Economia

Desdolarização: Brasil reduz reservas em dólar e amplia aposta em ouro e yuan

Participação do dólar nas reservas cai para 78%

O Brasil reduziu em 12% a presença do dólar em suas reservas internacionais nos últimos sete anos, em um movimento de diversificação que acompanha a tendência global de desdolarização.
Segundo o Banco Central (BC), em 2018 o dólar representava 89% das reservas; hoje, corresponde a 78%. No mesmo período, a fatia de ouro aumentou 400%, passando de 0,7% para 3,5%. Já o yuan chinês, adquirido pela primeira vez em 2019, alcançou 5,3% das reservas brasileiras, superando o euro (5,2%) e ficando atrás apenas da moeda americana.

Composição das reservas internacionais do Brasil de 2015 a 2024. Fonte: Banco Central

Tendência global de diversificação

O movimento não é exclusivo do Brasil. Globalmente, a participação do dólar nas reservas caiu de 60% em 2015 para 46% em 2025 — o menor nível desde 1995. Essa redução reflete preocupações com a dívida pública dos Estados Unidos, hoje em torno de 120% do PIB, e com o cenário geopolítico mais fragmentado.

Segundo analistas, o risco de “repressão financeira” e a perda de atratividade dos títulos do Tesouro americano estão acelerando a busca por alternativas. O ETF TLT, que replica esses papéis, acumula queda de 50% desde 2020.

Composição das reservas internacionais mantidas por bancos centrais. Fontes: FMI, BCE e World Gold Council

Militarização do dólar eleva risco geopolítico

A utilização do dólar como instrumento de política externa, por meio de sanções e congelamento de ativos, também tem incentivado países a reduzir sua exposição. O bloqueio de US$ 300 bilhões das reservas da Rússia foi interpretado por nações como a China como alerta para buscar alternativas fora da órbita americana.

Nesse contexto, a demanda por ouro disparou. De acordo com o Banco Central Europeu (BCE), o metal já responde por 20% das reservas oficiais globais, superando o euro (16%). Além disso, os estoques oficiais de ouro, que já somam 36 mil toneladas, se aproximam dos níveis recordes dos anos 1960. Entre os países, a Polônia liderou a acumulação de ouro no 1º trimestre de 2025, enquanto a China segue comprando de forma contínua, consolidando-se como um dos maiores compradores mundiais.

Acumulação de ouro por bancos centrais em 2025. Fonte: World Gold Council

Em 2025, o ouro acumula valorização de 47,6%, enquanto o índice DXY — que mede a força do dólar — registra queda de 9,4%.

Gráfico do desempenho do ouro em comparação com o DXY em 2025. Fonte: TradingView

Hegemonia do dólar ainda não foi ameaçada

Apesar das mudanças, especialistas destacam que o dólar continua sendo o pilar do sistema financeiro internacional. Ele aparece em 88% das transações cambiais e responde por quase metade da capitalização global de ações.
A falta de uma alternativa robusta limita o impacto da desdolarização. Iniciativas do BRICS, como a criação de uma moeda comum ou maior uso do yuan, esbarram em questões de liquidez, credibilidade e ausência de um sistema unificado.

Criptoativos e o futuro das reservas

O Bitcoin ainda não é considerado uma reserva internacional. Para o BC brasileiro, a criptomoeda é volátil demais para desempenhar esse papel, embora investidores privados a utilizem como hedge.
Nos Estados Unidos, a política pró-cripto do governo Trump tem priorizado o uso de stablecoins, que, pela Lei GENIUS, precisam ser lastreadas em títulos do Tesouro. Isso reforça a demanda pelo dólar e fortalece sua posição no sistema global.

Analistas avaliam que o processo de desdolarização não levará à substituição da moeda americana por outro ativo dominante, mas sim a um cenário multipolar, em que ouro, moedas regionais e ativos digitais coexistem como alternativas de liquidez.

FONTE: Cointelegraph Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Cointelegraph

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Negócios

Embraer perde contrato bilionário para Airbus: ‘geopolítica tem papel importante’

A LOT Polish Airlines reverteu sua estratégia anterior de compras da fabricante brasileira e comprometeu-se a adquirir 40 jatos A220 em um negócio de US$ 2,7 bilhões, com anúncio com ministros e lideranças de França e Polônia

A política de vendas de aeronaves foi exibida em sua plenitude no mês passado, quando o presidente Donald Trump, em turnê pelo Oriente Médio, ajudou a trazer para casa o maior pedido de aeronaves de grande porte da história da Boeing.

No primeiro dia da Paris Air Show, uma das maiores feiras da aviação, a conexão entre os negócios e a diplomacia veio à tona mais uma vez, depois que a Airbus superou a rival Embraer para conquistar um compromisso da Polônia.

A parte derrotada disse mais tarde que a decisão foi manchada pela política.

A principal companhia aérea da Polônia, a LOT Polish Airlines, comprometeu-se a comprar 40 jatos Airbus A220 e, potencialmente, aumentar o pedido para 84 unidades.

O valor do negócio chega a US$ 2,7 bilhões após os descontos típicos do setor, com base em estimativas da consultoria de aviação Ishka.

A escolha da Airbus marcou uma reversão estratégica para a LOT, que há muito tempo constrói sua frota com aeronaves da Boeing e da Embraer. A LOT disse que, em vez disso, eliminaria gradualmente seus jatos do Brasil da frota.

“Entendemos que estamos vivendo em um momento excepcional em que a geopolítica desempenha um papel importante”, disse a Embraer em um comunicado após a LOT anunciar o pedido.

A continuidade com a frota Embraer existente da LOT teria economizado “milhões de euros” para a companhia aérea polonesa, disse a fabricante de aviões.

O elemento político do acordo foi palpável durante a cerimônia de anúncio na feira de Paris, em que a sala de conferências da Airbus ficou lotada de dignitários da Polônia, França e até mesmo do Canadá, onde o Airbus A220 é montado.

A Polônia enviou um ministro, além de embaixadores, e o ministro dos Transportes da França, Philippe Tabarot, fez um breve discurso.

“A concorrência tornou-se muito mais política do que até mesmo um pedido normal de aeronave civil”, disse Nick Cunningham, analista da Agency Partners.

“A França e a Polônia estão tentando reparar relações diplomáticas anteriormente tensas.”

Além disso, uma visita do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a Moscou em maio, para comemorar o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, foi mal recebida na Polônia, um país que é crítico ferrenho da invasão da Ucrânia por Vladimir Putin, disse Cunningham.

Questionado sobre uma possível influência política do acordo, o CEO da LOT, Michal Fijol, se esquivou.

“Não foi um processo fácil, recebemos duas ofertas muito competitivas”, disse Fijol. “Mas estou satisfeito porque a Airbus nos queria mais.”

Fonte: Bloomberg Línea

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