Tecnologia

Paul Krugman alerta para risco econômico da inteligência artificial: investimentos em IA podem elevar juros e frear outros setores

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) pode estar provocando efeitos negativos sobre a economia mundial antes mesmo de os riscos mais discutidos da tecnologia se concretizarem. Essa é a avaliação do economista norte-americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2008, que alerta para a possibilidade de os investimentos bilionários em infraestrutura de IA reduzirem recursos disponíveis para outros segmentos da economia.

Em análise publicada em seu Substack, Krugman argumenta que a expansão dos centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, está atraindo recursos financeiros e materiais que poderiam ser destinados à construção de moradias, escritórios e fábricas.

O economista também aponta uma possível pressão sobre as taxas de juros, com consequências para o crédito e os investimentos privados. Diferentemente de ameaças frequentemente associadas à IA, como a substituição de trabalhadores e o estouro de uma bolha financeira, esse efeito já estaria em curso.

Investimentos em inteligência artificial pressionam outros setores

Segundo Krugman, o volume de recursos direcionados à construção de data centers e à compra de equipamentos para inteligência artificial pode estar prejudicando investimentos em atividades que não estão diretamente relacionadas à tecnologia.

O economista cita mais de US$ 51 bilhões em investimentos em centros de dados e associa a expansão desse segmento à redução de aportes em outros tipos de construção.

“A construção de data centers parece estar desviando recursos financeiros e materiais da construção de moradias, edifícios de escritórios e fábricas — praticamente tudo o que não está relacionado à IA”, argumenta.

A preocupação é que a concentração de capital em um único setor limite a capacidade de financiamento de outras atividades produtivas, mesmo quando elas continuam apresentando demanda por investimentos.

Esse movimento pode afetar desde o mercado imobiliário até a expansão industrial, com possíveis consequências para o crescimento econômico.

Efeito de deslocamento pode elevar os juros

Para explicar o fenômeno, Krugman recorre ao conceito econômico de crowding out, ou efeito de deslocamento. Tradicionalmente, o termo descreve situações em que o aumento dos gastos públicos, especialmente quando financiados por déficits, pressiona os juros e reduz o espaço para investimentos privados.

Em uma economia próxima do pleno emprego, a disponibilidade de trabalhadores, crédito e outros recursos é limitada. Quando a demanda por esses recursos aumenta, os juros podem subir, tornando os financiamentos mais caros e dificultando a realização de novos projetos.

Krugman sustenta que esse mecanismo não se restringe às despesas do governo. Uma expansão expressiva dos investimentos privados em inteligência artificial também pode elevar a demanda por financiamento e pressionar as taxas de juros.

“Dada a situação atual, com desemprego relativamente baixo e inflação elevada, o efeito de deslocamento é uma preocupação legítima. É importante, porém, entender que as fontes desse fenômeno não se limitam aos gastos públicos. Fortes aumentos nos gastos privados, como o atual e gigantesco boom da inteligência artificial, também elevam as taxas de juros”, avalia.

Na interpretação do economista, o crescimento dos investimentos em IA estaria contribuindo para encarecer o crédito e dificultar a execução de projetos em outros setores.

Boom da IA resiste à alta dos juros nos Estados Unidos

Krugman também menciona uma reportagem recente do The New York Times para sustentar sua análise. Segundo o argumento apresentado pelo economista, os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial continuam avançando mesmo diante da elevação dos juros nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, outros segmentos da economia sentem os efeitos do crédito mais caro, o que pode ampliar a diferença entre as empresas ligadas à IA e os negócios que dependem de condições financeiras mais favoráveis.

A construção de data centers e a aquisição de semicondutores produzidos no exterior exigem grandes volumes de capital. Na avaliação de Krugman, essa concentração de recursos pode ocorrer em detrimento de investimentos em áreas como habitação, indústria e infraestrutura convencional.

O resultado seria uma economia na qual o setor tecnológico mantém seu ritmo de expansão, enquanto outras atividades enfrentam obstáculos maiores para financiar novos empreendimentos.

Por que o boom tecnológico atual é diferente do dos anos 1990?

Uma das questões levantadas por Krugman é se outras revoluções tecnológicas produziram efeitos semelhantes sobre os investimentos.

Ao comparar o atual ciclo da inteligência artificial com o boom tecnológico dos anos 1990, o economista afirma não encontrar evidências de um deslocamento equivalente dos investimentos naquela época. Pelo contrário, segundo sua análise, os aportes em atividades não relacionadas à tecnologia também cresceram.

Uma das explicações apontadas é a entrada de investimentos estrangeiros nos Estados Unidos, que teria ajudado a financiar a expansão tecnológica sem impedir o avanço de outros setores.

Krugman argumenta que o cenário atual é diferente e questiona a dimensão dos investimentos internacionais que o presidente Donald Trump afirma ter atraído para o país.

Segundo o economista, os dados do balanço de pagamentos não indicariam uma entrada de capital estrangeiro na escala anunciada pelo presidente norte-americano. Sem esse financiamento adicional, o boom da IA poderia disputar recursos de maneira mais intensa com os demais segmentos da economia.

Gastos bilionários com tecnologia podem não gerar retorno esperado

Outro ponto de atenção destacado pelo Nobel de Economia é a possibilidade de grandes empresas de tecnologia cometerem erros de avaliação ao decidir onde investir.

Krugman cita como exemplo os recursos destinados pela Meta ao projeto do metaverso, que, segundo ele, chegaram a US$ 80 bilhões. A iniciativa perdeu espaço posteriormente, ilustrando como investimentos de grande porte não garantem necessariamente resultados proporcionais.

O exemplo reforça a preocupação com o volume de capital direcionado à inteligência artificial e com a possibilidade de parte desses recursos não produzir o retorno esperado.

Caso isso aconteça, os efeitos podem ultrapassar o setor de tecnologia, especialmente se os investimentos tiverem sido financiados por crédito e estiverem conectados a outras áreas do sistema financeiro.

Crédito privado entra no radar de riscos financeiros

Krugman também chama atenção para sinais de pressão financeira associados aos juros elevados. Segundo ele, relatos de dificuldades no mercado de crédito estão se tornando mais frequentes.

A preocupação envolve especialmente o crédito privado e outras áreas menos reguladas do sistema financeiro, que podem estar expostas aos riscos decorrentes da expansão acelerada da IA.

Se empresas e investidores assumirem compromissos financeiros elevados com base em expectativas excessivamente otimistas, uma eventual frustração dos retornos poderá dificultar o pagamento de dívidas e provocar problemas de liquidez.

O economista afirma que há uma percepção crescente, entre observadores com quem conversa, de que os efeitos financeiros adversos do boom da IA podem ser maiores do que muitos participantes do mercado imaginam.

Essa possibilidade amplia o debate sobre a sustentabilidade dos investimentos em tecnologia e sobre os impactos que uma eventual desaceleração poderia provocar em outros setores.

Risco econômico da inteligência artificial já estaria em andamento

A análise de Krugman concentra-se em três questões principais: a diferença entre o atual ciclo tecnológico e o dos anos 1990, a possibilidade de grandes empresas investirem de maneira equivocada e a dimensão dos riscos financeiros para o restante da economia.

Para o economista, a combinação entre investimentos concentrados, juros elevados e possíveis fragilidades no crédito merece atenção imediata.

A discussão não significa que a inteligência artificial deixará de gerar ganhos de produtividade ou oportunidades econômicas. O alerta está relacionado à distribuição dos recursos e aos custos que uma expansão muito acelerada pode impor a atividades que não participam diretamente desse crescimento.

Na avaliação de Krugman, o efeito de deslocamento provocado pelos investimentos em IA já representa um risco concreto, diferentemente de cenários futuros como a eliminação em massa de empregos ou o estouro de uma eventual bolha tecnológica.

O desafio, portanto, é avaliar se o ritmo de expansão da inteligência artificial poderá ser sustentado sem comprometer o financiamento e o desenvolvimento de outros setores da economia.

FONTE: Forbes
TEXTO: Redação
IMAGEM: Getty Images

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Esse cenário contraditório expõe o maior dilema das empresas de tecnologia: as mesmas organizações que pedem cautela são aquelas que precisam avançar rapidamente para justificar os bilhões captados junto a fundos e investidores.

IPOs trilionários e a pressão por resultados

A divergência entre discurso e prática fica evidente no movimento das principais companhias do setor. A OpenAI decidiu adiar sua abertura de capital para focar em segurança, contando com o fôlego de uma rodada recente de US$ 122 bilhões que garantiu caixa confortável à criadora do ChatGPT.

Por outro lado, a concorrente Anthropic seguiu o caminho inverso. A empresa protocolou seu pedido de IPO na SEC e se prepara para estrear na Nasdaq, com uma avaliação estimada de até US$ 2 trilhões. Esse otimismo é sustentado pelo salto expressivo em sua receita anualizada, impulsionado pela alta demanda corporativa.

Para sustentar avaliações tão elevadas, as gigantes tecnológicas não podem se dar ao luxo de desacelerar. Empresas como a Alphabet (controladora do Google) seguem elevando os investimentos em data centers e chips de IA para dar suporte ao crescimento massivo de plataformas como o Gemini.

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Decidir frear o passo voluntariamente abre espaço para concorrentes ou para o avanço de modelos abertos, que possuem custos menores de operação. Como nenhuma companhia deseja perder liderança de mercado, o incentivo para acelerar continua inabalável.

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FONTE: Exame
TEXTO: Redação
IMAGEM: GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images /AFP

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