Inovação, Tecnologia

Máquinas com olhos e cérebros próprios: como a indústria em Joinville entrou na era da IA e IoT

Sensores, conectividade e inteligência artificial já transformam a indústria em Joinville, onde sistemas monitoram em tempo real e analisam dados com velocidade e precisão

A indústria em Joinville, no Norte catarinense, combina a tradição da manufatura com a inovação tecnológica. Máquinas que antes apenas repetiam movimentos agora pensam, aprendem e se conectam.

A “magia” da IoT (Internet das Coisas), combinada à inteligência artificial, transforma equipamentos em verdadeiros parceiros inteligentes. Essa integração já é realidade em parte da indústria local.

Para Dinor Martins Júnior, especialista em educação do Senai, além da forte base industrial, Joinville conta com instituições estratégicas e um ecossistema de inovação que impulsionam a adoção de tecnologias da indústria 4.0.

A força da indústria em Joinville

IoT e IA: um avanço da Indústria 4.0?

A chamada Indústria 4.0 – a quarta revolução industrial – marca a digitalização dos processos e a integração de automação, sensores, conectividade e análise de dados. O objetivo é criar fábricas mais flexíveis e eficientes, capazes de gerar, transmitir e interpretar informações em tempo real.

Nesse contexto, a IoT funciona como o sistema nervoso das operações, coletando sinais por meio de sensores, enquanto a IA age como o cérebro, interpretando esses sinais e ajudando na tomada de decisões.

Segundo Dinor, o primeiro passo dessa revolução foi digitalizar os processos. “As informações de um processo de uma máquina devem ser transformadas digitalmente. Assim, os dados serão administrados para que se tome uma ação preditiva”, explica.

A ação preditiva permite prever falhas ou ajustes antes que se tornem um problema. Com sensores conectados, as máquinas passam a gerar e transmitir dados em tempo real, abrindo caminho para análises e intervenções mais rápidas e precisas.

Os dados variam conforme o equipamento: podem incluir temperatura, consumo de energia, localização, velocidade, obstáculos e proximidade. Um robô de transporte de peças, por exemplo, pode transmitir informações sobre cada trajeto que realiza.

A internet das coisas, por si só, monitora e envia dados. Com a inteligência artificial, essas informações ganham outra camada de análise. “A tendência é que haja também uma ação no sentido de administrar ou analisar esses dados”, complementa Dinor.

Do dado à decisão: a inteligência artificial entra em campo na indústria em Joinville

A IA analisa grande volume de informações e identifica padrões que escapariam dos olhos humanos, explica Fábio Abaid, engenheiro de mecatrônica e head de tecnologia da Schulz Tech.

Na prática, essa inteligência se conecta a soluções como a plataforma desenvolvida pela empresa, que monitora veículos pesados e equipamentos industriais por meio de sensores embarcados. O sistema coleta dados como pressão dos pneus, localização, frenagens bruscas e acelerações, tudo processado em tempo real.

“As informações operacionais são transformadas em indicadores financeiros. Assim é possível enxergar quanto custa cada quilômetro rodado do caminhão”, explica Fábio.

“Por exemplo, se um pneu está com pressão abaixo do ideal conseguimos mensurar quanto isso gera de consumo extra de combustível e desgaste do equipamento”, exemplifica.

Isso implica também na segurança das pessoas, já que o sistema monitora os dados do caminhão, prevendo aquecimentos, monitorando pneus, freios e outros.

A plataforma já acompanha mais de 20 milhões de quilômetros rodados, e os dados alimentam um modelo de inteligência artificial que identifica tendências. Dessa forma, alertas automáticos são disparados assim que detecta risco de falha.

Segundo Fábio, a IA também automatiza relatórios e sugere interpretações, o que permite que os gestores tomem decisões com base em dados confiáveis e atualizados.

“Para saber o que é ideal, primeiro precisamos de padrões para comparar. A inteligência artificial cria esses padrões a partir dos dados coletados, o que possibilita uma análise muito mais precisa”.

A interação humana e a tecnologia

O relacionamento entre humano e máquina sempre foi central na história da indústria. O avanço tecnológico intensifica essa relação, trazendo novas formas de colaboração.

Nesse contexto, a chamada quinta revolução industrial surge como um convite à reflexão sobre essa interação cada vez mais integrada entre homem e tecnologia.

Conforme as autoras Ana Moura e Bárbara Romeira no livro Indústria 5.0, a busca é pelo aproveitamento do avanço da internet ao longo dos anos para aprimorar o trabalho humano no setor.

Essa perspectiva impacta diretamente a forma como as pessoas enxergam as máquinas e equipamentos, assim como molda a compreensão das novas gerações sobre as possibilidades de trabalho dentro das linhas de produção.

“Não se enxerga mais a indústria como se vendia no passado, como uma operação totalmente manual ou um ambiente desatualizado, por exemplo. Muito pelo contrário, hoje existe muita tecnologia emergente, IA, IoT, conectividade. E o jovem vai poder se desdobrar dentro desses temas”, afirma Dinor.

Os pilares dessa nova indústria envolvem gerar valor social e econômico, impulsionar a inovação científica e tecnológica e integrar pessoas, conhecimento e capital em um ciclo contínuo de desenvolvimento.

“É claro que os trabalhos manuais existem e ainda serão muito importantes, mas conhecer as possibilidades do uso da tecnologia na indústria eu acredito que vai brilhar os olhos da nova geração e de quem está inserido na internet”, destaca o especialista.

Abaid também enxerga a relação no aprimoramento e nas aplicações das novas tecnologias na experiência da Schulz Tech.

“Na implantação, às vezes existe uma resistência inicial por parte do motorista. Mas, quando ele percebe que os dados ajudam a evitar que ele mesmo sofra algum dano, passa a ser um multiplicador e a se relacionar de forma diferente com o sistema”, compartilha.

O que pode evidenciar que a transformação industrial impulsionada pelas tecnologias da Indústria 4.0 e a integração entre IA e IoT segue uma jornada. As peças centrais são a produção com decisões orientadas por dados e a integração humana.

O cenário catarinense

Embora a indústria catarinense seja diversa, Dinor observa que a adoção de tecnologias já está consolidada em alguns setores, enquanto outros ainda estão na fase inicial de implantação.

“A indústria catarinense é exportadora. Para competir com países como China e Estados Unidos, é fundamental refletir sobre essas aplicações dentro da produção”, afirma.

Ele ressalta que vivemos um momento de intensa captação de dados. “Em algumas empresas, essas ações já acontecem porque as capturas de dados estão sendo feitas há 5, 10, 15 anos, e agora é o momento de agir sobre eles. Outras ainda estão instalando seus sistemas de IoT para, no futuro, administrar essas informações. Agir sobre os dados significa buscar maior produtividade, segurança e qualidade”.

Fonte: ND+

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