Agronegócio

China muda estratégia para o agro e pode impactar o futuro do agronegócio brasileiro

A China iniciou uma nova fase de desenvolvimento para o setor agropecuário, adotando uma estratégia semelhante à que impulsionou sua expansão industrial nas últimas décadas. O foco agora está em pesquisa, tecnologia, biotecnologia e investimentos direcionados para fortalecer a produção agrícola e reduzir a dependência externa.

A avaliação é da especialista em China Larissa Wachholz, referência brasileira em relações sino-brasileiras, investimentos, infraestrutura, agronegócio e políticas públicas. Ela participou de um encontro com produtores rurais, empresários e representantes do setor de sementes que integram uma missão técnica ao país asiático. A agenda coincide com a implementação do 15º Plano Quinquenal, que transforma a agricultura e a inovação genética em prioridades estratégicas do governo chinês.

Segurança alimentar ganha papel estratégico em Pequim

Segundo Larissa, a segurança alimentar deixou de ser apenas uma política agrícola e passou a integrar diretamente a estratégia nacional de estabilidade econômica e social da China.

A preocupação se intensificou diante da necessidade de garantir o abastecimento de uma população de aproximadamente 1,4 bilhão de habitantes. Para o governo chinês, eventuais falhas no fornecimento de alimentos podem provocar impactos sociais e econômicos relevantes.

Esse cenário foi reforçado por uma sequência de crises. Entre 2017 e 2018, a peste suína africana reduziu drasticamente o rebanho de suínos do país. Em seguida vieram a pandemia de Covid-19 e o aumento das tensões comerciais com os Estados Unidos, evidenciando fragilidades na cadeia de suprimentos e acelerando os investimentos para ampliar a produção interna.

Envelhecimento da população pressiona produtividade

Outro fator que influencia a nova política agrícola é a mudança demográfica. O rápido envelhecimento da população chinesa, consequência da antiga política do filho único, aumenta a necessidade de ganhos de produtividade no campo.

Com menos pessoas em idade ativa nas próximas décadas, o governo aposta em automação, inovação e tecnologias capazes de elevar a eficiência da produção agrícola.

Além disso, Pequim busca diminuir sua dependência tecnológica em setores considerados estratégicos, incluindo o agronegócio.

Sementes e biotecnologia tornam-se prioridade nacional

Entre as principais mudanças está o fortalecimento da indústria de sementes. O governo atualizou a legislação, ampliou os investimentos em pesquisa, flexibilizou normas para organismos geneticamente modificados (OGMs) e direcionou recursos para empresas e centros de desenvolvimento.

Na visão da especialista, as sementes passaram a ocupar um papel semelhante ao dos chips na indústria tecnológica, tornando-se um dos ativos mais estratégicos para garantir produtividade e autonomia agrícola.

Planejamento de longo prazo acelera mudanças

O modelo chinês segue baseado em planejamento estatal de longo prazo. A cada cinco anos, o governo define metas econômicas, científicas e tecnológicas que orientam investimentos públicos, financiamento e políticas industriais.

Esse mecanismo ajuda a explicar a rapidez com que o país reorganiza setores considerados estratégicos.

A recuperação da suinocultura após a peste suína africana é apontada como exemplo. Mesmo diante do ceticismo internacional, a China reorganizou sua cadeia produtiva, investiu em digitalização, tecnologia e conseguiu acelerar a recomposição do rebanho dentro das metas estabelecidas.

China continuará importando alimentos, mas quer reduzir dependências

Apesar do fortalecimento da produção doméstica, a estratégia chinesa não significa o fim das importações de alimentos.

Segundo Larissa, o objetivo do governo é reduzir o crescimento da dependência externa, especialmente em produtos considerados estratégicos, e não interromper as compras internacionais.

A urbanização acelerada transformou os hábitos alimentares da população. Atualmente, cerca de 65% dos chineses vivem nas cidades, o que elevou significativamente o consumo de carnes, frutas e alimentos de maior valor agregado.

Esse movimento impulsionou o crescimento do agronegócio brasileiro, principalmente por meio das exportações de soja, utilizada na produção de ração animal.

Soja continua estratégica, mas demanda pode crescer em ritmo menor

Mesmo permanecendo como o maior comprador mundial de soja, a China intensifica investimentos em genética, melhoramento de sementes e aumento da produtividade para reduzir a necessidade de ampliar continuamente as importações.

Essa estratégia ajuda a explicar a projeção do Ministério da Agricultura da China, que estima importações de 95,5 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27, volume inferior ao registrado no ciclo anterior em razão da redução do plantel de matrizes suínas.

Para especialistas, o desafio para o Brasil não está na manutenção das exportações atuais, mas em compreender que a expansão da demanda chinesa tende a ocorrer em ritmo mais moderado.

Mudanças também criam oportunidades para o Brasil

As transformações na política agrícola chinesa podem abrir novas oportunidades para empresas brasileiras.

A transição energética conduzida pelo país asiático deve ampliar a demanda por matérias-primas destinadas à produção de combustíveis sustentáveis para aviação e navegação, além de favorecer mercados ligados ao etanol de milho, produtos de base biológica e novas soluções tecnológicas para o campo.

Nesse cenário, especialistas avaliam que o Brasil poderá fortalecer sua parceria com a China não apenas como fornecedor de commodities, mas também por meio da cooperação em inovação, tecnologia e competitividade no setor agropecuário.

FONTE: Forbes
TEXTO: Redação
IMAGEM: Getty Images

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