Industria

Produção industrial recua 0,2% em julho e acumula efeitos do juro alto

Setor chega a quatro meses sem crescimento

A produção da indústria no país recuou 0,2% na passagem de junho para julho. Com esse resultado, o setor chega a quatro meses seguidos sem crescimento, o que é explicado pelo ambiente de juro alto.

O resultado foi divulgado nesta quarta-feira (3) pela Pesquisa Industrial Mensal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De abril a julho, a indústria acumula perda de 1,5%, sendo quedas em abril (-0,7%) e maio (-0,6%) e estabilidade em junho (0%). A última vez que o parque industrial brasileiro somou quatro meses sem expansão foi entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023.

Em relação a julho de 2024, a produção da indústria nacional mostra avanço de 0,2%. Nos últimos 12 meses, o setor apresenta expansão de 1,9%.

O resultado de julho deixa o setor 1,7% acima do patamar pré-pandemia de covid-19 (fevereiro de 2020) e 15,3% abaixo do nível recorde já alcançado, de maio de 2011.

Em relação ao patamar final de 2024, o setor teve expansão de 0,3%.

Efeito do juro alto
De acordo com o gerente da pesquisa, André Macedo, o cenário predominante negativo desde abril é explicado pela política monetária restritiva, ou seja, os juros altos, ferramenta do Banco Central (BC) para tentar conter a inflação.

“Em termos conjunturais, destacam-se os efeitos de uma política monetária mais restritiva – que encarece o crédito, eleva a inadimplência e afeta negativamente as decisões de consumo e investimentos. Esses fatores contribuíram para limitar o ritmo de crescimento da produção industrial no período, refletindo-se em resultados mais moderados frente aos meses anteriores”, analisa Macedo.

Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 15% ao ano, o patamar mais alto desde julho de 2006. Os juros altos têm o efeito de desestimular o consumo e o investimento para esfriar a economia e diminuir a procura por bens e serviços, consequentemente, tirando força da inflação.

Em julho, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mostrou acúmulo de 5,23% em 12 meses, fora da meta do governo 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, ou seja, indo até 4,5%.

A taxa está acima do teto desde setembro de 2024 (4,42%). Em abril, chegou a 5,53%, o ponto mais alto desde então. 

Setore
Na passagem de junho para julho, o IBGE identificou queda em 13 das 25 atividades industriais. Os destaques negativos foram:

  • metalurgia (- 2,3%)
  • outros equipamentos de transporte (-5,3%)
  • impressão e reprodução de gravações (-11,3%)
  • bebidas (-2,2%)
  • manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (-3,7%)
  • equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-2%)
  • produtos diversos (-3,5%)
  • produtos de borracha e de material plástico (-1%)

Entre as atividades com alta na produção, os principais impactos positivos vieram de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (7,9%), alimentícios (1,1%), indústrias extrativas (0,8%) e produtos químicos (1,8%).

Em relação às grandes categorias, bens de consumo duráveis (-0,5%) e bens de capital (-0,2%) registraram altas na passagem de junho para julho. Bens de capital são máquinas e equipamentos.

Por outro lado, bens intermediários, ou seja, que serão transformados em outros produtos, cresceram 0,5% e bens de consumo semi e não duráveis aumentaram 0,1%.

Tarifaço
De acordo com André Macedo, o resultado de julho teve reflexos também do tarifaço americano, que só começou na primeira semana de agosto. Isso se explica pelo fato de que a ameaça de taxação das exportações brasileiras para os Estados Unidos mexeu com expectativas e decisões futuras de empresários, principalmente os que têm atividades voltadas para o mercado externo.

Macedo ressalta que a predominância negativa desde abril é fundamentada pela política de juros.

“Dentro do resultado geral, [o tarifaço] não tem muita importância no momento”, disse.

Fonte: Folha de Pernambuco

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Sustentabilidade

Na China, comitiva do SENAI visita empresa referência global em tecnologia verde

Grupo terá encontros em universidades e institutos tecnológicos para impulsionar inovação, tecnologia, Indústria 4.0 e cooperação entre os dois países

Em seu primeiro compromisso na China, a comitiva do SENAI em missão para fortalecer o ensino profissional no Brasil visitou a Envision Energy, em Xangai, líder global em tecnologia verde com foco em energia renovável.

A empresa atua em turbinas eólicas inteligentes, armazenamento de energia e soluções em hidrogênio verde. Também patrocina e opera a Envision Racing, equipe da Fórmula E, disputada por carros com motores elétricos e usada como plataforma para promover inovação, mobilidade elétrica e ação climática.

A missão prevê encontros em outras companhias de destaque mundial, como a Shining 3D Tech, referência em manufatura aditiva, além de visitas a universidades e institutos tecnológicos.

OBJETIVO

O objetivo da viagem é implementar a Rede de Future Skills no Brasil e estruturar o Centro Virtual de Inteligência Artificial, reforçando a cooperação entre Brasil e China no âmbito do BRICS.

A comitiva nacional iniciou a viagem no domingo (31) e terá agenda técnica e institucional em Xangai, Hangzhou, Qingdao, Xiamen e Pequim.

O grupo é formado por Fabrízio Pereira, diretor regional do SENAI/SC; Valério Junior Piana, coordenador de Internacionalização no SENAI/SC; Ricardo Terra, diretor regional do SENAI/SP; e Felipe Morgado, Luiz Eduardo Leão e Edgar Vieira Inácio, do Departamento Nacional do SENAI.

Fonte:
Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina – FIESC
Gerência de Comunicação Institucional e Relações Públicas

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Exportação

Sebrae/SC abre inscrições para qualificação gratuita de empresas catarinenses com foco na exportação

Programa Acelera Mercados – Global integra o PEIEX, iniciativa da ApexBrasil voltada à preparação de empresas para o mercado internacional

Estão abertas as inscrições para o Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX) em Santa Catarina. Gratuito e com duração média de três a quatro meses, o programa é voltado a micro e pequenas empresas que desejam iniciar ou aprimorar sua atuação no mercado exterior. No estado, a iniciativa é oferecida pelo Sebrae/SC, executor do convênio com a ApexBrasil, por meio do Programa Acelera Mercados – Global. As inscrições podem ser realizadas pelo https://sebrae.sc/peiex.

O PEIEX oferece uma trilha completa de capacitação com atendimento individualizado, diagnóstico de exportação, plano estratégico, treinamentos, acesso a especialistas em comércio exterior, participação em ações coletivas e oportunidades internacionais. A modalidade pode ser online, presencial ou híbrida, conforme o perfil e localização da empresa participante.

Podem se inscrever empresas com CNPJ ativo, classificadas como ME ou EPP, que tenham produto ou serviço com potencial exportador e estejam comprometidas com a execução do plano de ação proposto ao longo da trilha.

“O PEIEX, aliado ao Programa Acelera Mercados – Global, é uma grande oportunidade para que os pequenos negócios em Santa Catarina ampliem sua competitividade e caminhem rumo à internacionalização. Com uma metodologia prática, adaptada à realidade das empresas, conseguimos conectar negócios locais a mercados globais”, destaca Gabriel Marchetti, analista de negócios do Sebrae/SC.

O programa é dividido em três etapas, são elas: “Desperta”, que atua na sensibilização e mapeamento; “Prepara”, fase de consultorias, treinamentos e o plano de exportação; e “Conecta”, com rodadas de negócios, missões técnicas internacionais, formação de consórcios, acesso a investidores e plataformas de inteligência de mercado.

Sobre o Sebrae/SC

O Sebrae/SC comemora, em 2025, 53 anos de dedicação ao fortalecimento dos pequenos negócios e ao fomento do empreendedorismo em Santa Catarina. Com presença em todas as regiões do Estado, a instituição oferece soluções que impulsionam o desenvolvimento econômico e social, apoiando milhões de empreendedores ao longo de sua trajetória. Reconhecido nacionalmente, o Sebrae é hoje a 4ª marca mais valiosa do país, com um ativo de R$ 33,9 bilhões, reflexo de sua credibilidade, impacto e compromisso com a transformação dos territórios onde atua. Em Santa Catarina, o Sebrae é parceiro estratégico de quem faz o estado crescer.

Texto e imagem: Divulgação

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Negócios

Cabe reconhecer a legitimidade e a importância da pejotização para a produtividade das empresas

Em artigo publicado no Estadão, a advogada e superintendente de Relações do Trabalho da CNI, Sylvia Lorena, e o professor aposentado da USP, José Pastore, refletem sobre o que é o fenômeno da pejotização e defendem esse modelo de trabalho para aumentar a produtividade e competitividade das empresas

A pejotização se refere aos contratos de prestação de serviços específicos estabelecidos entre duas pessoas jurídicas – o tomador e o prestador dos serviços, no caso, o PJ, um profissional especializado. Esse tipo de contrato tem aumentado em grande parte por força das novas tecnologias que facilitam a colaboração desses profissionais. Os que entendem de produção e comercialização recomendam: “na sua empresa, não tente fazer tudo sozinho – você pode quebrar. Busque a ajuda de especialistas que resolvem melhor seus problemas específicos”.

É isso que, mundialmente, tem propelido o uso do trabalho externo às empresas que contratam médicos, advogados, engenheiros, pesquisadores, jornalistas, tradutores, professores e vários outros. Todos têm autonomia para escolher o método, e, em muitos casos, o local e o horário de trabalho.

As formas de prestar serviços são variadas. Há PJs que entregam produtos. Outros entregam serviços. Há atividades realizadas no local da contratante. Outras, nas instalações do PJ ou à distância. Há casos em que o PJ serve apenas uma contratante. Em outros, serve várias. Há tarefas executadas exclusivamente pelo PJ. Outras, em parceria com empregados da contratante. Os contratos podem ser por prazo determinado ou indeterminado, em tempo parcial ou integral. Há contratos em que a profissão do PJ é diferente da profissão dos empregados da contratante. 

Em outros é a mesma – quando a contratante busca talentos especiais. Há tarefas que se realizam de uma só vez. Outras são recorrentes. Há atividades na jornada normal da contratante. Outras, em horários atípicos. Todas contribuem para a melhoria da produtividade e da competitividade das contratantes.

Os PJs recebem apenas orientações técnicas das contratantes, sem subordinação jurídica; são pagos pelos seus serviços; e contribuem para a Previdência Social. É uma relação de natureza civil, pautada pela liberdade contratual. Muito moderna. As eventuais disputas devem ser dirimidas pela Justiça Cível.

A pejotização reflete uma organização de produzir, que valoriza a especialização. Cabe reconhecer a legitimidade e importância desse modelo de trabalho para a produtividade e competitividade das empresas e afastar as fraudes que mascaram vínculos de emprego.

É isso que está sendo discutido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no Tema n.º 1.389, cuja decisão é esperada para breve.

*Sylvia Lorena é advogada e superintendente de Relações do Trabalho da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

*José Pastore é professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP)

O artigo foi publicado no Estadão no dia 27 de agosto de 2025.

Fonte: Agência de Notícias da Indústria

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Negócios

Inventor, industrial funda duas multinacionais e o maior parque empresarial do Brasil

O empresário italiano Fabio Perini desenvolveu uma trajetória sem igual. Começou inventando máquinas para indústrias de papel, fundou duas multinacionais, registrou mais de 100 patentes, abriu um estaleiro e fundou em Joinville o Perini Business Park

Entre os empresários que são ícones em Santa Catarina, um dos estados com economia mais dinâmica no Brasil, está o empreendedor e inventor italiano Fabio Perini. No final dos anos de 1970 ele abriu uma fábrica de máquinas para papel em Joinville, a maior cidade do estado, e em 2001 fundou o Perini Business Park, hoje o maior condomínio empresarial da América do Sul, onde estão sediadas mais de 300 empresas que faturam mais de R$ 10 bilhões por ano e respondem por mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. 

Inventor e empreendedor, Fabio Perini, sempre foi muito discreto. Veio a Joinville no começo deste mês – dia 06 de agosto – quando foi homenageado com a Medalha do Mérito Princesa Dona Francisca, o mais importante reconhecimento do município, pela colaboração ao desenvolvimento econômico. No mesmo dia, também foi assinado acordo de irmandade de Joinville com a cidade italiana de Lucca, onde está a sede do Grupo Perini, na Itália.

O evento foi na “casa” de Fabio Perini, o Ágora Tech Park, dentro do Perini Business Park. No dia seguinte, ele concedeu esta entrevista exclusiva ao portal NSC Total, contando sua trajetória no mundo das invenções e dos negócios.

Embora não tenha cursado engenharia mecânica, ele é brilhante na arte de inventar máquinas. Foi essa capacidade de inovar que permitiu a ele ser o industrial que transformou mundialmente o setor de conversão do papel tissue. Registrou mais de 100 patentes, é considerado o fundador do Tissue Valley na cidade de Lucca, abriu duas multinacionais nesse segmento, a Fabio Perini e a Futura, fundou também o estaleiro Perini Navi e outros negócios.

Em 1974, veio ao Brasil para investir no país e se encantou por Joinville, uma cidade organizada como as italianas. Por isso abriu filial da indústria Fabio Perini e, décadas depois, inovou ao fundar o Perini Business Park.

Engana-se quem pensa que ele reduziu o ritmo aos 85 anos. Ao lado do CEO do Grupo Perini na América Latina, o engenheiro civil catarinense Marcelo Hack, ele destacou vários projetos para o mega condomínio empresarial. Uma creche para todas as crianças, prestação de serviços para empresas, área para pequenas empresas e um futuro shopping aberto no empreendimento. Leia a entrevista a seguir: 

Como foi o início da sua carreira? O seu pai tinha um negócio na área de papel e o senhor deu continuidade?

– Meu pai e irmãos tinham três papeleiras (fábricas de papel) e uma oficina mecânica (de máquinas produtoras de papel). Depois, dividiram o negócio e o meu pai ficou com a oficina. Nós morávamos num lugar antigo e eu pensei que tinha pessoas pouco interessadas em investimentos. Mas meu pai tinha empreendedorismo na cabeça e só sabia fazer papel, não sabia o que se fazia em outras partes do mundo.

Trabalhávamos nessas indústrias, mas com uma oficina. Não tinha engenheiro. Tudo era feito na prática. Então, eu trabalhava aí. Me acostumei à maneira do meu pai de não desenhar as coisas, mas pensar. Comecei a ver uma parte de máquina, mas era tudo no pensamento, não era como um engenheiro de hoje que vai desenhando.

Então, me acostumei a pensar as coisas como deveriam ser feitas e contratava um desenhista porque eu não sabia desenhar. É bem diferente a cultura em que você, através do desenho, chega a ter um projeto, do que quem trabalha vendo o projeto e depois desenha. Assim começamos a trabalhar, a fazer máquinas e, depois, chegamos ao Brasil.

Que idade o senhor tinha quando começou a fabricar máquinas?

– Eu estava com 17 anos quando comecei a fazer máquinas. Mas a firma era pequena, era eu, meu pai, meus irmãos e mais dois trabalhadores. Eu estava fazendo coisas um pouco novas. A gente não estava acostumado a pensar no novo. Sempre gostava de fazer algo como o que já existia. Então, aí eu me tornei o problema da família. Daí eu comecei a sair da empresa da família e trabalhar sozinho. Meu pai me deu a emancipação.

Quando o senhor registrou a primeira patente?

– Comecei a criar. Eu registrei a primeira patente de uma máquina para produção de papel quando eu tinha 17 anos. A primeira máquina que fiz não teve sucesso. Mas, depois, fiz uma outra, parecida, que deu resultado.

A máquina produtora de papel tem uma correia de um tecido grosso onde vai a água com a fibra e sai papel. Essa correia se movimenta e isso é regulado por um operador. E eu fiz um dispositivo que fazia esse movimento sem a necessidade de um operador. Mas depois fizemos vários tipos, até chegar a um para uma máquina importante, fabricada na Itália.

O que destacou o senhor internacionalmente como inventor de máquinas de papel?

– No setor de papel existem equipamentos que, a partir da celulose, produzem folhas de papel. Esses equipamentos fazem bobinas de papel. Eu trabalho especificamente com máquinas para papel tissue, que é o papel macio e mais absorvente para guardanapos, toalhas, lenços e papel higiênico. É um papel que tem entre 14 e 18 gramas de gramatura.

As máquinas que eu projeto prendem as bobinas jumbo, que são as bobinas maiores de papel tissue, e fazem a conversão, ou seja, transformam o papel que está em rolos grandes em papel toalha e papel higiênico. São máquinas de um segmento do setor chamado “converting”, que fazem a conversão das bobinas grandes em produtos menores, para o uso dos consumidores.

Quando fundou a primeira fábrica dessas máquinas?

– Eu tinha 26 anos quando fundei a indústria Fabio Perini, no ano de 1966. Ela cresceu, alcançou liderança nesse segmento, vendemos produtos para diversos países. Abrimos filiais no Brasil (em Joinville), nos Estados Unidos e no Japão. Tínhamos escritórios em 18 países. Em 1994 eu vendi parte da empresa para o grupo alemão Körber e em 1999 vendi toda a empresa Fabio Perini para eles que, há cinco anos, venderam para o grupo sueco Valmet. 

Passado um tempo, em 2001, comecei uma empresa nova, a Futura, que atua no mesmo setor, mas com tecnologias completamente novas. Todas as máquinas são novas, sem sobreposição de patentes. Agora, 25 anos depois, a Futura é líder mundial em tecnologia.

Como chegou a essa série de mais de 100 patentes registradas?

– Precisei fazer muitas máquinas. Quando tive papeleiras na Inglaterra e Romênia, por exemplo, criei uma máquina para elas, mas os clientes viram, gostaram e quiseram também. Então eu fiz para eles.

Eu penso que nem todas as patentes que fiz foram registradas no meu nome porque eu gosto de fazer projetos, mas depois o que acontece com eles não me interessa. Acredito que fiz cerca de 200 patentes. Tem algumas registradas em nome de outras pessoas, mas tudo bem.

Não é comum um dono de indústria projetar os equipamentos fabricados por ela, como o senhor faz…

– São 60 anos que eu trabalho nisso, que estou me dedicando ao setor de papel tissue. Hoje, todo o construtor de máquinas do setor imita o que eu fiz anos atrás, o que estou fazendo. Isso me enche de orgulho.

E como está a sua mais recente indústria de máquinas de papel, a Futura?

– Está bem. Tem sede em Lucca, na Itália e em Joinville é o centro de assistência técnica para as Américas. Atendente Estados Unidos, Canadá, México, Brasil, Argentina, Chile e Colômbia.

Por que o senhor escolheu Joinville para ser a primeira cidade com filial da sua primeira indústria, a Fabio Perini?

– Todo mundo que vem ao Brasil chega em São Paulo primeiro. Eu tinha um amigo em São Paulo e eu queria fazer uma firma. Diziam que tudo o que eu precisaria, eu poderia fazer em São Paulo. Mas eu comecei a visitar o Brasil, de Norte a Sul. Visitei todos os estados. Tinha locais que eu gostava um pouco mais e outros, um pouco menos.

Quando cheguei em Joinville foi paixão imediata. Vi todas as casas das ruas com jardins, plantações de verduras e de árvores frutíferas como na minha cidade, na Itália. Mas o que me tocou mais foi ver tanta criança de uniforme indo para a escola. Ao mesmo tempo, muitas pessoas estavam indo trabalhar de bicicleta porque naquela época quase todos usavam bicicletas. Eu fiquei hospedado no Hotel Anthurium, no centro da cidade.

E como surgiu a ideia de fazer o condomínio   Perini Business Park?

– Eu vendi a indústria Fabio Perini e pensei em investir o resultado também no Brasil, em Joinville. Começamos a estudar um pouco sobre como fazer construções empresariais. Aprendi como se faz concreto armado. Aí fizemos uma indústria para produzir material pré-fabricado, hoje a Perville Construtora. Fizemos o primeiro galpão, este onde está a administração do condomínio.

Recebemos as primeiras máquinas e fizemos um piso de concreto em céu aberto, foram instaladas as máquinas, começaram a fazer as peças de concreto e foram montando por cima das próprias formas. Eu acompanhei no início. Sempre faço isso. Depois, quando a coisa passa a funcionar, me afasto.

Quando começou o condomínio o senhor imaginava que ele se tornaria esse gigante?

– Não, não pensava que seria um sucesso. Na realidade, quando eu comecei, pensava um pouco diferente, porque eu pensava em fazer galpões, principalmente para alugar a quem queria começar porque sempre sei o quão difícil é começar. Então, eu pensava que essa era a maneira certa para que funcionasse.

Mas, na realidade, depois que chegou uma firma mais importante, pediram e nós acompanhamos a necessidade do mercado dela. Uma ideia minha era fazer para pequenas empresas. Mas aí vieram muitas grandes empresas e hoje já são mais de 300. Eu amo as pequenas empresas.

O que mais impressiona o senhor hoje no Perini Business Park?

– Pelo que vejo, tem muita segurança e tudo é fácil porque tem muito serviço para todo mundo. É muito prático trabalhar aqui. Tem transporte e várias outras coisas importantes. Mas nós estamos planejando mais coisas novas para o condomínio.

Quais são esses novos planos para o Perini?

– Eu gostaria de instalar uma firma para manutenção das indústrias locais, aqui do condomínio. Isso porque cada indústria tem que ter um eletricista, um mecânico e que depois trabalha só na emergência.

Mas a emergência seria uma empresa que poderia prestar trabalho para todo mundo. Seria mais econômico e de grande ajuda para os inquilinos. Isso porque cada um tem à sua maneira de trabalhar.

Eu penso que a melhor maneira de trabalhar é sempre oferecer vantagem aos outros. Depois, de qualquer forma, volta para nós também. Eu penso que é uma vantagem importante ter uma pessoa para fazer manutenção elétrica. Precisamos fazer algo para ajudar os inquilinos.

O senhor disse também que planeja construir uma creche dentro do condomínio. Como será essa creche?

– Nós gostaríamos, sim, de ter uma creche aqui. Quem tem filho, traz para cá. Será uma creche tanto para filhos de empresários, quanto de trabalhadores. E as crianças dessa creche, quando forem para as escolas públicas, têm que chegar mais preparadas do que as outras. Temos esse projeto há um bom tempo. Agora vamos fazer.

Veja, os empreendedores normalmente pensam em como ter mais lucro possível. É justo porque o sucesso se tem com o lucro. Penso também que quando você tem o lucro, o que faz? Como pode aproveitar mais o lucro? Se você faz uma coisa linda, bem-feita, que dá uma satisfação grande, já chega. Não precisa fazer a volta do dinheiro. Então, se a pessoa tem lucro, investe numa coisa boa e tem um grande retorno.

A sua trajetória é de sucesso desde o início. O que representa o sucesso para o senhor?

– O sucesso para mim é quase um problema. Porque eu gosto de fazer coisas, mas o sucesso acaba tendo custos. Ontem foi um dia ótimo para mim (o empresário recebeu homenagem da prefeitura de Joinville). Normalmente eu não gosto de falar. Gosto de fazer. E ao receber essa homenagem eu falei.

Eu lembro que quando tivemos a indústria de barcos a vela fizemos um barco fantástico. Ele teve muitas premiações, mas eu nunca fui receber esses prêmios. Sempre mandei outra pessoa nas premiações. O prêmio é quando você faz uma coisa boa e reconhece o que você tem feito. Esse é o prêmio verdadeiro. O sucesso paga você direto, o prêmio é algo mais.

Por que o senhor fundou um estaleiro para fabricar veleiros e o vendeu mais tarde?

– Fundei a Perini Navi, empresa que projetou e fabricou um dos maiores barcos a vela do mundo. Gosto muito de navegar. Na década de 1980 vim da Itália até o Brasil de veleiro. Esse estaleiro (na cidade italiana de Viareggio) foi muito importante. Recebemos o prêmio de melhor barco do mundo várias vezes. Isso teve um grande sucesso. Depois eu vendi. Eu pensava que a empresa ia crescer mais sem eu estar na liderança, mas depois de dois anos ela quebrou. Foi uma pena.

Veja um dos projetos (ele mostra um veleiro em tamanho miniatura no escritório). Esta vela é uma das patentes que registrei. Esse mastro gira. As velas são fixas, mas o mastro gira. Este foi um barco com muita inovação. Ele foi adquirido na época pelo empresário Tom Perkins, presidente da Compaq, dos EUA. Este barco é um navio. Levou cinco anos para ser construído e custou mais de US$ 100 milhões.

Qual será o próximo projeto para expandir o número de empresas no Perini Business Park?

– Gostaria de oferecer espaços para firmas pequenas. Penso que é útil. A firma grande nasce porque tem uma assistência da firma pequena. A criação nasce do pequeno. Eu penso que é preciso. Se está perdendo em todo o mundo a parte de produção de empresas de pequeno porte com alta qualidade e baixa escala.

São firmas que empregam, por exemplo, três jovens que acabam aprendendo mais naquela empresa pequena do que na escola. Se tornam pessoas com alta capacidade produtiva. Na Itália, muitas empresas são pequenas, têm seis ou sete empregados. E aí eles fazem tudo e acabam se tornando especialistas em fazer determinados produtos.

Podemos ter empresas assim também aqui no Perini Business Park para dar suporte às empresas maiores. Um exemplo é a Cisa, empresa italiana do grupo que aqui contrata muitos serviços de fora de casa quando necessita.

O que mais o senhor está prevendo para este condomínio empresarial crescer?

– Eu tenho que perguntar ao Marcelo Hack, CEO do Grupo Perini na América Latina (que acompanhou a entrevista). Nós temos que fazer aquilo que o mercado precisa. Mas, temos uma ideia fantástica de que, antes ou depois, vamos construir numa parte aqui do parque, que é mais elevada, linda, que era ocupada por um reflorestamento e chamamos de morro.

Isso porque a lei mudou e, então, poderemos fazer construções com altura de 30 metros. Antes, onde está o Ágora Tech Park, podíamos fazer somente com até 15 metros de altura. Nosso plano para essa parte mais elevada é fazer um centro comercial, um open mall com algumas torres, mas deixando muitos espaços para lazer, como praças e outras estruturas.

É um projeto que vamos desenvolver ainda. Atualmente, estamos numa fase de retirada de terra do morro. Vamos demorar ainda uns três ou quatro anos para chegar na cota que a gente quer. Até lá, estaremos com um projeto pronto para submeter à aprovação dos órgãos competentes.

Quanto o Perini está investindo?

– Estamos executando um plano de investimento de R$ 100 milhões para um período de 20 meses que começou em abril de 2024 e vai até janeiro de 2026 para a expansão do parque. Acreditamos que quando finalizado esse investimento gerará 1.000 empregos.

Como o senhor avalia a instalação de um parque tecnológico dentro do Perini?

– Eu penso que a tecnologia atrai, desenvolve soluções para problemas tecnológicos. Penso que o Ágora ajuda também empresas internas de tecnologia aqui do condomínio. O desenvolvimento tecnológico é sempre importante.

O diferencial que o senhor incluiu nas suas indústrias, no Perini Business Park, é a inovação. Qual é a importância da inovação para negócios, na sua opinião?

– Eu penso que a coisa mais importante é ver se consegue ensinar as pessoas a terem coragem de ir para frente. Isso porque eu vejo que muda. Todo mundo gosta de fazer o que se fazia, porque não dá erro, é mais fácil fazer o mesmo. Na minha experiência, vejo um problema, vejo pessoas capazes, que muitas vezes pensam que são muito mais capazes do que eu, e se eu deixo, eles não conseguem ir em frente. Eu tenho coragem. Muitas vezes eu conquisto coisas porque tenho coragem de ir em frente. Eu errei muito, mas tive sorte que alguma coisa deu certo.

Qual é a importância da homenagem que o senhor recebeu com a Medalha Dona Francisca, da prefeitura de Joinville?

– Sinceramente, eu não sabia que receberia esse prêmio. E não sei nem se mereço. Mas gostei. Penso que junto com o Marcelo Hack (presidente do Perini) alguma coisa fizemos de bom. Mas penso também que temos tempo para fazer mais ainda. No começo, as pessoas não acreditavam que o Perini Business Park ia dar certo.

Qual empresa mais chama atenção aqui no condomínio, na sua avaliação?

– É a Wetzel, uma tradicional indústria metalúrgica que deixou de ter uma sede própria no município para se instalar dentro do Perini. Quando ela veio, proporcionou uma virada de chave para o parque. Mais empresas vieram.

Fonte: NSC Total

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Negócios

ARGE11: conheça o primeiro ETF local de empresas argentinas

O investidor brasileiro interessado em diversificar sua carteira com exposição internacional tem mais uma opção a partir de hoje: o ARGE11, primeiro fundo de índice (ETF, na sigla em inglês) listado na B3 que replica o desempenho de ações de empresas da Argentina listadas em Nova York.

O veículo de investimento foi lançado pela Investo, empresa do grupo VanEck e gestora especializada em ETFs. O fundo possui taxa de administração de 0,75% ao ano e abrange setores como energia, finanças, bens industriais e comunicações.

“O ARGE11 oferece uma forma eficiente de acessar o mercado da Argentina, além de contar com a liquidez e a transparência regulatória norte-americanas”, afirma Cauê Mançanares, CEO da Investo.

Segundo a gestora, o ETF pode capturar os frutos positivos da recuperação do país, em especial de companhias exportadoras, favorecidas pela melhora da competitividade do peso argentino em relação ao dólar.

O que é o ARGE11?

Por ser um ETF, o ARGE11 precisa ter um índice de referência. No caso, será o MarketVector US Listed Argentina Index, indicador que reúne 15 American Depositary Receipts (ADRs) de companhias argentinas listadas em Wall Street.

Essas empresas, em conjunto, têm valor de mercado de aproximadamente US$ 49,2 bilhões. Desde janeiro de 2023, o índice MarketVector US Listed Argentina acumula valorização acima de 180% em reais.

Quais empresas argentinas compõem o índice?

A petroleira YPF possui o maior peso dentro do MarketVector US Listed Argentina Index, respondendo por 19,79%. Em seguida, estão o grupo financeiro Galícia (17,65%), a holding elétrica Pampa Energia (12,67%), a mineradora Ternium (10,98%) e o Banco Macro (8,00%).

Fonte: InvesTalk

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Comércio Exterior

Tarifaço dos EUA pode ampliar volatilidade do dólar e exigir mais proteção cambial das empresas brasileiras

O recente anúncio de novas tarifas comerciais pelos Estados Unidos, conhecido como “tarifaço”, tende a trazer reflexos importantes para o câmbio e para a estratégia de empresas brasileiras com exposição ao dólar. Segundo o consultor econômico Guacyro Filho, da Advanced Corretora, o impacto ocorre em diferentes fases e exige atenção redobrada de exportadores, importadores e investidores.

Dois ciclos distintos para o dólar

De acordo com Guacyro Filho, no curto prazo a tendência é de desvalorização do dólar frente a outras moedas, já percebida nas últimas semanas. “A notícia das tarifas gera incerteza, eleva o risco e estimula uma migração para outros ativos que não os Treasuries americanos”, explica.

Já em um segundo ciclo, condicionado ao início da flexibilização dos juros pelo Federal Reserve (Fed) e à conclusão dos acordos tarifários, o cenário pode se inverter. “Se a arrecadação dos EUA aumentar de forma relevante, veremos reflexos positivos para o dólar e ativos americanos”, completa o consultor.

Impacto direto em exportadores e importadores

Para os exportadores, a volatilidade pode tanto abrir oportunidades quanto dificultar a formação de preços. Já os importadores devem adotar estratégias de proteção mais robustas para evitar surpresas negativas no custo de reposição.

Pressões adicionais para o Brasil

A crise diplomática recente entre Brasil e Estados Unidos acrescenta um componente político ao debate tarifário, o que amplia a incerteza. Apesar de o comércio ser superavitário para os americanos, a tensão tende a impactar o câmbio e o fluxo de capitais. O consultor lembra que o capital estrangeiro chega ao Brasil principalmente via Tesouro Nacional (atraído pela alta Selic), mercado acionário e câmbio. Porém, grande parte das operações ocorre em posições vendidas de futuros, caracterizando um perfil especulativo. “Capital especulativo é aquele investimento que chega pela manhã e vai embora antes do after market”, ressalta.

Nesse ambiente, cresce a busca por “flight to quality”, ou seja, a migração para ativos considerados mais seguros, como o dólar. Isso pressiona moedas emergentes, incluindo o real, e altera fluxos globais de commodities, com impacto direto sobre setores como aço e soja.

Estratégia americana e impactos globais

Guacyro Filho destaca que a lógica do “America First”, iniciada ainda no governo Trump, segue orientando a política comercial norte-americana. A ideia é priorizar a indústria e os trabalhadores locais por meio de medidas de proteção, desregulação e energia mais barata. “Isso pode beneficiar setores específicos dos EUA no curto prazo, mas gera incerteza global e aumenta custos e volatilidade nas cadeias de comércio, inclusive para o Brasil”, afirma.

Como empresas podem se proteger

Para atravessar esse cenário, o consultor recomenda que empresas intensifiquem o uso de estratégias de hedge. Instrumentos como NDF (Non-Deliverable Forward) e travas cambiais podem reduzir a exposição e dar previsibilidade ao caixa.

  • Trava cambial: fixa antecipadamente o custo operacional, vinculada à documentação da mercadoria.
  • NDF: oferece mais flexibilidade, sem necessidade de vinculação à mercadoria, ajustando-se no final do contrato.

“O melhor momento para estruturar essas proteções é em períodos de menor volatilidade, quando as taxas são mais atrativas”, ressalta Guacyro Filho.

A visão da Advanced

Para a Advanced, a mensagem principal neste momento é de cautela estratégica. “O contexto global pede atenção redobrada, mas também abre espaço para decisões inteligentes. Informação de qualidade e gestão ativa de riscos fazem toda a diferença na travessia de mercados voláteis”, afirma o consultor.

A corretora reforça seu compromisso em oferecer soluções personalizadas, inteligência de mercado e acompanhamento próximo, ajudando clientes a transformar incertezas em oportunidades e vantagem competitiva.

Saiba mais em: https://www.advancedcorretora.com.br/ 

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Informação

Empresas acusadas de comercializar dados do Siscomex assinam Termos de Compromisso com a CGU

As empresas foram multadas juntas, em R$ 4 milhões, por participarem de esquema de comercialização de dados

Em mais uma ação de combate a atos ilícitos praticados contra a Administração Pública, as empresas RHODIA BRASIL S.A e a SOJITZ DO BRASIL S/A terão que pagar juntas, cerca de R$ 4 milhões em multas. A Controladoria-Geral da União (CGU) firmou Termos de compromissos com as duas empresas em razão de participação em um esquema de comercialização de dados do Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex).

Os processos administrativos instaurados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) são decorrentes da operação Spy da Polícia Federal, que revelou a irregularidade.

As decisões foram publicadas no Diário Oficial da União (DOU), em 30 de junho, após a CGU aceitar os pedidos de acordo das duas empresas, conforme previsto na Portaria Normativa CGU nº 155, de 21 de agosto de 2024. No Termo de Compromisso, as empresas concordam em cumprir as obrigações impostas, demonstrando compromisso em colaborar com o Estado.        

As sanções aplicadas são baseadas na Lei Anticorrupção e reforça o comprometimento do MDIC com a promoção da integridade pública e a necessidade das empresas em evitar práticas contrárias à legislação e à moral administrativa.

A Lei Anticorrupção protege o direito de todos os cidadãos à luta contra a corrupção e busca desencorajar práticas negativas e incentivar ações positivas por parte das empresas, reconhecendo que estas desempenham um papel fundamental na disseminação de boas práticas e no debate sobre a corrupção.

A Controladoria-Geral da União mantém disponível o canal Fala.BR para o recebimento de denúncias. Quem tiver informações sobre qualquer irregularidade pode enviá-las por meio de formulário eletrônico. A denúncia pode ser anônima. Para isso, basta escolher a opção “Não identificado”. 

Extratos de compromissos publicados no Diário Oficial da União:

RHODIA BRASIL S.Ahttps://www.in.gov.br/web/dou/-/extrato-de-compromisso-638899122

SOJITZ DO BRASIL S/A: https://www.in.gov.br/web/dou/-/extrato-de-compromisso-638798225

Fonte: MDIC

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Negócios

Número de empresas autorizadas a vender gás natural no país sobe 15% ao ano

Dados do Observatório do Gás Natural indicam que mercado apresenta sinais de desconcentração, mas permanece restrito a grandes consumidores industriais

O mercado de gás natural brasileiro apresenta sinais de desconcentração de mercado, mostram dados da plataforma Observatório do Gás Natural.

Apesar do crescimento no número de agentes autorizados para operar no setor, os preços do gás continuam altos.

Até agosto, 226 companhias tinham autorização para operar no mercado de gás natural do Brasil. De 2021 a 2024, a participação da Petrobras nos contratos de longo prazo com distribuidoras caiu de 100% para 69%, sinalizando a abertura gradual do setor.

Os dados são do Observatório do Gás Natural, plataforma lançada pelo Movimento Brasil Competitivo e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, com apoio do Ministério de Minas e Energia e execução técnica do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Segundo o Observatório do Gás Natural, o número de empresas autorizadas a comercializar gás natural no Brasil cresceu, em média, 15% ao ano. Já os agentes autorizados ao carregamento na malha de transporte aumentaram 19% ao ano.

No mercado livre, o número de consumidores — grandes empresas que compram gás diretamente, sem intermediários — cresce em média 70% ao ano.

Na avaliação do Observatório do Gás Natural, embora a abertura do setor tenha registrado avanços, grande parte das empresas autorizadas ainda não atua efetivamente devido a limitações operacionais, falta de escala e entraves regulatórios, principalmente em nível estadual.

Para Rogério Caiuby, conselheiro executivo do Movimento Brasil Competitivo, o mercado permanece concentrado e restrito a grandes consumidores industriais, que detêm maior capacidade de negociação e infraestrutura própria.

“Ainda que haja crescimento no número de agentes, a concorrência real não se concretizou […]. As barreiras são regulatórias, operacionais e comerciais”, diz.

Impacto nos preços

De acordo com o Observatório do Gás Natural, as principais barreiras do setor são operacionais e comerciais, o que reflete nos preços. Os dados da plataforma mostram que a indústria brasileira paga em média R$ 43,65 a mais por milhão de BTUs (medida internacional) do que nos Estados Unidos.

Na região Nordeste, por exemplo, o preço do gás é cerca de 20% menor que no Sudeste. A diferença é reflexo das regras estaduais mais flexíveis que ampliam o acesso e estimulam a concorrência.

O Observatório do Custo Brasil projeta que a abertura plena do mercado pode gerar uma economia anual de até R$ 21 bilhões.

“O aumento do número de importadores diversifica o suprimento e reforça a segurança energética, pressionando a queda do preço médio do gás, que ainda é significativamente superior ao dos países da OCDE”, afirma Caiuby.

“No entanto, gargalos logísticos, como falta de terminais de regaseificação e integração limitada da infraestrutura interna, dificultam o pleno aproveitamento dessas oportunidades.”

Fonte: CNN Brasil

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Logística

82% das empresas de logística têm queda na demanda após tarifaço

No curto prazo, setor marítimo deve sentir maior necessidade de adaptação

O tarifaço de Donald Trump, que impõe sobretaxa de 50% sobre centenas de produtos brasileiros, já começa a mexer com a logística no País. Uma enquete realizada pela NTC&Logística revela que 82% das empresas do setor notaram queda na demanda por fretes de exportação. Enquanto isso, 65% relatam cancelamento ou antecipação de embarques. 

O cenário é de insegurança e adaptação forçada com transportadores, operadores portuários e embarcadores em busca de alternativas para minimizar perdas. Em paralelo, ainda não há entendimento se o Plano Brasil Soberano, lançado pelo governo federal para proteger exportadores e empregos, vai também beneficiar o setor logístico diretamente.

Primeiros efeitos sentidos na logística após tarifaço

Nos portos, cargas destinadas aos Estados Unidos já foram suspensas ou redirecionadas. Em Vitória, há relatos de contêineres parados e a carga estocada a custos adicionais. Conforme o presidente da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Cargas (Anut), Luis Baldez, embora o impacto quantitativo seja pequeno, equivalente a 1% da movimentação nacional, o problema é qualitativo. Ou seja, setores como proteína animal, pescado e madeira sofrem mais, já que dependem de prazos curtos e têm menor margem para readequação.

Por outro lado, o setor rodoviário de forma geral consegue adaptar rotas e redirecionar as cargas para outros destinos. Em reuniões com o governo, a Anut defende a realocação dessas encomendas para o mercado interno. Isso pode solucionar o problema com cargas perecíveis, como pescados e suco de laranja. Entretanto, o setor siderúrgico deve sofrer mais neste primeiro momento, já que são produtos mais difíceis para absorção imediata por outros mercados.

“No primeiro momento, nós entendemos que não vai haver grandes impactos na logística interna. O que vai acontecer é em virtude do tipo de produto, aí sim tem impacto na cadeia produtiva”, ressalta Baldez. 

O levantamento da NTC confirma esse movimento no valor dos fretes. 41% das empresas não notaram alteração nos valores de frete, mas 29% já identificaram aumento e outros 29% registraram queda, resultado da instabilidade do mercado.

“As oscilações [no preço de frete] costumam estar mais ligadas a outros fatores como custo do combustível, disponibilidade de veículos e sazonalidade da demanda”, explica Lauro Valdivia, assessor técnico da NTC.

Rodovias, ferrovias e marítimo: qual sente mais?

O transporte rodoviário, responsável por levar a maior parte das exportações até os portos, deve ser um dos mais atingidos. A NTC alerta para retração de viagens e risco de demissões entre motoristas e operadores logísticos. Já o presidente da Abralog, Pedro Moreira, prevê redução de 10% a 15% no volume de movimentação nos próximos quatro a seis meses.

No modal ferroviário, a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF) avalia que os efeitos só serão percebidos no médio prazo, já que 85% das cargas são commodities agrícolas e minerais sujeitas a sazonalidades. 

Já o transporte marítimo sente impacto imediato, já que redirecionar rotas internacionais de longa distância não é tão simples. Em relação ao frete, há quem espere uma queda no preço em razão da ociosidade de navios. Por outro lado, há quem preveja um acréscimo desses valores, devido ao choque na cadeia logística inicial. 

Tarifaço traz insegurança na cadeia da logística marítima

“Muitos contêineres ficaram nos portos brasileiros, o que tende a gerar um déficit e acúmulo de contêineres vazios no País, aumentando os custos de reposicionamento para as companhias marítimas”, explica o advogado e sócio na RC Law Larry Carvalho, especialista em comércio marítimo.

De modo geral, a logística pelos mares espera que novos mercados sejam abertos com celeridade. Em uma publicação no Linkedin, Ricardo Rocha, presidente da Maersk na costa oeste da América do Sul, líder mundial em logística marítima, afirma que os frequentes anúncios de tarifas impactam todo o mundo. O que “tem dificultado a clareza necessária para que nossos clientes possam planejar suas cadeias de fornecimento a médio e longo prazo”. 

Caso essas tarifas sigam em vigor, a quantidade de cargas destinadas aos portos, especialmente no escoamento para o Porto de Santos, deve reduzir, alerta o técnico da NTC. Somado a isso, o trânsito nos portos devem ficar mais lentos devido as fiscalizações alfandegárias rigorosas.

Isso se reflete no recorde de exportações em Santos no mês de julho, já que os embarques foram acelerados para fugir das tarifas. Pela primeira vez na história, o porto superou o número de 17 milhões de toneladas de cargas movimentadas nos terminais do complexo portuário. 

A edição da newsletter enviada aos clientes da RC Law, com orientações para mitigar as perdas, recomenda a revisão de contratos marítimos para incorporar clausulas que consideram atrasos ou aumento de custos causados pela crise .

Vulnerável desde a pandemia

A maioria das fontes entrevistadas pela reportagem enxergam os impactos do tarifaço de forma pragmática, fruto da experiência na pandemia. Durante a crise sanitária, a logística parou, o que abriu espaço para aprimorar a gestão de crise e inteligência na movimentação de cargas. Entretanto, o setor está mais vulnerável.

“A margem está muito espremida e qualquer custo adicional é fatal”, alerta o presidente da Abralog. Dessa forma, o temor também é de demissões no curto prazo, até que empresas consigam redirecionar parte da produção para o mercado interno ou para novos compradores externos. A associação prevê um período de quatro a seis meses de reacomodação até que novas rotas e contratos estejam consolidados.

“A manutenção da tarifa reduz a competitividade e pressiona margens, o que pode levar a cortes de empregos em toda a cadeia logística”, afirma Valdivia, da NTC. 

Para o advogado Larry Carvalho, a situação atual se soma a um cenário global já pressionado por disputas geopolíticas e choques externos. “Nos últimos cinco anos, o comércio marítimo tem enfrentado sanções, crises ambientais e reconfiguração de rotas. O setor se adapta rápido, mas cada nova tarifa ou barreira exige ajustes imediatos, pressionando custos e contratos internacionais.”

Governo reage com Plano Brasil Soberano

Para reduzir os impactos do tarifaço, o governo federal anunciou o Plano Brasil Soberano, com linha de crédito de R$ 30 bilhões para capital de giro e medidas emergenciais, como postergação de impostos. A estratégia remete às soluções adotadas durante a pandemia para assegurar a sobrevivência financeira de empresas.

Conforme a Anut, os recursos são importantes para segurar empregos e evitar um colapso financeiro nas cadeias mais expostas. Entretanto, lideranças do setor defendem que o País aproveite o momento para investir em infraestrutura ferroviária, hidrovias e cabotagem, reduzindo o custo logístico interno, hoje estimado em US$ 80 por tonelada exportada.

Empresas de transporte de cargas já buscam redirecionar exportações para Europa, Ásia e América Latina. Mas a adaptação varia conforme o tipo de carga. Enquanto o aço e a celulose podem ser estocados, pescado e proteínas perecíveis têm maior risco de perda. “O setor logístico é altamente adaptável, mas uma eventual retaliação brasileira poderia agravar ainda mais o cenário”, avalia Carley Welter, representante da Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas (Anatc).

A Lei de Reciprocidade Econômica foi sancionada antes do anúncio do governo americano que ampliou as taxas aplicadas ao Brasil. Assim, o País fica autorizado tomar medidas como suspender concessões e cobrar taxas adicionais em transações comerciais. O governo federal ainda não anunciou o uso do dispositivo legal.

Perspectivas e incertezas após tarifaço

As perspectivas das empresas são majoritariamente negativas: insegurança, recessão e desemprego aparecem como respostas mais frequentes na enquete da NTC. Se o tarifaço for mantido, especialistas temem um efeito prolongado sobre a competitividade da indústria brasileira, somado aos impactos esperados da reforma tributária no setor de transportes.

Apesar disso, há consenso de que o problema é mais financeiro do que logístico. A dificuldade de manter capital de giro e competitividade pode paralisar empresas, mesmo que a infraestrutura siga operando. “Se o tarifaço viesse da China, seria o caos. Mas mesmo com os Estados Unidos, já sentimos que a logística está sob forte pressão”, resume Baldez, da Anut. 

Fonte: Estadão Conteúdo

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