Comércio Internacional

Brasil defende novo equilíbrio no comércio global sem prejudicar países em desenvolvimento

O Brasil defendeu, durante o Fórum Público da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, que um eventual novo equilíbrio no comércio global não seja construído em prejuízo dos demais países. A posição foi apresentada pela secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres.

O tema esteve no centro do painel “As placas tectônicas do comércio estão se movendo – um novo equilíbrio?”, organizado pelo Peterson Institute for International Economics, de Washington. O debate discutiu as transformações do sistema comercial internacional, o avanço da fragmentação geopolítica e os caminhos para uma reforma da OMC.

Comércio global passa por mudança de cenário

Os participantes analisaram a trajetória do comércio internacional desde o otimismo que marcou a década de 1990 até o atual ambiente de tensões geopolíticas, protecionismo e disputas entre grandes potências.

Entre os principais desafios apontados estão a redução da atuação dos Estados Unidos na liderança global, o avanço de medidas protecionistas, as políticas de exportação da China e os impactos da inteligência artificial e da digitalização sobre a economia.

Adam Posen, do Peterson Institute, avaliou que a menor participação dos Estados Unidos como provedor de segurança tornou o ambiente econômico internacional mais difícil. Ele também destacou que diversos países evitaram retaliar as medidas comerciais unilaterais adotadas por Washington e as restrições impostas pela China às exportações.

Já Joe Wallace, da agência de representação comercial dos Estados Unidos (USTR), atribuiu o cenário atual a desequilíbrios econômicos acumulados ao longo de décadas e relacionados a decisões políticas tomadas em Washington e em outros países. Segundo ele, o processo de reequilíbrio buscado pelos EUA ocorre de maneira ordenada.

Segurança nacional ganha espaço na política comercial

Durante o painel, houve consenso de que o comércio internacional deixou de ser tratado exclusivamente sob a ótica do acesso a mercados. Questões como segurança nacional, padrões tecnológicos, sustentabilidade e transição ambiental passaram a ocupar espaço cada vez maior nas decisões comerciais.

A ex-comissária de Comércio da União Europeia, Cecilia Malmström, explicou que a UE procura reduzir a dependência das grandes potências por meio da diversificação de parcerias comerciais. Nesse esforço estão acordos e negociações com o Mercosul, a Índia, a Indonésia e outros mercados.

A União Europeia também avalia instrumentos mais fortes de proteção de seu mercado diante do que Malmström classificou como “Choque da China 2.0”.

Brasil quer uma OMC voltada ao desenvolvimento

Tatiana Prazeres ressaltou que a percepção sobre o comércio mudou profundamente desde a criação da OMC, há 31 anos. Naquele período, predominava o entusiasmo com a globalização, a integração das cadeias produtivas e a ampliação da exposição das economias aos mercados internacionais.

Atualmente, segundo a representante brasileira, o comércio é encarado simultaneamente como oportunidade e risco. Essa mudança ajuda a explicar a complexidade da política comercial contemporânea, que passou a incorporar temas como segurança, resiliência econômica, política industrial e sustentabilidade.

Para o Brasil, a reforma da OMC deve considerar essa nova realidade sem abandonar seus objetivos de desenvolvimento.

A posição brasileira é pela construção de uma organização internacional capaz de cumprir seus compromissos de desenvolvimento, contribuir para a eficiência da economia mundial e, ao mesmo tempo, contemplar objetivos políticos legítimos dos países.

Brasil evita alinhamento entre grandes potências

Tatiana Prazeres afirmou que o Brasil não pretende escolher um lado na disputa entre as grandes potências. Segundo ela, essa é uma das razões pelas quais o país defende uma OMC funcional e atuante.

A representante brasileira também destacou que países de porte médio precisam preservar espaço para definir suas próprias estratégias e interesses.

Na avaliação apresentada por Tatiana, qualquer novo equilíbrio entre Estados Unidos, China e União Europeia deve considerar os demais integrantes do sistema comercial.

“Temos aqui a UE, a China e os EUA. Todos concordamos que é preciso chegar a um entendimento entre os principais atores e as grandes potências, mas isso não pode ocorrer em detrimento dos demais membros, do restante do mundo e das necessidades dos países em desenvolvimento”, afirmou.

Diversificação é estratégia para aumentar a resiliência

Para o Brasil, ampliar o número de parceiros comerciais é uma forma de fortalecer a resiliência econômica e reduzir vulnerabilidades diante das incertezas internacionais.

Tatiana destacou que o país possui parceiros interessados em previsibilidade, estabilidade, comércio, investimentos e cooperação. Ela também chamou atenção para o aumento do interesse de diferentes nações em aprofundar relações com o Brasil.

A aproximação entre União Europeia e Mercosul foi citada como exemplo. As negociações se estenderam por 25 anos, mas avançaram em um contexto internacional marcado por maior interesse na diversificação das relações econômicas.

Segundo Tatiana, o Brasil reúne características que podem contribuir para esse processo, como sua posição de destaque na produção agrícola, na energia renovável e na sustentabilidade.

Acordos comerciais e multilateralismo

A secretária afirmou que ampliar e diversificar parcerias, além de concluir acordos comerciais, pode aumentar a previsibilidade e criar novas oportunidades de acesso a mercados.

Para ela, a estratégia brasileira não passa por reduzir sua integração internacional. Ao contrário, o país pretende expandir relações econômicas com parceiros interessados e, paralelamente, fortalecer o multilateralismo.

Nesse contexto, a reforma da OMC exigirá flexibilidade para acomodar diferentes interesses, perspectivas e ritmos entre os seus integrantes.

Tatiana defendeu que a organização encontre mecanismos capazes de considerar essas diferenças, mas reconheceu que o principal desafio será avançar com a velocidade necessária em meio à atual fragmentação e à incerteza do cenário internacional.

O Brasil, portanto, busca participar da construção de um sistema de comércio internacional mais previsível, preservando sua autonomia e defendendo que as decisões das grandes potências não sejam tomadas às custas dos países em desenvolvimento.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Valor Econômico

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