Transporte

Ferrovia Tereza Cristina movimenta R$ 5 bilhões e conecta gerações em Santa Catarina

Há mais de um século, os trilhos da Ferrovia Tereza Cristina (FTC) fazem parte da economia e da história do Sul de Santa Catarina. Atualmente, a cadeia produtiva associada à ferrovia movimenta aproximadamente R$ 5 bilhões por ano e sustenta, direta ou indiretamente, cerca de 25 mil pessoas na região.

Desse total, cerca de R$ 1 bilhão é movimentado diretamente pela operação ferroviária. A malha também exerce papel estratégico no setor energético catarinense: é pelos trilhos da FTC que passa o carvão utilizado pelo Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, responsável por aproximadamente 25% da energia consumida no estado.

Mas a importância da ferrovia vai além dos números. Em famílias de ferroviários, a profissão atravessou gerações e ajudou a preservar uma história que já soma 142 anos.

Tradição ferroviária passa de pai para filho

A relação de Juliano Correia Pires com a ferrovia começou antes mesmo de ele trabalhar na empresa. Quando criança, ele acompanhava de perto a rotina do pai, Vanderlei Pires, que construiu sua carreira ferroviária na antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA).

Em 2001, depois de concluir um curso técnico em eletromecânica, Juliano entrou na FTC como estagiário. Quase 25 anos depois, trabalha como mecânico de locomotivas.

A tradição também alcançou outras pessoas da família. O irmão de Juliano atua como supervisor de estação, enquanto a filha trabalha no Museu Ferroviário de Tubarão.

“Já está no sangue ferroviário. Isso foi o que me motivou, por ser uma empresa familiar. Na verdade, é como se fosse uma tradição passada de pai pra filho”, afirma Juliano.

A história se repete com Ramon Joaquim Delfino. Atual supervisor de tração da FTC, ele passou 13 anos como maquinista e seguiu os passos do pai, João Delfino.

João começou como manobrador, tornou-se agente de estação e chegou à supervisão. Foi também uma referência para o filho voltar a estudar e concluir uma formação em gestão de pessoas.

“Meu pai foi uma pessoa que me deu muito desejo de ser como ele, uma pessoa e um ferroviário exemplar”, relata Ramon.

João, entretanto, não chegou a acompanhar a promoção do filho à supervisão. Já aposentado e trabalhando para uma empresa cliente da ferrovia, morreu após sofrer um acidente.

“Estamos tentando fazer o nosso melhor para que ele se orgulhe lá em cima”, diz Ramon.

Nem toda herança familiar termina nos trilhos

A influência ferroviária também marcou a trajetória de Maurício Claudino. O pai trabalhava com freios de vagões na Oficina Henrique Lage, enquanto um tio atuava na oficina central, ainda durante o período da RFFSA.

Maurício chegou a ser aprovado em um concurso da FTC, mas optou por seguir carreira na polícia. Anos depois, porém, voltou a se aproximar da ferrovia.

Dessa vez, a ligação veio pelo Museu Ferroviário, onde passou a atuar como voluntário. O trabalho começou com a limpeza de locomotivas.

Para Juliano, a transmissão da profissão entre gerações ficou mais difícil diante das transformações tecnológicas e do surgimento de novas opções de carreira.

“O jovem hoje está procurando outras áreas”, avalia o mecânico, que também aponta a dificuldade crescente para encontrar mão de obra especializada no setor ferroviário.

Carvão transportado pela FTC abastece parte da energia de SC

O transporte ferroviário de carvão continua sendo uma das principais atividades da FTC. O material destinado ao Complexo Termelétrico Jorge Lacerda chega a aproximadamente 200 mil toneladas por mês, ou 2,4 milhões de toneladas por ano.

Segundo a empresa, a estrutura existente teria capacidade para transportar até 280 mil toneladas mensais sem necessidade de novos investimentos.

Se o mesmo volume fosse levado pelas rodovias, seriam necessários cerca de 300 caminhões por dia circulando pela região.

Para Benony Schmitz Filho, diretor-presidente da Ferrovia Tereza Cristina, a operação ferroviária evita uma pressão ainda maior sobre as estradas do Sul catarinense.

“A ferrovia alivia a sobrecarga do transporte rodoviário. Eles ficam mais concentrados nas pontas, e a ferrovia faz essa espinha dorsal”, explica.

Transporte de contêineres ganha espaço

A FTC também ampliou sua atuação no transporte de cargas conteinerizadas. O serviço entre Criciúma e Imbituba começou em 2015 e vem registrando crescimento.

Atualmente, são transportados aproximadamente 2 mil contêineres carregados por mês, além de outros 2 mil vazios. Entre os produtos movimentados estão arroz, cerâmica, mel e materiais de construção.

De acordo com Abel Passagnolo Sergio, gerente de transportes da FTC, clientes demonstram interesse em ampliar os volumes.

Para acompanhar essa demanda, porém, seria necessário aumentar a quantidade de vagões, locomotivas e profissionais.

O crescimento desse segmento é considerado um indicativo positivo para a ferrovia.

Cadeia ferroviária movimenta R$ 5 bilhões no Sul catarinense

Somadas as atividades diretamente relacionadas à ferrovia e os impactos sobre outros setores, a cadeia produtiva alcança cerca de R$ 5 bilhões anuais.

O efeito econômico envolve mineradoras, a usina termelétrica e empresas que prestam serviços para a operação ferroviária.

O impacto é especialmente relevante para o Sul de Santa Catarina. A retirada desse montante da economia regional, segundo a direção da FTC, afetaria não apenas as empresas diretamente envolvidas com o carvão, mas também uma ampla rede de fornecedores e prestadores de serviços.

Transição energética coloca carvão em debate

A discussão sobre o futuro do carvão ganhou força com as políticas de transição energética e descarbonização.

Em 2026, o Governo Federal, por meio do Ministério de Minas e Energia, iniciou oficialmente o Plano Nacional de Transição Energética (Plante), com diretrizes voltadas à descarbonização e ao desenvolvimento sustentável da matriz energética até 2055.

Para representantes da FTC, entretanto, o carvão ainda exerce uma função relevante na segurança do sistema elétrico brasileiro.

Segundo Abel Passagnolo, a geração termelétrica pode atuar como fonte contínua e contribuir para a estabilidade do fornecimento de eletricidade.

Ele argumenta que a participação do carvão na matriz energética brasileira é inferior a 0,5%, enquanto outros países ainda apresentam uma dependência muito maior do combustível.

Em 2025, por exemplo, o carvão respondeu por cerca de 55% da eletricidade produzida na China e 22,6% na Alemanha.

Na avaliação do gerente, a alternativa para o setor seria concentrar esforços no desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir as emissões provocadas pela utilização do carvão.

Reservas de carvão ainda são consideradas extensas

Outro ponto levantado pelo setor é a disponibilidade das reservas de carvão em Santa Catarina.

Benony Schmitz Filho afirma que, diferentemente de outras fontes não renováveis, como o petróleo, o carvão catarinense ainda teria reservas para muitas décadas.

“Temos ainda bastante tempo”, afirma o diretor-presidente da FTC ao defender investimentos em tecnologias que permitam reduzir os impactos ambientais da atividade.

Tecnologia transformou manutenção das locomotivas

A evolução da ferrovia também pode ser percebida dentro das oficinas. Para Juliano, que trabalha há quase 25 anos na manutenção de locomotivas, os procedimentos atuais são muito mais estruturados do que no início de sua carreira.

Segundo ele, a manutenção ferroviária passou a seguir padrões e processos definidos, aumentando a segurança dos equipamentos.

A frota da FTC conta atualmente com 14 locomotivas diesel-elétricas. De acordo com Ramon Delfino, as máquinas passaram por mudanças que incluem sistemas de ar-condicionado, modernização dos freios e utilização do freio dinâmico, que aproveita o próprio motor para ajudar na redução da velocidade.

As mudanças têm como objetivos ampliar a segurança e proporcionar melhores condições de trabalho aos maquinistas.

Segurança depende também do comportamento nas passagens

Mesmo com a modernização dos equipamentos, acidentes envolvendo trens e veículos continuam sendo uma preocupação.

Ramon relata já ter presenciado descarrilhamentos e colisões, muitas vezes associados à distração ou à tentativa de motoristas de atravessar os trilhos antes da passagem do trem.

À noite, segundo ele, a distância aparente do farol da locomotiva pode levar motoristas a uma avaliação equivocada.

O uso de celulares e a falta de atenção também aumentam os riscos nas passagens em nível.

Calor e frio também afetam os trilhos

As condições climáticas representam outro desafio para a operação ferroviária. Temperaturas elevadas podem provocar a dilatação dos trilhos e causar a chamada flambagem, quando a linha sofre deslocamento e perde o alinhamento.

Em períodos de frio intenso, o fenômeno inverso pode provocar a ruptura dos trilhos.

Por isso, a equipe responsável pela via permanente acompanha as condições de temperatura e pode recomendar a redução da velocidade dos trens em situações consideradas críticas.

Ferrovia de Santa Catarina começou com o transporte de carvão

A história da ferrovia catarinense está diretamente ligada à exploração de carvão mineral no Sul do estado.

A Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina começou a ser construída em 1880 com a finalidade de transportar o carvão das minas até o Porto de Imbituba. A operação teve início em 1884.

De acordo com Silvania Silva de Souza, museóloga do Museu Ferroviário de Tubarão, trata-se da primeira ferrovia implantada em Santa Catarina.

A atual FTC assumiu a concessão da malha em 1997, mas a história ferroviária da região já alcança 142 anos.

Ferrovia foi construída por imigrantes, não por escravizados

A construção da ferrovia ocorreu durante o período imperial, mas não utilizou mão de obra escravizada, segundo a museóloga.

O projeto foi conduzido por engenheiros ingleses, que recorreram principalmente à mão de obra de comunidades de imigrantes estabelecidas no Sul do Brasil.

A construção dos primeiros 116 quilômetros de trilhos contou com trabalhadores de origem alemã e italiana, entre outros grupos que chegaram à região durante o processo de colonização.

Além de transportar carvão, a ferrovia contribuiu para introduzir novas tecnologias no Sul catarinense, como o telégrafo e o telefone.

Locomotivas marcaram diferentes períodos da história

Ao longo de sua trajetória, diferentes modelos de locomotivas passaram pelos trilhos catarinenses.

Entre os principais estão:

  • Santa Fé: locomotiva a vapor de grande porte que marcou a transição para o período das máquinas diesel-elétricas.
  • Texas: considerada a maior locomotiva a operar no Sul catarinense, utilizada principalmente no transporte de carvão mineral.
  • Malé: responsável pelo trecho até Lauro Müller até 1974.
  • Pacific: utilizada no transporte de passageiros.

Para Silvania, não existe apenas uma locomotiva que possa representar toda a história da ferrovia, já que cada modelo corresponde a uma etapa diferente dessa trajetória.

Museu Ferroviário preserva memória dos trilhos

Enquanto a ferrovia atual mantém o transporte de cargas, o Museu Ferroviário de Tubarão preserva parte da memória desse passado.

A instituição surgiu em 1997, justamente quando a antiga RFFSA foi extinta e havia o risco de que equipamentos e documentos ferroviários fossem sucateados.

O médico anestesista José Warmuth Teixeira liderou, ao lado de ferroviários, o esforço para preservar esse patrimônio. Atualmente, o museu reúne mais de 40 mil itens, incluindo locomotivas históricas.

A instituição também mantém uma relação direta com trabalhadores da ferrovia em atividade.

Ramon Delfino, por exemplo, tornou-se auxiliar voluntário de maquinista nos passeios com locomotivas a vapor. O convite ocorreu em 2022, depois que ele visitou o museu e ficou intrigado com o funcionamento das antigas máquinas.

Maquete reproduz cadeia ferroviária do Sul de SC

Outro projeto de preservação envolve uma maquete de aproximadamente 4 metros por 4 metros.

A peça, que estava abandonada e havia sido danificada por cupins, representa em escala reduzida diferentes pontos da cadeia ferroviária regional, incluindo as minas de carvão de Criciúma e Siderópolis, a oficina central de Tubarão, o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda e o Porto de Imbituba.

Maurício Claudino participa do trabalho de restauração, realizado em parceria com outro voluntário. O processo já dura três anos e a previsão é de conclusão ainda em 2026.

Passeios turísticos atraem visitantes de todo o país

O museu também mantém passeios turísticos em locomotivas históricas.

Em 2025, foram realizados 41 passeios. Para 2026, a meta é chegar a 46 viagens e receber mais de 10 mil passageiros.

Além de visitantes de diferentes estados brasileiros, a expectativa inclui turistas estrangeiros.

Para a museóloga Silvania, a instituição vai além da preservação de objetos e locomotivas. O museu trabalha com a memória dos territórios e das comunidades que se desenvolveram ao longo dos trilhos.

Expansão ferroviária depende de novos investimentos

O futuro da Ferrovia Tereza Cristina passa também pela capacidade de ampliar sua infraestrutura.

Benony Schmitz Filho defende maior integração entre investimentos públicos e privados e critica a diferença de tratamento entre rodovias e ferrovias.

Segundo ele, enquanto parte dos custos das estradas é absorvida pelo poder público, as ferrovias precisam manter sua operação com recursos próprios, inclusive em trechos de menor demanda.

Estudos já foram apresentados aos governos federal e estadual para avaliar possíveis expansões da malha em direção a Chapecó, Xanxerê e ao Planalto catarinense.

Para a direção da FTC, a implantação dessas novas conexões dependerá de uma decisão estratégica do poder público.

Transporte de passageiros ainda enfrenta obstáculos

A possibilidade de utilizar a ferrovia também para transporte de passageiros é considerada tecnicamente possível pelos representantes da empresa.

No entanto, seriam necessários investimentos significativos em infraestrutura, segurança, estações, velocidade e manutenção dos equipamentos.

Abel Passagnolo destaca que os padrões de segurança exigidos para o transporte de pessoas são elevados e que, nas condições atuais, não enxerga viabilidade econômica para a operação.

Conhecimento sobre locomotivas a vapor corre risco de desaparecer

Além da infraestrutura, existe uma preocupação relacionada à preservação do conhecimento técnico.

Grande parte dos profissionais especializados na manutenção e operação de locomotivas a vapor já está aposentada ou próxima da aposentadoria.

Maurício Claudino alerta que, sem a transmissão desse conhecimento para novas gerações, o museu poderá manter as máquinas em seu acervo, mas perder profissionais capazes de colocá-las em funcionamento.

Para a direção da FTC, os projetos de expansão e modernização precisam ser pensados para as próximas décadas. A perspectiva apresentada é de planejamento até 2040 ou 2050, período em que a ferrovia deverá continuar desempenhando um papel central na economia do Sul catarinense.

FONTE: 4oito
TEXTO: Redação
IMAGEM: José Demathé/4oito

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