Especialista

O ESPECIALISTA: GREICE FERREIRA


NR-1: como a nova exigência de riscos psicossociais muda a forma de cuidar das pessoas nas empresas

Quando o risco não é visível, mas é real

O mundo corporativo mudou. Processos estão mais ágeis,metas mais exigentes e o nível de cobrança — interna e externa — nunca foi tão alto. Nos bastidores dessa rotinaacelerada, um novo tipo de risco começou a ganhar nome e, agora, espaço legal: os riscos psicossociais.

Esses riscos estão diretamente ligados à saúde mental, à forma como as pessoas se relacionam com o trabalho e à cultura organizacional. Quando nãoreconhecidos, afetam produtividade, clima e até a reputaçãoda empresa.

O que é a NR-1 e o que ela exige das empresas

Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) define as diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho. Desde a atualização publicada em 2022, ela passou a incluir aobrigatoriedade de identificar e avaliar os riscos psicossociais — um marco que aproxima, pela primeira vez, a psicologia organizacional da segurança do trabalho.

Na prática, isso significa que:

● As​empresas​precisam​avaliarfatoresdeestresse,sobrecarga, comunicação e relações de trabalho;

● Elaborar relatórios técnicos e planos de ação que comprovem a análise;

● E​atuarpreventivamente,​promovendo​ambientes​saudáveis​e emocionalmente seguros.

Ignorar essa etapa pode gerar não conformidade legal, além de custos indiretos altos: afastamentos, queda de performance e rotatividade.

Pontos de atenção: onde estão os principais riscos

Os riscos psicossociais não aparecem em máquinas, planilhas ou EPIs — eles aparecem em comportamentos e sinais sutis do dia a dia. Entre os principais pontos de atenção estão:

1. Sobrecarga e prazos excessivos, que geram estresse crônico e exaustão.

2. Lideranças despreparadas, que comunicam pressão sem suporte.

3. Falta de escuta e diálogo, que criam sensação de isolamento e medo.

4. Ambientes competitivos e desumanizados, que adoecem silenciosamente.

5. Ausência de políticas claras de apoio psicológico e emocional.

Esses fatores comprometem não apenas a saúde doscolaboradores, mas também

a sustentabilidade emocional e financeira do negócio.

Como transformar a exigência em oportunidade

Cumprir a NR-1 vai muito além do compliance: é uma chancede rever a cultura organizacional e fortalecer o capital humano. Empresas que tratam o tema de forma preventiva colhem resultados concretos:

● Menos afastamentos e processos trabalhistas;

● Equipes mais engajadas e criativas;

● Maior retenção de talentos;

● Clima de confiança e pertencimento.

Como psicóloga organizacional, percebo que quando as lideranças aprendem a equilibrar exigência e humanidade, a empresa ganha em todos os sentidos — inclusive financeiramente. Cuidar de quem sustentatudo é, hoje, uma das estratégias de gestão mais inteligentes.

Como começar o processo de adequação

O primeiro passo é realizar um Diagnóstico de RiscosPsicossociais, que mapeia as condições emocionais e relacionais que impactam o ambiente de trabalho. Esse diagnóstico serve de base para o plano de ação exigido pela NR-1, e deve ser conduzido por profissionais habilitados em psicologia organizacional e segurança do trabalho.

A partir desse diagnóstico, a empresa pode implementar programas de Desenvolvimento Humano e Compliance Emocional, voltados à redução dos riscos psicossociais identificados — que normalmente envolvem aspectos de liderança, comunicação, clima organizacional e sobrecarga emocional.

As ações podem incluir treinamentos de liderança saudável, aprimoramento da comunicação assertiva e estratégias de prevenção do burnout, entre outras intervenções personalizadas conforme o perfil da empresa.

Cumprir a NR-1 não é um custo. É um investimento inteligente em pessoas, reputação e resultado. Ofuturo das empresas será definido por quem entender quesaúde mental também é estratégia de negócio.

Greice Ferreira é psicóloga clínica e organizacional, com mais de 15 anos de experiência em saúde mental e 10 anos de atuação em programas de Saúde e Segurança do Trabalho (NRs 33 e 35).

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