Agronegócio

Carne livre de desmatamento busca espaço na China sem sobretaxa de importação

Programa quer ampliar exportações de carne bovina certificada

Criado em outubro de 2025, o Beef on Track foi desenvolvido para atender à crescente demanda da China por carne bovina livre de desmatamento. Agora, a iniciativa tenta viabilizar a exportação desse produto fora da cota de salvaguarda adotada pelo governo chinês.

Em 2026, a China passou a aplicar uma sobretaxa de 55% sobre as importações brasileiras de carne bovina que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas anuais. Até a última terça-feira (21), cerca de 80% desse limite já havia sido utilizado.

Certificação pode diferenciar produto brasileiro

A proposta está sendo discutida com autoridades chinesas, mas ainda enfrenta resistência. Para o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), responsável pelo programa, a carne certificada não deve ser tratada como uma commodity tradicional, já que oferece garantias de rastreabilidade, origem e conformidade ambiental.

Segundo Louise Nakagawa, coordenadora de projetos do Imaflora, a certificação atende aos compromissos de sustentabilidade assumidos pela China e poderia abrir uma alternativa para exportações sem incidência da sobretaxa. Apesar disso, ela afirma que o governo chinês tem mantido uma postura cautelosa nas negociações.

Mercado pode pagar até 10% a mais pela carne certificada

O Beef on Track pretende conectar produtores, frigoríficos, varejistas, compradores e instituições financeiras, agregando valor à carne brasileira destinada a mercados que exigem comprovação de origem.

De acordo com o Imaflora, compradores chineses demonstram disposição para pagar um prêmio de até 10% sobre o valor da carne certificada, desde que o produto cumpra os critérios ambientais e de rastreabilidade estabelecidos pelo programa.

Lançamento comercial está previsto para 2027

Ao longo de 2026, o projeto está estruturando seus padrões técnicos, auditorias, cadeia de custódia e validações institucionais. Após a conclusão dos testes, o sistema será submetido à aprovação do Inmetro e, posteriormente, do órgão regulador equivalente na China.

Somente após essas etapas o selo Beef on Track poderá ser utilizado oficialmente nas exportações.

Acordo prevê embarque inicial de 50 mil toneladas

Em junho, o Imaflora firmou um acordo com a Tianjin Meat Association (TMA), entidade que reúne cerca de 100 empresas da região de Tianjin, importante polo importador de carne brasileira.

O compromisso inicial prevê o envio de 50 mil toneladas de carne, o equivalente a aproximadamente 2,5 mil contêineres de 20 toneladas, utilizando o porto de Tianjin, considerado o maior porto de águas profundas da China.

Sistema aproveita mecanismos de rastreabilidade já existentes

O programa não cria um novo sistema de controle, mas reconhece modelos já utilizados no Brasil, como o Passaporte Verde, de Mato Grosso, o sistema de rastreabilidade do Pará e mecanismos próprios dos frigoríficos.

A certificação possui quatro categorias: bronze, prata, ouro e platina. O nível máximo exige desmatamento zero, rastreabilidade de fornecedores indiretos e elevados padrões socioambientais, sendo o mais valorizado por grandes compradores internacionais, como McDonald’s, Carrefour e Walmart.

Segundo o Imaflora, frigoríficos que já alcançam desempenho superior a 95% nas auditorias dos Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) do Ministério Público Federal poderão receber automaticamente a certificação Bronze, sem necessidade de novas auditorias, reduzindo custos de adesão.

Abiec pede integração com sistemas já existentes

Em nota, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que acompanha iniciativas voltadas à certificação, mas defende que novos selos sejam compatíveis com os sistemas atualmente utilizados pelo setor.

A entidade afirma que novas exigências não devem criar sobreposições ou depender de estruturas públicas ainda inexistentes, evitando impactos à produção.

A Abiec também cita um estudo publicado na edição chinesa do Financial Times, segundo o qual a exigência chinesa por bovinos com até 30 meses tem incentivado maior eficiência produtiva no Brasil, contribuindo para a redução das emissões por quilo de carne produzida.

Por fim, a associação reforça que a pecuária brasileira já opera dentro da legislação vigente e que o avanço da sustentabilidade, da rastreabilidade e da carne bovina certificada deve ocorrer por meio do fortalecimento dos instrumentos já existentes.

FONTE: Globo Rural

TEXTO: Redação

IMAGEM: Reprodução/Globo Rural

Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook