Comércio Exterior

“Lula deveria falar com o presidente Trump”, diz novo presidente da Fiesc sobre tarifaço

Ao assumir a presidência da Federação das Indústrias de SC, Gilberto Seleme estreia com o grande desafio do tarifaço. Ele acredita que a solução depende de conversa direta entre os presidentes dos dois países

Primeiro industrial do Oeste catarinense eleito presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), o empresário Gilberto Seleme, de Caçador, assume o cargo em posse solene nesta sexta-feira (22), às 19h, na sede da entidade, em Florianópolis. Mas desde o dia 08, quando recebeu as funções executivas do antecessor Mario Cezar de Aguiar, vem trabalhando e articulando intensamente na busca de soluções para o tarifaço de 50% dos Estados Unidos. Em entrevista exclusiva para o NSC Total, ele afirmou que a solução para esse impasse é o presidente Lula falar com o seu par americano, Donald Trump.

– O presidente Lula deveria falar como presidente Trump. E nós precisamos ser humildes porque apenas 1,1% das importações dos Estados Unidos vêm do Brasil. Para eles, somos pequenos; mas para nós, os Estados Unidos são muito grandes – enfatizou Gilberto Seleme.

Engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Gilberto Seleme sucede o também engenheiro civil Mario Cezar de Aguiar, e tem como primeiro vice-presidente André Odebrecht, de Rio do Sul. Para a Fiesc, a estratégia da nova diretoria é dar continuidade ao trabalho aplaudido da administração anterior, de Aguiar, da qual o novo titular da entidade era primeiro vice-presidente.

Gilberto Seleme destaca que a gestão que vai liderar priorizará o associativismo, a educação e infraestrutura, além de uma ação social voltada ao trabalhador. A ênfase aos investimentos em educação no Senai e no Sesi continuará.

Nascido em Caçador, filho do industrial Elias Seleme, o novo presidente da Fiesc tem 70 anos, é casado com Cristiane Costa Ganz Seleme e o casal tem três filhos, Gilberto, Gustavo e Guilherme. Também graduado em Administração pela UnC Caçador, ele é acionista do grupo Seleme, que atua com indústrias nos setores de madeira, construção civil, couro, calçados e gelatina. Ele tem, também, relevante trajetória no associativismo e na área social. Confira a entrevista a seguir: 

O que representa para o senhor presidir a Federação das Indústrias de Santa Catarina?
– Para mim, é uma honra presidir a Federação das Indústrias de Santa Catarina, que representa todas as indústrias. Nós temos uma organização fantástica na educação, especialmente com o Sesi e o Senai, além da área de Saúde do Trabalhador. Temos uma equipe excelente e me sinto muito confortável, pois fui vice-presidente por sete anos ao lado do presidente Mario Cezar Aguiar. Estamos dando continuidade ao planejamento estratégico que foi elaborado anos atrás.

O senhor assume no meio de uma crise sem precedentes, que é o tarifaço de 50% dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Como recebeu essa informação num primeiro momento e como está enfrentando essa situação agora?
– É, de fato, um momento difícil para o Brasil. Assumi já no primeiro dia tentando amenizar esse problema para o empresário catarinense, principalmente para quem exporta uma fatia significativa da sua produção para os Estados Unidos. A Fiesc, junto com a CNI e outras associações setoriais, como a de móveis e madeira, setores muito fortes em Santa Catarina, está atuando intensamente. Fizemos reuniões com o consulado americano e com as forças sindicais de Santa Catarina porque precisamos envolver também os trabalhadores nessa negociação. Realizamos encontros em Brasília com senadores e deputados, e a Fiesc está cumprindo seu papel de forma intensa com a equipe que temos aqui. Inclusive, estamos patrocinando equipes e escritórios nos Estados Unidos para nos ajudar nesse processo.

Na sua avaliação, qual seria o pior cenário e qual o melhor cenário para essa crise?
– O pior cenário é as tarifas perdurarem por mais de 90 dias. As empresas não terão tempo hábil para buscar novos mercados com os produtos e maquinários que possuem. No aspecto trabalhista, muitas já deram férias e fizeram o que podiam. Se passar de 90 dias, teremos grande dificuldade em certas regiões de Santa Catarina, não digo um colapso, mas problemas sérios.

O melhor cenário seria uma redução das tarifas para a faixa de 10% a 15%. Não estamos pedindo a volta ao patamar zero, mas algo nessa faixa já seria suportável. Outros países enfrentam tarifas médias em torno de 20%, mas nós temos o chamado “custo Brasil”, que eles não têm. Agora, tarifas de 40% ou 50% nenhuma indústria suporta por muito tempo. Talvez por um mês, mas não além disso. Aí é melhor fechar.

O senhor é acionista de um grupo exportador para os Estados Unidos. Isso ajuda a enxergar a crise de uma forma diferente? A saída é buscar novos mercados?
– Sim. Faço parte de um grupo extremamente exportador, que vende para mais de 16 países. Mas temos uma planta voltada exclusivamente para os Estados Unidos, que trabalha com madeira. Isso me dá mais segurança para discutir o problema, porque sinto na prática. Converso todos os dias com nossos clientes (nos EUA). Eles querem o produto, mas não conseguem pagar a taxa. Por isso, estamos mobilizando esses clientes para que pressionem seus deputados, senadores e governo, pois também precisam de nós. Não podem trocar de fornecedor de uma hora para outra. Isso me ajuda bastante a lidar com esse tarifaço.

As madeiras que vocês exportam não entraram nas exceções?
– Não. A lista contemplou apenas uma madeira tropical, bruta e restrita a uma região, provavelmente incluída por interesse de alguém com grande influência. A madeira que produzimos no Sul é de reflorestamento, exótica, totalmente certificada e sustentável. Temos uma cadeia completa, da tora à serraria, da fábrica à exportação, e todas as certificações ambientais. Portanto, nossa madeira deveria estar na lista de exceções, e não a madeira da Amazônia.

E a madeira de vocês é usada para quê?
– Principalmente na construção civil: móveis, molduras, portas, compensados, MDF. São florestas renováveis e certificadas, ecologicamente corretas. Uma cadeia que deveria ter sido incluída nas exceções.Já enviamos MDF pronto, portas prontas, molduras, rodapés, vistas, tudo que compõe uma casa. Se os Estados Unidos mantiverem essa taxa, a construção civil deles ficará mais cara, porque não têm indústria capaz de produzir no volume que o Brasil exporta.

Agora vamos falar sobre a gestão do senhor na Fiesc, o futuro da entidade. Quais serão as prioridades?
– Vamos seguir as diretrizes traçadas pela diretoria do presidente Mario Cezar de Aguiar, mas com foco em três pilares: associativismo, educação e infraestrutura, além de uma ação social voltada ao trabalhador. O associativismo é fundamental porque os sindicatos são nossos sócios e representantes da indústria.

Santa Catarina tem um parque industrial grande e diversificado, espalhado por todas as regiões. Precisamos que os sindicatos tragam os anseios locais dos empresários. Na educação, contamos com Sesi e Senai, que hoje atuam desde a educação infantil até a faculdade. Antes, formávamos apenas mão de obra para a indústria. Hoje, formamos cidadãos: profissionais liberais, pequenos empreendedores ou colaboradores de grandes empresas.

A educação é o caminho para transformar a sociedade, porque proporciona qualidade de vida e melhores condições para o trabalhador. Na infraestrutura, enfrentamos um gargalo histórico em Santa Catarina. Isso não é culpa apenas do governo atual, mas do acúmulo de décadas. Os investimentos são muito altos. Defendemos a privatização das rodovias e ferrovias, assim como já ocorre com os portos. A curto prazo, precisamos de soluções paliativas. Se for preciso pagar pedágio, que seja, mas com garantia de previsibilidade: saber a hora que saímos e a hora que chegamos.

O senhor defende a privatização, também, de rodovias estaduais?
– Nosso maior gargalo está nas rodovias federais: BR-470, BR-280, BR-101, BR-116, BR-153, entre outras. As estaduais ligam a malha federal e têm menor fluxo, por isso poucas despertariam interesse de investidores. Mas, se for necessário para melhorar, e o estado não tiver condições, também defendo a privatização das estaduais. Por ora, a prioridade são as federais.

Mesmo com os esforços, a falta de trabalhadores qualificados segue sendo um desafio em Santa Catarina. Como enfrentar esse problema?
– A indústria cresce mais rápido do que a qualificação profissional. Uma fábrica pode ser montada em dois anos, mas a formação exige mais tempo de banco escolar. Vivemos praticamente em pleno emprego. Por isso, Sesi e Senai precisam manter um “estoque” de alunos preparados, para que no futuro não falte mão de obra qualificada. Nos preocupa também que, com esse tarifaço, empresas exportadoras demitam profissionais já qualificados. Outras empresas podem absorver essa mão de obra, e depois, quando a situação melhorar, ela não estará mais disponível. Estamos pedindo soluções que evitem a dispensa desses trabalhadores.

Por isso vocês estão encaminhando aquele pedido ao Congresso Nacional, para tentar manter o trabalhador na indústria moveleira durante a crise?
– Sim. Ele precisa continuar, porque se estamos com falta de mão de obra e eu mandar embora, nunca mais conseguiremos essa mão de obra de volta. E muitas indústrias estão em cidades pequenas, o que agrava a situação. Quando o trabalhador sai da cidade, dificilmente retorna, e a empresa não consegue mais operar. Estamos alertando sobre isso. Inclusive, estamos elaborando um plano de emergência no Sesi e no Senai, que será divulgado nos próximos dias, para qualificar os trabalhadores, oferecer consultoria e ajudar as indústrias naquilo que o Sesi e o Senai podem fazer. Tudo subsidiado pelo Sesi e Senai, como nossa contrapartida de apoio ao setor.

Então, enquanto a empresa aguarda uma decisão do governo americano, ao invés de dispensar, vocês vão oferecer cursos aos trabalhadores?
– Exatamente. Estamos ampliando os cursos. Pelo que sabemos, parte desse custo pode ser até bancada pelo próprio governo. Além disso, vamos oferecer consultorias e apoio. Também estamos trabalhando para abrir mercados. Em breve haverá uma feira no Paraguai, onde a Fiesc estará presente com estande para identificar oportunidades. Quem sabe uma empresa consegue vender lá um produto que já fabrica aqui. Esse é o papel da Fiesc: ajudar o empresário catarinense, seja ele grande, médio ou pequeno. O grande normalmente vai sozinho, mas os médios e pequenos precisam de mais suporte.

Como a sua gestão vai incentivar a inovação da indústria?
– Vamos dar continuidade ao que a Fiesc está fazendo. A inovação está acontecendo de forma muito rápida, e para a empresa ser competitiva nesse mercado globalizado precisa inovar. Cabe a nós oferecer as ferramentas para que isso aconteça. E inovar não é apenas adquirir máquinas novas. Pode ser repensar um layout, melhorar o transporte de materiais. Temos institutos que apoiam essas iniciativas. A inteligência artificial, por exemplo, está chegando com força e precisamos estar preparados.

A Fiesc tem forte atuação em projetos sociais e voltados à saúde. Esse trabalho também continua?
– Sim, com certeza. A saúde do trabalhador é essencial. Uma máquina, basta comprar e fazer manutenção. Já o ser humano pode estar com boa saúde física, mas sofrer de pressão psicológica, problemas familiares ou outros desafios.

Ele precisa chegar ao trabalho com energia, sem trazer esses problemas junto. Durante a pandemia, nosso discurso era de que o local mais seguro era dentro da empresa, porque ali havia protocolos. Queremos agora ir além e alcançar também a casa do trabalhador. Muitas vezes, o problema de saúde dele está no ambiente em que vive.

Como o senhor avalia o atual momento da economia catarinense e de que forma o governo estadual poderia colaborar mais com o setor produtivo?
– A economia catarinense vinha bem, mas agora um dos pneus furou, e vamos precisar trocá-lo para continuar no mesmo ritmo. O governador Jorginho e suas secretarias mantêm diálogo próximo com a Fiesc. Eles nos escutam, pedem nossa opinião. Onde há indústria, há desenvolvimento, e Santa Catarina é um estado industrializado. Claro que o governo estadual tem limitações orçamentárias e enfrenta burocracia. Na infraestrutura, por exemplo, não há como fazer grandes obras a curto prazo. Mas o governador assumiu conosco o compromisso de não aumentar impostos e tem cumprido. É fundamental que essa postura se mantenha.

O senhor citou que um dos pneus (da indústria de SC) furou. Qual foi?
O do tarifaço. Das exportações para os Estados Unidos. Isso impacta cerca de 800 mil pessoas apenas no setor de madeira.

Quem são essas 800 mil pessoas?
– São as que atuam em toda cadeia da madeira. Desde quem leva o trabalhador até a floresta, passando pelo que corta a árvore, quem prepara o almoço, o caminhoneiro que transporta, o frentista que abastece, o operador da serraria, até chegar à fábrica de móveis. Cada elo dessa cadeia sofre o impacto. E, quando as famílias veem a renda comprometida, começam a cortar despesas, primeiro o supérfluo, depois outros gastos. Isso gera uma retração em cascata na economia. Portanto, o impacto não é apenas nos 15% de tarifa. Ele se espalha por toda a cadeia produtiva.

E sobre a economia brasileira? O que o governo federal poderia fazer mais pela indústria?
– O Brasil vive um momento complicado. O governo federal não tem dado um rumo claro e, muitas vezes, passa a impressão de estar estimulando a desindustrialização. O Congresso também não se acerta, o que gera insegurança para investimentos.

Pesquisa que realizamos mostra que o empresário está inseguro para investir. As ações do governo em apoio à indústria são tímidas. Abre-se uma linha de crédito pequena, que em poucos dias já se esgota. É preciso olhar mais para a indústria, porque é ela que sustenta os trabalhadores. O trabalhador não quer esmola, quer emprego digno. Quer ganhar pelo que produz. Portanto, o governo precisa ter uma política mais firme de apoio à indústria, que é a base da geração de empregos.

O senhor comentou que o governo talvez esteja com uma política que acaba incentivando a desindustrialização. Poderia detalhar mais isso?
– O governo está dando incentivo para quem traz produtos de fora e não para quem produz aqui no Brasil. Esse tarifaço, por exemplo, precisava de uma resposta rápida. Mas o governo agiu de forma muito lenta e ainda enviou para negociar pessoas sem poder de decisão. Quem vai negociar precisa ter autonomia para dizer sim ou não, atribuir valores e fechar acordos. O que aconteceu foi apenas uma conversa. Se de um lado há um negociador e do outro apenas alguém que conversa, não se chega a resultado algum. Precisamos de dois negociadores, cada um defendendo sua parte, até chegar a um acordo.

Quem deveria ter negociado, na sua visão?
– Isso é coisa de presidente para presidente.

Então, na sua opinião, o presidente Lula teria que falar diretamente com Donald Trump?
– Exatamente, o presidente Lula deveria falar como presidente Trump. E nós precisamos ser humildes, porque apenas 1,1% das importações dos Estados Unidos vêm do Brasil. Para eles, somos pequenos; mas para nós, os Estados Unidos são muito grandes. Por isso, devemos aceitar certas regras do jogo, agir com humildade, e depois buscar outros mercados.

Mas não era o momento de entrar nessa guerra de narrativas. Hoje não se sabe mais quem fala pelo Brasil. E, para os Estados Unidos, que sempre foram grandes parceiros, o Brasil parece um pequeno que quer cutucar. Para eles, tanto faz. Trump não está preocupado com o Brasil. E, infelizmente, o governo brasileiro não está preocupado com as indústrias.

Nem com o desemprego que isso pode causar?
– Exatamente, não está preocupado.

O senhor acredita que o governo não percebe o tamanho do impacto desse tarifaço?
– Não percebe. Em determinadas regiões e segmentos, isso pode se tornar devastador. Para ter uma ideia: o produto de madeira que as fábricas catarinenses produziam já está sendo feito na Ásia. Isso significa que estamos gerando emprego e riqueza para eles. Hoje, nosso concorrente nos Estados Unidos é a Ásia, que exporta pagando 20% de tarifa, enquanto nós enfrentamos 50%. Assim não há como competir.

Será durante a sua gestão à frente da Fiesc que vai ser implantada a reforma tributária. Qual sua avaliação sobre essa mudança tão esperada pelo setor industrial?
– A reforma era necessária. Para Santa Catarina, em alguns aspectos, ela traz perdas. Entre as empresas, há divergências: para umas é positiva, para outras não. Mas o país precisava avançar. Com a prática, muitos que acreditavam que seria ruim podem perceber benefícios, e vice-versa. Ela pode ser ajustada ao longo do tempo. Vejo espaço para uma “reforma da reforma”.

Um ponto que considero equivocado é a manutenção da zona franca de Manaus. Estamos levando matéria-prima do Sul para lá, industrializando e trazendo de volta, apenas multiplicando custos de frete. Seria mais inteligente criar polos de incentivo em outras regiões, inclusive em Santa Catarina. Por exemplo, poderíamos ter uma zona franca em Imbituba, nos moldes da de Manaus. Mas ninguém mexe nesse modelo, e seguimos estimulando algo que não faz mais sentido nem ambiental nem econômico. O ideal seria manter a Amazônia preservada e criar alternativas em outros pontos do país.

Fonte: NSC Total

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Logística

82% das empresas de logística têm queda na demanda após tarifaço

No curto prazo, setor marítimo deve sentir maior necessidade de adaptação

O tarifaço de Donald Trump, que impõe sobretaxa de 50% sobre centenas de produtos brasileiros, já começa a mexer com a logística no País. Uma enquete realizada pela NTC&Logística revela que 82% das empresas do setor notaram queda na demanda por fretes de exportação. Enquanto isso, 65% relatam cancelamento ou antecipação de embarques. 

O cenário é de insegurança e adaptação forçada com transportadores, operadores portuários e embarcadores em busca de alternativas para minimizar perdas. Em paralelo, ainda não há entendimento se o Plano Brasil Soberano, lançado pelo governo federal para proteger exportadores e empregos, vai também beneficiar o setor logístico diretamente.

Primeiros efeitos sentidos na logística após tarifaço

Nos portos, cargas destinadas aos Estados Unidos já foram suspensas ou redirecionadas. Em Vitória, há relatos de contêineres parados e a carga estocada a custos adicionais. Conforme o presidente da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Cargas (Anut), Luis Baldez, embora o impacto quantitativo seja pequeno, equivalente a 1% da movimentação nacional, o problema é qualitativo. Ou seja, setores como proteína animal, pescado e madeira sofrem mais, já que dependem de prazos curtos e têm menor margem para readequação.

Por outro lado, o setor rodoviário de forma geral consegue adaptar rotas e redirecionar as cargas para outros destinos. Em reuniões com o governo, a Anut defende a realocação dessas encomendas para o mercado interno. Isso pode solucionar o problema com cargas perecíveis, como pescados e suco de laranja. Entretanto, o setor siderúrgico deve sofrer mais neste primeiro momento, já que são produtos mais difíceis para absorção imediata por outros mercados.

“No primeiro momento, nós entendemos que não vai haver grandes impactos na logística interna. O que vai acontecer é em virtude do tipo de produto, aí sim tem impacto na cadeia produtiva”, ressalta Baldez. 

O levantamento da NTC confirma esse movimento no valor dos fretes. 41% das empresas não notaram alteração nos valores de frete, mas 29% já identificaram aumento e outros 29% registraram queda, resultado da instabilidade do mercado.

“As oscilações [no preço de frete] costumam estar mais ligadas a outros fatores como custo do combustível, disponibilidade de veículos e sazonalidade da demanda”, explica Lauro Valdivia, assessor técnico da NTC.

Rodovias, ferrovias e marítimo: qual sente mais?

O transporte rodoviário, responsável por levar a maior parte das exportações até os portos, deve ser um dos mais atingidos. A NTC alerta para retração de viagens e risco de demissões entre motoristas e operadores logísticos. Já o presidente da Abralog, Pedro Moreira, prevê redução de 10% a 15% no volume de movimentação nos próximos quatro a seis meses.

No modal ferroviário, a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF) avalia que os efeitos só serão percebidos no médio prazo, já que 85% das cargas são commodities agrícolas e minerais sujeitas a sazonalidades. 

Já o transporte marítimo sente impacto imediato, já que redirecionar rotas internacionais de longa distância não é tão simples. Em relação ao frete, há quem espere uma queda no preço em razão da ociosidade de navios. Por outro lado, há quem preveja um acréscimo desses valores, devido ao choque na cadeia logística inicial. 

Tarifaço traz insegurança na cadeia da logística marítima

“Muitos contêineres ficaram nos portos brasileiros, o que tende a gerar um déficit e acúmulo de contêineres vazios no País, aumentando os custos de reposicionamento para as companhias marítimas”, explica o advogado e sócio na RC Law Larry Carvalho, especialista em comércio marítimo.

De modo geral, a logística pelos mares espera que novos mercados sejam abertos com celeridade. Em uma publicação no Linkedin, Ricardo Rocha, presidente da Maersk na costa oeste da América do Sul, líder mundial em logística marítima, afirma que os frequentes anúncios de tarifas impactam todo o mundo. O que “tem dificultado a clareza necessária para que nossos clientes possam planejar suas cadeias de fornecimento a médio e longo prazo”. 

Caso essas tarifas sigam em vigor, a quantidade de cargas destinadas aos portos, especialmente no escoamento para o Porto de Santos, deve reduzir, alerta o técnico da NTC. Somado a isso, o trânsito nos portos devem ficar mais lentos devido as fiscalizações alfandegárias rigorosas.

Isso se reflete no recorde de exportações em Santos no mês de julho, já que os embarques foram acelerados para fugir das tarifas. Pela primeira vez na história, o porto superou o número de 17 milhões de toneladas de cargas movimentadas nos terminais do complexo portuário. 

A edição da newsletter enviada aos clientes da RC Law, com orientações para mitigar as perdas, recomenda a revisão de contratos marítimos para incorporar clausulas que consideram atrasos ou aumento de custos causados pela crise .

Vulnerável desde a pandemia

A maioria das fontes entrevistadas pela reportagem enxergam os impactos do tarifaço de forma pragmática, fruto da experiência na pandemia. Durante a crise sanitária, a logística parou, o que abriu espaço para aprimorar a gestão de crise e inteligência na movimentação de cargas. Entretanto, o setor está mais vulnerável.

“A margem está muito espremida e qualquer custo adicional é fatal”, alerta o presidente da Abralog. Dessa forma, o temor também é de demissões no curto prazo, até que empresas consigam redirecionar parte da produção para o mercado interno ou para novos compradores externos. A associação prevê um período de quatro a seis meses de reacomodação até que novas rotas e contratos estejam consolidados.

“A manutenção da tarifa reduz a competitividade e pressiona margens, o que pode levar a cortes de empregos em toda a cadeia logística”, afirma Valdivia, da NTC. 

Para o advogado Larry Carvalho, a situação atual se soma a um cenário global já pressionado por disputas geopolíticas e choques externos. “Nos últimos cinco anos, o comércio marítimo tem enfrentado sanções, crises ambientais e reconfiguração de rotas. O setor se adapta rápido, mas cada nova tarifa ou barreira exige ajustes imediatos, pressionando custos e contratos internacionais.”

Governo reage com Plano Brasil Soberano

Para reduzir os impactos do tarifaço, o governo federal anunciou o Plano Brasil Soberano, com linha de crédito de R$ 30 bilhões para capital de giro e medidas emergenciais, como postergação de impostos. A estratégia remete às soluções adotadas durante a pandemia para assegurar a sobrevivência financeira de empresas.

Conforme a Anut, os recursos são importantes para segurar empregos e evitar um colapso financeiro nas cadeias mais expostas. Entretanto, lideranças do setor defendem que o País aproveite o momento para investir em infraestrutura ferroviária, hidrovias e cabotagem, reduzindo o custo logístico interno, hoje estimado em US$ 80 por tonelada exportada.

Empresas de transporte de cargas já buscam redirecionar exportações para Europa, Ásia e América Latina. Mas a adaptação varia conforme o tipo de carga. Enquanto o aço e a celulose podem ser estocados, pescado e proteínas perecíveis têm maior risco de perda. “O setor logístico é altamente adaptável, mas uma eventual retaliação brasileira poderia agravar ainda mais o cenário”, avalia Carley Welter, representante da Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas (Anatc).

A Lei de Reciprocidade Econômica foi sancionada antes do anúncio do governo americano que ampliou as taxas aplicadas ao Brasil. Assim, o País fica autorizado tomar medidas como suspender concessões e cobrar taxas adicionais em transações comerciais. O governo federal ainda não anunciou o uso do dispositivo legal.

Perspectivas e incertezas após tarifaço

As perspectivas das empresas são majoritariamente negativas: insegurança, recessão e desemprego aparecem como respostas mais frequentes na enquete da NTC. Se o tarifaço for mantido, especialistas temem um efeito prolongado sobre a competitividade da indústria brasileira, somado aos impactos esperados da reforma tributária no setor de transportes.

Apesar disso, há consenso de que o problema é mais financeiro do que logístico. A dificuldade de manter capital de giro e competitividade pode paralisar empresas, mesmo que a infraestrutura siga operando. “Se o tarifaço viesse da China, seria o caos. Mas mesmo com os Estados Unidos, já sentimos que a logística está sob forte pressão”, resume Baldez, da Anut. 

Fonte: Estadão Conteúdo

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Comércio Exterior

‘Continuamos na mesa de negociações’, diz Alckmin sobre tarifaço de Trump

Ao Radar, o vice-presidente se diz ‘otimista’ e acredita que ‘a racionalidade vai devolver a estabilidade para as relações’ entre Brasil e Estados Unidos

Vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin se reuniu, nos últimos quarenta dias, com mais de 400 empresários brasileiros para discutir o tarifaço dos Estados Unidos.

Sem bravatas (como as proferidas com frequência por Lula) e distante do palanque, buscou entender a crise sob o olhar de diferentes setores da economia para achar as soluções — que começaram a surgir.

Além do pacote de socorro ao setor produtivo entregue a Lula, Alckmin abriu canais com o governo de Donald Trump para se fazer ouvir. Em julho, teve duas conversas com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, que aliviaram o tarifaço.

Os resultados vieram porque o vice entendeu o espírito do jogo: “As empresas e os consumidores brasileiros não recebem caridade dos Estados Unidos. O que temos é uma relação madura, baseada em interesses e benefícios recíprocos”, diz Alckmin ao Radar.

Para o vice, a crise está caminhando para o fim. “Continuamos na mesa de negociações com o governo norte-americano, otimistas de que a racionalidade vai devolver a estabilidade para as relações”, diz Alckmin

Fonte: Veja

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Exportação, Industria

Indústria prevê queda nas exportações pela primeira vez desde 2023 com impacto do tarifaço

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros começa a impactar as expectativas da indústria. O índice que mede a projeção de exportações para os próximos seis meses caiu 5,1 pontos em agosto, recuando para 46,6 pontos. A expectativa de queda nas vendas externas não ocorria há 21 meses, desde novembro de 2023, segundo a Sondagem Industrial divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta quarta-feira.

A própria CNI reduziu de 2% para 1,7% a estimativa de crescimento da indústria em 2025, em meio aos efeitos dos juros altos e ao agravamento do cenário externo. A confederação calcula que a medida deve reduzir em mais de US$ 5 bilhões o valor exportado neste ano, levanto a uma queda da projeção para US$ 341,9 bilhões. Com isso, o superávit comercial deve cair 14% em relação a 2024, para US$ 56,6 bilhões.

– A piora das expectativas de exportações da indústria está muito relacionada às incertezas do cenário externo, principalmente em função da nova política comercial americana – afirma Isabella Bianchi, analista de Políticas e Indústria da CNI, em nota.

Desde 6 de agosto, quase metade da pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos está sujeita à tarifa combinada de 50% imposta pelos americanos. Segundo levantamento da CNI, em 2024, a exportação desses bens alcançou US$ 17,5 bilhões, segundo levantamento da CNI.

Os efeitos do tarifaço também se refletem nas expectativas de emprego. O índice que mede a projeção de postos de trabalho caiu para 49,3 pontos em agosto, indicando que os empresários não esperam mais crescimento na contratação nos próximos meses.

Além disso, a pesquisa mostra ainda retração nos índices de expectativa de demanda (53,1 pontos) e de compras de insumos e matérias-primas (52,1 pontos). Embora ambos ainda estejam acima da linha de 50 pontos (o que indica crescimento), o ritmo projetado é menor que em julho.

O índice de intenção de investimento também recuou, para 54,6 pontos, menor patamar desde outubro de 2023, embora ainda acima da média histórica.

Fonte: O Globo

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Internacional

Índia e China reatam laços diante de tarifas que prejudicam perspectivas

Ambos os países enfrentaram pesadas ameaças tarifárias de Trump em relação às suas políticas comerciais

Em visita à Índia esta semana, o principal diplomata chinês afirmou que as duas nações asiáticas deveriam aprofundar a cooperação em meio a ameaças internacionais ao livre comércio, um sinal de que a guerra comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode acelerar um degelo no relacionamento gélido entre Pequim e Nova Délhi.

Ambos os países enfrentaram pesadas ameaças tarifárias de Trump em relação às suas políticas comerciais, com a Índia sendo alvo de críticas nas últimas semanas por suas compras em larga escala de petróleo russo.

Em declarações em Nova Délhi na segunda-feira, em uma reunião com seu homólogo indiano, Subrahmanyam Jaishankar, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, fez uma referência velada aos EUA, observando que Nova Délhi e Pequim deveriam encontrar maneiras de coexistir em um cenário de “bullying unilateral”.

China e Índia devem se ver como parceiras e considerar oportunidades, em vez de adversárias ou como ameaças, disse Wang na segunda-feira, de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da China.

Em seu discurso de abertura, Jaishankar afirmou que as nações buscam avançar após um “período difícil em nosso relacionamento”.

“Diferenças não devem se tornar disputas, nem conflitos competitivos”, disse.

Fonte: Dow Jones Newswires

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Economia, Exportação, Finanças, Informação, Tributação

Consumidor e empresas americanas reclamam de taxação contra o Brasil, diz economista

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria revela que setor terá queda nas exportações pela primeira vez em quase dois anos

Em entrevista, o economista Roberto Gianetti analisa os impactos da taxação de 50% imposta pelos Estados Unidos ao Brasil: “Ninguém sabe dizer o que vai acontecer amanhã”. O especialista destaca que pode ocorrer um efeito de acomodação dos fluxos de comércio, e dá ênfase a setores mais vulneráveis, como a indústria de peixe no Nordeste.

“O consumidor americano e as empresas americanas que importam nossos produtos estão reclamando com tanta veemência em Washington, que em algum momento eles vão ter que ceder. Essa é a nossa expectativa, o problema não é só nosso”, pontua ainda.

Após as tarifas, setores da economia buscam novos mercados para tentar substituir os parceiros comerciais. Apesar da estratégia, o cenário é pessimista — uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (20) pela Confederação Nacional da Indústria revela que o setor terá queda nas exportações pela primeira vez em quase dois anos.

Fonte: R7

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Comércio Exterior

EUA estendem tarifas de 50% para mais de 400 produtos de aço e alumínio

O governo americano, liderado pelo presidente Donald Trump, estendeu o alcance de suas tarifas de 50% sobre o aço e o alumínio com a inclusão de mais de 400 categorias de produtos adicionais que incluem extintores, máquinas agrícolas, materiais de construção, vagões de trem e turbinas eólicas.

A nova medida amplia consideravelmente o impacto das taxas, que entraram em vigor em junho, e afeta um total de 407 artigos com conteúdo de aço e alumínio importado. A barreira vem para “fortalecer a indústria americana”, afirmou o Departamento de Comércio em comunicado nesta quarta (20).

Essa inclusão “abrange turbinas eólicas e suas peças e componentes, guindastes móveis, escavadeiras e outros equipamentos pesados, vagões de trem, móveis, compressores e bombas, e centenas de outros produtos”, disse a entidade.

Com a aplicação dessa extensão, a Administração Trump “amplia o alcance das tarifas sobre o aço e o alumínio e bloqueia vias para a evasão, apoiando a contínua revitalização das indústrias americanas”, indicou o subsecretário de Comércio para a Indústria e Segurança, Jeffrey Kessler.

Para o professor de gestão de cadeias de suprimentos na Universidade Estadual de Michigan, Jason Miller, os mais afetados com essa medida seriam a Alemanha e o Japão. Ele também alerta para possíveis consequências.

“Ainda me pergunto como as fábricas americanas se beneficiam ao encarecer o equipamento necessário para equipá-las”, questionou Miller em publicação nas redes sociais.

O professor indicou que, de acordo com seus cálculos, a ampliação das tarifas para o aço e o alumínio “agora afeta pelo menos US$ 320 bilhões em importações, com base no valor aduaneiro geral das importações em 2024”.

“Isso adicionará mais pressões inflacionárias de custos aos preços já em aumento que os produtores nacionais cobram nos EUA”, opinou.

Fonte: Gazeta do Povo

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Comércio Exterior

Como tarifa de Trump sobre café brasileiro está tirando o sono de importadores nos EUA

Durante décadas, o café entrava nos EUA praticamente isento de impostos. Mas agora o café do Brasil, que é o maior fornecedor do produto aos EUA, está no rol de produtos com tarifa de 50% — devido ao tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

As tarifas de Trump estão pressionando uma indústria que gera mais de um milhão de empregos nos EUA e estão prestes a provocar também um aumento nos preços da bebida comprada pelos americanos.

Um produto popular nos EUA é o blend de cafés, que depende de grãos brasileiros. E ele também está exposto ao imposto de importação de 50% ao produto brasileiro.

Peter Longo é importador de café em Nova York. Sua empresa, a Puerto Rico Importing Company, trabalha no ramo desde 1907.

Ele calcula que os americanos que estiverem pagando cerca de US$ 15,99 por libra do café brasileiro — o equivalente a R$ 194 por quilo — passariam a pagar US$ 8 a mais com as tarifas de Trump.

Com esse aumento, o preço poderia subir para próximo de US$ 24 por libra — o equivalente a mais de R$ 290 por quilo.

“Isso é uma loucura. As pessoas não vão comprar café por quase US$ 30 a libra (o equivalente a US$ 66 por quilo ou R$ 365 por quilo). Isso é ridículo. Isso vai matar o mercado americano para o café brasileiro, que é, eu acho, o propósito disso tudo. Eles querem punir o Brasil por seja lá qualquer motivo e estão impondo uma tarifa draconiana.”

“Tirando o sono”

Trump diz querer reformular a ordem do comércio global com sua política tarifária, cobrando de importadores como Peter Longo uma taxa para trazer produtos de outros países como o Brasil.

O objetivo do presidente americano é tornar os produtos importados mais caros, para que os produtos locais fiquem mais competitivos e eventualmente acabem derrotando os estrangeiros na preferência dos consumidores.

Isso, por sua vez, estimularia maior produção de bens e geração de empregos localmente nos EUA.

“Mais produção doméstica significará maior concorrência e preços mais baixos para os consumidores”, disse Trump ao justificar sua política de tarifas.

Mas o problema, no caso do café, é que o produto não é cultivado nos EUA.

E nem pode ser. O café é uma fruta tropical que cresce em uma estreita faixa de terra ao redor do Equador.

Nos EUA, o café é cultivado em algumas partes do Havaí e Porto Rico e em uma pequena parte do sul da Califórnia. E isso não é nem de longe suficiente para abastecer as 450 milhões de xícaras de café que os americanos bebem todos os dias.

Por isso praticamente todo café bebido nos EUA precisa ser importado.

E é por isso que as tarifas sobre os países produtores de café — e especialmente as tarifas de 50% sobre o Brasil, que fornece cerca de um terço de todo o café consumido nos EUA — são impactantes para pessoas que importam e vendem localmente o café, como Longo.

“Estou terrivelmente estressado. Isso me tira o sono porque você tem que tentar descobrir uma maneira de gerenciar seu fluxo de caixa para antecipar o que está por vir”, diz o importador americano.

Os riscos eram altos antes mesmo de as tarifas serem anunciadas. Em fevereiro, o preço global do café do tipo arábica atingiu seu ponto mais alto já registrado. Embora tenha caído um pouco desde então, o café torrado custava aos consumidores americanos 15% a mais no mês passado do que no ano anterior.

Tudo isso coloca pressão sobre importadores como Longo.

“É assim que eu ganho a vida. Se tivermos que encolher, encolheremos. E se tivermos que encolher a ponto de falir, não há nada que eu possa fazer a respeito. Faremos o melhor que pudermos.”

Mas ele aposta que aquela xícara de café da manhã é algo pelo qual as pessoas continuarão pagando, mesmo que custe mais.

“Eu preciso de três espressos duplos só para conseguir funcionar. E sei que meus clientes são muito ritualizados quando se trata de seu café. Eles gostam. É algo que eles aguardam ansiosamente no dia. Então, não acho que o café vá desaparecer.”

Sede americana por café

A sede por café entre os americanos é enorme. O país é o maior importador e consumidor global da bebida, e também o maior destino das exportações brasileiras do produto.

Dois terços dos adultos americanos bebem café todos os dias, segundo dados da Associação Nacional de Café dos EUA. Cada americano que bebe café consome em média três xícaras por dia.

E essa sede vem crescendo. O consumo de café entre americanos cresceu 7% desde 2020. E o consumo de café gourmet cresceu 18%.

O café brasileiro é fundamental para abastecer as xícaras americanas.

Os EUA são o maior comprador dos cafés do Brasil, segundo dados dos primeiros sete meses deste ano divulgados este mês pelo Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

No período, os EUA importaram 3,713 milhões de sacas — o que corresponde a 16,8% das exportações brasileiras.

Existe uma corrida do setor do café no Brasil para tentar negociar com os EUA a inclusão do produto brasileiro na longa lista de exceções ao tarifaço de Trump.

Isso porque, graças aos estoques de importadores, os efeitos dos tarifaços ainda estão limitados por algum tempo.

“Até julho, não observamos de fato o impacto do tarifaço de 50% do governo dos EUA imposto para a importação dos cafés do Brasil, já que a vigência da medida começou em 6 de agosto”, diz Márcio Ferreira, presidente do Cecafé.

Mas os impactos do tarifaço poderão ser sentidos em breve, se não houver sucesso nas negociações.

“A partir de agora, as indústrias americanas estão em compasso de espera, pois possuem estoque por 30 a 60 dias, o que gera algum fôlego para aguardarem um pouco mais as negociações em andamento. Porém, o que já visualizamos são eventuais pedidos de prorrogação, que são extremamente prejudiciais ao setor.”

* Com reportagem de Erin Delmore, da BBC News em Nova York

Fonte: BBC

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Comércio Exterior

Exportações do Japão têm maior queda em 4 anos com impactos das tarifas

Total das exportações da quarta maior economia do mundo caiu 2,6% em relação ao ano anterior em julho, em termos de valor, maior queda mensal desde fevereiro de 2021

As exportações do Japão registraram a maior queda mensal em cerca de quatro anos em julho, mostraram dados do governo nesta quarta-feira (20), à medida que o impacto das tarifas dos EUA se intensificou, levantando preocupações sobre as perspectivas para a economia dependente das exportações.

O total das exportações da quarta maior economia do mundo caiu 2,6% em relação ao ano anterior em julho, em termos de valor, a maior queda mensal desde fevereiro de 2021, quando as exportações caíram 4,5%.

Essa queda foi maior do que a previsão mediana do mercado de uma redução de 2,1% e marca o terceiro mês consecutivo de declínio após uma queda de 0,5% em junho.

Apesar da queda no valor das exportações, os volumes de remessa se mantiveram até agora, já que os exportadores japoneses evitaram grandes aumentos de preços, disse Takeshi Minami, economista-chefe do Norinchukin Research Institute.

“Mas eles acabariam tendo que repassar os custos para os consumidores norte-americanos e isso prejudicaria ainda mais as vendas nos próximos meses”, disse ele.

As exportações para os Estados Unidos em julho caíram 10,1% em relação ao ano anterior, com uma queda de 28,4% nos automóveis e de 17,4% nos componentes automotivos.

Entretanto, as exportações de automóveis caíram apenas 3,2% em termos de volume, sugerindo que os cortes de preços das montadoras japonesas e os esforços para absorver as tarifas adicionais protegeram parcialmente os embarques.

Os Estados Unidos impuseram tarifas de 25% sobre automóveis e autopeças em abril e ameaçaram cobrar 25% sobre a maioria dos outros produtos do Japão.

Posteriormente, em 23 de julho, o país fechou um acordo comercial que reduziu as tarifas para 15% em troca de um pacote de investimentos japoneses de US$ 550 bilhões vinculados aos EUA.

A taxa tarifária acordada para automóveis, o maior setor de exportação do Japão, ainda é muito maior do que os 2,5% originais, exercendo pressão sobre as principais montadoras e fornecedores de peças.

As exportações para outras regiões também foram fracas. As exportações para a China caíram 3,5%, segundo os dados.

O total das importações em julho caiu 7,5% em relação ao ano anterior, em comparação com as previsões do mercado de uma queda de 10,4%.

Como resultado, o Japão teve um déficit de 117,5 bilhões de ienes (US$ 795,4 milhões) em julho, em comparação com a previsão de um superávit de 196,2 bilhões de ienes.

Fonte: CNN Brasil


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Comércio Exterior

FIESC detalha ao setor moveleiro ações para minimizar impactos do tarifaço

Entidade enviou ao Fórum Parlamentar Catarinense sugestões de emendas à MP Brasil Soberano, com propostas nas áreas trabalhistas e econômica

As propostas que a FIESC enviou ao Fórum Parlamentar Catarinense para incluir na Medida Provisória 1309/25 que cria o plano de ajuda às exportadoras afetadas pelo tarifaço foram detalhadas em reunião da Câmara da Indústria do Mobiliário da entidade. O encontro virtual foi realizado nesta terça-feira, dia 19. A MP, que cria o plano Brasil Soberano, está tramitando na Câmara dos Deputados, e recebe até esta terça sugestões de emendas. As proposições da Federação estão ligadas às áreas econômica e trabalhista.

“Estamos fazendo todo o possível para reduzir os impactos para as empresas e os empregos”, afirmou o presidente da Federação, Gilberto Seleme, salientando que no início de setembro uma missão da indústria brasileira vai aos Estados Unidos dialogar com compradores, empresas e instituições.

O presidente da Câmara, Arnaldo Huebl, disse que a preocupação do setor é grande porque tem empresas que exportam de 20% até 95% da sua produção aos Estados Unidos. “A falta de previsibilidade é um dos maiores desafios que estamos enfrentando porque não se sabe o dia de amanhã e não temos perspectivas de uma solução no curto prazo”, observou.  

Propostas da FIESC à MP 1309/25

• Exclusão do § 3º do Art. 5º-A da MP 1.309/2025 para evitar a imposição de compromissos trabalhistas adicionais às empresas exportadoras para o mercado norte-americano, já fortemente impactadas pelas tarifas adicionais de 50%.

• Expansão das aquisições públicas de bens industriais, priorizando produtos com aplicação em políticas públicas de educação, habitação e infraestrutura social, como móveis escolares, uniformes, cerâmica sanitária, materiais de construção e máquinas leves de uso comunitário.

• Desoneração integral da folha de pagamento das empresas exportadoras para os EUA enquanto perdurarem as tarifas de 50%, substituindo a contribuição previdenciária patronal incidente sobre a folha por alíquota sobre a receita bruta, definida por ato do Poder Executivo e passível de redução a até zero. Incluir médias e grandes empresas entre as beneficiárias da alíquota de 6% no REINTEGRA, uma vez que o resíduo tributário das exportações brasileiras chega a 7,6%, segundo a CNI. A medida promove justiça tributária para empresas fortemente expostas ao mercado dos EUA — especialmente nos setores de móveis e madeira, base da economia catarinense.

• Redução proporcional de jornada de trabalho e de salários;
• Suspensão temporária do contrato de trabalho;
• Pagamento do Benefício de Preservação da Renda a cargo da União;
• Concessão de férias coletivas;
• Antecipação de férias individuais;
• Aproveitamento e antecipação de feriados;
• Implementar banco de horas negativo, permitindo que o trabalhador tire folgas durante os efeitos do tarifaço, com compensação das horas em momento futuro;
• Diferimento do recolhimento do FGTS.

Fonte: FIESC

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