Tecnologia

Robôs humanoides ganham espaço nas montadoras em busca de mais eficiência

As montadoras de veículos estão acelerando os investimentos em robôs humanoides como parte de uma nova etapa de automação industrial. A expectativa é que máquinas equipadas com inteligência artificial (IA) possam executar atividades hoje realizadas por trabalhadores, especialmente tarefas repetitivas de movimentação, separação e organização de peças.

Na fábrica da BMW em Spartanburg, na Carolina do Sul, um humanoide já é utilizado para retirar componentes de caixas, colocá-los em carrinhos e transportar os materiais pela unidade. Os movimentos ainda são lentos, mas a empresa avalia que a tecnologia avança rapidamente.

“Hoje eles ainda são mais lentos que os humanos”, afirmou Ulrich Wieland, vice-presidente da BMW responsável pela logística da fábrica. Para ele, porém, a evolução dos equipamentos tem sido acelerada.

Nova geração de automação chega às fábricas

As fábricas de automóveis utilizam robôs industriais há décadas. Até agora, essas máquinas eram predominantemente equipamentos fixos, desenvolvidos para funções específicas, como soldagem de carrocerias e aplicação de adesivos.

Os robôs humanoides representam uma proposta diferente. Com braços, mãos e pernas semelhantes às humanas, eles podem circular pelos ambientes e, em princípio, executar diferentes atividades sem que as fábricas precisem passar por grandes adaptações.

A integração com inteligência artificial também amplia as possibilidades. A expectativa é que esses equipamentos possam interpretar comandos, lidar com determinadas situações inesperadas e se adaptar a diferentes tarefas.

Para defensores da tecnologia, a automação pode elevar a produtividade industrial, ajudar a enfrentar a falta de trabalhadores qualificados e melhorar a competitividade das montadoras ocidentais diante das fabricantes chinesas.

Automação também gera preocupação sobre empregos

A expansão dos humanoides, porém, levanta dúvidas sobre o futuro do trabalho na indústria automobilística.

Susan Helper, professora de economia da Case Western Reserve University, afirma que a automação tende a reduzir a quantidade de mão de obra necessária para produzir cada unidade. O resultado pode ser positivo para a produtividade, mas depende de como as empresas utilizarão o tempo liberado pela tecnologia.

Uma das preocupações é que os trabalhadores deixem de realizar atividades mais interessantes e passem a ficar concentrados apenas em funções repetitivas, enquanto as empresas reduzem seus quadros e custos trabalhistas.

O debate já chegou aos sindicatos. Trabalhadores da Hyundai na Coreia do Sul fizeram uma paralisação no mês passado para exigir participação nas decisões relacionadas ao uso de robôs.

Shawn Fain, presidente do United Auto Workers (UAW), também classificou a combinação entre IA e robótica como uma ameaça significativa aos trabalhadores e defendeu que os seres humanos mantenham controle sobre o desenvolvimento tecnológico.

China tem vantagem no desenvolvimento da robótica

A indústria chinesa parte de uma posição considerada favorável na corrida pelos robôs humanoides. O governo transformou a robótica em uma área prioritária, enquanto os fabricantes contam com uma ampla cadeia de fornecedores de componentes.

Entre eles estão atuadores e sensores, fundamentais para os movimentos e a percepção dos robôs.

Ben Armstrong, diretor-executivo do Centro de Desempenho Industrial do MIT, afirma que o custo de implementação de robôs na China é significativamente menor do que nos Estados Unidos, em parte devido à concentração de fornecedores de equipamentos e ferramentas.

Em julho, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos proibiu a importação de humanoides e outros robôs avançados chineses, em uma medida relacionada à proteção do desenvolvimento tecnológico norte-americano.

Hyundai amplia uso de robôs nas fábricas

Entre as montadoras que mais investem em automação industrial, a Hyundai se destaca pela variedade de tecnologias empregadas em suas fábricas.

Na unidade da empresa na Geórgia, carrinhos autônomos assumiram grande parte do transporte de materiais que antes dependia de empilhadeiras.

A fábrica também utiliza robôs quadrúpedes para identificar possíveis problemas na parte inferior das carrocerias. Outros equipamentos, equipados com rodas, passam por baixo dos veículos elétricos Ioniq 5 e Ioniq 9, levantam os automóveis e os levam até as estações de teste.

A Hyundai afirma que esses sistemas eliminam alguns dos problemas associados ao transporte realizado por funcionários, como colisões acidentais com estruturas da fábrica.

Boston Dynamics entra na estratégia da Hyundai

A Hyundai adquiriu a Boston Dynamics em 2021, ampliando sua participação no desenvolvimento de robôs avançados.

A estratégia prevê inicialmente o uso de humanoides para organizar componentes em uma sequência específica, facilitando a instalação das peças por trabalhadores.

A tarefa é semelhante àquela demonstrada pela BMW com um robô produzido pela Figure AI.

A Mercedes-Benz também testa humanoides desenvolvidos pela Apptronik, empresa sediada em Austin, nos Estados Unidos. O objetivo inicial é utilizar os equipamentos para movimentar e separar materiais.

As montadoras afirmam que enfrentam dificuldades para contratar e manter funcionários em atividades consideradas básicas e repetitivas.

Empresas prometem novas funções para trabalhadores

Para executivos da Hyundai, a adoção de robôs pode criar oportunidades profissionais ligadas à manutenção e operação dessas máquinas.

A empresa desenvolveu um programa de aprendizagem voltado à manutenção de robôs. A expectativa é formar profissionais para funções técnicas que podem acompanhar a expansão da automação nas fábricas.

Representantes dos trabalhadores, entretanto, demonstram maior cautela. A principal preocupação é que os novos sistemas sejam utilizados principalmente para substituir funcionários, em vez de complementar suas atividades.

Treinamento pode ser decisivo para aumentar produtividade

Pesquisas do MIT indicam que a adoção de novas tecnologias tende a apresentar melhores resultados quando ocorre paralelamente ao desenvolvimento das competências dos trabalhadores.

Segundo Ben Armstrong, empresas que combinaram automação e treinamento profissional registraram os maiores ganhos de produtividade.

O pesquisador também questiona se os humanoides são sempre a solução mais eficiente para tarefas simples. Em determinadas situações, tecnologias mais convencionais podem realizar o mesmo trabalho com menor custo.

A avaliação coloca em discussão um dos principais desafios da nova onda de robótica: justificar economicamente o uso de máquinas complexas em atividades que poderiam ser automatizadas de maneira mais simples.

Tesla aposta no Optimus como projeto estratégico

A Tesla, comandada por Elon Musk, é uma das empresas que mais apostam no potencial dos robôs humanoides.

A montadora desenvolveu o Optimus, equipamento que pretende utilizar em suas próprias fábricas e, posteriormente, comercializar para empresas e consumidores.

Unidades do Optimus já foram utilizadas em atividades no Tesla Diner, em Los Angeles, e em eventos da companhia. Musk também prevê aplicações mais amplas para o robô no futuro.

A Tesla chegou a interromper a produção dos Model S e Model X em uma fábrica na Califórnia para abrir espaço destinado à fabricação do Optimus.

Apesar do entusiasmo, Musk reconhece que ainda existem obstáculos tecnológicos importantes. Um dos principais é reproduzir a precisão, sensibilidade e destreza das mãos humanas, consideradas particularmente complexas pela comunidade de robótica.

GM adota caminho diferente

A General Motors não aderiu integralmente ao modelo dos humanoides. A empresa trabalha com os chamados cobots, ou robôs colaborativos.

Os equipamentos têm braços e mãos e são mais flexíveis do que os robôs industriais tradicionais, mas não possuem pernas.

Para Sterling Anderson, diretor de produtos da GM, a ausência de pernas pode ser uma vantagem, já que rodas podem ser mais eficientes para determinadas atividades dentro de uma fábrica.

A estratégia da companhia é utilizar a robótica para auxiliar trabalhadores, tornando suas tarefas mais simples e contribuindo para melhorar a eficiência da produção, em vez de necessariamente substituir as pessoas.

FONTE: Folha de São Paulo
TEXTO: Redação
IMAGEM: Will Crooks/NYT

Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook