Portos

Assoreamento ameaça operações do complexo portuário Itajaí-Navegantes

O avanço do assoreamento do Rio Itajaí-Açu vem comprometendo as condições de navegação no complexo portuário Itajaí-Navegantes, em Santa Catarina. O alerta é do Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave), que aponta agravamento do problema desde novembro de 2025.

Naquele período, a Delegacia da Capitania dos Portos em Itajaí (DelItajaí), vinculada à Marinha do Brasil, já havia chamado atenção para a necessidade de atualização da batimetria, levantamento utilizado para medir a profundidade do canal.

Segundo o Centronave, a situação passou a afetar diretamente a capacidade dos navios e a movimentação de cargas no complexo.

Restrições de calado reduzem capacidade dos navios

O diretor-executivo do Centronave, Fábio Lavor, afirma que a dragagem de manutenção chegou a ser interrompida em 15 de fevereiro de 2026. Embora o serviço tenha sido retomado posteriormente de maneira pontual, os resultados não teriam sido suficientes para recuperar as condições necessárias de navegação.

Desde então, foram determinadas reduções sucessivas na folga abaixo da quilha, medida de segurança que representa a distância entre a parte inferior do navio e o fundo do canal.

Em abril, a redução foi de 30 centímetros. Em agosto, outros 50 centímetros foram acrescentados, totalizando atualmente uma restrição de 80 centímetros na bacia de evolução.

Na prática, os navios precisam operar com menor calado e, consequentemente, deixam de utilizar toda a capacidade disponível para transporte de cargas.

Menor calado afeta exportação de cargas refrigeradas

De acordo com Lavor, cada centímetro de redução do calado representa, aproximadamente, quatro contêineres refrigerados a menos embarcados.

Em uma ocorrência recente citada pelo executivo, uma embarcação precisou reduzir o calado de 12,70 metros para 12,50 metros. A mudança fez com que aproximadamente 2,4 mil toneladas de carga refrigerada destinada à exportação permanecessem no cais.

A limitação também pode provocar omissões de escala, aumento dos custos de frete e necessidade de transferência de cargas para outros portos.

Assoreamento pode reduzir movimentação de cargas em 30%

Entidades empresariais alertam que, caso as restrições de calado continuem, a movimentação de cargas do complexo Itajaí-Navegantes poderá sofrer uma redução de até 30%.

Em manifesto conjunto enviado à Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba), responsável pela gestão do Porto de Itajaí, e à Superintendência do Porto de Itajaí, as entidades pediram uma dragagem emergencial do canal de acesso.

O Centronave avalia que os efeitos vão além da carga que deixa de ser embarcada. A menor capacidade dos navios pode gerar aumento de custos logísticos, sobrecarga de outros terminais e utilização de portos alternativos.

Para o setor, o resultado é uma perda de eficiência que pode elevar o custo do comércio exterior e prejudicar a competitividade das exportações brasileiras.

Problema de assoreamento é considerado recorrente

A Associação de Terminais Portuários Privados (ATP) também considera preocupante a situação. Segundo a diretora-executiva da entidade, Gabriela Costa, episódios de restrição no canal vêm ocorrendo ao longo dos últimos anos.

A entidade defende uma solução estrutural para o problema, com acompanhamento permanente das condições de navegação e manutenção da infraestrutura.

A avaliação é de que a previsibilidade operacional é essencial para um complexo portuário estratégico para a economia catarinense e para o comércio exterior.

Dragagem emergencial é iniciada no Porto de Itajaí

A Superintendência do Porto de Itajaí informou que recebeu a draga hopper Utrecht para realizar a retirada dos sedimentos acumulados no canal.

A previsão é de que a dragagem do canal de acesso dure entre sete e dez dias. O prazo, porém, poderá sofrer alterações conforme as condições hidrológicas e meteorológicas e o volume efetivamente retirado.

Após a conclusão do serviço, deverão ser realizados novos levantamentos hidrográficos para verificar os resultados e avaliar possíveis mudanças nos parâmetros operacionais.

A SPI ressalta que a recuperação completa das profundidades somente poderá ser confirmada após a conclusão da dragagem e a validação das novas medições de profundidade.

Porto afirma que canal continua navegável

A Superintendência do Porto de Itajaí informou que o canal de acesso permanece navegável e que as operações seguem os parâmetros de segurança definidos pela Autoridade Marítima.

De acordo com a administração, as atuais restrições de calado estão relacionadas às condições hidrológicas e aos efeitos do El Niño, que teriam contribuído para o aumento da vazão do Rio Itajaí-Açu e do volume de sedimentos transportados.

A SPI também afirmou que os canais e as bacias de evolução estão dentro das metas de profundidade. A dificuldade para atualizar a batimetria estaria relacionada à elevada concentração de materiais em suspensão na água.

Reconstrução do Molhe Sul não elimina gargalo

Outra obra prevista para a região é a reconstrução e recuperação do Molhe Sul, localizado na foz do Rio Itajaí-Açu, próximo à Praia da Atalaia.

A Codeba prevê realizar a licitação do projeto em 3 de setembro. Para o Centronave, entretanto, a intervenção é importante, mas não resolve isoladamente o problema que atualmente limita a capacidade operacional do complexo.

Com base em um estudo técnico apresentado à Codeba em julho, a entidade aponta o canal externo como o principal gargalo do sistema de navegação.

Concessão do canal pode avançar ainda em 2026

Paralelamente às medidas emergenciais, o governo federal trabalha na concessão do canal de navegação do Porto de Itajaí à iniciativa privada.

O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) informou que o edital poderá ser publicado ainda em 2026. O processo está em fase final de análise técnica e jurídica na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e deve ser levado à diretoria colegiada da agência em setembro.

A decisão da diretoria será uma das etapas que antecedem a publicação do edital. O ministério também informou que a expectativa é realizar o leilão ainda neste ano, desde que sejam cumpridos os procedimentos técnicos, regulatórios e processuais necessários.

A proposta faz parte da política federal de concessão de canais de acesso portuário, modelo que teve como primeiro exemplo o canal do Porto de Paranaguá.

Concessão prevê investimentos contínuos em dragagem

Segundo o MPor, o modelo de concessão busca aumentar a previsibilidade da manutenção da infraestrutura aquaviária e melhorar a segurança da navegação.

Entre os objetivos estão a garantia de investimentos contínuos em dragagem, sinalização náutica, monitoramento do tráfego de embarcações e gestão do acesso aquaviário.

A Antaq informou que atualmente analisa a conformidade jurídica, a consistência técnica e a adequação do projeto às normas regulatórias.

A agência também esclareceu que o processo não precisará retornar ao MPor para uma nova análise, pois o ministério já autorizou a continuidade da tramitação após as revisões dos estudos e a deliberação do Tribunal de Contas da União (TCU).

Enquanto as medidas estruturais avançam, o setor portuário defende uma resposta imediata para recuperar as profundidades do canal e evitar que o assoreamento em Itajaí provoque impactos ainda maiores sobre a movimentação de cargas e os custos do comércio exterior.

FONTE: A Tribuna
TEXTO: Redação
IMAGEM: Porto de Itajaí/ Divulgação

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