Comércio Exterior

Alvos do ‘tarifaço’ têm mais de 90% das exportações direcionadas aos EUA

O tarifaço sobre as exportações brasileiras ameaça produtos que têm os EUA como o destino de mais de 90% de suas vendas internacionais. A dependência foi apresentada pelo Icomex (Indicador de Comércio Exterior), da FGV (Fundação Getulio Vargas), que alerta para os desafios ocasionados pela taxação e demonstra preocupação com os gastos originados pela sobretaxa.

O que aconteceu

Entre os 30 produtos mais exportados aos EUA, 18 serão sobretaxados. A cesta de 30 itens corresponde a 65,3% das vendas destinadas aos norte-americanos entre janeiro e julho deste ano e somam 7,8% do total das exportações do Brasil. A lista de exceções ao tarifaço abrangeu 12 deles.

Aço, madeira e sebo animal são os mais prejudicados. O estudo da FGV considera a participação dos norte-americanos nas compras de madeira de coníferas perfilada (98%), sebo de bovinos, ovinos e caprinos (97,3%) e semimanufaturados de ligas de aço (96,1%). Os itens representam mais de 4% das exportações nacionais para os Estados Unidos.

Concentração é entrave até mesmo para os contratos já firmados. Fernando Sette Júnior, economista e professor de relações internacionais, afirma que o cenário reduz as margens de lucro e pode inviabilizar vendas já firmadas. “A logística, a adequação regulatória e a renegociação contratual geram custos adicionais”, avalia ele.

Relação das tarifas adicionais conta com quase 700 exceções. A cobrança inicialmente estabelecida em 10% foi limitada a 694 produtos nacionais, como a celulose, as castanhas, os produtos de aviação e o suco de laranja. Segundo a Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), 43,4% das exportações brasileiras aos EUA foram poupadas. Os demais setores foram taxados em 50%.

Entre os mais dependentes, aeronaves se livraram da taxa extra. O setor tem os Estados Unidos como principal parceiro, com 91% das exportações destinadas àquele mercado. Os produtos, que aparecem entre as exceções, respondem por 2,76% do total das vendas nacionais aos EUA, segundo o levantamento.

Dependência dos EUA dificulta a abertura de novos mercados. A concentração das vendas de alguns produtos complica a diversificação das parcerias comerciais. “Não há alternativas imediatas de destino com o mesmo porte de compra dos Estados Unidos”, diz Sette. Lia Valls, pesquisadora associada do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, ligado à FGV), observa que o ingresso em novos países é ainda mais difícil para os exportadores de menor porte.

Para algumas empresas deve ser possível diversificar mercados. Para as pequenas, especialmente, é muito difícil. No comércio exterior, não é tão simples você entrar em um novo mercado. Existem as certificações de qualidade e você tem que conquistar a confiança de um novo cliente. Não é um processo assim tão rápido.Lia Valls, pesquisadora do Ibre/FGV

Socorro do governo

Plano de contingência é visto como positivo, mas insuficiente. Os especialistas em comércio exterior avaliam que as medidas apresentadas para socorrer os exportadores têm caráter temporário e não beneficiam igualmente todos os setores. “É uma medida de alívio. Precisamos ver como ela vai efetivamente ser operacionalizada”, afirma Valls. “O pacote anunciado pelo governo tem caráter parcial e setorial”, complementa Sette.

Abrangência limitada dos auxílios setoriais gera dúvidas. Voltado especialmente para pequenas e médias empresas, o pacote não socorre todos os segmentos afetados pelas tarifas norte-americanas. “Enquanto alguns exportadores terão condições de amortecer a perda de competitividade, outros precisarão absorver o choque sem uma proteção imediata”, avalia Sette.

Custos do tarifaço são apontados como desafio econômico. Além da ajuda do Planalto, outros impactos são previstos. “Há custos adicionais relevantes, que podem perdurar mesmo com apoio governamental”, diz Sette. Ele lista entre os desafios os gastos extras com logística, a menor entrada de dólares no Brasil, a adequação regulatória com certificações na busca por novos mercados e o risco reputacional em meio a cancelamentos e atrasos.

Fonte: UOL

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