Internacional

Polônia e países bálticos reforçam segurança de infraestrutura diante de temor de ataque russo

Polônia e países bálticos ampliaram a proteção de infraestruturas críticas, como usinas de energia, barragens, terminais de gás e conexões elétricas, diante do receio de que a Rússia possa promover um ataque de falsa bandeira usando drones de origem ucraniana.

A preocupação cresce entre os vizinhos do norte da Rússia que integram a OTAN. Lituânia, Letônia e Estônia, além da Polônia, vêm alertando para o risco de sabotagem e operações híbridas destinadas a testar a capacidade de resposta da aliança militar.

Na semana passada, a Lituânia afirmou que Moscou poderia estar avaliando a realização de uma ação desse tipo. Os governos de Polônia, Letônia e Estônia também vêm alertando para possíveis operações de sabotagem em um momento de incertezas sobre o compromisso dos Estados Unidos com a OTAN.

O Kremlin rejeita as acusações. O porta-voz Dmitry Peskov classificou como “histórias para assustar” os alertas sobre possíveis ataques clandestinos russos, afirmando que essas alegações seriam utilizadas para justificar a militarização contra Moscou.

Mesmo assim, os quatro países decidiram reforçar a proteção de suas instalações estratégicas.

Lituânia coloca forças militares em pontos estratégicos

A Lituânia mobilizou militares para auxiliar a polícia na proteção de instalações consideradas essenciais para sua segurança energética.

Entre os locais protegidos estão o terminal de gás natural liquefeito (GNL), o terminal de derivados de petróleo, uma importante conexão elétrica com a Polônia e a usina hidrelétrica reversível de Kruonis.

O ministro da Defesa da Lituânia, Robertas Kaunas, afirmou que o país está acompanhando as informações disponíveis e reforçando a cooperação com os serviços de inteligência.

Segundo ele, a movimentação tem também o objetivo de deixar claro que o país está preparado para reagir caso seja necessário.

Letônia amplia vigilância sobre barragens e armazenamento de gás

Na Letônia, as autoridades elevaram o nível de segurança em instalações de infraestrutura energética, incluindo uma barragem no rio Daugava, próxima à capital Riga, e a unidade subterrânea de armazenamento de gás de Incukalns.

O primeiro-ministro letão, Andris Kulbergs, afirmou que a possibilidade de uma ameaça híbrida é hoje maior do que no passado.

A preocupação aumentou depois que Moscou acusou os países bálticos de planejarem permitir que drones ucranianos fossem lançados contra território russo a partir de seus territórios. Os governos da região negaram as acusações e protestaram contra as declarações russas.

Inteligência avalia possibilidade de ataque de falsa bandeira

Segundo um integrante de um serviço de inteligência báltico ouvido pela Reuters, avaliações indicam que órgãos de inteligência militar e doméstica russos estariam estudando uma possível operação contra infraestruturas na Rússia, nos países bálticos ou na Polônia.

A hipótese levantada é de utilização de drones de fabricação ucraniana para criar a aparência de que Kiev estaria por trás de uma ação contra instalações estratégicas.

O principal temor, segundo essa avaliação, não está necessariamente nos danos materiais imediatos, mas no impacto político que uma operação desse tipo poderia provocar dentro da OTAN.

Uma eventual atribuição do ataque à Ucrânia poderia desencadear debates entre os países europeus e os Estados Unidos sobre a resposta adequada e até sobre a necessidade de uma reação coletiva.

Outra fonte regional, porém, ponderou que as advertências dos serviços de inteligência aliados não significam que um ataque seja iminente. Segundo essa avaliação, as ações poderiam ocorrer em qualquer momento — ou nunca acontecer.

Polônia monitora rotas de gás e instalações de energia

A Polônia também elevou a atenção sobre sua infraestrutura energética.

A Orlen, principal empresa polonesa dos setores de petróleo e gás, avalia alternativas para a importação de gás caso as rotas atualmente utilizadas sejam comprometidas.

A companhia recebe cerca de 80% do gás importado pelo país por meio do terminal de gás natural liquefeito de Swinoujscie, no litoral do Mar Báltico, e de um gasoduto submarino conectado à Noruega, cuja chegada ao território polonês ocorre nas proximidades.

A Gaz-System, responsável pela infraestrutura, informou que opera com nível elevado de vigilância e acompanha a evolução do cenário geopolítico.

Documentos falsificados aumentam preocupação com usina nuclear

Outro episódio chamou a atenção das autoridades polonesas. A empresa estatal responsável pelo desenvolvimento da primeira usina nuclear da Polônia, a Polskie Elektrownie Jadrowe, identificou documentos falsificados que poderiam confundir parceiros e outras partes envolvidas no projeto.

Segundo a companhia, os materiais aparentemente teriam origem em algum ponto a leste da Polônia.

O caso está sendo investigado em conjunto com os serviços de segurança e as forças de aplicação da lei. A empresa também aumentou o monitoramento do futuro local de construção diante da possibilidade de sabotagem ou outras ameaças.

Conexão elétrica com a Ucrânia também recebe proteção

O operador da rede elétrica polonesa e uma unidade das Forças Armadas começaram, em julho, a reforçar a segurança de uma conexão de energia com a Ucrânia.

A ligação tem papel importante para ajudar a estabilizar o sistema elétrico ucraniano, que vem sendo alvo de ataques russos desde o início da guerra.

O operador da rede informou que considera o local uma área que exige vigilância reforçada e que está utilizando os recursos disponíveis para protegê-lo. A expectativa é que os militares também possam ampliar a atuação na proteção de outras infraestruturas críticas no leste da Polônia.

Drones misteriosos elevam alerta em outros países europeus

A preocupação com drones e ameaças híbridas não se limita ao leste europeu.

Na Alemanha, autoridades encontraram na semana passada um drone equipado com explosivos no aeroporto de Leipzig/Halle. O ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, classificou o episódio como um possível ataque híbrido, mas não apontou oficialmente um responsável.

Moscou rejeitou as acusações feitas por políticos e veículos de comunicação alemães que associaram o episódio à Rússia.

Para Wojciech Kononczuk, diretor do Centro de Estudos Orientais (OSW), financiado pelo governo polonês, a sequência de acusações russas contra os países bálticos pode estar criando uma narrativa que eventualmente seria utilizada para justificar uma ação contra a região.

Rússia busca pressionar Europa, avalia especialista

Na avaliação de Kononczuk, a situação ocorre em um contexto no qual as forças russas continuam concentradas na guerra da Ucrânia, enquanto ataques ucranianos contra instalações de energia e outras estruturas dentro da Rússia provocam impactos econômicos.

Nesse cenário, uma eventual operação de desestabilização contra países europeus poderia ser usada por Moscou para tentar recuperar a iniciativa estratégica.

A mensagem, segundo o especialista, seria de que a Europa poderia enfrentar novas ações de desestabilização caso não aceite as exigências russas.

A estratégia, porém, envolveria riscos elevados, especialmente porque dependeria da percepção de que os países europeus e seus aliados teriam pouca disposição para responder de forma coordenada.

FONTE: Reuters
TEXTO: Redação
IMAGEM:  REUTERS/Ints Kalnins

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