Comércio Internacional

Tarifas dos EUA sobre o Brasil podem ampliar espaço da China no mercado americano, alertam empresas

Representantes da indústria brasileira defenderam, durante audiências realizadas no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros pode gerar um efeito contrário ao esperado: fortalecer a presença da China e de outros concorrentes no mercado norte-americano.

A avaliação foi apresentada por entidades empresariais que participaram do segundo dia de debates sobre a proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre determinados produtos importados do Brasil, sob a justificativa de supostas práticas comerciais consideradas desleais.

Setor de máquinas teme perda de mercado para concorrentes asiáticos

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) argumentou que uma eventual sobretaxa reduziria a competitividade das empresas brasileiras e abriria espaço para fornecedores estrangeiros.

Segundo Patrícia Gomes, diretora-executiva de Mercados Externos da entidade, em alguns segmentos a China seria a principal beneficiada, enquanto, em outros casos, países como Índia e Coreia do Sul também poderiam substituir os produtos brasileiros.

A associação destacou ainda que boa parte das máquinas exportadas pelo Brasil possui características específicas, sendo fabricadas sob encomenda e atendendo rigorosos padrões de certificação, o que dificulta uma substituição imediata por outros fornecedores.

Outro argumento apresentado ao USTR foi a falta de capacidade da indústria norte-americana para suprir integralmente a demanda por diversos equipamentos atualmente importados do Brasil.

Comércio entre empresas do mesmo grupo pode ser afetado

A Abimaq informou que cerca de 82% das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos em 2024 ocorreram entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, envolvendo companhias brasileiras com operações nos Estados Unidos e empresas norte-americanas instaladas no Brasil.

Na avaliação da entidade, uma nova tarifa prejudicaria investimentos dos dois lados, além de comprometer cadeias produtivas integradas.

A associação também lembrou que os Estados Unidos registram um superávit de aproximadamente US$ 1,2 bilhão na balança comercial bilateral desse segmento.

Indústria calçadista defende diversificação de fornecedores

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) ressaltou que o Brasil representa uma alternativa estratégica para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação aos fornecedores asiáticos.

Atualmente, o mercado norte-americano consome mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano, enquanto sua produção doméstica responde por apenas cerca de 1% dessa demanda. A China lidera as exportações para os EUA, com participação próxima de 48%.

Para a entidade, uma tarifa adicional elevaria os custos para importadores, reduziria a diversidade de fornecedores e ampliaria a concentração das compras em mercados já dominantes.

Audiências tiveram caráter técnico

O advogado Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil, avaliou que as audiências ocorreram em um ambiente técnico, com foco na apresentação de documentos, estatísticas e esclarecimentos sobre os impactos econômicos das medidas.

Segundo relatos de participantes, embora os argumentos brasileiros tenham sido bem recebidos, a tendência é que o USTR apenas ajuste parte das informações do processo, mantendo a possibilidade de adoção de novas tarifas. A decisão final, no entanto, dependerá do governo do presidente Donald Trump.

Setor cafeeiro pede manutenção da isenção

As entidades que representam a cadeia do café brasileiro solicitaram que o governo norte-americano mantenha a isenção tarifária para o café verde, torrado, moído e estenda o benefício também ao café solúvel.

A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) destacou que o produto é utilizado em diversos segmentos da indústria alimentícia dos Estados Unidos, como bebidas prontas, panificação, confeitaria e laticínios.

A entidade afirmou ainda que o Brasil responde por cerca de 22% das importações americanas de café solúvel e alertou que uma tarifa de 25% elevaria custos para empresas e consumidores.

Segundo a Abics, Brasil e México concentram quase 60% das importações norte-americanas do produto, sendo que o café mexicano apresenta preços significativamente superiores ao brasileiro.

Mel orgânico também preocupa exportadores

A Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel) afirmou que o Brasil fornece aproximadamente 75% do mel orgânico importado pelos Estados Unidos, mercado no qual praticamente não existe produção local.

Atualmente o produto já é tributado em 12,5%. Caso a nova tarifa seja confirmada, a carga total chegaria a 37,5%.

O setor argumentou que a importação do mel brasileiro movimenta toda a cadeia econômica norte-americana e recebeu apoio de empresas dos próprios Estados Unidos durante as audiências.

Arroz e agronegócio destacam impactos econômicos

Representantes da indústria do arroz alertaram que uma eventual sobretaxa afetaria pequenas e médias empresas norte-americanas voltadas ao mercado latino, além de elevar custos logísticos e pressionar os preços ao consumidor.

Já a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou dados indicando redução de 56% no desmatamento da Amazônia Legal entre 2011 e 2025, contestando críticas sobre práticas ambientais atribuídas ao agronegócio brasileiro.

Etanol entra na pauta das discussões

No setor de biocombustíveis, o governo dos Estados Unidos sustenta que o Brasil dificulta a entrada do etanol norte-americano por meio de tarifas.

Em resposta, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirmou que a tributação brasileira segue as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e não configura medida discriminatória.

Já a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) atribuiu a perda de participação do etanol dos EUA no mercado brasileiro a fatores como câmbio, custos logísticos e ao crescimento da produção nacional.

Decisão será conhecida nos próximos dias

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos deverá concluir a investigação e anunciar sua decisão até 15 de julho. O resultado poderá definir o futuro das exportações brasileiras para o mercado norte-americano e influenciar diversos setores da indústria e do agronegócio.

FONTE: Valor International
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Datamar News

Ler Mais
Comércio Exterior, Exportação

Abimaq: Tarifaço deve zerar exportação de máquinas aos EUA

A sobretaxa dos Estados Unidos a produtos brasileiros deve levar as empresas de máquinas a parar de exportar para o mercado norte-americano a partir de setembro, segundo a diretora de competitividade, economia e Estatística da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), Cristina Zanella.

“A gente está vendo o agravamento da desaceleração (nas vendas) por causa das tarifas extras de 40% sobre máquinas e equipamentos anunciadas pelo governo Trump (que se somam à taxa mínima de 10%). Vai ter impacto principalmente a partir do próximo mês em exportações. Elas devem tender a zero para aquele mercado. Houve perda grande de competitividade por causa da sobretaxa”, disse Zanella em entrevista coletiva nesta quarta-feira (27)

Os Estados Unidos recebem aproximadamente 26% das exportações de máquinas do Brasil, o que equivale a aproximadamente US$ 300 milhões mensais, de acordo com dados da Abimaq.

Zanella também descartou uma grande melhora na competitividade dos produtos brasileiros em função da decisão do governo dos Estados Unidos de taxar qualquer produto com aço ou alumínio sob os termos da Seção 232 da Lei de Expansão Comercial americana, que permite tarifas específicas a produtos para promover a segurança nacional.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também responde pelo MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), havia dito na semana passada que isso deixaria os produtos brasileiros com uma desvantagem relativamente menor, mas Zanella ressaltou que, ainda assim, será muito difícil concorrer com outros fornecedores de máquinas dos Estados Unidos.

“Quando se olha para todas as sobretaxas anunciadas, o Brasil tem uma das maiores, só tem a Índia de equivalente. Se a gente pega a proporção da máquina, aquela que não é especificamente relacionada ao aço e ao alumínio vai ser taxada pela tarifa recíproca. Vai diminuir a diferença (em relação a outros países, exceto a Índia) por causa da proporção de aço e alumínio, mas produtos dos EUA, Canadá e México têm tarifa zero”, acrescentou.

O efeito das medidas de socorro ao setor

Todas as medidas anunciadas pelo governo para conter os prejuízos das tarifas dos Estados Unidos são importantes e ajudam a mitigar os problemas trazidos pelas sobretaxas, afirmou Zanella.

Ela destacou o Reintegra (Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários). O programa devolve aos exportadores parte dos tributos pagos ao longo da cadeia produtiva, na forma de crédito tributário.

O plano do governo é antecipar os efeitos da reforma tributária, que entrará em vigor em 2027, desonerando a atividade exportadora aos Estados Unidos.

Sob o plano de contingência do governo, o porcentual de imposto que será devolvido às empresas que exportarem aos EUA aumenta em 3 pontos porcentuais. Assim, grandes e médias empresas passam a contar com até 3,1% de alíquota, e micro e pequenas, com até 6%. As novas condições valerão até dezembro de 2026.

Zanella, porém, afirma que a proposta seria mais eficaz se fosse mais abrangente do que o anunciado.

“Anúncio foi de que o crédito seria dado somente para empresas que exportam aos EUA. Provavelmente as empresas vão deixar de exportar. O que a gente espera é que governo coloque o Reintegra para todos os exportadores, independentemente do mercado em que atua, porque consegue dar competitividade para atuar em qualquer outro mercado do mundo”, afirmou.

As medidas de estímulo à ‘Indústria 4.0’

Sobre as linhas de financiamento anunciadas recentemente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o desenvolvimento da Indústria 4.0, a Abimaq ainda não tem estimativas sobre o impacto do programa. No entanto, considera que o efeito pode ser menos positivo do que aparenta.

“A expectativa é que haja substituição de investimentos com taxa (de juros) mais alta por outra mais baixa, que é o que está sendo oferecido agora. Vai ter pouco reflexo no resultado geral. Se fossem agregar investimentos, o que é pouco provável, os R$ 12 bilhões em recursos conseguiriam suprir com folga o que a gente venderia para os EUA. Mas o receio é que os investimentos sejam substituídos, não adicionados. Empresas que já iriam investir com taxa de 20% a 22% vão conseguir investir com taxa menor”, afirmou.

Receita da indústria de máquinas cresceu 7,3% em julho

A indústria brasileira de máquinas e equipamentos encerrou julho com uma receita líquida total de R$ 26,716 bilhões. Este valor representa um aumento de 0,3% em relação a junho e um crescimento de 7,3% comparado a julho do ano passado. Nos 12 meses até julho, o setor acumulou um aumento de 7,4% na receita.

No mercado interno, a receita líquida foi de R$ 19,700 bilhões, indicando uma retração de 5,1% em relação ao mês anterior. No entanto, o desempenho anual foi positivo, com um crescimento de 14,5%.

O consumo aparente somou R$ 36,374 bilhões, registrando um crescimento de 1,2% em relação ao mês anterior e de 8,9% em relação a julho do ano passado.

No cenário internacional, as exportações de julho contabilizaram US$ 1,269 bilhão, ou 20,7% a mais em relação a junho, mas uma queda de 4,8% na comparação com julho de 2024.

As importações somaram US$ 2,905 bilhões, com um crescimento de 11,3% em relação ao mês anterior e 8,6% na comparação anual. O saldo da balança comercial do setor em julho foi negativo, com um déficit de US$ 1,636 bilhão.

Em termos de emprego, o setor tinha 424,903 mil funcionários no final de julho, marcando um aumento de 1,1% em relação a junho e de 9,1% em comparação com julho de 2024.

Carteira de pedidos

A carteira de pedidos cresceu 0,6% em julho, após recuar 2,7% em junho. “Houve melhora nas carteira dos setores relacionados aos fabricantes de bens de consumo, obras de infraestrutura e componentes”, disse a Abimaq em relatório. O setor está com carteira de pedidos igual à de dezembro de 2024, mas inferior em 1,2% à observada em julho do mesmo ano.

O nível de utilização da capacidade instalada cresceu 0,1% em relação a junho ao atingir 78%, valor 2,5% superior ao do mesmo mês de 2024. Em média o setor atuou em 2025 com 77,6% da sua capacidade, 3,4 pontos porcentuais acima do nível de 2024 (74,2%).

Máquinas agrícolas

O segmento de máquinas e implementos agrícolas registrou receita líquida total de R$ 6,624 bilhões, um aumento de 4,7% em relação ao mês anterior e 7,7% em comparação com o mesmo período do ano passado. Nos últimos 12 meses, o crescimento acumulado foi de 5,5%.

A receita líquida interna somou R$ 5,847 bilhões, registrando aumento de 5,1% ante junho e de 10,9% comparado a julho do ano passado.

No comércio exterior, as exportações de máquinas agrícolas totalizaram US$ 140,71 milhões, caindo 7,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. As importações ficaram em US$ 102,48 milhões, recuo de 13,5% na mesma comparação.

Fonte: CNN Brasil

Ler Mais
Exportação, Industria

Indústria de máquinas e equipamentos registra crescimento em vendas internas, mas exportações caem no primeiro trimestre

A receita de vendas do setor de máquinas e equipamentos no Brasil atingiu R$ 67,5 bilhões nos três primeiros meses do ano, um aumento de 15,2% em comparação com o mesmo período de 2024. Dados divulgados pela Abimaq mostram que as vendas internas somaram R$ 51,6 bilhões, crescimento de 18%, impulsionando um primeiro semestre positivo. No entanto, a entidade alerta para possíveis desafios na segunda metade do ano, devido aos efeitos do aperto monetário e a um cenário macroeconômico mais desfavorável.

As exportações do setor caíram 5,8% no primeiro trimestre, totalizando US$ 2,7 bilhões. Houve redução significativa nas vendas para a América do Norte, com quedas de 30,2% para os Estados Unidos, 30% para o México e 27,2% para o Canadá. Em contraste, as exportações para Europa e América do Sul cresceram 16,1% e 12,9%, respectivamente, com destaque para a Argentina, que registrou alta de 59,3% em máquinas para agricultura e construção civil. A China também se destacou, com um aumento de 203,1% nas exportações, tornando-se o sexto maior destino.

As importações de máquinas e equipamentos subiram 12,9%, alcançando US$ 7,8 bilhões no período. A China consolidou-se como principal fornecedora, com participação de 34% no mercado brasileiro, superando Estados Unidos e Alemanha. A Abimaq destacou que esse movimento reflete uma tendência de longo prazo, reforçando a influência chinesa no mercado global de bens de capital.

Fonte: Brasil em Folhas

Ler Mais
Instagram
LinkedIn
YouTube
Facebook