Economia

Ibovespa cai 18,12% após eleição de Lula e registra uma das maiores perdas semanais do século

A forte queda da Bolsa brasileira após o resultado das eleições de 2026 colocou o Ibovespa entre os episódios de maior desvalorização semanal desde o início do século. Na semana encerrada na sexta-feira (30), o principal índice da B3 recuou 18,12%, desempenho que o aproximou de períodos históricos de turbulência nos mercados, como a crise financeira de 2008, a pandemia de Covid-19 e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

O movimento chamou a atenção pela intensidade e pela velocidade da desvalorização. Em apenas cinco pregões, o mercado brasileiro devolveu parte expressiva da valorização acumulada nas semanas anteriores, quando investidores apostavam em um cenário eleitoral diferente.

Nos episódios de 2001 e 2008, as perdas foram impulsionadas principalmente por crises internacionais e pelo aumento da aversão ao risco. Em 2020, a pandemia provocou um ambiente de incerteza sem precedentes sobre a atividade econômica mundial.

Já em 2026, especialistas apontam que a queda também precisa ser entendida a partir da valorização que antecedeu o resultado eleitoral.

Eleição de Lula provoca reversão das apostas no mercado financeiro

De acordo com Rafael Cagnin, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), o comportamento recente da Bolsa está relacionado à mudança nas expectativas dos investidores durante o processo eleitoral.

Depois do primeiro turno, parte do mercado passou a considerar mais provável uma vitória de Flávio Bolsonaro. Com isso, investidores ampliaram posições baseadas na expectativa de uma política econômica com maior compromisso com o ajuste das contas públicas.

Esse movimento contribuiu para levar o Ibovespa acima dos 209 mil pontos em outubro.

Entretanto, a reeleição de Lula contrariou as projeções de parte dos agentes financeiros e provocou uma rápida desmontagem dessas posições.

Na segunda-feira (26), o índice despencou 13,88%, levando a B3 a acionar o mecanismo de circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia. A pressão continuou nos pregões seguintes, resultando em uma perda semanal de 18,12%.

Para Cagnin, a intensidade da queda está diretamente relacionada à velocidade da valorização anterior, que não encontrou paralelo nos outros grandes episódios de crise analisados.

Crise de 2008: subprime provocou a maior queda semanal do século

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A maior desvalorização semanal do Ibovespa neste século ocorreu em outubro de 2008, durante o agravamento da crise financeira internacional. Na semana encerrada em 10 de outubro, o índice acumulou queda de 20,01%, com todos os cinco pregões fechando no negativo.

O cenário era marcado pelo colapso do mercado imobiliário norte-americano e pela deterioração do sistema financeiro mundial.

A falência do banco Lehman Brothers, em 15 de setembro daquele ano, ampliou a desconfiança entre instituições financeiras e provocou uma corrida por liquidez nos mercados internacionais.

Segundo Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o Brasil chegou à crise em condições relativamente diferentes das observadas no início dos anos 2000.

A economia mundial vinha de um período de expansão, impulsionado principalmente pelo crescimento da China e de outros países emergentes. O Brasil também apresentava indicadores econômicos mais favoráveis e havia conquistado o grau de investimento em 2008.

A origem da turbulência, porém, estava relacionada ao período de juros baixos nos Estados Unidos, à expansão do crédito imobiliário e à concessão de financiamentos a tomadores com maior risco.

Quando a bolha imobiliária entrou em colapso, os efeitos se espalharam rapidamente para outros mercados.

Rafael Cagnin explica que a desvalorização brasileira naquele momento foi resultado principalmente do contágio internacional e da redução da exposição dos investidores a ativos considerados arriscados.

O Brasil entrou em recessão em 2009, mas voltou a apresentar crescimento econômico expressivo no ano seguinte.

Pandemia de Covid-19 provocou queda de 18,88% no Ibovespa

Outro episódio de forte turbulência aconteceu em março de 2020, quando o avanço da pandemia de coronavírus alterou profundamente as perspectivas para a economia mundial.

Na semana encerrada em 20 de março, o Ibovespa perdeu 18,88%.

Diferentemente de uma crise financeira tradicional, a pandemia criou dúvidas sobre a duração das restrições econômicas, os impactos sobre o emprego e a renda e o volume de recursos que os governos precisariam mobilizar para enfrentar a emergência sanitária.

Cagnin descreve aquele momento como um período de absoluta incerteza, no qual investidores não conseguiam dimensionar os efeitos da paralisação de atividades em diversos países.

A velocidade da deterioração ficou evidente na Bolsa brasileira: até 18 de março, a B3 havia acionado o circuit breaker seis vezes em apenas oito pregões.

Agostini destaca que a pandemia encontrou o Brasil em um processo de recuperação ainda incompleto após a recessão de 2015 e 2016. Embora a economia tivesse voltado a crescer, a retomada ainda estava em andamento quando o choque sanitário atingiu o país.

Ataques de 11 de Setembro também provocaram forte queda na Bolsa

Em setembro de 2001, os ataques terroristas nos Estados Unidos provocaram outra onda de instabilidade nos mercados internacionais.

No próprio dia 11 de setembro, o Ibovespa chegou a registrar uma queda de 9,17% em pouco mais de uma hora de negociação, antes do encerramento antecipado das operações. Na ocasião, não houve acionamento formal do circuit breaker.

Ao longo daquela semana, a desvalorização acumulada chegou a 18,12%.

O Brasil atravessava um período de ajustes econômicos após a mudança do regime cambial, ocorrida em 1999. A desvalorização do real pressionava a inflação, os juros permaneciam elevados e o país possuía reservas internacionais menores do que nos anos posteriores.

Além disso, a economia enfrentava uma crise energética, que levou à adoção de medidas de racionamento de eletricidade. Naquele momento, o Brasil também ainda não havia conquistado o grau de investimento.

Para Cagnin, assim como ocorreu em 2008, a queda refletiu principalmente o aumento da aversão internacional ao risco.

No ano seguinte, a perspectiva de uma possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais também provocou incertezas entre investidores e contribuiu para a desvalorização do real.

A percepção do mercado começou a mudar posteriormente, quando surgiram sinalizações sobre a condução da política econômica durante a transição para o novo governo.

Queda de 2026 é vista como correção de expectativas

Apesar de apresentar uma magnitude semelhante à observada em grandes crises internacionais, a desvalorização de 2026 possui características próprias.

Na avaliação de Rafael Cagnin, a diferença está na origem do movimento. Enquanto os episódios anteriores representaram mudanças mais profundas nas condições econômicas e financeiras, a queda atual parece estar relacionada principalmente à revisão das expectativas eleitorais.

O economista avalia que o mercado inicialmente atribuiu probabilidade elevada a um cenário político considerado mais favorável à consolidação fiscal. Depois do resultado das urnas, os investidores revisaram rapidamente suas posições.

Com isso, o Ibovespa retornou a níveis próximos daqueles registrados antes da forte valorização associada ao chamado trade eleitoral.

Agora, as atenções se voltam para as decisões econômicas do próximo mandato, especialmente em relação ao equilíbrio das contas públicas, ao controle da dívida e à velocidade de implementação de medidas fiscais.

Risco fiscal e incertezas econômicas aumentam pressão sobre o mercado

O economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e atualmente ligado ao Policy Center for the New South, identifica um elemento comum entre os quatro episódios históricos: o chamado overshooting.

O conceito descreve movimentos exagerados nos preços dos ativos, que podem ocorrer quando investidores reagem intensamente a mudanças nas expectativas e nas condições econômicas.

No cenário atual, Canuto relaciona a queda ao aumento do prêmio de risco e à redução da confiança dos investidores na possibilidade de implementação de um programa consistente de ajuste fiscal.

O especialista também estabelece uma comparação com a transição presidencial entre 2002 e 2003. Naquele período, sinalizações consideradas confiáveis sobre a condução econômica ajudaram a modificar a percepção do mercado.

Alex Agostini também aponta as contas públicas como um dos principais fatores que deverão influenciar o comportamento dos ativos brasileiros nos próximos anos.

Entre os pontos de atenção estão:

  • Política fiscal: capacidade do governo de controlar despesas e buscar o equilíbrio das contas públicas.
  • Dívida pública: trajetória do endividamento e custo de financiamento do governo.
  • Taxa de juros: impacto dos juros elevados sobre empresas, investimentos e atividade econômica.
  • Congresso Nacional: articulação política necessária para aprovar medidas econômicas.

Para Agostini, o mercado financeiro trabalha com expectativas futuras. Por isso, as perspectivas para 2027 e os anos seguintes já começam a influenciar a precificação dos ativos.

Cenário internacional também influencia o futuro do Ibovespa

Além das questões domésticas, o mercado brasileiro enfrenta um ambiente externo marcado por incertezas.

Jason Vieira, economista-chefe da Lev, chama a atenção para a movimentação de carteiras entre diferentes setores e para os questionamentos relacionados ao volume de investimentos em inteligência artificial.

Na avaliação do economista, ainda é difícil antecipar os próximos movimentos da Bolsa, uma vez que o comportamento dos investidores dependerá das sinalizações econômicas apresentadas pelo governo.

Os anúncios relacionados à política fiscal serão especialmente importantes para determinar a percepção de risco dos agentes financeiros.

Depois de uma semana de perdas de 18,12%, a principal dúvida é se a queda representou apenas uma correção das posições construídas antes da eleição ou se o mercado passará a trabalhar com um novo patamar de risco para os investimentos no Brasil.

FONTE: InfoMoney
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/InfoMoney

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