Logística

Maersk destaca resiliência como novo fator de eficiência logística

Eventos climáticos extremos, conflitos geopolíticos, mudanças nas rotas comerciais e limitações de infraestrutura estão transformando a forma como empresas avaliam a eficiência logística. Para Ricardo Rocha, presidente da Maersk para a Costa Leste da América do Sul, rapidez no transporte continua sendo importante, mas já não é suficiente diante das frequentes interrupções nas cadeias de abastecimento.

Em entrevista à Agência Transporte Moderno durante o ABX 2026, o executivo afirmou que as empresas precisam combinar velocidade, tecnologia, alternativas operacionais e capacidade de resposta para manter o fluxo de mercadorias mesmo quando uma etapa da cadeia é afetada.

Tarifas dos EUA alteram fluxo de cargas entre Brasil e América do Norte

Entre os impactos recentes sobre as operações da companhia estão as novas tarifas adotadas pelos Estados Unidos para produtos brasileiros.

Segundo Rocha, o volume de cargas transportadas entre a América do Norte e o Brasil caiu quase 30% no ano passado. A redução modificou a dinâmica dos serviços e trouxe desafios adicionais para a formação dos preços no transporte internacional de cargas.

O executivo ponderou que não é possível atribuir diretamente às tarifas um percentual específico de aumento nos custos logísticos da indústria automotiva. A Maersk atende diferentes setores e os efeitos da redução dos volumes são distribuídos entre as cadeias atendidas pela companhia.

O setor automotivo, porém, representa uma parcela importante da operação. De acordo com Rocha, a empresa responde por aproximadamente 30% da movimentação de importação e exportação, em contêineres, de peças e componentes relacionados à indústria automobilística.

Menor volume pode elevar custos da operação

A queda na demanda também afeta a utilização da capacidade disponível. Com menos cargas, as empresas podem precisar reorganizar embarcações, equipamentos e serviços, fazendo com que os efeitos das mudanças comerciais ultrapassem o impacto direto das tarifas.

Alterações nos volumes podem modificar a programação dos navios, a utilização de equipamentos e a estrutura de preços. Como consequência, os reflexos chegam a diferentes pontos das cadeias de abastecimento.

Nesse cenário, a definição de eficiência logística também passa por mudanças. Para Rocha, transportar uma carga rapidamente entre dois pontos continua sendo uma prioridade, mas é necessário ter capacidade para mudar rotas, acionar parceiros ou utilizar alternativas quando uma determinada estrutura deixa de funcionar.

Resiliência ganha espaço na estratégia logística

A Maersk considera a resiliência logística um componente cada vez mais importante da operação.

A experiência dos últimos anos reforçou essa necessidade. A pandemia de Covid-19 provocou fortes interrupções no comércio mundial e evidenciou a dependência das economias em relação ao transporte marítimo.

Segundo Rocha, cerca de 90% do comércio mundial é movimentado por via marítima. Outros episódios também expuseram a vulnerabilidade das cadeias globais, como o bloqueio do Canal de Suez, a redução do tráfego no Canal do Panamá provocada pela seca e os conflitos no Oriente Médio.

Esses acontecimentos podem alterar não apenas os tempos de trânsito, mas também a disponibilidade de navios e equipamentos, os custos e a programação das empresas.

Para a companhia, manter alternativas operacionais é fundamental para responder a interrupções que podem atingir grandes corredores internacionais ou estruturas locais de infraestrutura.

Seca na Amazônia impõe desafios ao abastecimento de Manaus

No Brasil, a região amazônica é um exemplo dos efeitos provocados pela combinação entre eventos climáticos e restrições de infraestrutura.

A estiagem e a redução do nível dos rios dificultam o abastecimento da indústria de Manaus, que depende fortemente do transporte fluvial. Com menor profundidade, os navios enfrentam restrições de calado e precisam adaptar suas operações.

Uma das alternativas adotadas pela Maersk foi deslocar, em parceria com outra empresa, a estrutura de atendimento do píer de Manaus para uma área localizada no meio do rio Amazonas. A medida permitiu a chegada dos navios mesmo diante das limitações de profundidade.

A solução, contudo, não elimina todos os impactos da seca. As embarcações podem chegar ao novo ponto de operação, mas não conseguem manter a mesma velocidade de carregamento e descarregamento registrada em condições normais.

Com isso, aumenta o tempo necessário para movimentar as mercadorias e, consequentemente, o custo logístico.

Empresa mantém diálogo com autoridades

Para enfrentar as limitações de navegação na região amazônica, a Maersk afirma manter diálogo com autoridades do Amazonas e do governo federal.

A empresa busca apresentar os impactos das condições de navegação sobre as cadeias de abastecimento e discutir os possíveis efeitos no curto, médio e longo prazo.

A companhia também trabalha na orientação dos clientes sobre como alterações nas condições de transporte podem interferir em suas operações.

Segundo Rocha, a construção de alternativas depende tanto de medidas internas quanto da cooperação com parceiros e autoridades. Em Manaus, o desafio é encontrar formas de manter o abastecimento industrial durante períodos de níveis mais baixos dos rios, ainda que algumas soluções impliquem custos adicionais e menor produtividade.

Infraestrutura precisa acompanhar crescimento da demanda

A necessidade de alternativas operacionais também está relacionada aos desafios estruturais da infraestrutura logística brasileira.

Rocha defende investimentos capazes de acompanhar o crescimento da movimentação de cargas, mas destaca a importância de regras claras e de condições previsíveis para o setor.

Na avaliação do executivo, a previsibilidade é necessária para que empresas possam planejar investimentos de longo prazo e para que os usuários tenham acesso a operações mais competitivas.

A transformação dos fluxos do comércio internacional aumenta a necessidade de ampliar a capacidade brasileira de movimentação de cargas. Parte da infraestrutura portuária do país, segundo Rocha, ainda utiliza equipamentos e instalações antigos em comparação com estruturas de mercados mais desenvolvidos.

A defasagem pode limitar a capacidade operacional e elevar custos, além de aumentar a exposição das cadeias de abastecimento a gargalos.

Maersk mantém investimentos no Brasil

Presente no Brasil há 50 anos, a Maersk continua realizando investimentos no país, segundo Rocha.

A empresa emprega mais de 3 mil pessoas e mantém operações em diferentes regiões brasileiras. O executivo cita aproximadamente R$ 2 bilhões em investimentos, incluindo projetos relacionados à eletrificação.

Os aportes ocorrem em um momento de transformação do setor de transporte, que busca ampliar a capacidade, reduzir custos, aumentar a eficiência e avançar na transição energética.

Nesse processo, a empresa também considera importante contar com maior previsibilidade regulatória para estruturar investimentos de longo prazo.

Tecnologia passa a apoiar decisões diante de rupturas

Além da infraestrutura física, a estratégia da Maersk envolve a utilização de tecnologia na logística.

A companhia procura integrar navios, equipamentos e demais ativos a sistemas tecnológicos e à atuação de parceiros. A proposta é criar alternativas quando uma rota é interrompida, um terminal sofre restrições ou um evento climático reduz a capacidade de determinada operação.

Nesse modelo, a tecnologia não serve apenas para acelerar processos ou acompanhar cargas. Ela também passa a contribuir para a tomada de decisões diante de situações de ruptura.

Para a Maersk, a eficiência logística passa, portanto, pela capacidade de manter o fluxo de mercadorias mesmo diante de imprevistos. A combinação entre rapidez, tecnologia, infraestrutura, parceiros e alternativas operacionais ganha espaço como estratégia para aumentar a resiliência das cadeias de abastecimento.

FONTE: Transporte Moderno
TEXTO: Redação
IMAGEM: Divulgação/Linkedin

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Logística

Logística argentina enfrenta limites estruturais e desafio de competitividade global

O debate sobre a logística argentina vai além da existência de infraestrutura e conhecimento técnico. O ponto central passa a ser a capacidade do país de transformar esses recursos em uma vantagem competitiva sustentável em um cenário internacional cada vez mais exigente, no qual apenas eficiência operacional já não basta.

De acordo com Gabriel García Polignano, integrante da direção da Asociación Argentina de Logística Empresaria (ARLOG), a Argentina ocupa posição intermediária na competitividade regional do setor. O país conta com operadores que seguem padrões internacionais, portos com escala relevante e expertise técnica consolidada.

Apesar disso, essas qualidades ainda não resultam em uma vantagem sistêmica estável.

Segundo o dirigente, o problema não é tecnológico, mas estrutural e organizacional. A fragmentação operacional, a baixa integração multimodal e gargalos em infraestrutura estratégica limitam o desempenho. O sistema, afirma, entrega resultados eficazes, porém nem sempre eficientes.

Custos logísticos e impacto nas exportações

A diferença entre eficácia e eficiência não é apenas conceitual — ela influencia diretamente os custos logísticos e a competitividade das exportações argentinas.

Polignano ressalta que a análise tradicional costuma se concentrar apenas na tarifa de transporte. Entretanto, o maior peso está nos custos indiretos acumulados ao longo da cadeia.

Entre os principais fatores estão:

  • Demoras em acessos rodoviários;
  • Congestionamentos em nodos portuários;
  • Falta de sincronia entre terminais e órgãos de controle;
  • Forte dependência do transporte rodoviário.

Esses elementos elevam os sobrecustos e reduzem a eficiência do sistema. Além disso, a instabilidade regulatória observada em determinados períodos dificultou o planejamento de longo prazo, ampliando o custo financeiro, o volume de estoque parado e diminuindo a rotatividade de ativos — fatores que acabam embutidos no preço final das cadeias exportadoras.

Transformações na logística global

Enquanto a Argentina busca superar suas fragilidades estruturais, o ambiente externo impõe novas pressões. Para Ricardo Ernesto Partal Silva, presidente da Organización Mundial de Ciudades y Plataformas Logísticas, o mundo atravessa uma mudança profunda na logística global.

Segundo ele, o comércio internacional já não opera sob as mesmas regras. Fatores geopolíticos, demográficos, tecnológicos e até geológicos estão redesenhando fluxos e cadeias produtivas. Não se trata de uma crise passageira, mas de uma transição de era que exige um novo programa de resiliência logística.

Eventos climáticos e tensões geopolíticas redesenham rotas

Os sinais dessa transformação são concretos. A histórica redução do nível de água no Canal do Panamá alterou rotas transoceânicas e forçou o redesenho de cargas e itinerários.

Eventos extremos, como secas e inundações, têm comprometido corredores terrestres tradicionais. Atividades vulcânicas podem suspender o tráfego aéreo em poucas horas, enquanto fenômenos solares representam risco para sistemas de navegação e comunicações via satélite.

No campo geopolítico, a rivalidade entre China e Estados Unidos impulsiona a relocalização produtiva e a reorganização das cadeias de suprimentos. Nesse novo cenário, a prioridade deixa de ser apenas eficiência e passa a incluir segurança estratégica de rotas marítimas e corredores críticos.

A pandemia de COVID-19 foi, segundo Partal Silva, um ensaio geral das vulnerabilidades do sistema. Ele destaca que a logística contemporânea depende de “fios invisíveis” frágeis, como cadeias tecnológicas e biológicas suscetíveis a interrupções. A inteligência artificial, embora prometa otimização de rotas, também cria novas dependências em um contexto de escassez de insumos essenciais para semicondutores.

Modernização e resiliência como agenda estratégica

Diante de desafios internos e externos, a modernização da logística argentina ganha caráter estratégico.

Para Polignano, o foco não deve ser apenas ampliar capacidade física, mas reorganizar a arquitetura operacional do sistema. Entre as prioridades estão:

  • Investimentos técnicos em infraestrutura crítica;
  • Simplificação e digitalização integral de processos administrativos;
  • Incentivo à multimodalidade com critérios de eficiência econômica;
  • Estabilidade regulatória que gere confiança para investimentos de médio e longo prazo.

Partal Silva reforça que a resposta não pode ser fragmentada ou meramente reativa. Ele defende a implementação sistemática de estratégias preventivas, incluindo programas de resiliência e diversificação de rotas — marítimas, fluviais, terrestres e aéreas — para reduzir dependência de um único corredor logístico.

A construção de alternativas concretas e viáveis, e não soluções teóricas, será determinante para que a logística argentina avance em competitividade em um ambiente global cada vez mais complexo.

FONTE: Ser Industria
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Ser Industria

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