Internacional

Estreito de Ormuz fechado: produtores de petróleo buscam oleodutos alternativos para manter exportações

O prolongamento do fechamento do Estreito de Ormuz está levando grandes produtores de petróleo e gás do Oriente Médio a acelerar a busca por rotas alternativas de exportação. Iraque, Kuwait e Qatar estão entre os países mais expostos à interrupção do tráfego na passagem estratégica, enquanto Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos trabalham para ampliar a capacidade de seus oleodutos de desvio.

O Japão, que depende fortemente do petróleo produzido na região, também pretende apoiar iniciativas para reduzir os efeitos do bloqueio sobre o comércio internacional de energia.

Iraque avalia novas rotas para exportar petróleo

O Iraque aparece entre os países com maior potencial para ampliar suas alternativas de escoamento. Em julho, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou um plano para recuperar um oleoduto que conecta a região central iraquiana ao porto de Baniyas, na Síria.

Caso seja reativada, a infraestrutura permitiria transportar petróleo iraquiano até o Mediterrâneo sem utilizar o Estreito de Ormuz. A Chevron, uma das maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos, estaria envolvida em um estudo de viabilidade do projeto.

Com produção superior a 4 milhões de barris por dia, o Iraque é o segundo maior produtor da Opep, atrás apenas da Arábia Saudita. Grande parte do petróleo produzido nos enormes campos do sul do país precisa atravessar o Estreito de Ormuz para chegar aos mercados internacionais.

A história do oleoduto entre Iraque e Síria, porém, é marcada por conflitos. Construído nos anos 1950, o sistema deixou de funcionar em 1982, depois da deterioração das relações entre os dois países. Embora tenha sido parcialmente recuperado posteriormente, voltou a ser interrompido em 2003, durante a Guerra do Iraque.

Desde então, guerras, instabilidade política e a guerra civil síria mantiveram a estrutura inativa por mais de duas décadas.

Síria deixa lista de Estados patrocinadores do terrorismo

Um possível fator de mudança no cenário ocorreu em 24 de agosto, quando os Estados Unidos retiraram a Síria da lista de Estados patrocinadores do terrorismo.

A classificação permanecia em vigor havia quase 50 anos e representava um dos obstáculos políticos para projetos de infraestrutura envolvendo o território sírio.

Além da rota para o Mediterrâneo, o Iraque analisa outras possibilidades. Entre elas está a ampliação do uso do oleoduto que leva petróleo dos campos do norte até Ceyhan, na Turquia.

Também está em avaliação uma rota independente com destino a Aqaba, na Jordânia, o que aumentaria as opções de exportação iraquianas.

Kuwait tem menos alternativas para escoar petróleo

A situação é mais delicada para o Kuwait. Diferentemente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, o país não dispõe atualmente de um sistema de oleodutos capaz de desviar suas exportações para fora do Estreito de Ormuz.

O ministro do Petróleo kuwaitiano, Tariq Sulaiman Al-Roumi, afirmou recentemente que, enquanto a passagem permanecer fechada, as exportações de petróleo do país poderão chegar a zero.

Diante desse cenário, o Kuwait busca acordos com os países vizinhos. Uma das possibilidades estudadas é a conexão com o oleoduto saudita que atravessa o território do Golfo Pérsico até o Mar Vermelho.

Outra alternativa seria utilizar o sistema de oleodutos dos Emirados Árabes Unidos, que permite transportar petróleo para pontos de embarque localizados além do Estreito de Ormuz.

Qatar enfrenta risco ainda maior no mercado de gás

O Qatar está diante de um problema particularmente grave porque sua economia energética depende muito mais do gás natural do que do petróleo.

O país abriga o maior complexo de produção de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, mas praticamente toda a sua exportação passa pelo Estreito de Ormuz.

Desde o início do conflito militar entre Estados Unidos e Irã, em fevereiro, os embarques de gás do Qatar praticamente pararam. A situação elevou o temor de uma interrupção prolongada no fornecimento global de energia.

Para cumprir contratos com compradores do Japão e da Coreia do Sul, a estatal QatarEnergy recorreu ao mercado à vista e comprou dos Estados Unidos uma quantidade de GNL equivalente à carga de 33 navios-tanque, segundo a Reuters.

Sem uma alternativa operacional para exportar o produto, Doha passou a considerar a retomada da navegação segura pelo Estreito de Ormuz como prioridade.

O Qatar também ganhou protagonismo nas tentativas de mediação entre Washington e Teerã, buscando contribuir para uma solução diplomática que permita a normalização do tráfego.

Arábia Saudita e Emirados ampliam oleodutos

Enquanto países como Iraque, Kuwait e Qatar procuram novas opções, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos já possuem infraestruturas capazes de reduzir sua dependência do Estreito de Ormuz.

Os Emirados começaram a ampliar o oleoduto que transporta petróleo de uma área próxima a Abu Dhabi até Fujairah, no Golfo de Omã. O porto está localizado fora do estreito e permite o embarque do petróleo diretamente para o mercado internacional.

A Arábia Saudita, por sua vez, planeja aumentar a capacidade do oleoduto Leste-Oeste, responsável por conectar áreas produtoras no Golfo Pérsico ao Mar Vermelho.

Japão vê rotas alternativas como questão estratégica

Para o Japão, a ampliação dessas alternativas é especialmente relevante. O país compra mais de 80% do petróleo bruto consumido internamente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

Iraque, Kuwait e Qatar, juntos, enviam aproximadamente 5 milhões de barris de petróleo por dia pelo Estreito de Ormuz. O volume corresponde a cerca de um quarto de todo o petróleo bruto transportado pela rota.

No caso do Qatar, o impacto é ainda maior no mercado de gás: o país responde por aproximadamente 20% da demanda mundial por GNL.

Quanto mais tempo durar a interrupção da navegação, maior tende a ser o impacto sobre os preços, o abastecimento e a economia global.

Japão pode ampliar cooperação com produtores do Golfo

Além da dependência energética, Japão e os três países mantêm relações econômicas construídas ao longo de décadas.

Empresas japonesas participaram de diversos projetos de infraestrutura, energia e indústria no Iraque, Kuwait e Qatar, muitos dos quais permanecem em funcionamento.

Nesse contexto, apoiar a criação ou expansão de rotas de exportação pode representar para Tóquio não apenas uma medida de segurança energética, mas também uma oportunidade para fortalecer sua presença econômica no Oriente Médio.

Rotas alternativas também estão expostas a ataques

Apesar das vantagens, os oleodutos alternativos não eliminam os riscos geopolíticos da região.

Em abril, por exemplo, o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita foi atingido por drones iranianos. O ataque danificou instalações de bombeamento responsáveis por manter a pressão necessária para o transporte do petróleo.

O terminal de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, também já foi alvo recorrente de ataques.

Os episódios mostram que simplesmente deslocar as rotas de exportação para fora do Estreito de Ormuz não garante segurança absoluta.

Ainda assim, a expansão dessas estruturas pode ajudar a preservar parte do fluxo de petróleo e gás e reduzir a pressão sobre os mercados globais de energia.

Para o Japão, que depende da região para mais de 90% de suas importações de petróleo bruto, apoiar investimentos em alternativas ao Estreito de Ormuz pode ser uma estratégia importante para reforçar sua segurança energética.

FONTE: Valor Econômico
TEXTO: Redação
IMAGEM: Bloomberg

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Internacional

EUA retomam sanções ao petróleo iraniano após ataques a navios no Estreito de Ormuz

Os Estados Unidos voltaram a impor restrições às transações envolvendo o petróleo iraniano, elevando a tensão entre Washington e Teerã poucas semanas após a assinatura de um acordo que previa o fim das hostilidades e a flexibilização das sanções econômicas.

A decisão ocorre em meio a novos incidentes no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte mundial de petróleo, onde embarcações comerciais foram alvo de ataques nos últimos dias.

Ataques a navios aumentam tensão na região

Segundo a agência britânica de segurança marítima UKMTO, três embarcações foram atingidas em um intervalo de 24 horas durante a travessia pelo Estreito de Ormuz.

O Qatar e a Arábia Saudita atribuíram dois dos ataques ao Irã. Entre os navios atingidos estão o petroleiro saudita Wedyan e o navio transportador de gás natural liquefeito Al-Rakayyat, de bandeira catariana.

A Arábia Saudita classificou os episódios como uma ameaça à segurança da navegação internacional e ao abastecimento global de energia.

Além desses casos, a UKMTO informou que um petroleiro foi atingido por um projétil de origem desconhecida e outro navio sofreu um ataque com drone. Não houve registro de vítimas nem de danos ambientais relacionados a esses incidentes.

Tesouro dos EUA revoga flexibilização das sanções

Em resposta ao aumento das tensões, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou a proibição de novas transações envolvendo hidrocarbonetos provenientes do Irã a partir de terça-feira.

A medida representa a retomada das sanções que haviam sido suspensas após o protocolo firmado em 17 de junho entre os dois países.

O entendimento previa o encerramento do conflito iniciado em 28 de fevereiro, a reabertura do Estreito de Ormuz para a navegação internacional e a suspensão das restrições norte-americanas sobre as exportações de petróleo iraniano.

Acordo de cessar-fogo enfrenta novos desafios

Mesmo após a assinatura do protocolo, episódios de instabilidade continuaram sendo registrados na região.

No fim de junho, os Estados Unidos acusaram o Irã de atacar duas embarcações comerciais. Na sequência, realizaram bombardeios contra alvos iranianos, antes de ambas as partes concordarem novamente com a interrupção das hostilidades.

Apesar do cessar-fogo, Teerã mantém a posição de que a navegação no Estreito de Ormuz não retornará às condições anteriores ao conflito. O governo iraniano também advertiu que poderá reagir contra embarcações que desrespeitem as rotas autorizadas ao longo de seu litoral.

Cerimônias em homenagem a Ali Khamenei ocorrem em meio à crise

O aumento das tensões coincide com as cerimônias fúnebres realizadas pelo governo iraniano em homenagem ao líder Ali Khamenei, morto no primeiro dia dos ataques atribuídos à ofensiva conjunta de Israel e Estados Unidos.

As homenagens, iniciadas no último sábado, têm duração prevista de seis dias. O corpo foi levado ao Iraque para procissões religiosas nas cidades sagradas de Najaf e Kerbala, importantes centros de peregrinação para os muçulmanos xiitas.

Enquanto isso, a comunidade internacional acompanha a evolução da crise, diante dos riscos para a estabilidade regional e para o mercado global de petróleo.

FONTE: RTP Notícias
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reuters

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