Internacional

Crise energética na Europa: estoques de gás preocupam antes do inverno

A Europa pode enfrentar um inverno desafiador no abastecimento de gás natural. Mesmo com a redução das tensões envolvendo Estados Unidos e Irã e a retomada da navegação pelo Estreito de Ormuz, especialistas alertam que os níveis de armazenamento de combustível no continente permanecem abaixo do esperado, elevando o risco de pressão sobre os preços nos próximos meses.

Um estudo da consultoria Wood Mackenzie, divulgado pelo jornal britânico Financial Times, projeta que os reservatórios da União Europeia (UE) deverão encerrar a temporada de reabastecimento, que ocorre entre abril e outubro, com apenas 76% da capacidade ocupada.

Reservatórios de gás devem atingir menor nível em 15 anos

Caso a projeção se confirme, os estoques de gás natural da Europa entrarão no inverno do Hemisfério Norte nos níveis mais baixos registrados em pelo menos 15 anos. O cenário pode resultar em aumento dos custos de energia para consumidores e empresas durante o período de maior demanda.

Após um inverno rigoroso, que reduziu os estoques para cerca de 28% da capacidade, os países europeus tentam recompor as reservas, mas enfrentam dificuldades para alcançar os volumes considerados ideais.

Dados da Gas Infrastructure Europe (GIE) indicam que os reservatórios operam atualmente com ocupação média de 48,29%. Tradicionalmente, junho representa o mês de maior ritmo de armazenamento, porém o desempenho ficou abaixo do esperado neste ano.

Calor e demanda por energia dificultam recomposição dos estoques

Outro fator que preocupa o setor energético é a previsão de temperaturas acima da média durante julho e agosto. O aumento do uso de sistemas de refrigeração deve elevar o consumo de eletricidade e reduzir a quantidade de gás natural destinada ao armazenamento.

Embora os preços do combustível tenham disparado durante o período de maior tensão no Oriente Médio, as cotações voltaram a se estabilizar nas últimas semanas.

Atualmente, o gás é negociado em torno de 40 euros por megawatt-hora (MWh), valor próximo ao registrado antes da escalada do conflito e muito inferior ao pico de 342 euros/MWh alcançado após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022.

Oferta de GNL segue como fator decisivo para o mercado europeu

Especialistas avaliam que o cenário pode mudar caso haja aumento da oferta global de Gás Natural Liquefeito (GNL). Após a redução das tensões no Golfo, navios transportadores voltaram a operar normalmente na região, o que pode ampliar o fornecimento internacional.

Segundo Tom Marzec-Manser, diretor de gás e GNL para a Europa da Wood Mackenzie, a maior disponibilidade de cargas pode pressionar os preços para baixo no curto prazo. No entanto, ele avalia que a chegada do inverno tende a elevar novamente as cotações, principalmente se houver temperaturas abaixo da média.

Redução da oferta amplia preocupação com abastecimento

A atual situação é resultado de diversos fatores que reduziram a disponibilidade de gás natural no mercado europeu.

Entre eles estão as dificuldades recentes nas rotas de transporte de GNL pelo Estreito de Ormuz, a redução da produção no Catar e nos Emirados Árabes Unidos e o encerramento do trânsito de gás russo pelo território da Ucrânia.

Com isso, a União Europeia passou a depender ainda mais das importações de GNL para garantir o abastecimento interno e também atender à demanda ucraniana.

No ano passado, o bloco importou 109 milhões de toneladas de GNL, volume equivalente a aproximadamente 142 bilhões de metros cúbicos, crescimento de 28% em relação ao ano anterior.

Apesar desse avanço, as compras externas perderam ritmo. Em junho, as importações caíram cerca de 17% na comparação anual, totalizando 7,8 milhões de toneladas, o menor volume registrado nos últimos dez meses.

Embargo ao gás russo também pressiona o mercado

Outro elemento que contribui para a incerteza é a estratégia da União Europeia de eliminar gradualmente a dependência de produtos energéticos russos.

Atualmente, a Rússia ainda responde por aproximadamente 14% das importações europeias de GNL. Pelo cronograma aprovado pelo Conselho Europeu, a compra desse combustível será totalmente proibida a partir de 1º de janeiro de 2027.

Já a importação de gás natural russo por gasodutos deverá ser encerrada até setembro de 2027, exigindo que os países do bloco ampliem a diversificação de fornecedores.

Mesmo mantendo capacidade de armazenamento de cerca de 109 bilhões de metros cúbicos e ocupando a posição de maior importadora mundial de GNL, a Europa ainda enfrenta desafios para garantir estoques suficientes antes da chegada do inverno.

FONTE: NeoFeed
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/NeoFeed

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Comércio Internacional

Preços do açúcar, café e cacau avançam com onda de calor na Europa e efeitos do El Niño

Os mercados internacionais de açúcar, café e cacau encerraram a semana sob forte influência das condições climáticas. A combinação da intensa onda de calor na Europa com as preocupações em torno do El Niño elevou a percepção de risco para a oferta global das commodities agrícolas, impulsionando as cotações, principalmente do açúcar e do cacau.

Clima extremo sustenta alta do açúcar

Os contratos futuros do açúcar bruto negociados na ICE fecharam em alta de 3,2%, cotados a 13,98 centavos de dólar por libra-peso, depois de atingirem o maior nível em cerca de duas semanas e meia, de 14,09 centavos. No acumulado da semana, o avanço foi de 2,8%.

Segundo analistas do mercado, a valorização reflete a preocupação com o clima em importantes regiões produtoras. A severa onda de calor registrada na Europa, a redução de aproximadamente 42% nas chuvas de monção na Índia e o tempo quente e seco na Tailândia reforçam os temores de impactos sobre a produção mundial.

Apesar desse cenário, a queda dos preços da energia limita ganhos mais expressivos. Isso porque o petróleo mais barato aumenta a tendência de destinar uma parcela maior da cana-de-açúcar para a fabricação de açúcar, reduzindo o uso da matéria-prima na produção de etanol.

Já o açúcar branco registrou valorização de 4,3%, encerrando o dia cotado a US$ 464 por tonelada, após alcançar o maior patamar em quase três meses. Na semana, o produto acumulou alta de 5,2%, favorecido pelas dificuldades climáticas enfrentadas pela Europa.

El Niño mantém mercado de café em alerta

No mercado de café, os contratos do robusta recuaram 1%, encerrando a sessão a US$ 3.627 por tonelada. Mesmo com a queda diária, especialistas destacam que o El Niño continua sendo um importante fator de sustentação dos preços, devido ao risco de temperaturas elevadas e menor volume de chuvas no Sudeste Asiático e na Índia, regiões estratégicas para a produção da variedade.

O café arábica também registrou baixa de 1,2%, sendo negociado a US$ 2,732 por libra-peso, após renovar recentemente a máxima de quase seis semanas.

No Brasil, as chuvas associadas ao fenômeno climático provocaram atrasos na colheita e afetaram parte da qualidade dos grãos. Ainda assim, a expectativa permanece positiva para uma safra robusta do maior produtor mundial de arábica. A previsão de melhora nas condições climáticas ao longo dos próximos dias deve favorecer o avanço dos trabalhos no campo.

Cacau acumula forte valorização na semana

O cacau foi uma das commodities de maior destaque no período. Em Londres, os contratos fecharam em queda de 2,8%, cotados a £ 3.820 por tonelada, mas encerraram a semana com valorização acumulada de 16%.

Em Nova York, os contratos recuaram 2,9% no fechamento diário, para US$ 5.095 por tonelada. No entanto, o saldo semanal foi expressivo, com alta de 20%.

De acordo com análises do mercado, a valorização do cacau reflete a transição para uma fase ativa do El Niño, a redução das tensões geopolíticas no Oriente Médio e o desenvolvimento mais lento da safra principal 2026/27 na África Ocidental. Apesar disso, instituições financeiras ainda projetam um excedente de produção para a temporada e avaliam que parte do prêmio de risco associado ao fenômeno climático pode estar acima do necessário.

FONTE: Infomoney
TEXTO: Redação
IMAGEM: Infomoney

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Internacional

Bloqueio ômega intensifica onda de calor extrema na Europa e eleva número de mortes

A forte onda de calor na Europa Ocidental continua provocando impactos severos em diversos países. Na França, mais de 40 mortes já foram registradas em meio às temperaturas extremas. Especialistas apontam que o cenário é sustentado por um fenômeno meteorológico conhecido como bloqueio ômega, responsável por prolongar períodos de calor intenso.

O padrão atmosférico tem chamado a atenção de meteorologistas devido à sua capacidade de manter massas de ar quente estacionadas sobre uma mesma região por vários dias ou até semanas.

O que é o bloqueio ômega?

O chamado bloqueio ômega recebe esse nome por causa da sua semelhança com a letra grega Ω. O fenômeno ocorre quando uma área de alta pressão atmosférica fica posicionada entre dois sistemas de baixa pressão.

Na prática, essa configuração cria uma espécie de barreira que impede o deslocamento normal dos sistemas meteorológicos. Em condições comuns, a corrente de jato transporta massas de ar de oeste para leste de forma contínua. Durante o bloqueio ômega, porém, esse fluxo sofre alterações significativas, fazendo com que os sistemas permaneçam praticamente estacionários.

Além disso, ventos mais fracos e diferenças de temperatura na atmosfera contribuem para a manutenção desse padrão climático.

Como o fenômeno favorece o calor extremo?

Sob a influência da alta pressão, o tempo tende a permanecer seco e ensolarado. A formação de nuvens é reduzida, permitindo maior incidência de radiação solar e favorecendo o aumento das temperaturas.

Esse é o cenário observado atualmente em países como França e Espanha, onde os termômetros já ultrapassaram os 40°C em diversas localidades.

Enquanto isso, as regiões localizadas nas áreas de baixa pressão que cercam o bloqueio costumam registrar condições opostas, com temperaturas mais amenas e aumento das chuvas.

No Reino Unido, por exemplo, o Met Office, serviço meteorológico britânico, informou que o país está situado na zona de transição entre o ar quente associado à alta pressão e massas de ar mais frias vindas do noroeste. Como resultado, o sul e o leste enfrentam calor intenso, enquanto o norte e o oeste apresentam clima mais fresco e úmido.

Mudanças climáticas podem agravar as ondas de calor?

Embora os cientistas ainda debatam se as mudanças climáticas estão aumentando a frequência dos eventos de bloqueio ômega, existe consenso de que o aquecimento global tem tornado as ondas de calor mais frequentes e severas.

De acordo com estudos climáticos, as emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de carvão, petróleo e gás elevaram a temperatura média do planeta em aproximadamente 1,3°C desde o período pré-industrial.

Esse aumento da temperatura de base faz com que eventos de calor extremo atinjam níveis ainda mais elevados. Segundo a pesquisadora Clair Barnes, do Imperial College London, as atuais ondas de calor europeias estão entre 2°C e 4°C mais intensas do que seriam em um cenário sem a influência do aquecimento provocado pela atividade humana.

Dessa forma, quando fenômenos atmosféricos como o bloqueio ômega se estabelecem, seus efeitos podem ser potencializados, resultando em temperaturas recordes e impactos mais graves para a população.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reuters

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Exportação

Exportação de manga para a Europa cresce 71% e impulsiona fruticultura brasileira

As exportações brasileiras de manga registraram forte expansão nos últimos anos, impulsionadas pelo avanço tecnológico no campo e pelo aumento da competitividade do setor no mercado internacional. Entre 2018 e 2025, os embarques da fruta cresceram 71%, segundo dados do ComexStat, ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

No ano passado, o Brasil exportou volume recorde de 291 mil toneladas de manga, superando com folga as 170,5 mil toneladas embarcadas em 2018.

Europa lidera compras da manga brasileira

A Europa segue como principal destino da manga produzida no Brasil. Em 2025, o continente concentrou 78% das exportações brasileiras da fruta.

Os embarques para os países europeus avançaram de 127 mil toneladas, em 2018, para 226 mil toneladas no ano passado, crescimento de 78% no período.

O desempenho reflete a forte demanda por frutas consideradas premium, além da busca crescente por produtos cultivados dentro de padrões sustentáveis.

Tecnologia no campo impulsiona produção

Representantes do setor atribuem parte desse avanço ao aumento do uso do Paclobutrazol (PBZ), um fitorregulador utilizado para controlar a floração da mangueira.

A tecnologia permite que os produtores programem a colheita em períodos estratégicos, aproveitando as melhores janelas de exportação ao longo do ano.

Segundo Renato Francischelli, diretor da Ascenza no Brasil, o uso do produto ajudou a organizar a produção de acordo com a demanda internacional.

“O agricultor consegue escalonar a colheita para atender o mercado nos momentos de maior consumo”, explicou.

Concorrência reduziu custos para produtores

Até 2018, apenas uma empresa comercializava oficialmente o PBZ no mercado brasileiro, cenário que mantinha os custos elevados para os produtores rurais.

Com a entrada de novos fornecedores, houve redução significativa nos preços do insumo, ampliando o acesso à tecnologia e fortalecendo a competitividade da fruticultura brasileira.

A Ascenza informou que o produto Paclo BR, autorizado no Brasil cinco anos após o pedido de registro, chegou ao mercado nacional com preço cerca de 62,5% menor em comparação aos valores praticados anteriormente.

Segundo Francischelli, antes da ampliação da concorrência, alguns agricultores chegaram a recorrer a produtos sem regulamentação para reduzir despesas de produção.

Vale do São Francisco concentra exportações

O Vale do São Francisco permanece como principal polo exportador de manga do país, respondendo por cerca de 90% a 95% dos embarques brasileiros.

A região se beneficia principalmente do calendário internacional de consumo. O pico das exportações ocorre no segundo semestre e no início do outono europeu, período em que há menor concorrência de produtores como Espanha e Israel.

Os consumidores europeus demonstram preferência pelas variedades com menos fibras, conhecidas como “manga de colher”, caso das cultivares Keitt, Kent e Palmer.

Já os Estados Unidos, responsáveis por 13% das compras em 2025, importam majoritariamente a variedade Tommy Atkins.

Produção nacional também avança

Além do crescimento das exportações, a produção brasileira de manga também apresentou expansão nos últimos anos.

Dados do IBGE e projeções da Embrapa indicam que a colheita nacional passou de 1,32 milhão de toneladas em 2018 para 1,54 milhão de toneladas em 2025, avanço próximo de 17%.

Mesmo sem tarifas para entrada da fruta brasileira na Europa, o setor acredita que o acordo entre Mercosul e União Europeia poderá ampliar ainda mais as oportunidades comerciais para a manga brasileira no exterior.

FONTE: CNN
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Datamar News

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Exportação

Exportações da China intensificam tensão comercial com a Europa

As exportações da China vêm alimentando um clima de tensão com a Europa, que já fala abertamente em risco de confronto comercial. O presidente francês, Emmanuel Macron, classificou o desequilíbrio nas trocas com Pequim como “insuportável” e afirmou que a situação representa “vida ou morte para a indústria europeia”. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também declarou que os laços econômicos com a China “chegaram a um ponto de inflexão”.

O alerta ganhou força após o anúncio de que o superávit chinês com a União Europeia (UE) atingiu o nível recorde de quase 300 bilhões em 2025. As exportações chinesas para o bloco já superam em mais do dobro o volume importado, impulsionadas pelo redirecionamento de produtos que enfrentam novas tarifas nos Estados Unidos.

Pressão por mudanças na política europeia

Para analistas, o impacto do chamado “choque chinês” está se tornando visível. Andrew Small, diretor do programa Ásia do Conselho Europeu de Relações Exteriores, afirma que a UE vive um momento de urgência e que reuniões internas de crise já são frequentes. Segundo ele, o cenário pode levar à maior revisão da política europeia para a China em mais de uma década.

Nos últimos anos, a atenção da Europa esteve voltada à guerra na Ucrânia e às tensões comerciais com os EUA, mas Pequim voltou ao centro das preocupações. Um pacote de medidas considerado “represado”, segundo Small, está em preparação.

Estratégia europeia para proteger suas indústrias

Em resposta ao avanço das exportações chinesas, a Comissão Europeia apresentou um plano para impedir que indústrias do bloco sejam ultrapassadas por concorrentes globais. Entre as propostas estão a criação de um centro de segurança econômica, novos critérios para investimentos estrangeiros e políticas para evitar que produtos baratos inundem o mercado único.

O movimento ocorre no momento em que outras grandes economias também erguem barreiras comerciais. No México, legisladores aprovaram novas tarifas sobre importações asiáticas.

Impacto econômico direto na Europa

Economistas do Goldman Sachs estimam que a pressão das exportações chinesas deve reduzir o crescimento do PIB de países como Alemanha, Espanha e Itália em pelo menos 0,2 ponto percentual ao ano entre 2026 e 2029. Estudo do Banco Central Europeu aponta que quase um terço dos empregos da zona do euro pode ser afetado — mais de 50 milhões de trabalhadores.

Segundo Stephen Jen, CEO da Eurizon SLJ Capital, a combinação de comércio acelerado e moeda desvalorizada torna o cenário “insustentável”. Para ele, a desvalorização do yuan funciona como um “subsídio” às exportações chinesas, ao mesmo tempo em que reduz o poder de compra interno.

Dependência europeia e riscos estratégicos

A UE continua sendo um dos poucos mercados grandes o suficiente para absorver produtos chineses antes destinados aos EUA. Em Bruxelas, preocupações aumentaram após Pequim usar sua dominância sobre terras raras para pressionar setores estratégicos, provocando paralisações em indústrias europeias.

Apesar de ter reservado ao menos 3 bilhões de euros para diminuir a dependência de insumos chineses, especialistas afirmam que os efeitos dessas medidas levarão anos para aparecer.

Superávit em expansão e concorrência crescente

A disparada das exportações chinesas durante a pandemia ampliou a diferença comercial. Com consumidores comprando mais produtos ligados ao home office e à vida doméstica, e com empresas chinesas avançando em setores de alta tecnologia, como carros elétricos e dispositivos médicos, o desequilíbrio aumentou.

Hoje, a China responde por 7% das exportações europeias, mas fornece quase um quarto de todas as importações externas do bloco. Seu superávit com UE e Reino Unido já representa um terço do total comercial chinês, que ultrapassou 1 trilhão.

Alemanha: o epicentro da crise comercial

A Alemanha, maior economia europeia, sentiu o impacto de forma mais intensa. Em 2019, a China tinha um déficit de 25 bilhões com o país; agora, registrou superávit de 23 bilhões nos primeiros 11 meses do ano, reflexo da queda drástica nas importações alemãs.

A indústria alemã enfrenta estagnação, perda de competitividade e cortes superiores a 10 mil empregos por mês, segundo a Destatis. Combinados a preços altos de energia e ao envelhecimento populacional, esses fatores levaram o governo a revisar para baixo a previsão de crescimento, que deve ficar abaixo de 1%.

Avanço chinês em todas as frentes

A competitividade chinesa não se restringe a produtos de ponta. A China segue dominando o mercado de bens de consumo baratos, roupas, calçados e itens vendidos por plataformas de comércio eletrônico. O volume de produtos enviados por essas plataformas subiu 56% nos primeiros dez meses do ano em comparação a 2024.

Para a Câmara de Comércio da UE, esse ritmo pode criar uma falsa sensação de segurança para Pequim, que aposta na autossuficiência enquanto aproveita sua posição dominante no comércio global.

Caminho para novas barreiras comerciais

Diante da pressão crescente, especialistas afirmam que governos podem adotar tanto tarifas antidumping quanto novas ferramentas comerciais para conter o fluxo de produtos chineses. Wendy Cutler, ex-negociadora dos EUA, prevê que a UE e outros países adotem medidas adicionais para limitar as importações da China ao longo do próximo ano.

FONTE: Valor
TEXTO: Redação
IMAGEM: glaborde7/Pixabay

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Informação

ETIAS na Europa: autorização será obrigatória para brasileiros a partir de 2026

A partir de 2026, cidadãos brasileiros que viajarem aos países do Espaço Schengen por até 90 dias precisarão solicitar o ETIAS – Sistema Europeu de Informação e Autorização de Viagem. A exigência deverá entrar em vigor no último trimestre do ano, embora o dia exato ainda não tenha sido definido. Mesmo sem a necessidade de visto, a nova autorização passará a ser indispensável para entrar em grande parte da Europa.

Entre os países que adotarão o ETIAS estão Alemanha, Espanha, França, Portugal, Itália, Suíça, Grécia, Bélgica e Polônia, entre outros integrantes do bloco europeu.

Como funcionará o processo

A solicitação será 100% online. O sistema cruzará os dados informados com bancos internacionais de segurança para agilizar o controle migratório e reduzir riscos. O viajante preencherá um formulário eletrônico com dados pessoais, informações do passaporte, itinerário e respostas a perguntas de segurança. Haverá também um pagamento eletrônico.

A autorização ficará vinculada ao passaporte, sem emissão física. A conferência ocorrerá automaticamente durante o controle de fronteira.

Para quem o ETIAS será obrigatório

Segundo especialistas, o ETIAS será exigido para viagens de curta duração — até 90 dias dentro de um período de 180 — com finalidade de turismo, negócios, trânsito ou tratamento médico. O documento não substitui vistos para estudo, trabalho, residência ou programas de intercâmbio.

Quando solicitar

Embora nenhuma ação seja necessária por enquanto, a recomendação é que os brasileiros não deixem o pedido para a última hora. Como alguns casos podem exigir análise manual, a orientação é solicitar o ETIAS com pelo menos 30 dias de antecedência da viagem.

Entre os motivos mais comuns de recusa podem estar inconsistências de dados, pendências de segurança, passaporte vencido e antecedentes criminais. Se o pedido for negado, será possível reenviar informações corrigidas ou entrar com recurso.

Preparação do setor de turismo

Empresas especializadas já se organizam para atender à nova demanda. Consultorias de vistos estão ampliando o suporte oferecido, auxiliando viajantes em todas as etapas — do preenchimento do formulário ao acompanhamento da autorização — para garantir uma viagem tranquila e dentro das novas regras europeias.

FONTE: Terra/Dino
TEXTO: Redação
IMAGEM: Freepik/Dino

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Comércio Exterior

China torna o comércio global inviável, aponta análise do Financial Times

Em uma visita recente à China continental, economistas, empresários e especialistas consultados levantaram uma mesma preocupação: o que a China pretende comprar do resto do mundo no futuro? As respostas variaram entre soja, minério de ferro, artigos de luxo e educação superior, mas nenhuma delas ofereceu uma perspectiva concreta de demanda que sustente relações comerciais equilibradas.

Muitos interlocutores admitiram que, para Pequim, a solução ideal seria permitir que empresas chinesas instalem fábricas no exterior, especialmente na Europa — um indício de que a China não busca ampliar importações, e sim fortalecer sua capacidade produtiva no próprio território.

China aposta na independência total das importações

A percepção dominante entre analistas é clara: a China não pretende depender de produtos estrangeiros. Mesmo em setores nos quais ainda é cliente, como semicondutores, software, máquinas industriais e aeronaves comerciais, o país trabalha aceleradamente para dominar toda a cadeia produtiva. A lógica é simples: importar apenas enquanto é necessário, até ter condições de produzir melhor e mais barato.

Para economistas chineses, a busca por autossuficiência se justifica pela “profunda sensação de insegurança” causada pelas restrições tecnológicas impostas pelos EUA. Embora compreensível, essa estratégia expõe um dilema: como o mundo pode continuar comerciando com a China se ela não quer comprar?

Impactos globais do modelo mercantilista chinês

A dependência de exportações para sustentar o crescimento chinês está pressionando economias desenvolvidas. Uma projeção recente do Goldman Sachs mostra que o impulso extra da economia chinesa até 2035 virá principalmente das exportações, reduzindo o espaço de outros países em mercados globais.
A Alemanha seria uma das mais prejudicadas, com queda de até 0,3 ponto percentual em seu crescimento anual.

Para além da disputa comercial, existe um problema prático: sem exportar mais, países como Europa, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos não terão como pagar pelas importações chinesas. Pequim, por sua vez, teme a desvalorização de seu gigantesco estoque de ativos em dólar.

Por que mudanças dependem da China

Soluções efetivas exigiriam que a China estimulasse seu consumo interno, enfrentasse a deflação, reduzisse subsídios bilionários à indústria e permitisse a valorização do yuan. Essas medidas também beneficiariam diretamente a população chinesa, que hoje sacrifica parte de seu padrão de vida para sustentar a competitividade do país.

Mas o novo plano quinquenal de Pequim indica outra direção: as prioridades continuam sendo manufatura e tecnologia, com o consumo apenas em terceiro plano.

Qual o caminho para a Europa?

A Europa, segundo especialistas, enfrenta duas alternativas — uma difícil e outra arriscada. A primeira é tornar-se mais competitiva, investindo em tecnologia e reduzindo custos estruturais para gerar novos valores econômicos. A segunda, considerada a “solução ruim”, é recorrer ao protecionismo para preservar sua base industrial.

Em um cenário em que a China exporta produtos mais baratos e não demonstra interesse em ampliar importações, a tendência é que países ocidentais dependam cada vez mais de seu próprio mercado interno. No limite, a adoção de barreiras comerciais pode levar a novas tensões e ao enfraquecimento ainda maior do sistema global de comércio.

No entanto, quando todas as boas alternativas se esgotam, as más acabam prevalecendo. Se a China continuar comprando apenas commodities e itens de consumo, o mundo deverá se preparar para responder da mesma forma.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Bloomberg

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Portos

Porto de Sines entra no radar de Suape para parceria estratégica transatlântica

O Complexo Industrial Portuário de Suape iniciou tratativas para uma parceria estratégica com o Porto de Sines, em Portugal. Localizado em Setúbal e reconhecido como o maior porto artificial do país, Sines possui águas profundas capazes de receber embarcações de até 350 mil toneladas. Além disso, é o porto europeu mais próximo do Nordeste brasileiro, com distância náutica inferior à de Roterdã, Antuérpia e Vigo.

Em 2024, Sines movimentou 1,9 milhão de TEUs, alcançando seu recorde histórico — desempenho bem acima dos 646.804 TEUs de Suape, que também registrou seu melhor resultado anual. O porto português figura entre os 15 maiores da União Europeia, ocupando a 14ª posição.

Sinergias logísticas e industriais
Armando Monteiro Bisneto, presidente de Suape, esteve em Lisboa para participar da 4ª edição da CONIBEN e, durante a viagem, visitou o Porto de Sines. Segundo o executivo, chamou atenção a semelhança entre os complexos: ambos integram áreas portuárias e industriais, possuem polos de energia, infraestrutura ferroviária em expansão e projetos em energias renováveis, além de manterem refinarias.

Bisneto afirmou que, ao retornar ao Brasil, terá uma reunião com os gestores portugueses para formalizar o diálogo. Para ele, Sines pode se tornar um aliado estratégico na integração logística transatlântica, ampliando a competitividade de Suape.

Concorrência regional e expansão de rotas
A movimentação de Suape ocorre em um momento em que o Porto do Pecém (CE) já avança na cooperação com Sines desde 2024. Durante o Brasil Export daquele ano, o então CEO da administração portuária portuguesa apresentou Sines como a “porta atlântica” das exportações brasileiras. Os acordos firmados com o Pecém e a CSN envolvem ligação ferroviária pela Transnordestina, operação no terminal de minérios da CSN no Ceará e a futura instalação de uma siderúrgica em território português — movimentos que devem impulsionar o fluxo de minérios e grãos do Brasil para a Europa.

Hub europeu para frutas brasileiras
Em abril de 2024, Sines firmou um protocolo com a Abrafrutas, que representa cerca de 80% das exportações brasileiras de frutas frescas. A proposta é transformar a região em um hub logístico e industrial para recebimento, processamento e distribuição de manga, melancia, uva e mamão, atendendo mercados da Península Ibérica, norte da África e outros destinos da União Europeia.

Para Suape, avançar nessa aproximação pode abrir portas para atrair cargas do Vale do São Francisco, hoje escoadas por outros portos nordestinos.

Sines como gateway europeu
A localização de Sines na Costa Atlântica reduz o tempo de travessia e torna os custos logísticos mais competitivos. Durante a Intermodal South America, em São Paulo, o porto foi novamente apresentado como gateway europeu para cargas brasileiras, reforçando sua relevância no comércio transatlântico.

CONIBEN: protagonismo pernambucano
A 4ª edição da Conferência Ibero-Brasileira de Energia acontece nesta semana, em Lisboa, reunindo lideranças do Brasil, Portugal e Espanha para discutir transição energética, descarbonização, energias renováveis, armazenamento e inovação tecnológica. A coordenação da edição de 2025 está a cargo do pernambucano Reive Barros, diretor da Acropólis Energia.

Tecnologia assistiva e inclusão no mercado de trabalho
O 2º Seminário Pernambucano de Tecnologia Assistiva discutirá soluções para ampliar a participação de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Especialistas abordarão formação profissional, práticas acessíveis e ferramentas tecnológicas que reduzem barreiras. O evento, promovido pela Proacessi Consultoria, acontece nos dias 9 e 10 de dezembro, na Uninassau – Derby.

Crescimento do mercado global da música
Segundo MIDiA Research e Mordor Intelligence, o mercado musical mundial deve alcançar US$ 110 bilhões até 2032. A expansão do setor independente, projetada para crescer 6,4% ao ano até 2030, reforça o protagonismo das chamadas “eu-quipes”, em que artistas atuam de forma mais autônoma. A produtora Thainá Pitta, com experiência em eventos como AFROPUNK e The Town, lidera o projeto Independentes, que oferece suporte técnico e direção artística a profissionais do setor, atuando entre Salvador, São Paulo e Rio.

FONTE: Folha de Pernambuco
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Folha de Pernambuco

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Exportação

Stellantis inicia exportações da picape Rampage para a Europa a partir de 2026

A Stellantis confirmou que começará a exportar a picape Rampage para a Europa em 2026, marcando um passo importante na expansão global da montadora. O modelo será o primeiro veículo da marca Ram desenvolvido e produzido fora da América do Norte, reforçando o compromisso da empresa em oferecer produtos inovadores e adaptados às exigências de diferentes mercados.

Produção brasileira e engenharia sul-americana

Fabricada no Polo Automotivo de Goiana (PE), a Rampage foi criada integralmente pela equipe de engenharia e design da Stellantis na América do Sul. O projeto envolveu mais de 800 engenheiros e técnicos, com foco em desenvolver uma picape robusta, tecnológica e versátil — características ideais para as condições da região. O resultado é um produto que evidencia a capacidade de inovação da engenharia sul-americana e posiciona o Brasil como um polo estratégico para o desenvolvimento de veículos globais.

Sucesso no mercado brasileiro

Desde seu lançamento em 2023, a Rampage rapidamente se consolidou como referência entre as picapes intermediárias premium. Com design sofisticado, desempenho de alto nível e amplo pacote tecnológico, o modelo já ultrapassou 50 mil unidades vendidas e recebeu 27 prêmios da imprensa especializada, tornando-se um dos veículos mais premiados da categoria no Brasil.

Projetada para consumidores que buscam versatilidade, conforto e potência, a Rampage combina a dirigibilidade de um SUV com a força tradicional da marca Ram, redefinindo o segmento de picapes intermediárias na América Latina.

Expansão global e reconhecimento da engenharia brasileira

Para Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul, a exportação da Rampage representa um marco histórico:

“É o reconhecimento da nossa capacidade de desenvolver e produzir veículos com padrão global de qualidade, tecnologia e design. A Rampage simboliza a força da nossa engenharia e o talento das nossas equipes.”

Matias Merino, vice-presidente de Supply Chain da Stellantis na região, destacou que o movimento reforça a competitividade da engenharia brasileira:

“A Rampage conecta inovação e desenvolvimento industrial. Ofereceremos ao público europeu uma picape premium que une performance, versatilidade e estilo de vida urbano.”

Versões e tecnologia de ponta

Na Europa, a Rampage será comercializada em duas versões: Rebel, equipada com motor 2.2 Turbodiesel de 200 cv e 45,9 kgfm, e R/T, com motor 2.0 Hurricane 4 Turbo a gasolina, de 272 cv e 40,8 kgfm.

O modelo traz ainda o pacote completo de tecnologias de assistência à condução (ADAS Nível 2), incluindo alerta de colisão com frenagem autônoma, detecção de pedestres e ciclistas, assistente de permanência em faixa, monitoramento de ponto cego e faróis automáticos.

São sete airbags e recursos de conforto como partida remota, retrovisores elétricos rebatíveis e sensores de chuva e luminosidade, consolidando o padrão de segurança e sofisticação da marca.

FONTE: Stellantis
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Stellantis

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Comércio Exterior

O futuro do trigo argentino se joga no Brasil, não na Europa

Sol Arcidiácono afirmou que o acordo com a União Europeia teria um efeito limitado e que a prioridade é fortalecer o vínculo comercial regional.

Dos extensos campos da província de Buenos Aires até os silos de Rosario, o trigo define parte do pulso agrícola e econômico da América do Sul. Esse grão, básico na alimentação humana, não apenas sustenta a dieta diária, como também atua como eixo da industrialização e do comércio regional. Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai participam de um mercado que conecta a produção local aos fluxos globais de trigo e farinha, dependentes tanto do clima quanto da logística, das políticas e dos preços internacionais.

A head de Grãos da Hedgepoint há quase dez anos e diretora para a América Latina, Sol Arcidiácono, conversou com serindustria.com.ar sobre esse mercado em que atua há quase 20 anos. De Rosario, analisou como a produção e a exportação de trigo na América do Sul não só impactam a economia regional, mas também condicionam a dinâmica da moagem, da industrialização e do consumo de alimentos básicos.
Num cenário marcado pela mudança climática, pela volatilidade internacional e pelas regulações locais, sua perspectiva permite entender por que o trigo continua sendo um pilar estratégico da agricultura sul-americana e como se projeta seu futuro nos próximos anos.

“A produção de trigo nas Américas está distribuída nos polos. A principal oferta está no Polo Norte com Canadá e Estados Unidos, que juntos exportam entre 50 e 60 milhões de toneladas”, explicou Arcidiácono.

A Argentina tem um papel central no hemisfério sul, com um saldo exportável entre 8 e 14 milhões de toneladas, dependendo do ano. Paraguai e Uruguai produzem cerca de 1 a 1,5 milhão de toneladas cada um e exportam aproximadamente 1 milhão de toneladas combinadas em bons ciclos. “No Uruguai, cresceram muitos outros cultivos de inverno para favorecer a rotação com a soja e a área de trigo diminuiu um pouco. Cresceu bastante a canola, oleaginosa que acompanhou toda a revolução dos biocombustíveis que o Uruguai tem, já que exporta biocombustíveis e óleos de canola para a Europa”, comentou a especialista.

Por sua vez, o Brasil, principal importador regional, registrou avanços significativos na produção. “Passou de produzir 5 ou 6 milhões de toneladas para ter um ano acima de 9 milhões de toneladas. Foi um ano excepcional. Custa muito ficar acima de 6-7 milhões porque o risco climático é maior, há mais desafios, geadas precoces, o ciclo é mais curto e a área mais concentrada. Não é como na Argentina, onde a produção é mais distribuída e, se uma região tem problema, outra compensa.”

Para a safra 25/26, os preços internacionais baixos não geram incentivos para ampliar a área plantada: “Quem planta trigo neste ciclo é o triticultor tradicional”, destacou Arcidiácono, acrescentando: “Vemos uma redução de área nesta safra, considerando essas circunstâncias, preços internacionais bem mais baixos e o risco produtivo”.

Mudança climática e volatilidade nos mercados
A mudança climática impacta de forma significativa a agricultura, especialmente em cultivos mais vulneráveis, confirmou Arcidiácono. “Vemos isso em cultivos tropicais, principalmente ligados ao excesso de chuvas, às inundações. Observamos muito mais volatilidade em produtos como óleo de palma e café. De fato, na Hedgepoint desenvolvemos um derivativo para cobertura de risco climático.”

A especialista explicou que a distribuição global do trigo é mais pulverizada do que a de outros grãos. “A oferta de trigo está mais distribuída. No hemisfério norte há maior concentração, 80% do trigo é produzido e exportado de lá. Depois vem o hemisfério sul, com Argentina e Austrália principalmente.”

Sobre o ciclo 25/26, destacou que mostra rendimentos superiores à média em vários países. “Tivemos uma colheita acima do projetado na Rússia. Uma recuperação muito grande na Europa, somando 30 milhões de toneladas no bloco. O Canadá teve uma colheita quase recorde. Os EUA recuperaram bastante na primavera, com oferta e estoques confortáveis. No hemisfério sul, a Austrália espera safra recorde acima de 34 milhões de toneladas. A Argentina, apesar dos desafios, de chuvas excessivas e inundações pontuais, caminha para uma grande colheita.”

Políticas governamentais e competitividade da indústria de moagem
As políticas e regulações impactam diretamente a competitividade da indústria de moagem na América do Sul. “Em geral, quando começamos a industrializar surgem mais barreiras, tarifas, algo que está na moda com a bandeira de Trump. Sem dúvida, as políticas que acabam sendo barreiras definem a competitividade”, declarou Arcidiácono.

Na Argentina, apesar de uma indústria avançada, os impostos internos limitam a competitividade frente a outros países. “De toda forma, a indústria argentina não é competitiva em geral comparada a outras, mas mais pelo peso da carga tributária doméstica do que por tarifas externas.”

Sobre a capacidade ociosa de moagem na Argentina, estimada em 50%, para Arcidiácono o índice não é tão alto quanto parece. “A moagem é uma indústria tradicional que teve papel social no interior, com capacidade instalada importante. Nos últimos anos, trabalhou-se em otimizar custos e incorporar tecnologia.”

Ela destacou que a tecnologia não se limita às máquinas, mas também a processos e questões sanitárias. “O desenvolvimento tecnológico é 360° dentro do moinho, sempre pensando na oportunidade e no desafio de sair do commodity.”

A diversificação também faz parte da estratégia. “Um desafio da moagem foi acompanhar as novas tendências de consumo, incluir outros produtos além do trigo, como farinhas de grão-de-bico, milho, produtos sem glúten e ampliar sua oferta.”

Quanto à logística do trigo, Arcidiácono afirmou que a Argentina consegue abastecer o mercado interno e exportar. “O abastecimento dos padeiros está muito vinculado à concentração populacional. O maior consumo está na província de Buenos Aires, que também é o maior produtor. A logística é muito eficiente.”

Comparado a outros cultivos, o trigo não enfrenta gargalos logísticos sérios. “O desafio logístico não é tão notório porque o trigo não compete por espaço e rotas com milho e soja, que saem juntos em março e abril. Para o trigo, logística não é problema. O mais complicado é a estrutura financeira, por causa das altas taxas e da instabilidade.”

No caso do Brasil, a dinâmica é diferente: o país mói um terço de trigo próprio e importa dois terços. “Precisa da importação argentina. Embora haja um pico de pressão na entrada da safra, o Brasil compra durante todo o ano, com maior concentração entre dezembro e março.”

Oportunidades e exportações
Na exportação de farinha de trigo há oportunidades em nichos específicos. Arcidiácono citou a Turquia como principal exportador mundial, que encontrou um mercado de especialidade em farinhas para massas, sobretudo com o trigo durum.

Por isso, ela considera que existem oportunidades para a Argentina, mas não como commodity, e sim como produto diferenciado. Contudo, o país precisaria investir mais em fertilização para garantir qualidade estável. “Com esse desenvolvimento, poderíamos pensar em uma oportunidade de exportação de nicho, agregando valor e conseguindo preço diferenciado.”

Ao analisar o cenário global, o conflito entre Rússia e Ucrânia gerou volatilidade nos preços. O auge foi em 2022, com o início da guerra e incertezas sobre o abastecimento. Antes, a Ucrânia produzia até 30 milhões de toneladas. “O conflito virou crônico e está mais concentrado em commodities energéticas, mas o trigo continua no radar.”

Arcidiácono também destacou o impacto da política monetária global. Com expectativa de queda das taxas pelo FED, pressionado por Donald Trump, e um dólar enfraquecido, o trigo americano ganha competitividade. “Taxas mais baixas acelerariam a economia, e o consumo de trigo está diretamente ligado ao consumo humano. Não gera volatilidade como fatores geopolíticos, mas a política econômica é relevante para os preços do trigo entrando em 2026.”

Estratégias regionais e papel da Argentina
Hoje, a distribuição mundial do trigo não parece ser um problema. Ainda assim, países sul-americanos poderiam fortalecer sua posição com políticas mais estáveis. “Para a Argentina, é muito saudável alcançar uma colheita de 20 milhões de toneladas ou mais. Isso é positivo para os cultivos, para a sazonalidade da economia e também para a logística, porque março, abril e maio concentram a saída dos cultivos de verão”, afirmou.

Ela lembrou que em outros períodos o país produziu entre 10 e 12 milhões de toneladas, praticamente a metade dos últimos ciclos. Atingir 20 milhões ou mais “é importante, e o país tem potencial para ainda mais”. Essa possibilidade, no entanto, não se replica na mesma escala em Uruguai, Brasil e Paraguai.

Mas alertou que a competitividade argentina continua limitada pelas retenções. “Embora tenham caído muito, já chegaram a ser o dobro. Ainda assim, se perde competitividade porque entramos no mercado mundial com regras que uruguaios e paraguaios não têm. Vamos mais pesados ao mundo.”

O futuro do trigo argentino se joga no Brasil?
Sobre o acordo União Europeia–MERCOSUL, Arcidiácono é cautelosa. “Tenho dúvidas de que seja aprovado, há bastante pressão. Precisa da aprovação de todos os países-membros. Seria benéfico para a agricultura argentina. Tomara que avance, porque seria muito bom.”

No caso do trigo, porém, o impacto seria limitado, já que a Europa também é produtora e exportadora. No curto prazo, poderia haver mais oportunidades em farinha, soja e milho. “Europa compra soja dos EUA; poderia abrir-se espaço para a Argentina, inclusive em biocombustíveis.”

Para ela, o maior potencial de crescimento não está no trigo, mas na soja e no biodiesel. O fator mais determinante para o trigo é o arancel externo comum do MERCOSUL, hoje em 10,5%, que o Brasil administra. “Se será zero, um milhão de toneladas ou outro valor, é o que define quanto trigo pode importar sem pagar tarifa.”

Assim, manter cooperação com o Brasil é essencial. “Mais da metade do trigo que exportamos vai para lá. Existe um codo a codo importante. O Brasil precisa de uma Argentina competitiva.”

Mas, quando a Argentina perde competitividade, o mercado brasileiro reage. “Quando não temos trigo suficiente ou não somos competitivos por câmbio ou restrições, o Brasil se incomoda e busca outros fornecedores. Já chegou a importar trigo da Rússia, o que é um absurdo, estando nós ao lado.”

A chave, portanto, está em garantir estabilidade produtiva. “É fundamental que nunca mais se restrinjam exportações nem haja travas. Isso consolida o vínculo de abastecimento seguro que o Brasil sente da Argentina. Isso é mais importante para o trigo do que qualquer outra coisa.”

Por fim, Arcidiácono refletiu sobre o valor cultural do trigo e da indústria. “A moagem argentina ainda tem trabalho a fazer. Existe muita propaganda contra alimentos à base de trigo e pão. Esse é um desafio maior para a panificação do que para a moagem, mas ambos precisam caminhar juntos.”

Apesar disso, mostrou-se otimista quanto ao futuro. “Há muito espaço para crescer no consumo per capita de trigo no mundo. Na Argentina, é alto pela nossa cultura de imigrantes e pelo abastecimento garantido, com moinhos em todo o país. Mas há um trabalho cultural de conquista que o trigo e o pão precisam fazer no mundo todo”, concluiu.

FONTE: Ser Industria
IMAGEM: Reprodução/Ser Industria

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