Tecnologia

Robô submarino de Stanford pode ser testado em Santos e ampliar a inspeção de plataformas de petróleo

Desenvolvido pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, o robô submarino OceanOneK foi projetado para operar a até 1.000 metros de profundidade e já alcançou 852 metros em uma missão real. Com aparência humanoide, braços articulados e tecnologia capaz de transmitir sensações táteis ao operador, o equipamento está no radar do SENAI-SP para possíveis aplicações na indústria brasileira de petróleo e gás.

Uma demonstração na Baía de Santos, no litoral paulista, está prevista para novembro de 2026. A iniciativa pretende aproximar pesquisadores norte-americanos e empresas brasileiras do setor de energia, permitindo avaliar o potencial da tecnologia em atividades de inspeção e intervenção submarina.

A aproximação foi apresentada durante a ROG.e 2026, realizada no Rio de Janeiro, em setembro. O encontro reuniu o professor Oussama Khatib, responsável pelo desenvolvimento do OceanOneK, e Daniel Motta, gerente de Inovação e Tecnologia do SENAI-SP.

A proposta é investigar como o equipamento poderá contribuir para operações offshore, especialmente em locais onde a profundidade, a pressão e as condições de acesso dificultam o trabalho humano.

OceanOneK já atingiu 852 metros de profundidade

Embora tenha sido desenvolvido para mergulhar a até 1.000 metros, o OceanOneK realizou um de seus principais testes em 2022, quando chegou a 852 metros no Mar Mediterrâneo, nas proximidades de Cannes, na França.

Durante a missão, o robô alcançou o leito marinho, posicionou uma placa comemorativa e posteriormente a recuperou. A demonstração evidenciou sua capacidade de executar movimentos controlados em profundidades muito superiores aos limites do mergulho humano convencional.

O equipamento combina uma estrutura frontal semelhante à parte superior de um corpo humano, com cabeça e dois braços, e uma seção traseira equipada com oito propulsores. Essa configuração permite controlar o deslocamento na água enquanto as mãos realizam tarefas de manipulação.

O sistema também utiliza câmeras estereoscópicas, que ajudam a reproduzir a percepção de profundidade e permitem ao operador avaliar distâncias e orientar os movimentos com maior precisão.

Tecnologia háptica permite sentir o contato com objetos submarinos

Um dos principais diferenciais do robô é o sistema de feedback háptico, tecnologia que transmite ao operador sensações relacionadas à força e à resistência encontradas durante a manipulação de objetos.

Na prática, quando os dedos mecânicos entram em contato com uma superfície, os controles utilizados pelo operador reproduzem parte dessa sensação. Assim, a pessoa consegue perceber a resistência do objeto sem depender exclusivamente das imagens transmitidas pelas câmeras.

O recurso já foi utilizado em explorações de naufrágios. Durante uma missão no navio italiano Francesco Crispi, localizado a aproximadamente 500 metros de profundidade, Oussama Khatib relatou ter percebido a resistência de uma estrutura ao manipulá-la com o robô.

A combinação entre visão tridimensional e percepção tátil ajuda a realizar movimentos delicados em ambientes com obstáculos e estruturas danificadas.

Os braços também podem receber ferramentas específicas. Em uma das expedições, por exemplo, uma câmera instalada em uma haste foi utilizada para observar áreas estreitas de um naufrágio sem que todo o equipamento precisasse entrar no espaço.

Na indústria, recursos semelhantes poderão ajudar na inspeção de estruturas submarinas, desde que sejam adaptados e testados para as exigências das operações de petróleo e gás.

Robô já explorou aviões, submarinos e naufrágios históricos

Antes de despertar o interesse da indústria offshore, o OceanOneK participou de diferentes expedições arqueológicas no Mediterrâneo. As missões serviram para avaliar sua capacidade de movimentação, manipulação de objetos e exploração de estruturas submersas.

Entre os locais visitados estão:

  • Caça P-38 Lightning: aeronave da Segunda Guerra Mundial encontrada a cerca de 40 metros de profundidade.
  • Beechcraft Baron: avião localizado a aproximadamente 67 metros.
  • Submarino francês Le Protée: estrutura encontrada a cerca de 124 metros de profundidade.
  • Naufrágio romano na Córsega: sítio arqueológico próximo a Aléria, a aproximadamente 334 metros.
  • Navio Francesco Crispi: embarcação afundada localizada a cerca de 507 metros de profundidade.

Nessas atividades, o equipamento foi empregado para examinar estruturas e manipular objetos sob orientação de especialistas.

As experiências também evidenciaram desafios técnicos comuns às operações em águas profundas. Em um dos mergulhos, o cabo responsável pela comunicação e alimentação acumulou peso próximo ao robô, exigindo ajustes antes do retorno à superfície.

Os resultados mostram o potencial do sistema, mas também reforçam a necessidade de aprimoramentos para aplicações industriais que exigem confiabilidade e segurança.

SENAI prevê demonstração do OceanOneK na Baía de Santos em novembro

O interesse do Brasil pela tecnologia ganhou destaque durante a ROG.e 2026, evento realizado entre 21 e 24 de setembro, no Riocentro, no Rio de Janeiro.

Na ocasião, representantes de Stanford e do SENAI-SP discutiram possibilidades de transferência de conhecimento e aplicação de tecnologias avançadas em atividades industriais.

A articulação também envolve a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O planejamento divulgado prevê o retorno de Oussama Khatib ao Brasil em novembro, quando deverá ocorrer uma demonstração do OceanOneK na Baía de Santos, com a participação de empresas do setor energético.

A atividade ainda é uma etapa prevista, e não uma operação comercial confirmada. Até o anúncio, não havia sido divulgado contrato para utilização do robô em plataformas brasileiras nem confirmação de emprego em serviços de manutenção submarina no país.

O objetivo inicial é apresentar as capacidades do equipamento ao mercado nacional e identificar aplicações que possam justificar testes adicionais e futuros projetos de desenvolvimento.

Robôs submarinos podem ajudar na inspeção de plataformas de petróleo

As operações offshore dependem de inspeções frequentes em estruturas instaladas no fundo do mar. Entre os componentes que exigem acompanhamento estão dutos, conexões, equipamentos de produção e estruturas de suporte.

A profundidade, a pressão da água e as limitações para movimentar ferramentas tornam essas atividades complexas. Por isso, a indústria já utiliza veículos operados remotamente (ROVs) para executar tarefas em locais onde mergulhadores não conseguem trabalhar diretamente.

O OceanOneK segue uma abordagem diferente ao combinar a mobilidade de um veículo submarino com braços manipuladores e um sistema de retorno tátil.

Essa integração poderá ser útil em atividades que exigem mais precisão no contato com objetos, como a análise de componentes e a manipulação de ferramentas em espaços de difícil acesso.

Entretanto, o emprego na indústria petrolífera depende de avaliações específicas para cada tarefa. A tecnologia demonstrada em expedições arqueológicas ainda precisa ser validada para as condições operacionais, os requisitos de segurança e a rotina de manutenção das instalações offshore.

Engenharia especial protege o robô contra a pressão do oceano

O funcionamento do OceanOneK em grandes profundidades exige soluções de engenharia capazes de resistir à pressão exercida pela água.

Para preservar a flutuabilidade e proteger os componentes, os pesquisadores desenvolveram uma espuma especial composta por microesferas de vidro, projetada para suportar as condições encontradas no fundo do mar.

Os braços também receberam mecanismos com óleo e molas para equilibrar a pressão externa. Outros componentes internos foram adaptados para reduzir a presença de bolsas de ar compressível, que poderiam comprometer o equipamento durante a descida.

As mãos robóticas passaram por modificações para permitir a manipulação de diferentes tipos de objetos nas expedições.

Essas soluções são fundamentais para manter a estabilidade do sistema e permitir movimentos controlados em profundidades nas quais a pressão é dezenas de vezes superior à registrada na superfície.

Uso comercial em plataformas brasileiras ainda depende de testes

O OceanOneK já demonstrou capacidade de manipulação em naufrágios e atingiu 852 metros de profundidade em uma missão real. Seu limite de projeto é de 1.000 metros, mas a aplicação comercial na indústria brasileira de petróleo e gás ainda está em fase de avaliação.

A possível demonstração na Baía de Santos, prevista para novembro de 2026, será uma oportunidade para apresentar a tecnologia a empresas do setor e discutir seu potencial de utilização em inspeções e intervenções submarinas.

Caso os testes avancem, o equipamento poderá integrar futuras soluções de robótica submarina, ampliando as possibilidades de atuação remota em ambientes de difícil acesso. Por enquanto, porém, não há confirmação de que o OceanOneK será incorporado às operações de plataformas de petróleo no Brasil.

Você acredita que robôs com braços articulados e sensores capazes de reproduzir o tato podem transformar a inspeção e a manutenção submarina? Compartilhe sua opinião nos comentários.

FONTE: Click Petróleo e Gás
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/CPG

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