão e no gerenciamento de caixa”, afirmou Homem de Mello.

Brasil e China ampliam integração financeira

Na abertura do evento, o presidente do CEBC, embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, destacou que o crescimento das relações econômicas entre Brasil e China aumenta a demanda por mecanismos financeiros capazes de dar suporte ao comércio bilateral.

Nesse contexto, as novas regras cambiais criam alternativas para que empresas brasileiras e chinesas administrem recursos em moedas estrangeiras dentro do Brasil.

Além da possibilidade de reduzir custos e simplificar determinadas operações, a regulamentação pode contribuir para ampliar o uso do real e do renminbi em transações comerciais e investimentos, acompanhando o aprofundamento das relações econômicas entre os dois países.

FONTE: Xinhua
TEXTO: Redação
IMAGEM: Portal da Indústria

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Economia, Exportação, Finanças, Gestão, Informação, Internacional, Tributação

Brasil registra segunda maior saída de capital em janeiro desde 1982

As saídas de moeda estrangeira persistiram no início de 2025, com uma saída líquida de US$ 6,7 bilhões, mesmo com o fortalecimento do real no mercado de derivativos

O Brasil enfrentou uma saída líquida de capital de US $ 6,7 bilhões em janeiro, marcando a segunda maior saída de moeda estrangeira para o mês desde que os dados rastreados começaram em 1982. Dados preliminares sobre o fluxo cambial de janeiro, divulgados pelo Banco Central, indicam que a recente valorização do dólar não foi impulsionada por um influxo de capital no país.

A saída líquida resultou de uma conta financeira negativa – cobrindo investimentos em carteira – de US$ 4,56 bilhões, juntamente com um saldo comercial negativo de US$ 2,13 bilhões.

“Ao analisar as tendências sazonais do fluxo cambial, vemos que, nos últimos anos, janeiro tem visto entradas nas contas financeiras e comerciais”, disse Andrea Damico, CEO da consultoria Buysidebrazil. “Este ano, no entanto, vimos o oposto em ambas as contas. A saída de US$ 6,7 bilhões é um grande desvio dos padrões históricos.”

Existem diferentes séries de dados do Banco Central para fluxos cambiais de transações contratadas. Entre os números rastreados diariamente, que datam de 2008, janeiro de 2025 foi o pior já registrado. Uma tendência semelhante aparece na série mensal mais ampla, que começou em 1982, tornando o mês passado o segundo pior janeiro para saídas de capital.

Para Damico, as saídas poderiam ter sido ainda mais severas se não fosse a venda de ações da Vale pela Cosan, que atraiu investidores estrangeiros. “Essa venda trouxe capital estrangeiro para o país. Sem esse acordo – estimado em cerca de US$ 1 bilhão – a fuga de capitais teria sido ainda pior, reforçando o quão negativos são esses dados”, disse ela.

Iana Ferrão, economista do BTG Pactual, apontou um fator-chave por trás da deterioração da balança comercial: uma discrepância entre as receitas de exportação no momento do embarque e as entradas reais de divisas dessas exportações. Nas transações de exportação, os chamados “dólares embarcados” refletem o valor das mercadorias vendidas, enquanto os “dólares contratados” representam a quantidade real de dinheiro repatriado para o Brasil. Essencialmente, houve uma entrada maior de dinheiro do que de mercadorias exportadas.

“Em relação ao ano anterior, as transações de Adiantamento de Pagamento cresceram 13%, enquanto o Adiantamento de Contratos de Câmbio aumentou 4,3%”, observou Ferrão. “Isso sugere que a forte depreciação da moeda em 2024 levou a uma liquidação antecipada dos contratos de exportação de 2025.”

Saídas estruturais

Em relação à conta financeira, Ferrão observou que o Banco Central não forneceu detalhes sobre a composição das saídas. “É possível que as mesmas tendências observadas ao longo de 2024 tenham continuado no início de 2025, com a fuga de capitais estrangeiros sendo um fator-chave na deterioração”, disse ela.

Damico, da Buysidebrazil, também apontou para uma mudança de longo prazo no movimento de capital, impulsionada por mudanças estruturais e não por tendências sazonais de curto prazo. “Mesmo que os fatores sazonais de dezembro tenham passado, ainda temos fatores estruturais, como compras de criptomoedas e brasileiros investindo no exterior”, disse ela. “Essas saídas são mais consistentes e menos sazonais do que as remessas de lucros e dividendos.”

Um relatório da série de fundos Yield Plus da Itaú Asset destacou que a incerteza local no final do ano passado pode estar corroendo a confiança dos investidores no Brasil. “Será importante entender como as expectativas dos investidores afetarão as saídas de capital, semelhante ao que aconteceu em dezembro”, segundo o relatório.

“Tradicionalmente, as famílias brasileiras mantêm suas economias no país, impulsionadas por taxas de juros historicamente altas. Se essa tendência mudar, ficará claro que as reservas cambiais do Banco Central estão em um nível desfavorável, aumentando o potencial de depreciação cambial significativa”, observou a equipe do Itaú.

Damico acrescentou que as saídas de capital de janeiro, apesar do fortalecimento do real, indicam que a valorização da moeda foi impulsionada pela negociação de derivativos, e não pelas entradas do mercado à vista. “O real se valorizou devido a uma redução de US$ 20 bilhões nas posições compradas no mercado de derivativos”, disse ela. “Essa liquidação impulsionou a taxa de câmbio, já que o mercado à vista deveria ter refletido uma depreciação.”

Um relatório recente do Valor mostrou que, desde meados de dezembro, os investidores estrangeiros desfizeram cerca de US$ 20 bilhões em posições compradas em dólares em relação ao real no mercado de derivativos do Brasil, de acordo com dados da B3. Esses números incluem contratos futuros, contratos de mini-dólar, swaps e negociações de cupom de taxa de câmbio (DDI). Na sessão de terça-feira, as posições compradas líquidas estavam em torno de US$ 57,4 bilhões, abaixo dos US$ 77,6 bilhões em 16 de dezembro.

“Isso está relacionado ao desenrolar do chamado comércio de Trump [apostas em ativos que devem se beneficiar do novo governo dos EUA, como um dólar mais forte]”, explicou Damico. “A questão é que Trump ainda não implementou suas políticas prometidas com a intensidade esperada nas primeiras semanas de seu governo. Isso permitiu que os investidores ajustassem suas expectativas em relação à sua administração”, disse ela.

FONTE: Valor Internacional
Brasil registra segunda maior saída de capital em janeiro desde 1982 | Economia | valorinternational

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