Comércio

Alta do whey protein trava negócios e impulsiona mercado de colágeno no Brasil

A disparada no preço do whey protein começa a provocar efeitos em diferentes segmentos da indústria de alimentos e suplementos no Brasil. O aumento da procura por proteínas em meio à popularização das canetas emagrecedoras e dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, elevou a pressão sobre uma matéria-prima que já enfrenta restrições de oferta.

O impacto chegou ao mercado de suplementos. Segundo apuração do InvestNews, o processo de venda da Growth, considerada uma das maiores empresas brasileiras do setor, está paralisado diante da forte volatilidade no custo do whey.

A matéria-prima chegou a quase triplicar de preço no mercado internacional, dificultando a avaliação de empresas cujo desempenho depende diretamente das margens obtidas com produtos à base de proteína do soro do leite.

Preço do whey interrompe negociações no setor

A Growth entrou no radar para uma possível venda no ano passado. Em agosto, a Merama, holding latino-americana de marcas de consumo, contratou o Goldman Sachs para conduzir o processo, que tinha uma avaliação inicial de R$ 4 bilhões.

Com a escalada dos custos do whey, porém, as negociações foram interrompidas e permanecem “on hold”, expressão utilizada pelo mercado financeiro para processos temporariamente suspensos.

A situação também afeta o Grupo Supley, concorrente da Growth e proprietário das marcas Max Titanium, Probiótica e Dr. Peanut. A companhia havia contratado o Itaú BBA, em 2024, para analisar alternativas de captação, incluindo uma eventual abertura de capital, mas nenhuma operação foi concluída até agora.

A alta e a instabilidade da principal matéria-prima do setor reduziram o interesse de potenciais compradores. Mesmo empresas com faturamento bilionário passaram a enfrentar maior dificuldade para serem avaliadas, já que a oscilação do whey interfere diretamente nas margens e nas perspectivas futuras do negócio.

Empresas menores atraem compradores

Diante do cenário, investidores financeiros e estratégicos passaram a olhar com mais atenção para empresas menores de suplementos, em operações nas quais a marca e a rede de distribuição têm peso maior do que a escala industrial.

Um exemplo foi a aquisição de uma participação na Dux pelo fundo XP Private Equity II, da XP Asset, por R$ 250 milhões. A operação ocorreu no ano passado, antes de a atual crise de oferta do whey ganhar maior intensidade.

Outro movimento foi a compra da Bold, fabricante de barras de proteína, pelo Grupo Ferrero, proprietário da Nutella, em março.

Nesses negócios, a exposição à alta do whey tende a ser menor porque o valor da operação está mais associado à força da marca e à distribuição do que à capacidade produtiva da indústria.

Danone aumenta produção para atender demanda

Enquanto parte do mercado enfrenta dificuldades, a Danone adotou uma estratégia diferente e decidiu ampliar sua capacidade industrial no Brasil.

A companhia francesa está expandindo as fábricas de Poços de Caldas, em Minas Gerais, para acompanhar o crescimento do consumo de alimentos ricos em proteína.

O CEO da operação brasileira, Tiago Santos, afirmou à Folha de S.Paulo que pretende fazer com que as vendas no país avancem em ritmo superior ao crescimento registrado pela matriz.

Um dos principais produtos beneficiados por essa tendência é o YoPRO, bebida láctea que combina whey protein e caseína. O produto já ocupa a segunda posição entre os mais vendidos da Danone no Brasil, atrás apenas do iogurte tradicional da companhia e à frente de marcas como Activia e Danoninho.

Mercado de suplementos movimenta bilhões

O crescimento do consumo ajuda a dimensionar o tamanho da oportunidade. De acordo com a Brasnutri, com dados da Euromonitor, o mercado brasileiro de suplementos alimentares movimentou aproximadamente R$ 7,6 bilhões em 2025.

O resultado representa uma alta de 15% em relação ao ano anterior. A projeção da entidade indica que o setor poderá alcançar R$ 13,8 bilhões em faturamento até 2030.

O Brasil já aparece entre os maiores mercados globais de suplementos esportivos, ocupando a quinta posição. Em whey protein, o país é o quarto maior mercado mundial, enquanto em creatina está na terceira colocação.

Por que o whey protein ficou tão caro?

O whey protein é obtido a partir do soro do leite, um subproduto da fabricação de queijo. O líquido contém proteínas do leite, principalmente whey e caseína, mas precisa passar por processos industriais de filtragem e concentração para se transformar no suplemento consumido atualmente.

Durante muito tempo, o soro tinha baixo valor comercial e, em alguns casos, chegava a ser descartado. A evolução do processamento transformou esse material em uma matéria-prima de alto valor para a indústria de alimentos e suplementos.

O problema atual está na relação entre oferta e demanda. O consumo de whey cresceu rapidamente, mas a produção de leite e queijo não acompanhou na mesma velocidade.

Como o soro depende da fabricação de queijo, ampliar significativamente a oferta de whey exige aumentar também a produção de queijo. Isso pode gerar excedentes em um mercado que não necessariamente apresenta a mesma expansão.

Concentrado de whey quase triplica de preço

O desequilíbrio entre oferta e procura provocou uma forte valorização da matéria-prima.

Segundo a consultoria Vesper, o whey protein concentrado 80%, uma das versões mais utilizadas pela indústria, ultrapassou US$ 13 por libra, equivalente a 453,5 gramas, nos Estados Unidos. O valor representa quase o triplo do registrado um ano antes.

O whey isolado, que possui concentração ainda maior de proteína, também teve alta expressiva e avançou cerca de 50% no mesmo período.

A indústria de laticínios dos Estados Unidos vem reagindo ao cenário com investimentos estimados em US$ 11 bilhões até 2028 para aumentar a produção. Os efeitos sobre a oferta, entretanto, devem aparecer somente posteriormente.

Colágeno ganha espaço como alternativa

A crise do whey também abriu uma oportunidade para outro mercado de proteínas: o colágeno.

Grandes frigoríficos brasileiros, como JBS e MBRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, vêm investindo centenas de milhões de reais para transformar o colágeno em um ingrediente de maior valor agregado.

A matéria-prima é obtida a partir de subprodutos do abate bovino e do couro. Assim como ocorreu com o soro do leite, um material que antes tinha baixo aproveitamento passou a ser valorizado pela indústria de alimentos e ingredientes funcionais.

O colágeno também apresenta uma vantagem industrial: pode ser incorporado com facilidade a diferentes produtos, incluindo bebidas funcionais, alimentos saudáveis e produtos com alto teor de proteína.

JBS e MBRF ampliam produção de colágeno

A JBS criou a Genu-in em 2022, dentro de um plano de investimentos de R$ 400 milhões. A fábrica de colágeno em Presidente Epitácio, no interior de São Paulo, já opera próxima do limite e tem uma nova expansão em preparação.

A MBRF, por sua vez, investiu R$ 312,5 milhões na compra de 50% da Gelprime, que possui uma fábrica em Londrina, no Paraná. A companhia prevê ainda aplicar R$ 187,5 milhões na expansão da unidade.

O objetivo é dobrar a capacidade de produção até 2030 e transformar a unidade em um dos maiores complexos mundiais de colágeno e gelatina.

Proteína vira oportunidade em diferentes mercados

A lógica econômica ajuda a explicar os investimentos. Os peptídeos de colágeno podem apresentar margens próximas de 30%, enquanto a atividade tradicional de proteína animal trabalha com margens de apenas um dígito.

JBS e MBRF identificam o avanço dos medicamentos GLP-1 como um dos fatores que impulsionam a procura por produtos proteicos.

A diferença é que o colágeno não depende da cadeia de produção de queijo para ser obtido. Com isso, enquanto a oferta limitada de whey pressiona fabricantes de suplementos e trava algumas negociações no setor, o colágeno aparece como uma alternativa com potencial de crescimento dentro da nova onda de consumo de proteínas e alimentos funcionais.

FONTE: Invest News
TEXTO: Redação
IMAGEM: Ilustração João Brito

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Comércio Exterior

EUA aumentam importação de carne bovina mesmo com tarifas, diz Wesley Batista

Os Estados Unidos não produzem carne suficiente para atender à demanda doméstica e, por isso, precisam recorrer cada vez mais às importações de carne bovina. A avaliação é do empresário Wesley Batista, membro da família controladora da JBS, em entrevista ao Financial Times.

Produção insuficiente e preços recordes

Segundo Batista, a produção americana não consegue acompanhar o consumo em meio ao aumento das dietas ricas em proteína. “Os EUA enfrentam o preço da carne bovina mais alto da história e precisam importar mais e mais porque a produção não é suficiente para sustentar a demanda”, afirmou.

Dados do Departamento do Trabalho dos EUA mostram que, em agosto, o preço médio da libra de carne moída chegou a US$ 6,32, um salto de 13% em um ano.

Importações crescem apesar do tarifaço

Mesmo após a decisão do presidente Donald Trump, em abril, de aplicar tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, as compras externas de carne pelos EUA subiram 30% no primeiro semestre de 2025, em comparação ao mesmo período do ano anterior.

No caso do Brasil, as exportações para os EUA avançaram 91% até julho, mas registraram queda em agosto, refletindo o impacto das sobretaxas.

Impacto limitado na JBS

Com nove unidades de produção nos EUA, a JBS mantém metade de sua receita global de US$ 77 bilhões no mercado americano. Por isso, as tarifas não têm afetado significativamente o grupo, já que grande parte da carne vendida no país é produzida localmente.

Proteína ganha espaço nas dietas

Batista também associou a alta demanda por proteína ao uso crescente de medicamentos para emagrecimento à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro.

“Ninguém sabe exatamente qual é o impacto desses novos remédios, mas algo está acontecendo, porque a proteína virou uma tendência”, disse o empresário.

Levantamento do International Food Information Council confirma a mudança no comportamento alimentar: 71% dos consumidores nos EUA disseram ter aumentado a ingestão de proteína em 2024, frente a 67% em 2023 e 59% em 2022.

Relação Brasil-EUA e negociações comerciais

De acordo com O Globo e Folha de S.Paulo, Wesley Batista foi recebido por Trump semanas antes de o presidente americano sinalizar publicamente abertura ao diálogo com Lula, na Assembleia Geral da ONU.

O empresário teria papel central na aproximação entre os dois governos, em meio às negociações brasileiras para reduzir tarifas e ampliar a lista de isenções — que poderia incluir justamente a carne bovina.

FONTE: InfoMoney
TEXTO: Redação
IMAGEM: Divulgação/J&F

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