Transporte

Déficit de motoristas preocupa transportadoras e ameaça logística no Brasil

A crescente falta de motoristas profissionais já provoca impactos diretos no setor de transporte rodoviário de cargas no Brasil. Com caminhões parados, dificuldade para preencher vagas e aumento da pressão operacional, transportadoras começam a enfrentar obstáculos para expandir suas atividades em um mercado cada vez mais dependente da logística.

Responsável por aproximadamente 65% da movimentação de cargas no país, o transporte rodoviário vive um cenário considerado estrutural por entidades do setor.

Escassez de caminhoneiros pressiona operações

Levantamento divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em 2025 mostra que a categoria está envelhecendo rapidamente. A idade média dos caminhoneiros brasileiros chegou a 45,3 anos.

Os dados revelam ainda que:

  • Apenas 9,5% dos motoristas têm menos de 30 anos;
  • 12,9% já ultrapassaram os 60 anos;
  • A maior parcela da categoria está entre 40 e 49 anos, faixa que representa 32,6% dos profissionais.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta um déficit estimado em cerca de 120 mil motoristas. Pesquisa da NTC&Logística aponta que 88% das transportadoras relatam dificuldades para contratar profissionais e motoristas agregados.

Frota cresce enquanto número de motoristas diminui

O problema se agrava diante do crescimento acelerado da frota nacional. Dados da Senatran, compilados pelo Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), indicam que o Brasil perdeu aproximadamente 1,2 milhão de condutores habilitados para caminhões na última década — uma retração próxima de 22%.

No mesmo período, a frota de caminhões aumentou cerca de 50%, saltando de 5,3 milhões para 8 milhões de veículos.

O desequilíbrio entre oferta de profissionais e crescimento da demanda já afeta operações logísticas em diferentes regiões do país. Empresas relatam dificuldades para manter escalas completas, ampliar rotas e assumir novos contratos, especialmente em viagens de longa distância.

Jovens demonstram menor interesse pela profissão

A baixa adesão das novas gerações à carreira também contribui para a crise no setor. Pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres aponta que 70% dos entrevistados associam o afastamento dos jovens ao preconceito em relação à profissão.

Outros fatores citados incluem:

  • Baixa remuneração (58%);
  • Condições de trabalho consideradas desfavoráveis (51%);
  • Longas jornadas;
  • Insegurança nas estradas;
  • Longos períodos longe da família.

Especialistas apontam que esse cenário entra em conflito com as prioridades da Geração Z, que busca maior equilíbrio entre vida pessoal e carreira.

Segundo Carlos Panzan, presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (Fetcesp), ainda existe uma percepção ultrapassada sobre o setor de transporte rodoviário.

De acordo com ele, muitas operações já utilizam recursos como telemetria, rastreamento em tempo real, conectividade embarcada e sistemas digitais de gestão logística. O desafio, porém, é tornar essa modernização mais atrativa para os jovens profissionais.

Tecnologia mudou o perfil do motorista profissional

A digitalização do transporte rodoviário também transformou as exigências do mercado. Hoje, motoristas operam caminhões equipados com sensores, softwares de monitoramento, aplicativos logísticos e plataformas inteligentes de roteirização.

Em operações ligadas ao e-commerce e cargas de maior valor agregado, o profissional passou a desempenhar funções próximas às de um operador de sistemas tecnológicos embarcados.

Essa evolução aumentou a necessidade de capacitação técnica justamente em um momento de escassez de mão de obra qualificada.

Além disso, os custos para ingresso na profissão continuam elevados. A obtenção das categorias C, D e E exige:

  • Cursos específicos;
  • Exames médicos;
  • Testes toxicológicos;
  • Investimento financeiro para formação.

Representantes do setor afirmam que a renovação da categoria dependerá não apenas da formação profissional, mas também de melhorias estruturais nas rodovias, segurança, infraestrutura de apoio e redução das jornadas excessivas.

Falta de motoristas é desafio mundial

A crise de mão de obra no transporte rodoviário não se limita ao Brasil. Segundo a International Road Transport Union (IRU), o déficit global de caminhoneiros já ultrapassa 3,6 milhões de profissionais.

O levantamento mostra ainda que:

  • Apenas 6,5% dos motoristas têm menos de 25 anos;
  • Quase um terço possui mais de 55 anos;
  • Mulheres representam menos de 7% dos profissionais do setor nos países monitorados pela entidade.

O cenário reforça a preocupação das empresas de logística em relação à renovação da categoria. Sem a entrada de novos profissionais, o setor pode enfrentar aumento da frota ociosa e dificuldades para atender ao crescimento da demanda nos próximos anos.

FONTE: Agência Transporte
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Agência Transporte

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