Transporte

Concessões rodoviárias no Brasil: número de empresas quase dobra em dez anos

O mercado de concessões rodoviárias no Brasil passou por uma transformação significativa entre 2016 e 2026, marcada pela entrada de novos investidores, pela ampliação da participação estrangeira e pela redução da concentração entre as maiores operadoras. Nesse período, o número de empresas do setor praticamente dobrou, passando de 18 para 35.

Ao mesmo tempo, a participação dos cinco maiores grupos na extensão total das rodovias concedidas recuou de 64% para 54%. Os dados fazem parte de um levantamento da A&M Infra, divisão de infraestrutura e projetos de capital, elaborado a pedido da CNN.

A mudança ocorreu em paralelo à expansão da malha rodoviária administrada pela iniciativa privada, que passou de aproximadamente 19 mil quilômetros para cerca de 36 mil quilômetros ao longo da década.

Para Tiago Barros, diretor-sênior da A&M Infra, o período foi marcado por reestruturações empresariais e pela aceleração dos projetos de concessão, especialmente a partir de 2020.

Motiva e Ecorodovias lideram o mercado de concessões

Em 2016, a liderança do setor era dividida pela espanhola Arteris e pela CCR, atualmente denominada Motiva, ambas com 17% de participação. Na sequência apareciam Invepar, com 12%, e Ecorodovias e Triunfo, cada uma com 9%.

Uma década depois, a disputa pela maior participação no mercado passou a ser liderada por Motiva e Ecorodovias, ambas com 14% da malha concedida.

A EPR, criada em 2022 pelos grupos Equipav e Perfin, já alcançou 10% de participação. O ranking é completado por Pátria Investimentos, com 9%, e Arteris, com 7%.

A configuração atual reflete tanto a chegada de novos investidores quanto a saída de empresas que antes atuavam no segmento. Entre os movimentos de retirada estão os da Roadis, controladora da ViaBahia, e da Odebrecht Transport.

A Triunfo também deixou a concessão da BR-040 entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG) e tem outras operações com perspectiva de saída.

Novos investidores ampliam a concorrência por rodovias

A entrada de novos grupos é um dos principais fatores de transformação do setor. Entre os participantes recentes está a Nova Rodovias, formada a partir da associação entre o fundo Opportunity e quatro construtoras reunidas na 4UM: JMalucelli, Carioca Engenharia, Aterpa e Senpar.

A companhia conquistou as concessões da BR-381, entre Belo Horizonte e Governador Valadares, em Minas Gerais, e da BR-364, entre Porto Velho e Vilhena, em Rondônia.

A empresa também avalia participar de novas disputas, incluindo os projetos Rota Agro Central e Rota do Pequi, além da relicitação da BR-163 no trecho entre Sinop (MT) e Miritituba (PA).

Em entrevista à CNN, o CEO da Nova Rodovias, Marcelo Stachow, destacou o interesse do grupo em projetos que demandem investimentos elevados, ressaltando sua capacidade de financiamento e execução de obras.

O movimento indica que o mercado passou a reunir empresas com diferentes perfis de capital e experiência, ampliando a concorrência nos leilões de infraestrutura.

Pátria e Vinci reforçam presença nas concessões rodoviárias

A gestora Pátria Investimentos também ampliou sua atuação em concessões federais e estaduais. A empresa considera que a previsibilidade regulatória e a segurança dos contratos são fatores importantes para atrair investidores, incluindo fundos de pensão e fundos soberanos internacionais.

Segundo Thiago Bronzi, sócio-líder de investimentos em rodovias e saneamento da gestora, o segmento permanece estratégico para os negócios da companhia, que atua nesse mercado há cerca de dez anos.

Outro movimento relevante foi a expansão da francesa Vinci, uma das maiores operadoras privadas de rodovias do mundo. A empresa conquistou a concessão da Rota dos Cristais, entre Belo Horizonte (MG) e Cristalina (GO), e adquiriu a Entrevias, que opera rodovias em São Paulo.

A participação desses grupos reforça a presença de capital estrangeiro e amplia a diversidade de operadores no mercado brasileiro.

Governo prevê 11 leilões de rodovias em 2027

A continuidade do programa de concessões deve provocar novas mudanças na estrutura do setor nos próximos anos. Além dos leilões, operações de fusões e aquisições podem alterar a distribuição das participações entre as empresas.

Na semana anterior à publicação da reportagem original, o Ministério dos Transportes apresentou seu calendário de concessões para o próximo quadriênio. A programação prevê 11 leilões rodoviários em 2027, com investimentos estimados em R$ 102,6 bilhões.

Entre os projetos previstos estão três lotes rodoviários em Santa Catarina e a Rota Portuária Itaqui, que ligará São Luís (MA) a Teresina (PI).

A carteira também inclui a Rota do Café, na BR-393, no Rio de Janeiro, e a otimização da BR-153 em São Paulo, trecho conhecido como Transbrasiliana.

O ministro dos Transportes, George Santoro, classificou o volume previsto de disputas como ambicioso, diante da quantidade de projetos programados para o período.

Embora o resultado das eleições presidenciais possa influenciar aspectos da agenda de infraestrutura, representantes do setor avaliam que a continuidade das concessões rodoviárias conta com amplo apoio entre os diferentes grupos políticos.

Segurança jurídica é apontada como essencial para atrair capital

Para a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), o Brasil continua oferecendo oportunidades para investidores internacionais, com possibilidade de entrada de novos participantes.

O presidente da entidade, Marco Aurélio Barcelos, destaca que as concessões rodoviárias movimentam uma cadeia econômica que vai além das próprias operadoras. Entre os segmentos beneficiados estão as construtoras e as empresas responsáveis pelo atendimento pré-hospitalar nas estradas pedagiadas.

Na avaliação da associação, a manutenção da confiança dos investidores depende do cumprimento integral dos contratos e da preservação das regras estabelecidas para cada concessão.

Barcelos também alerta para os riscos de medidas governamentais que comprometam a cobrança de pedágios por razões políticas. As tarifas, segundo o setor, são uma das fontes de recursos para financiar obras, manutenção e melhorias nas rodovias.

Com a expansão da carteira de projetos, a diversificação dos investidores e a perspectiva de novos leilões, o mercado brasileiro de concessões de rodovias entra em uma nova etapa, na qual a competição por ativos e a segurança regulatória devem continuar influenciando as decisões de investimento.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: REUTERS/Amanda Perobelli

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