Logística

Ferrovias no Brasil: país retoma investimentos, mas reconstrução da rede ainda é desafio

O Brasil começa a retomar investimentos em sua infraestrutura ferroviária após décadas marcadas pela concentração da expansão em poucos corredores. Ao longo desse período, diversos trechos perderam capacidade, foram subutilizados ou deixaram de cumprir sua função original.

O novo ciclo reúne projetos de expansão, concessões em preparação, revisão de contratos antigos e mudanças nas regras para tentar atrair investimentos privados. Apesar dos avanços, a reconstrução da malha ferroviária brasileira ainda ocorre de forma gradual e enfrenta desafios de infraestrutura, manutenção, mão de obra e planejamento.

Novos projetos ampliam a malha ferroviária

A carteira federal de projetos para 2026 inclui iniciativas como a EF-118, entre Rio de Janeiro e Espírito Santo, a recuperação da Malha Oeste e uma nova concessão para a Malha Sul.

A EF-118 prevê aproximadamente 575 quilômetros de extensão e investimentos estimados em R$ 4,2 bilhões. Já a Malha Sul possui cerca de 4.250 quilômetros distribuídos em três corredores.

A retomada, no entanto, vai muito além da instalação de novos trilhos. Recuperar uma ferrovia exige manutenção permanente, qualificação profissional, fiscalização, aumento da capacidade operacional e integração entre diferentes trechos.

Para Leonardo Alves, diretor-geral da Goldschmidt Brasil, os principais obstáculos estão relacionados justamente à combinação desses fatores.

“Eu diria que é um pouco disso tudo junto: falta de expansão, qualidade da via, manutenção e gestão. Quando você olha para o tamanho da nossa malha, você já imagina o tamanho do desperdício que a gente tem”, afirma.

Manutenção preventiva é um dos principais desafios

As dimensões da rede brasileira tornam o processo de recuperação ainda mais complexo. O país possui linhas antigas, segmentos com baixa utilização e estruturas que perderam capacidade ao longo do tempo.

No caso da Malha Oeste, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aponta uma infraestrutura depreciada, resultado também do histórico de investimentos insuficientes em manutenção.

Na avaliação de Alves, uma mudança importante seria substituir a lógica de reparos emergenciais por um modelo baseado em manutenção preventiva.

“Precisamos começar a prever manutenção, prever problemas e parar de corrigir de forma emergencial”, diz.

A antecipação de falhas pode reduzir impactos sobre a operação. Um problema em um trilho ou componente da via pode interromper uma composição, atrasar cargas e provocar efeitos em cadeia na logística.

“O custo do trem parado é altíssimo”, afirma o executivo.

Tecnologia ajuda a monitorar as condições dos trilhos

A necessidade de reduzir falhas tem estimulado o uso de equipamentos capazes de acompanhar continuamente as condições da via.

Sensores, sistemas de inspeção e análise de dados conseguem identificar pequenas deformações e defeitos que podem passar despercebidos em inspeções visuais. Com o histórico dessas informações, torna-se possível estimar a evolução de determinados problemas e programar intervenções.

Esse modelo permite transformar a manutenção em uma atividade mais previsível, reduzindo a dependência de ações emergenciais e ajudando a aumentar a disponibilidade da ferrovia.

Alemanha também enfrenta dificuldades para recuperar ferrovias

Os desafios brasileiros não são exclusivos de países com infraestrutura ferroviária em desenvolvimento. A Alemanha, que possui uma das redes mais extensas e estruturadas do mundo, também enfrenta dificuldades para recuperar sua infraestrutura.

A Deutsche Bahn mantém milhares de obras em andamento e recentemente decidiu reduzir o número de grandes corredores submetidos simultaneamente a reformas completas.

A empresa concluiu que quatro grandes obras por ano superavam sua capacidade de execução. A intenção passou a ser concentrar os esforços em duas grandes intervenções anuais ou, em situações específicas, três.

O especialista em ferrovias de Berlim Christian Böttger acompanha o processo e avalia que a dificuldade alemã não está apenas no financiamento. Também existe uma limitação operacional para executar obras sem comprometer excessivamente a circulação dos trens.

“Eu não vejo ainda um plano realmente estruturado para revitalizar a ferrovia”, afirma Böttger.

O especialista também chama atenção para a complexidade de manter uma via em operação enquanto a outra passa por obras.

A experiência alemã demonstra um ponto relevante para o Brasil: quanto maior o período sem manutenção adequada, maior tende a ser o esforço necessário para recuperar a infraestrutura. Ao mesmo tempo, grandes obras podem gerar impactos sobre a circulação durante sua execução.

Böttger relata ainda que a primeira grande reforma de corredores na Alemanha custou mais do que o inicialmente previsto e, na avaliação dele, não produziu o ganho de pontualidade esperado. A própria capacidade da indústria de construção ferroviária também se tornou um fator de preocupação.

Modernização depende primeiro da qualidade da via

A renovação da infraestrutura também envolve automação, equipamentos modernos e novas fontes de energia. Porém, a modernização dos trens precisa acompanhar as condições da própria ferrovia.

Locomotivas mais modernas, sistemas elétricos e tecnologias como o hidrogênio não conseguem entregar todo o potencial se a via não estiver preparada para recebê-los.

Além disso, equipamentos desenvolvidos em outros países precisam ser adaptados às características da rede brasileira, incluindo clima, infraestrutura e condições de operação.

O país mantém uma indústria ferroviária com conhecimento próprio e capacidade de produzir equipamentos que também podem ser comercializados em outros mercados da América do Sul.

Uma retomada consistente dos investimentos pode ampliar essa atividade industrial, gerando demanda por locomotivas, vagões, máquinas de manutenção, sistemas de inspeção, softwares e serviços especializados.

Inteligência artificial ganha espaço na manutenção ferroviária

Entre as tecnologias com maior potencial de aplicação está a inteligência artificial voltada à análise dos dados coletados pelas ferrovias.

Sistemas de inspeção conseguem identificar defeitos e acompanhar sua evolução. Segundo Alves, modelos matemáticos já podem ajudar a prever o comportamento de determinadas falhas e indicar o momento mais adequado para uma intervenção.

A inteligência artificial pode acelerar esse processo ao analisar grandes volumes de informações e identificar padrões que orientem inspeções mais detalhadas.

Ainda assim, a tecnologia não substitui a tomada de decisão. “Não adianta você ter muito dado”, afirma Alves. O desafio está em transformar essas informações em diagnóstico e, posteriormente, em ações de manutenção.

A questão ganha importância diante do perfil da operação brasileira. O país possui ferrovias utilizadas para transportar grandes volumes de minério, grãos e produtos agrícolas, com composições submetidas a condições severas.

Ao mesmo tempo, existe a necessidade de ampliar a rede para alcançar novas regiões e atender diferentes tipos de carga.

Expansão busca diversificar o transporte ferroviário

Historicamente, a ferrovia brasileira esteve fortemente ligada ao transporte de commodities, principalmente minério e produtos agrícolas. Embora esse segmento continue relevante, a diversificação dos corredores pode ampliar o papel do modal na logística nacional.

Entre os projetos em desenvolvimento está a EF-118, que pretende conectar regiões do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e promover a integração entre diferentes trechos ferroviários e portos.

A nova estruturação da Malha Sul também prevê três corredores, com mais de 4.200 quilômetros, conectando São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e a fronteira com a Argentina.

Trens de passageiros também podem ganhar espaço

A discussão sobre a expansão ferroviária envolve ainda o transporte de passageiros.

O Brasil possui sistemas metropolitanos relevantes, mas ainda não conta com uma rede integrada de trens regionais semelhante à existente em diversos países europeus.

Serviços convencionais entre cidades podem representar uma alternativa inicial mais viável do que projetos de alta velocidade, que demandam traçados específicos, grandes investimentos e obras de maior complexidade.

Formação de profissionais será fundamental

A retomada da infraestrutura ferroviária também depende da disponibilidade de profissionais especializados.

A engenharia ferroviária exige conhecimento técnico e experiência acumulada em áreas como operação, manutenção e construção. Segundo Alves, a formação de um profissional plenamente capacitado pode levar anos.

Por isso, a expansão da malha também precisará ser acompanhada pela formação de técnicos, engenheiros e operadores.

Brasil tenta acelerar novo ciclo ferroviário

O país vive, portanto, um processo de reconstrução ferroviária que envolve diferentes frentes. O governo federal estruturou novos projetos, revisa concessões existentes e estabeleceu regras para novas outorgas.

A carteira inclui novos corredores, além de processos de relicitação e renovação de trechos já existentes.

Transformar esses projetos em ferrovias efetivamente operacionais, porém, é uma etapa mais complexa. A experiência brasileira mostra que concessões podem levar anos para avançar, enquanto o caso alemão evidencia que até redes maduras podem enfrentar limitações de engenharia, mão de obra e planejamento quando muitas obras são realizadas simultaneamente.

A modernização da malha ferroviária brasileira começa, portanto, pela infraestrutura básica: trilhos, manutenção, planejamento e capacidade de execução.

O país já possui uma indústria preparada para operações de cargas pesadas e uma demanda relevante por transporte de grãos, minério e outros produtos. O desafio agora é recuperar e ampliar a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento.

A reconstrução ferroviária pode transformar a logística nacional, mas dependerá de um processo de longo prazo, baseado em investimentos contínuos, manutenção preventiva, profissionais qualificados e integração entre os diferentes trechos da rede.

FONTE: Veja Negócios
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Veja

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Portos

Ferroanel de São Paulo pode ampliar acesso ferroviário ao Porto de Santos

O Ferroanel de São Paulo, considerado uma das principais obras de infraestrutura ferroviária do país, voltou ao centro das discussões após o início de novos estudos técnicos. O empreendimento é apontado como estratégico para ampliar a capacidade de acesso ao Porto de Santos, principal complexo portuário brasileiro, além de melhorar a circulação de cargas na Região Metropolitana de São Paulo.

O projeto prevê a construção de um contorno ferroviário com cerca de 53 quilômetros entre Itaquaquecetuba e o bairro de Perus, na capital paulista. A proposta é separar o tráfego de trens de carga e de passageiros, reduzindo gargalos operacionais e aumentando a eficiência logística.

Ministério dos Transportes inicia nova etapa de avaliação

O avanço mais recente ocorreu com a assinatura de um memorando de entendimento entre o Ministério dos Transportes e a MRS Logística, destinado à elaboração de estudos sobre a viabilidade do empreendimento.

Os levantamentos deverão analisar aspectos como o traçado da ferrovia, capacidade operacional, impactos ambientais e urbanos, situação fundiária, cronograma de implantação e estimativas iniciais de custos e benefícios.

Até o momento, não existe um cronograma definido para a execução das obras, já que o projeto ainda depende da conclusão dessas avaliações técnicas.

Ferroanel poderá integrar a concessão da Malha Oeste

A proposta em análise prevê que o Ferroanel seja incorporado ao futuro processo de concessão da Malha Oeste, cuja licitação ainda não possui data marcada.

Com aproximadamente 1.625 quilômetros de extensão, a ferrovia conecta Mairinque (SP) a Corumbá (MS), na fronteira com a Bolívia, formando um importante corredor para o transporte de cargas do Centro-Oeste brasileiro.

A malha ferroviária também se integra à Malha Paulista, responsável pela ligação com o Porto de Santos, permitindo o escoamento de grãos, minérios e outros produtos destinados ao mercado externo.

Enquanto a nova concessão não é concluída, o Governo Federal assinou recentemente o quinto termo aditivo contratual para garantir a continuidade da operação da ferrovia.

Estudos definirão custos, modelo e viabilidade do projeto

Segundo o Ministério dos Transportes, ainda não há definição sobre o modelo de implantação, a fonte de financiamento nem o valor necessário para executar a obra.

A previsão é que os estudos sejam desenvolvidos em até dois anos após a assinatura do contrato de concessão da Malha Oeste. Somente após essa etapa será possível definir se o investimento será efetivamente incorporado ao contrato.

A pasta ressalta que a implantação do Ferroanel dependerá das condições estabelecidas na futura concessão e da preservação do equilíbrio econômico-financeiro do contrato.

Projeto possui histórico de estudos ambientais

Embora o empreendimento ainda não tenha saído do papel, parte dos estudos ambientais já foi realizada.

Em 2015, a então Empresa de Planejamento e Logística (EPL), atualmente Infra S.A., ficou responsável pela elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), do Relatório de Impacto Ambiental (Rima), além da condução do processo de licenciamento junto à Cetesb e dos estudos de engenharia.

De acordo com a empresa, toda essa documentação foi concluída e encaminhada ao então Ministério da Infraestrutura no primeiro semestre de 2019.

Construção dependerá de decisão do Governo Federal

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) esclarece que a futura concessionária da Malha Oeste só ficará responsável pela implantação do Ferroanel caso o Governo Federal decida incluir oficialmente o projeto na concessão.

Nesse cenário, caberá à empresa elaborar o projeto básico da ferrovia, que será submetido à análise do Poder Concedente e de uma verificação técnica independente antes da autorização para execução.

Obras ainda não são obrigatórias

A ANTT destaca que a construção do Ferroanel de São Paulo não será uma obrigação automática da futura concessionária.

Inicialmente, o compromisso previsto é apenas a realização dos estudos técnicos em até 24 meses. A execução das obras dependerá de decisão do Governo Federal e somente poderá ocorrer após o terceiro ano da concessão, desde que todas as exigências técnicas, contratuais e financeiras sejam atendidas.

FONTE: A Tribuna
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Datamar News

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Transporte

Edital da Malha Oeste deve ser lançado em abril de 2026

O Ministério dos Transportes finalizou um plano que prevê a concessão de oito trechos ferroviários a partir do segundo semestre de 2026. A carteira de projetos deve mobilizar R$ 139,7 bilhões em obras e R$ 516,5 bilhões na operação das novas linhas. Entre os trechos prioritários está a Malha Oeste, que liga Corumbá (MS) a Mairinque (SP) e deve ter edital publicado em abril de 2026. O trecho está desativado há quase 30 anos.

Investimentos previstos e extensão da ferrovia

O traçado da Malha Oeste soma 1.593 quilômetros, com estimativa de R$ 35,7 bilhões em investimentos em infraestrutura e R$ 53,5 bilhões na fase operacional. Segundo a Folha de S.Paulo, o plano será oficialmente divulgado nos próximos dias. A concessão deve ter duração de 57 anos, abrangendo 600 quilômetros de trilhos em Mato Grosso do Sul.

Reativação é demanda histórica no Estado

A volta do transporte ferroviário em Mato Grosso do Sul é pauta antiga em audiências públicas e reivindicações políticas. O modal é considerado estratégico para o escoamento de minério de ferro de Corumbá, para o transporte de combustíveis e até para atender a Bolívia, que vê a reativação dos trens como essencial para a logística regional.

No início do mês, durante evento em São Paulo, o governador Eduardo Riedel (PP) reforçou a necessidade da ferrovia para o setor de mineração. Hoje, o transporte ocorre pelo Rio Paraguai e pela BR-262, movimentando cerca de 12 milhões de toneladas ao ano — volume que, segundo o governo, pode chegar a 30 milhões de toneladas com a nova estrutura.

Transição de concessão e trechos que precisam de revitalização

A atual concessão, operada pela Rumo Logística, termina no ano que vem. O TCU chegou a avaliar a possibilidade de readequar o contrato vigente, mas entendeu que a alternativa mais adequada é abrir uma nova licitação.

Parte da malha está degradada, sem uso e com trechos que exigem revitalização, incluindo troca de bitolas e construção de conexões capazes de atender setores como o de celulose.

Outros projetos ferroviários previstos no pacote federal

O primeiro edital do pacote deve ser o da EF-118 (Anel Ferroviário Sudeste), previsto para março de 2026, com leilão marcado para junho. Com 245,95 quilômetros, a ferrovia conectará Rio de Janeiro e Espírito Santo.

O plano inclui ainda o Corredor Leste–Oeste, que une Mato Grosso à Bahia e dá acesso ao Porto Sul, em Ilhéus; o Ferrogrão, que ligará a região Norte a um porto em Itaituba (PA); três novos trechos no Sul do país; e o último projeto do pacote, uma linha de 530 quilômetros entre Açailândia (MA) e Barcarena (PA).

FONTE: Campo Grande News
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Campo Grande News

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