Tecnologia

Falha crítica no PHP descoberta por inteligência artificial tira sites governamentais do ar

Uma falha de segurança no PHP, identificada com auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), levou governos e organizações de diferentes países a retirar sites e serviços digitais do ar nesta quarta-feira. A medida preventiva foi adotada após a divulgação de correções para vulnerabilidades críticas que permaneceram ocultas no código da linguagem por anos.

Os desenvolvedores do PHP publicaram atualizações emergenciais e recomendaram que todos os usuários instalem as novas versões imediatamente. Empresas de segurança cibernética também alertaram para indícios de que invasores já estariam explorando as brechas, aumentando a urgência da atualização dos sistemas.

Com os detalhes das vulnerabilidades e as correções disponíveis publicamente, especialistas temem uma corrida de criminosos virtuais para identificar servidores desprotegidos antes que os responsáveis consigam aplicar os reparos.

Vulnerabilidade no PHP coloca milhões de servidores em risco

Utilizado na construção e no funcionamento de sites, o PHP é uma linguagem de programação criada no início da década de 1990 e presente em uma parcela significativa da internet. A tecnologia integra plataformas populares, como WordPress, Drupal, Joomla e Magento.

Segundo Tiffany Farriss, diretora-executiva interina da Drupal Association, o problema afeta uma ampla quantidade de servidores que utilizam versões do PHP lançadas nas últimas duas décadas.

Dados da empresa de inteligência de internet Censys indicam que aproximadamente 1,5 milhão de um total de 2,6 milhões de hosts identificados executavam versões da linguagem para as quais ainda não havia correção disponível no momento do levantamento.

A dimensão do problema preocupa especialistas em segurança digital, já que servidores vulneráveis podem ser comprometidos caso permaneçam sem proteção. O pesquisador Costin Raiu, cofundador da empresa de resposta a incidentes TLP:Black, descreveu o cenário como uma corrida para explorar as falhas, com risco de invasões em larga escala.

Inteligência artificial ajudou a identificar falhas antigas

Duas empresas de cibersegurança, Calif e Wiz, afirmaram ter identificado as vulnerabilidades com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

A Calif informou que encontrou as falhas em 1º de agosto, utilizando um modelo de linguagem de grande porte, e que trabalhou desde então no desenvolvimento de uma solução.

Já a Wiz, empresa de segurança cibernética pertencente à Alphabet, controladora do Google, relatou o uso de sua ferramenta autônoma de pesquisa de vulnerabilidades, a Wiz Atlas, além de modelos de IA citados em seu relatório, incluindo tecnologias do Google e da OpenAI.

De acordo com a Wiz, as falhas permaneceram escondidas no código do PHP por mais de uma década. A empresa destacou que a identificação e a exploração desse tipo de problema exigiriam um trabalho técnico complexo sem o auxílio da inteligência artificial.

Com essas ferramentas, porém, tarefas que antes demandavam conhecimentos especializados e muito tempo podem ser realizadas com maior rapidez e em escala. As empresas disseram ter coordenado a descoberta com as equipes responsáveis pelo PHP e com a OpenAI.

A Casa Branca informou que foi comunicada sobre a vulnerabilidade na sexta-feira. Em declaração, o governo norte-americano afirmou que o caso demonstra a importância da inovação tecnológica para o fortalecimento da segurança nacional.

Países retiram sites do ar para evitar ataques

A divulgação das falhas provocou interrupções preventivas em serviços digitais de diferentes países europeus. Autoridades de segurança recomendaram a instalação das atualizações ou, quando isso não fosse possível, a suspensão temporária dos sites afetados.

Na Holanda, a própria agência nacional de segurança cibernética retirou seus serviços do ar preventivamente. A medida também atingiu o portal governamental Overheid.nl, o Porto de Roterdã, a associação nacional de futebol KNVB, páginas dos cinco maiores partidos políticos do país e sites de hospitais.

A enciclopédia on-line Wikipedia informou que suspendeu temporariamente um número não especificado de sistemas para permitir a aplicação segura das correções. O Internet Archive, biblioteca digital que reúne páginas da web e outros conteúdos, também relatou uma interrupção temporária para lidar com o problema.

Na Dinamarca, a empresa de tecnologia municipal Kombit desativou diversos serviços, incluindo a plataforma nacional de comunicação escolar.

Na Finlândia, a provedora estatal de serviços de tecnologia da informação Valtori retirou do ar serviços da rede pública governamental como medida de precaução.

Já o Ministério do Interior da França informou que todos os seus sites entraram em manutenção preventiva.

Especialistas alertam para ataques em larga escala

O alcance do PHP ajuda a explicar a preocupação internacional. De acordo com a W3Techs, empresa que monitora tecnologias utilizadas na internet, a linguagem está presente em aproximadamente 75% dos sites cuja tecnologia de programação pode ser identificada.

Para Lukasz Olejnik, pesquisador associado visitante do King’s College London, o uso de inteligência artificial por invasores pode acelerar a exploração das vulnerabilidades e ampliar o número de sistemas atingidos.

O risco tende a ser maior para sites menores, mantidos por pessoas ou organizações com recursos técnicos limitados. Em serviços de hospedagem compartilhada, por exemplo, os clientes geralmente não têm controle direto sobre os servidores responsáveis pela infraestrutura.

A Automattic, empresa que opera o WordPress.com, afirmou que os usuários de suas soluções hospedadas e do Tumblr estavam protegidos contra a falha.

Atualização dos sistemas é a principal medida de proteção

Diante do cenário, agências de segurança cibernética de diferentes países orientaram administradores de sites a verificar se seus servidores utilizam PHP e aplicar as correções recomendadas assim que possível.

Quando a atualização imediata não puder ser realizada, a orientação é avaliar a necessidade de suspender temporariamente os serviços expostos até que os sistemas estejam protegidos.

O episódio evidencia como a inteligência artificial na cibersegurança pode ter efeitos em duas frentes: contribuir para encontrar vulnerabilidades antigas e, ao mesmo tempo, facilitar a atuação de criminosos que tentam explorá-las.

Com a divulgação pública das correções, a rapidez na atualização dos servidores tornou-se um fator decisivo para reduzir os riscos de invasões e interrupções de serviços digitais.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Annegret Hilse

Ler Mais
Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook