Logística

Crise logística na Ásia eleva frete marítimo e ameaça abastecimento de pneus no Brasil

Os custos do frete marítimo internacional entre a China e o Brasil continuam em forte alta e já chegam a US$ 9.500 por contêiner de 40 pés para embarques previstos entre 1º e 7 de setembro. As cotações variam conforme o armador, a disponibilidade de espaço e equipamentos e as condições de negociação.

O cenário aumenta a preocupação dos importadores brasileiros de pneus, que já vinham acompanhando a deterioração das condições logísticas no mercado asiático. A Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP) havia utilizado anteriormente o valor de US$ 8.300 como referência para o frete, montante que já foi ultrapassado pelas novas cotações.

Portos chineses enfrentam congestionamento e risco climático

Além da alta dos preços, os importadores enfrentam dificuldades para garantir espaço nos navios. Informações recebidas pela ABIDIP em 24 de agosto apontam a possibilidade de três novos tufões afetarem regiões portuárias estratégicas, como Shenzhen, Ningbo e Shanghai.

Os principais portos chineses já registram atrasos, omissões de escalas e falta de equipamentos. Também há dificuldades para que os armadores disponibilizem navios suficientes para retirar os contêineres acumulados nos terminais.

Segundo informações repassadas à entidade pelo setor de transporte internacional, o backlog portuário nos principais portos chineses estaria próximo de 400 mil TEUs.

As dificuldades também já afetam a programação dos armadores. Entre os relatos recebidos pelo setor, a HMM (Hyundai Merchant Marine) teria informado que sua próxima operação em Shanghai está prevista apenas para 22 de setembro, após remanejamentos para atender outros portos e recuperar escalas atrasadas.

Para Ricardo Alípio, presidente da ABIDIP, a situação deixou de ser apenas uma questão relacionada ao preço do transporte.

“Até algumas semanas atrás discutíamos principalmente o preço do frete. Agora, temos uma preocupação adicional: conseguir espaço e equipamento para embarcar.”

Segundo ele, a combinação de fretes próximos de US$ 10 mil, congestionamento portuário, atrasos e cancelamentos de escalas pode comprometer a regularidade do abastecimento no mercado brasileiro.

Setembro pode ser crítico para importadores de pneus

A expectativa do setor é de que setembro apresente uma forte restrição de espaço nos navios, principalmente nas rotas com origem na China.

A situação preocupa especialmente os importadores de pneus, que precisam antecipar suas operações para manter os estoques destinados ao mercado nacional.

Os associados da ABIDIP atuam principalmente no mercado de reposição, atendendo consumidores, revendedores, frotistas, motoristas de aplicativo, transportadores urbanos e pequenos empreendedores.

A entidade avalia que a redução da oferta e a elevação dos custos de importação podem chegar ao consumidor por meio do aumento dos preços dos pneus.

“O pneu é um item obrigatório de segurança. Se aumentamos simultaneamente o custo logístico e as barreiras à importação, quem acaba pagando essa conta é o consumidor brasileiro”, afirma Alípio.

O presidente da entidade também alerta que preços mais elevados podem fazer motoristas adiarem a substituição de pneus desgastados, aumentando os riscos à segurança no trânsito.

Frete mais caro aumenta pressão sobre o preço dos pneus

A ABIDIP já havia calculado os efeitos da combinação entre frete marítimo e tributação. No cenário considerado pela entidade, com frete de US$ 8.300 e eventual aumento do Imposto de Importação para 35%, um pneu 185/60 R15 poderia passar de R$ 254,90 para R$ 331,97.

O aumento estimado seria de 30,2%.

Com as atuais cotações podendo chegar a US$ 9.500 por contêiner, a pressão exercida pelos custos logísticos tornou-se ainda maior do que a considerada no levantamento inicial.

ABIDIP critica possível aumento do Imposto de Importação

A crise logística ocorre enquanto está em discussão uma possível elevação do Imposto de Importação sobre pneus de passeio, dos atuais 25% para 35%.

Para a ABIDIP, aplicar uma nova tarifa neste momento representaria um segundo impacto sobre uma cadeia que já enfrenta custos elevados por fatores externos.

“O Brasil não controla tufões, congestionamentos nos portos asiáticos ou a disponibilidade de navios. Mas controla sua política tarifária”, afirma Ricardo Alípio.

A entidade defende que eventuais medidas de proteção à indústria nacional sejam adotadas por meio dos mecanismos de defesa comercial previstos na legislação, sem comprometer a concorrência, a previsibilidade e o abastecimento.

Diversificação de fornecedores é vista como segurança de abastecimento

Na avaliação da ABIDIP, manter diferentes fontes de fornecimento torna-se ainda mais importante diante da atual crise internacional.

A entidade considera que restringir alternativas de importação em um momento de dificuldades logísticas pode aumentar a vulnerabilidade do mercado brasileiro.

“A competitividade deve ser construída com produtividade, inovação e eficiência, e não simplesmente com o aumento de tarifas”, conclui Alípio.

FONTE: 54 Psi

TEXTO: Redação

IMAGEM: Reprodução/54 Psi

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