Comércio Internacional

Bloquear acordo Mercosul–União Europeia é “gol contra”, afirma presidente de câmara francesa

Apesar da resistência de alguns setores da economia francesa, especialmente no campo político e agrícola, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é amplamente defendido por empresários e investidores franceses com atuação no Brasil. A avaliação é de Thierry Besse, presidente da Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB).

Após 25 anos de negociações, Besse considera que rejeitar o tratado neste momento representaria a perda de uma oportunidade histórica para expandir mercados, fortalecer cadeias produtivas e reduzir a influência de outros competidores globais, como a China.

Em entrevista ao jornal Valor, o executivo comparou a assinatura do acordo a um gol decisivo no fim da partida. Para ele, barrar a ratificação agora seria equivalente a “marcar contra” e entregar vantagem estratégica a Pequim.

Segundo Besse, o tratado cria bases sólidas para uma integração econômica estratégica entre dois blocos que compartilham valores institucionais semelhantes, em um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica.

Setores beneficiados pelo acordo Mercosul-União Europeia

O dirigente destaca que diversos segmentos franceses devem ser impactados positivamente com a implementação do acordo Mercosul-UE, entre eles:

  • Vinhos, champanhes e bebidas alcoólicas
  • Laticínios
  • Produtos com denominação de origem protegida
  • Indústrias aeronáutica, automotiva, farmacêutica e energética, com ênfase em energias renováveis

O acordo foi assinado no sábado (17), no Paraguai, por representantes do Mercosul e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O tratado cria a maior área de livre comércio do mundo, reunindo mais de 700 milhões de consumidores em 32 países, com um PIB combinado de US$ 22 trilhões.

Impasse político trava avanço do tratado

Mesmo com o apoio do setor empresarial, o acordo sofreu um revés político. Na quarta-feira (21), o Parlamento Europeu aprovou o envio do texto à Corte Europeia de Justiça para uma análise jurídica sobre sua compatibilidade com as leis da União Europeia.

A decisão, aprovada por margem estreita, pode congelar o processo por pelo menos dois anos. Para Besse, superar esse obstáculo exige ampliar o debate público na Europa sobre os benefícios do tratado.

Ele defende que empresários europeus atuantes na América do Sul ajudem a esclarecer a opinião pública em seus países de origem, ressaltando o potencial econômico da região.

Resistência agrícola coloca a França no centro da oposição

A França lidera a resistência ao acordo dentro da União Europeia. O país foi um dos cinco que votaram contra o tratado na Comissão Europeia, pressionado principalmente por entidades do setor agrícola.

Produtores franceses alegam concorrência desleal, diferenças em padrões ambientais e sanitários, além do uso de pesticidas proibidos na UE e regras mais flexíveis sobre desmatamento no Mercosul.

Besse reconhece que algumas preocupações, especialmente na pecuária, são legítimas. No entanto, afirma que o debate foi distorcido por discursos exagerados e pouco conectados com o conteúdo real do acordo.

Ele lembra que críticas semelhantes surgiram durante as negociações do acordo comercial entre União Europeia e Canadá, que, anos depois, mostrou resultados positivos para ambos os lados.

Salvaguardas e potencial ainda pouco explorado

O presidente da CCIFB destaca que o acordo inclui mecanismos de proteção. Um exemplo é o limite de 99 mil toneladas anuais de carne bovina importadas do Mercosul pela UE, o equivalente a apenas 1,2% do consumo europeu.

Entre os ganhos imediatos, estão os produtos alimentares franceses, que passarão a contar com proteção legal no mercado sul-americano. Atualmente, a França exporta cerca de 700 mil garrafas de vinho e champanhe por ano ao Brasil, número que tende a crescer com a redução de tarifas.

No setor industrial, as expectativas envolvem infraestrutura, equipamentos elétricos, cosméticos, beleza, além de projetos de energia eólica, solar e hidrelétrica, áreas nas quais empresas francesas já têm forte presença no Brasil.

Presença francesa no Brasil e impacto geopolítico

Segundo Besse, aproximadamente 1.300 empresas francesas operam no Brasil, gerando mais de R$ 400 bilhões em faturamento em 2024 e empregando cerca de 560 mil pessoas. A França é hoje o maior empregador estrangeiro no país e o segundo maior investidor, atrás apenas dos Estados Unidos.

Mesmo assim, o comércio bilateral ainda é considerado modesto, somando cerca de € 8 bilhões em 2024, com fluxo relativamente equilibrado.

Para o executivo, o acordo cria uma verdadeira “autoestrada” para o crescimento das trocas comerciais no médio prazo, beneficiando não apenas grandes multinacionais, mas também pequenas e médias empresas.

Besse ressalta ainda o peso geopolítico do tratado em um contexto de enfraquecimento do multilateralismo e aumento das tensões comerciais globais. Na sua visão, a integração entre Europa e América do Sul é hoje mais necessária do que nunca.

FONTE: Valor International
TEXTO: Redação
IMAGEM: Rogerio Vieira/Valor

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Internacional

UE aprova acordo comercial com o Mercosul apesar da resistência da França

A União Europeia autorizou nesta sexta-feira (9) o avanço do acordo comercial entre UE e Mercosul, encerrando um impasse que se arrastava há mais de 25 anos. A decisão foi tomada durante reunião de embaixadores em Bruxelas, com apoio da maioria dos 27 países do bloco, mesmo diante da oposição liderada pela França, segundo fontes diplomáticas ouvidas pela AFP.

Com o sinal verde, o pacto deve ser oficialmente assinado na próxima semana, no Paraguai, abrindo caminho para uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.

Impacto econômico e estratégico do acordo UE-Mercosul

A Comissão Europeia considera o tratado fundamental para estimular exportações, fortalecer a economia do continente e ampliar laços diplomáticos em um cenário global marcado por incertezas. O acordo aproxima a UE de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, criando um mercado integrado de mais de 700 milhões de consumidores.

Segundo estimativas do bloco, a eliminação de tarifas sobre mais de 90% dos produtos comercializados deve gerar uma economia anual de cerca de € 4 bilhões em taxas alfandegárias para empresas europeias, além de impulsionar setores como automóveis, máquinas, vinhos e bebidas alcoólicas.

França lidera oposição, mas não consegue barrar o pacto

Apesar do apoio majoritário, o acordo enfrentou resistência interna. A França articulou uma tentativa de bloqueio, alegando que o tratado ameaça o setor agrícola europeu ao permitir maior entrada de produtos agrícolas sul-americanos mais baratos, como carne, açúcar, arroz, mel, soja e derivados.

Irlanda, Polônia e Hungria também votaram contra, mas a adesão de países como Itália, que havia pedido adiamento no fim de 2024, garantiu a aprovação final.

Maior acordo de livre comércio já negociado pela UE

O comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, classificou o tratado como o maior acordo de livre comércio já negociado pela União Europeia e destacou seu caráter estratégico. Países como Alemanha e Espanha defenderam o pacto, enxergando nele uma oportunidade de fortalecer suas indústrias diante da concorrência chinesa e das tarifas impostas pelos Estados Unidos.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou anteriormente que o acordo representa um sinal claro em defesa do multilateralismo e do fortalecimento das relações internacionais em um ambiente global cada vez mais competitivo.

Garantias ao setor agrícola e criação de fundo de crise

Para reduzir a resistência de agricultores europeus, a Comissão Europeia anunciou medidas compensatórias. Entre elas, a criação de um fundo de crise de € 6,3 bilhões e mecanismos de salvaguarda que permitem suspender tarifas preferenciais caso haja aumento excessivo de importações agrícolas.

Além disso, o acordo prevê a proteção de mais de 340 produtos europeus com indicação geográfica, como o champanhe francês e o feta grego, impedindo o uso indevido de nomes tradicionais no mercado sul-americano.

Protestos de agricultores marcam véspera da aprovação

Mesmo com as garantias, o anúncio do aval provocou protestos. Agricultores franceses ocuparam Paris com tratores, enquanto produtores belgas bloquearam rodovias em diversas regiões. Representantes do setor afirmam que há um clima de forte insatisfação e temor quanto aos impactos do acordo sobre a agricultura local.

FONTE: Le Monde
TEXTO: Redação
IMAGEM: FREDERICK FLORIN / AFP

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