Logística

Expansão das Ferrovias no Brasil ganha impulso com investimentos estratégicos

O setor ferroviário brasileiro vive um momento de crescimento acelerado, com projetos de grande escala que devem receber cerca de R$ 100 bilhões até 2035. O avanço é sustentado por um modelo híbrido de financiamento, que combina concessões a empresas privadas e aportes públicos, além de renegociações de contratos existentes. Inspirada no setor rodoviário, a Política Nacional de Outorgas Ferroviárias define critérios claros para investimentos, leilões previsíveis e mecanismos de compartilhamento de riscos, oferecendo maior segurança jurídica para os investidores.

Investimentos públicos passam a ser direcionados ao setor ferroviário

Historicamente, os recursos das outorgas iam diretamente para o Tesouro, sem retorno para a infraestrutura ferroviária. A partir de 2025, porém, esses fundos passaram a ser aplicados no setor. A estratégia do governo prevê tanto a construção de novas linhas (greenfield) quanto a recuperação de trechos ociosos, em conformidade com padrões de sustentabilidade da OCDE. Para obter autorizações, as iniciativas precisam apresentar o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA), garantindo prioridade às propostas mais maduras e viáveis.

Principais projetos ferroviários em destaque

Entre os cinco projetos estratégicos, estão o Anel Ferroviário do Sudeste (EF 118), a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), que dará base à Ferrovia Transcontinental, o Corredor Leste-Oeste (Fico-Fiol) conectando o Centro do país a portos do Nordeste, a Transnordestina, com dois terços concluídos e quase sete mil trabalhadores envolvidos, e a Ferrogrão, que ligará Sinop (MT) a Miritituba (PA) pelo Arco Norte, atualmente questionada no STF. Outros projetos incluem ramais da Ferrovia Norte-Sul, o Corredor Ferroviário de Santa Catarina (EF 280), a Ferrovia do Pantanal (EF 267) e linhas de passageiros intercidades.

Conectividade regional e integração internacional

No Sul, estuda-se leilão em três lotes para melhorar o acesso ferroviário aos portos de Paranaguá (PR), São Francisco do Sul (SC) e Rio Grande (RS), enquanto tratativas com a Argentina buscam reativar a conexão Uruguaiana-Paso de los Libres. No Centro-Oeste, avalia-se integrar a malha brasileira à rede ferroviária boliviana, reforçando a integração logística na América Latina.

Foco no transporte de grãos e desafios logísticos

Projetos como a Ferrogrão, Fico e Transnordestina têm como objetivo principal escoar a produção agrícola do interior para portos, em um cenário que prevê exportação adicional de 58,8 milhões de toneladas de grãos nos próximos dez anos. O diagnóstico da consultoria Macroinfra alerta que o crescimento do fluxo de cargas pelo Arco Norte exige investimentos urgentes em transporte, para evitar um possível apagão logístico.

Polêmica em torno da Ferrogrão

A Ferrogrão, com 976 km projetados, enfrenta críticas sobre impactos socioambientais, riscos de desmatamento e questões de viabilidade econômica. Especialistas sugerem alternativas mais baratas e sustentáveis, como a ferrovia entre Açailândia (MA) e Vila do Conde (PA), que demandaria apenas R$ 4 bilhões em recursos públicos. Organizações indígenas também questionam o traçado, alegando ausência de consultas prévias às comunidades afetadas, conforme prevê a Constituição e a Convenção 169 da OIT.

Investimento privado e competitividade

O setor privado debate recorde de investimentos, estimado em R$ 54 bilhões entre 2025 e 2027. Segundo o diretor da ANTF, Davi Barreto, o desafio é manter o crescimento por décadas, diante de mudanças políticas e descontinuidade de políticas públicas. Especialistas defendem liberdade tarifária, equilíbrio concorrencial com rodovias e incentivo à interoperabilidade entre modais para melhorar a competitividade ferroviária.

Autorizações ferroviárias e futuro do transporte de passageiros

O regime de autorizações ferroviárias, gerido pela ANTT, permite que empresas construam e operem trilhos em caráter privado. Até o momento, 45 contratos foram firmados, mas apenas dois avançaram para etapas de licenciamento ambiental e desapropriações. A modalidade deve impulsionar a interiorização da economia e possibilitar trens regionais e de média distância, ampliando a mobilidade urbana e logística no país.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Modais em Foco

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Transporte

Transnordestina inicia operações comerciais após quase 20 anos de obras

Primeiros trens começam a circular em outubro

Após quase duas décadas de atrasos, disputas políticas e investimentos acima do previsto, a ferrovia Transnordestina dará início às suas operações comerciais neste mês de outubro. A circulação inicial será reduzida, mas representa um marco para um dos maiores projetos de infraestrutura do Brasil.

Idealizada ainda no século XIX, no governo de Dom Pedro II, a Transnordestina teve suas obras iniciadas apenas em 2006, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A conclusão total está prevista para 2027.

Investimento bilionário e mudanças no traçado

O projeto original previa 1.728 km de trilhos, ligando o Piauí aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE). Porém, após anos de entraves e revisões, o traçado atual terá 1.200 km, conectando Eliseu Martins (PI) ao Porto de Pecém. O trecho até Suape foi descartado pela CSN, responsável pela execução e futura exploração da ferrovia.

O orçamento inicial, de R$ 4,5 bilhões, já ultrapassa R$ 15 bilhões. Mesmo com a redução no traçado, a obra segue sendo estratégica para o escoamento da produção agrícola da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e para o transporte de insumos industriais ao sertão nordestino.

Obras avançam com 75% de execução

Segundo a Transnordestina Logística, subsidiária da CSN, cerca de 600 km já estão prontos para operação, entre Paes Landim (PI) e Acopiara (CE). A empresa estima que 75% das obras foram concluídas, principalmente nas áreas de infraestrutura mais complexas, como pontes, viadutos e nivelamento do terreno.

Mais de 4 mil trabalhadores atuam atualmente na construção, enfrentando o solo rochoso do sertão cearense. A previsão é que até outubro seja contratada a execução dos últimos 100 km.

Expectativa do setor produtivo

Em cidades como Quixeramobim (CE), empresários aguardam com ansiedade a chegada da ferrovia. Um dos beneficiados será o setor agroindustrial local, que enfrenta dificuldades logísticas para armazenar e distribuir insumos. O terminal intermodal em construção promete reduzir gargalos, ampliar a previsibilidade e aumentar a capacidade de produção em até 50%.

O governo federal também liberou R$ 1 bilhão em linhas de crédito para empresas interessadas em investir em uma área de 360 hectares ao redor do terminal. A segunda fase, prevista para 2027, inclui estrutura alfandegária, o que deve transformar a região em um importante polo de importação e exportação.

Operação inicial e projeções de crescimento

Na fase de testes, chamada de comissionamento, os trens transportarão entre 10 mil e 15 mil toneladas de grãos, ligando São Miguel do Fidalgo (PI) a Iguatu (CE).

A expectativa é que até 2028 o volume transportado chegue a 4 milhões de toneladas, incluindo fertilizantes e minério. Para 2030, a meta é alcançar 20 milhões de toneladas.

O presidente da Transnordestina Logística, Tufi Daher, afirma que não há risco de paralisações:

“Agora não tem mais volta. Os recursos estão garantidos e a obra será concluída até 2027, independentemente do cenário político”, declarou.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Valor Econômico

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