Exportação

Exportação de açúcar da Índia deve permanecer restrita por três safras e impulsionar preços globais

A Índia deverá continuar com um volume limitado de exportação de açúcar pelos próximos três ciclos produtivos, cenário que tende a reduzir a oferta global e manter os preços internacionais elevados. A combinação entre os efeitos do El Niño sobre a produção de cana-de-açúcar e o avanço da demanda por etanol está diminuindo o excedente disponível para o mercado externo.

Até poucos anos atrás, o país ocupava a posição de segundo maior exportador mundial de açúcar. Agora, a menor disponibilidade do produto deve afetar principalmente compradores da Ásia, África e Oriente Médio, além de sustentar as cotações nas bolsas de Londres e Nova York.

Governo deve manter controle rigoroso sobre as exportações

O açúcar possui forte peso econômico e social na Índia, maior consumidor mundial da commodity. Por isso, o governo tem priorizado o abastecimento interno diante das incertezas na produção.

Segundo fontes ligadas ao setor e ao governo, a estratégia não será anunciar uma proibição formal de longo prazo, mas restringir as autorizações de exportação a cada safra, conforme a disponibilidade do produto. Atualmente, as usinas dependem de aprovação oficial para realizar embarques ao exterior.

No mês passado, integrantes do governo do primeiro-ministro Narendra Modi orientaram o setor sucroenergético a concentrar esforços no atendimento do mercado doméstico e evitar pressões por novas liberações para exportação.

Na safra atual, a Índia exportou cerca de 800 mil toneladas de açúcar antes de suspender os embarques até 30 de setembro, data que marca o encerramento do ciclo produtivo. Nas cinco safras anteriores, encerradas em 2022/23, o país havia registrado uma média anual de 6,8 milhões de toneladas exportadas, equivalente a aproximadamente 10% do comércio mundial.

El Niño ameaça reduzir ainda mais a produção de cana

As perspectivas para a próxima safra preocupam produtores e analistas. A expectativa é que o El Niño provoque a monção mais fraca dos últimos 11 anos na Índia, reduzindo o volume de chuvas necessário para o desenvolvimento da lavoura.

Além disso, as precipitações registradas em junho ficaram mais de 40% abaixo da média histórica, levando muitos agricultores a adiar o plantio da cana.

No estado de Maharashtra, um dos principais polos produtores do país, parte dos agricultores já opta por substituir a cana por culturas menos dependentes de água, como soja, feijão-guandu e outras leguminosas. Viveiristas também relatam queda significativa na procura por mudas de cana.

Especialistas avaliam que essa mudança poderá reduzir a área cultivada e comprometer a oferta de açúcar nas próximas safras.

Produção deve ficar abaixo do consumo interno

As projeções do setor indicam que a produção indiana deverá atingir cerca de 27,9 milhões de toneladas nesta safra, abaixo da demanda doméstica estimada em aproximadamente 28,5 milhões de toneladas.

Com isso, os estoques disponíveis nas usinas no início da próxima temporada, em 1º de outubro, podem cair para cerca de 3,5 milhões de toneladas, o menor nível registrado em mais de três décadas.

Para Rahil Shaikh, diretor da MEIR Commodities India, caso as chuvas permaneçam abaixo do esperado, a Índia poderá ficar fora do mercado exportador por pelo menos três anos. O executivo ressalta que o Brasil e a Tailândia, importantes fornecedores globais, também enfrentam riscos climáticos associados ao El Niño.

Expansão do etanol reduz disponibilidade para exportação

Outro fator que pressiona a oferta de açúcar é a política do governo indiano de ampliar a produção de etanol, como forma de reduzir a dependência das importações de petróleo.

As estimativas do setor apontam que a demanda pelo biocombustível poderá saltar dos atuais 12 a 13 bilhões de litros para aproximadamente 30 bilhões de litros até 2039-40, impulsionada pelo aumento da mistura de etanol à gasolina e pela expansão dos veículos flex-fuel.

Recentemente, a montadora Maruti Suzuki lançou o primeiro automóvel flex-fuel da Índia, enquanto a Hero MotoCorp apresentou uma motocicleta equipada com a mesma tecnologia. Paralelamente, o governo eliminou impostos sobre combustíveis com maior teor de etanol e passou a incentivar o uso de misturas com até 85% do biocombustível.

Na avaliação de representantes da indústria sucroenergética, as futuras políticas públicas deverão priorizar cada vez mais a produção de etanol em detrimento das exportações de açúcar.

Mercado teme até necessidade de importações no futuro

Caso os impactos climáticos se intensifiquem e a área cultivada continue diminuindo, a Índia poderá enfrentar uma situação inédita nos próximos anos: deixar de ser exportadora para se tornar importadora de açúcar.

Analistas do setor alertam que uma combinação entre um El Niño mais severo e o crescimento acelerado da demanda por etanol poderá praticamente eliminar o excedente exportável, tornando necessária a importação da commodity para atender o mercado interno, especialmente a partir da safra 2027/28.

FONTE: Forbes
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Amit Dave

Deixe um comentário

Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook