Internacional

MERCOSUL busca modernização e aguarda definições da União Europeia

Com as Cataratas do Iguaçu como cenário, os chefes de Estado dos países membros do MERCOSUL se reuniram em 20 de dezembro de 2025, em Foz do Iguaçu (Brasil), para a LXVII Cúpula de Presidentes do bloco. O encontro ocorreu em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, mudanças nas cadeias globais de suprimentos e disputa crescente por investimentos estratégicos.

Participaram da reunião os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai), Yamandú Orsi (Uruguai), além do chanceler Fernando Hugo Aramayo Carrasco, representando a Bolívia. O objetivo central foi demonstrar coesão política e projetar uma agenda de futuro para a integração sul-americana.

Bloco defende previsibilidade com mais flexibilidade comercial

As delegações classificaram o diálogo como positivo e construtivo. Na avaliação dos mandatários, o MERCOSUL precisa combinar previsibilidade institucional com maior flexibilidade comercial para ampliar sua inserção internacional, especialmente diante do avanço desigual dos grandes acordos comerciais globais.

A presença do presidente do Panamá, José Raúl Mulino, na condição de Estado Associado, reforçou a estratégia de aproximação com a América Central e o Caribe, regiões que ganham relevância nas rotas logísticas e comerciais do continente.

Revisão tarifária e fortalecimento industrial

Entre os principais temas debatidos esteve a revisão do Arancel Externo Comum, apontado como essencial para elevar a competitividade do MERCOSUL e reduzir distorções internas. Os presidentes destacaram a necessidade de avaliar sua dispersão e coerência diante das transformações do comércio internacional.

No campo industrial, ganhou destaque o avanço dos trabalhos do Comitê Automotivo do MERCOSUL, que busca harmonizar regras comerciais e consolidar um mercado automotivo regional mais integrado, capaz de atrair investimentos de forma equilibrada entre os países.

Também foi celebrada a conclusão dos termos de referência para um estudo regional do setor sucroalcooleiro, com foco no fortalecimento das cadeias produtivas, aumento da competitividade e ampliação do acesso a mercados externos.

Integração regulatória e transformação digital

A cúpula sinalizou avanços na modernização regulatória, com iniciativas voltadas à harmonização técnica e à redução de barreiras não tarifárias. Entre os temas discutidos estiveram o etiquetamento de alimentos embalados e o início dos debates para unificar o rotulagem nutricional frontal no âmbito regional.

Os líderes também destacaram o progresso do Grupo Ad Hoc sobre Assuntos Regulatórios, responsável pela elaboração da Guia de Análise de Impacto Regulatório (AIR) do MERCOSUL, ferramenta que busca aprimorar a qualidade normativa, ampliar a transparência e facilitar a integração econômica.

Na área digital, foi reafirmada a importância estratégica da agenda de transformação digital do MERCOSUL, com destaque para a plena operação do Certificado de Origem Digital (COD) no comércio intrabloco, considerado um marco na facilitação do comércio entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Energia, sustentabilidade e logística regional

A integração energética teve papel central nos debates. Os presidentes celebraram os avanços rumo à criação de um mercado regional de gás natural e ao fortalecimento da cooperação em biocombustíveis, energias renováveis e minerais estratégicos, em linha com a transição para uma economia de baixo carbono.

No campo logístico, houve consenso sobre a necessidade de desenvolver corredores bioceânicos e soluções intermodais capazes de reduzir custos de transporte e atrair investimentos.

A Hidrovia Paraguai–Paraná foi destacada como eixo fundamental de conectividade regional. Os países reafirmaram o compromisso com o funcionamento pleno dos órgãos previstos no Convênio de Santa Cruz de la Sierra, visando garantir navegação segura, transporte eficiente da produção e acesso competitivo aos mercados internacionais.

Acordos comerciais e relação com a União Europeia

No plano externo, os líderes comemoraram a assinatura do Acordo de Livre Comércio entre o MERCOSUL e a AELC, além dos avanços nas negociações com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia e Japão, reforçando o interesse em ampliar laços com economias asiáticas emergentes.

Por outro lado, manifestaram frustração com a falta de consenso político que impediu a assinatura do Acordo MERCOSUL–União Europeia, após 26 anos de negociações. Ainda assim, demonstraram confiança na retomada do processo no futuro.

Compromisso com o multilateralismo

O encontro foi encerrado com a reafirmação do compromisso do MERCOSUL com o multilateralismo, o comércio baseado em regras claras e a ambição de consolidar o bloco como um ator global moderno, competitivo e relevante.

FONTE: Ser Industria
TEXTO: Redação
IMAGEM: Ricardo Stuckert / PR

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Agricultura

Protesto de agricultores em Bruxelas contra acordo Mercosul–União Europeia paralisa a cidade.

Tratores bloqueiam acessos e ampliam tensão na capital belga

Milhares de agricultores de diversos países europeus tomaram as ruas de Bruxelas nesta quinta-feira (18/12) para protestar contra a iminente assinatura do acordo Mercosul–União Europeia, prevista para o próximo sábado, em Foz do Iguaçu. Desde a noite de quarta-feira, manifestantes começaram a chegar à capital da Bélgica e, nas primeiras horas do dia, bloquearam rodovias de acesso com cerca de mil tratores, provocando congestionamentos generalizados.

Confrontos com a polícia e atos de vandalismo

A mobilização evoluiu para confrontos diante do Parlamento Europeu. Houve incêndio de pneus, lançamento de batatas e ovos contra a polícia de choque e uso de gás lacrimogêneo e canhões de água pelas forças de segurança. Fogos de artifício e atos de vandalismo marcaram o protesto, incluindo a colocação de um caixão de madeira com a palavra “agricultura” em uma estátua.

Temor de concorrência desleal no mercado europeu

Os agricultores afirmam que o pacto pode inundar o mercado europeu com produtos latino-americanos que não estariam sujeitos às mesmas regras rigorosas da União Europeia, o que reduziria preços e pressionaria produtores locais. Além do acordo comercial, o grupo também protesta contra planos da UE para reformar subsídios agrícolas, com receio de cortes.

Conselho Europeu atrasa início e recebe representantes

A capital belga sedia a reunião do Conselho Europeu, presidido por António Costa, ex-primeiro-ministro de Portugal. Embora o tema central seja o apoio financeiro à Ucrânia, as divergências sobre o acordo comercial levaram o assunto à mesa dos líderes dos 27 países do bloco. O início do encontro atrasou mais de uma hora devido aos protestos. Costa e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, receberam representantes dos agricultores para ouvir reivindicações.

Cláusulas de salvaguarda entram no debate

A expectativa de assinatura do tratado — que criaria a maior zona de livre comércio do mundo — enfrenta resistência de França e Itália. Na véspera, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia concordaram em incluir cláusulas de salvaguarda para proteger agricultores europeus de impactos negativos causados por um aumento expressivo das importações latino-americanas.

Esses dispositivos autorizam investigações quando produtos agrícolas sensíveis entrarem em volumes elevados ou a preços significativamente inferiores aos europeus. Também permitem apuração de mercadorias que não cumpram normas da UE, como bem-estar animal, proteção trabalhista e uso de pesticidas. Em caso de prejuízo comprovado, benefícios comerciais podem ser suspensos.

França mantém oposição ao tratado

Mesmo com as alterações, o presidente francês Emmanuel Macron reiterou a rejeição ao acordo. “A posição da França é clara desde o início: o acordo é insuficiente e não deve ser assinado”, afirmou ao chegar à cúpula.

Impasse político e pressão por decisão

Para que a presidente da Comissão Europeia viaje ao Brasil no sábado e assine o acordo após 25 anos de negociações, é necessária uma maioria qualificada entre os países do bloco. O tratado prevê facilitar a entrada na Europa de carne, açúcar, arroz, mel e soja sul-americanos, enquanto amplia exportações europeias de automóveis, máquinas, vinhos e licores.

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que um novo adiamento pode inviabilizar o acordo durante seu mandato. Em seguida, afirmou ter conversado com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e que a discussão sobre um possível adiamento pode ser levada ao Mercosul.

Fonte: Reuters
Texto: Redação

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Comércio Internacional

Acordo Mercosul–União Europeia entra em fase crítica e gera apreensão no governo brasileiro

O governo brasileiro acompanha com preocupação os sinais de recuo da União Europeia na reta final para a assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, prevista para o próximo sábado (20/12), em Foz do Iguaçu, durante a cúpula de chefes de Estado do bloco sul-americano.

A semana é considerada determinante porque o tratado precisa ser aprovado em duas instâncias europeias: o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu. As votações estão programadas para ocorrer entre terça-feira (16/12) e quinta-feira (18/12).

França pede adiamento e acende alerta nas negociações

No domingo (14/12), a França solicitou oficialmente o adiamento das votações. O gabinete do primeiro-ministro francês, Sebastien Lecornu, afirmou que “não estão dadas as condições” para que os Estados-membros deliberem neste momento.

Segundo o governo francês, o pedido visa ganhar tempo para negociar medidas de proteção à agricultura europeia, setor que teme impactos negativos com a abertura comercial ao Mercosul.

Risco de encerramento definitivo das negociações

Fontes envolvidas nas tratativas afirmaram à BBC News Brasil que, caso a União Europeia não aprove o acordo agora, as negociações podem ser encerradas de forma definitiva. O tratado vem sendo discutido há 25 anos.

Na avaliação de interlocutores do governo, um fracasso neste momento reduziria a quase zero a possibilidade de retomada futura das negociações. Diante desse cenário, o Brasil, maior economia do Mercosul, tende a intensificar a busca por parcerias comerciais na Ásia.

O que prevê o acordo Mercosul–União Europeia

As negociações tiveram início em 1999 e preveem a criação de uma ampla área de livre-comércio, com redução mútua de tarifas de importação e exportação, ampliando o fluxo comercial entre os blocos.

Se entrar em vigor, o acordo formará uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo, reunindo cerca de 718 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. Em 2024, a fase negocial foi concluída, restando agora as etapas formais de aprovação e assinatura.

Parlamento deve aprovar, mas Conselho é o principal obstáculo

Diplomatas europeus ouvidos em Brasília indicam que a aprovação no Parlamento Europeu não deve enfrentar grandes dificuldades, já que exige apenas maioria simples.

A maior incerteza está no Conselho Europeu, onde é necessária maioria qualificada: apoio de ao menos 15 dos 27 países-membros, representando 65% da população da União Europeia, estimada atualmente em 451 milhões de habitantes.

Apoios e resistências dentro da Europa

No Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, há consenso favorável à assinatura do acordo. Na Europa, o cenário é mais dividido.

Países como Alemanha, Espanha, Portugal e República Checa apoiam o tratado. Já França e Polônia lideram a oposição, com manifestações contrárias também vindas de Bélgica e Áustria.

A principal resistência francesa está ligada ao temor de concorrência com produtos agropecuários sul-americanos, que poderiam afetar os agricultores locais.

Salvaguardas agrícolas tentam destravar aprovação

Para reduzir a resistência, negociadores europeus elaboraram salvaguardas agrícolas, aprovadas nesta semana pelo Comitê de Comércio Internacional da União Europeia. As regras permitem suspender benefícios tarifários ao Mercosul caso as exportações do bloco cresçam mais de 5% em relação ao ano anterior.

Essas salvaguardas ainda precisam ser votadas pelo Parlamento Europeu na próxima semana.

Itália pode ser decisiva para o desfecho

Diplomatas avaliam que a Itália será o fiel da balança. Com cerca de 59 milhões de habitantes, o país tem peso suficiente para definir o resultado no Conselho.

Caso Itália, França e Polônia votem contra, os três países representariam aproximadamente 36% da população do bloco, percentual suficiente para inviabilizar a aprovação. Apesar de um diplomata italiano ter sinalizado apoio ao acordo em reunião recente, o clima entre negociadores segue cauteloso.

Governo brasileiro vê incoerência europeia

Auxiliares do Palácio do Planalto avaliam que um eventual recuo europeu demonstraria fragilidade política do bloco. Na visão do governo, o acordo fortaleceria ambos os lados em um contexto global de enfraquecimento do multilateralismo.

A avaliação interna também aponta para um tratamento desigual: enquanto a União Europeia aceitou um acordo considerado desfavorável com os Estados Unidos, após imposição de tarifas por Washington, demonstra resistência em firmar um tratado mais equilibrado com o Mercosul.

Ásia surge como alternativa estratégica

Diante da possibilidade de fracasso do acordo, o governo brasileiro considera ampliar parcerias comerciais com países asiáticos. Dados oficiais mostram que, em 2025, a China importou US$ 94 bilhões em produtos brasileiros, mais que o dobro dos US$ 45 bilhões adquiridos pela União Europeia no mesmo período.

FONTE: BBC News Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/AFP

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