Sustentabilidade

Indústrias verdes chinesas aceleram transição sustentável do Brasil

A expansão de tecnologias verdes chinesas no Brasil vai além da importação de produtos. Empresas dos dois países vêm ampliando parcerias, investimentos e operações locais em setores como mobilidade elétrica, energia renovável, infraestrutura e indústria de baixo carbono.

O movimento indica uma aproximação entre as estratégias de desenvolvimento sustentável de Brasil e China, com a incorporação de tecnologias chinesas às cadeias produtivas brasileiras.

Veículos elétricos ganham espaço no mercado brasileiro

No setor automotivo, as montadoras chinesas ampliaram sua presença no Brasil. Em julho de 2026, três modelos totalmente elétricos fabricados por empresas chinesas — BYD Dolphin Mini, BYD Dolphin e Geely EX2 — apareceram entre os dez veículos leves mais vendidos no país, segundo a Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores (Fenabrave).

O Brasil também ganhou relevância como destino das exportações automotivas chinesas. Entre janeiro e junho de 2026, foram enviadas ao país 410.825 unidades, colocando o mercado brasileiro na segunda posição entre os principais destinos. Em 2025, o Brasil ocupava o quinto lugar.

A aproximação entre empresas chinesas e brasileiras também avança por meio de acordos industriais. Um exemplo é a parceria entre Geely e Renault, formalizada como joint venture em novembro de 2025.

A Geely fornece sua plataforma GEA, desenvolvida para veículos elétricos, híbridos plug-in e modelos movidos a metanol-elétrico. A Renault, por sua vez, oferece experiência industrial acumulada no país ao longo de 27 anos, período em que produziu mais de 3,5 milhões de veículos.

As vendas acumuladas de veículos de nova energia da Geely no Brasil já ultrapassaram 20 mil unidades. Somente em julho, o EX2 registrou 5.898 emplacamentos.

Segundo a empresa, a estratégia passa por adaptar as tecnologias às características de cada mercado. Ao menos oito marcas chinesas já produzem veículos no Brasil ou anunciaram planos para instalar produção local.

Tecnologia chinesa chega à infraestrutura industrial

A presença chinesa no processo de transição energética brasileira também se estende ao setor elétrico.

A CHINT atua no Brasil há mais de duas décadas e estruturou uma operação local que reúne atividades comerciais, fabricação, entrega e pesquisa e desenvolvimento.

Em 2025, a companhia inaugurou uma fábrica de medidores inteligentes em Manaus, gerando empregos e ampliando a oferta de tecnologias voltadas ao setor elétrico brasileiro e latino-americano.

Para Shan Hao, gerente nacional da CHINT Global no Brasil, a transferência de conhecimento em eletricidade e novas fontes de energia contribui para aprofundar a cooperação energética e apoiar a redução das emissões de carbono.

Empilhadeiras elétricas substituem modelos a combustão

Outro exemplo está no setor de equipamentos industriais. A chinesa EP Equipment, sediada em Zhejiang, é especializada na fabricação de empilhadeiras elétricas e autônomas.

A empresa lidera há 13 anos consecutivos as vendas de empilhadeiras elétricas para armazéns na China e oferece equipamentos com capacidades que variam de 0,6 a 45 toneladas.

Uma das soluções desenvolvidas pela companhia é a chamada remanufatura circular, que permite transformar antigas empilhadeiras a diesel em equipamentos movidos por baterias de lítio. A tecnologia busca reduzir resíduos, emissões e custos operacionais.

Para atender às condições brasileiras, marcadas por clima tropical, poeira, terrenos com lama e operações com cargas pesadas, a empresa afirma ter reforçado a resistência dos equipamentos e desenvolvido modelos com maior autonomia e baterias de troca rápida.

A estratégia, segundo a EP Equipment, é levar ao mercado brasileiro experiências chinesas em automação industrial e desenvolvimento sustentável.

State Grid amplia infraestrutura de energia limpa

Na área de transmissão, a State Grid iniciou a construção de sua terceira linha de ultra-alta tensão (UHV) no Brasil.

O projeto, com tensão de ±800 kV, será instalado na região Nordeste e terá 1.468 quilômetros de extensão. A infraestrutura será financiada, construída e operada pela subsidiária brasileira da companhia, sob uma concessão de 30 anos.

A linha deverá transportar energia renovável produzida no Nordeste para centros consumidores das regiões Centro e Leste do país.

Com capacidade de 5 milhões de kW, a previsão é que o empreendimento entre em operação plena em 2029. Segundo as estimativas apresentadas, poderá viabilizar o consumo de mais de 20 bilhões de kWh de energia limpa por ano e evitar a emissão de aproximadamente 6,84 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

Brasil e China aproximam estratégias de desenvolvimento verde

Para especialistas, os projetos empresariais fazem parte de uma aproximação mais ampla entre Brasil e China em torno da economia verde.

José Medeiros da Silva, professor e diretor do Centro de Estudos de Brasil da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, afirma que o conceito chinês de civilização ecológica procura integrar a proteção ambiental à estratégia de desenvolvimento econômico.

Na avaliação do professor, Brasil e China enfrentam desafios distintos, mas complementares. Enquanto o Brasil precisa conciliar a força dos setores agrícola e mineral com a preservação de seus biomas e da biodiversidade, a China busca combinar desenvolvimento industrial e recuperação ambiental.

A cooperação entre os dois países, segundo ele, pode contribuir para soluções que conciliem crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade.

Investimentos chineses em energia limpa avançam

Zhou Zhiwei, diretor-executivo do centro de estudos brasileiros e diretor do departamento de relações internacionais do Instituto da América Latina da Academia Chinesa de Ciências Sociais, também vê convergência entre as estratégias ambientais dos dois países.

Segundo ele, a experiência chinesa em governança ambiental pode oferecer referências ao Brasil, enquanto os dois países podem ampliar a cooperação em áreas relacionadas à sustentabilidade.

O Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses em 2025, recebendo US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 projetos, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China.

Pelo quinto ano consecutivo, cresceram os investimentos chineses em projetos relacionados à sustentabilidade e energia limpa. Ao todo, foram lançados 31 projetos envolvendo geração hidrelétrica, solar e eólica, além de mobilidade elétrica.

Nova Indústria Brasil abre espaço para cooperação

Zhou também apontou semelhanças entre o programa Nova Indústria Brasil e a estratégia chinesa de desenvolvimento verde.

A política brasileira coloca a reindustrialização entre suas prioridades, enquanto a experiência chinesa reúne investimentos em infraestrutura, modernização industrial e inovação tecnológica.

Nesse contexto, áreas como transição energética, desenvolvimento sustentável, inovação e reindustrialização podem ampliar as oportunidades de cooperação bilateral.

Fundo de US$ 1 bilhão deve financiar projetos sustentáveis

A parceria financeira entre os dois países também ganha força. O BNDES e o China EximBank trabalham na criação de um fundo de investimento de US$ 1 bilhão, com previsão de lançamento em 2026.

O banco chinês deverá contribuir com US$ 600 milhões, enquanto o BNDES entrará com US$ 400 milhões.

Os recursos deverão apoiar projetos em segmentos como energia verde, infraestrutura, bioeconomia, mineração, agricultura, economia digital e inteligência artificial.

Para Zhou, o modelo de cooperação entre Brasil e China pode servir de referência para outras economias do Sul Global. A combinação de capital, tecnologia e escala industrial chineses com os recursos naturais e a demanda brasileira por industrialização sustentável cria, segundo ele, oportunidades de benefício mútuo.

A avaliação é que a transição para uma economia de baixo carbono pode deixar de ser apenas um desafio ambiental e se transformar também em vetor de crescimento econômico e modernização industrial.

FONTE: Xinhua
TEXTO: Redação
IMAGEM: Xinhua/Yin Dongxun

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